Arquivo: Obama ’
30 de dezembro de 2009 às 22h19
Carta Aberta a 2009
Caro 2009
Não podemos dizer que não fomos avisados. 2008 foi bem claro quanto a termos de abrir o olho com você. Até pensei que ele estava exagerando um pouco, mas a verdade é que eu só não tinha captado bem a sutileza do seu dedo nas coisas nos primeiros meses. E eu só não fui totalmente coagido pela posse do Obama porque tenho um providencial pé atrás com essas coisas. Mas sei que ali você estava começando a aprontar.
Pra falar a verdade, como 2009 você foi extremamente… 2009. Mas de um jeito que não esperávamos totalmente, e é daí que vem esse olhar desconfiado de nossa parte com você nesses últimos dias. Não me leve a mal, mas você não deixou uma boa impressão na sua passagem. E como você foi bastante direto conosco, o mínimo que posso fazer é retribuir a sinceridade.
Em alguns aspectos, você foi parecido com seu primo 1999. Confuso. Barulhento. Com jeitão de ressaca. Remexendo em coisas profundas e fazendo algumas limpezas. Como que num processo violento de gestação, preparando a cama para 2011 deitar, como 99 fez com 2001. Na música você foi bem assim: indefinido, atirando para todos os lados e deixando para 2010 mais uma tarefa, a de consolidar os caminhos da década que vem por aí. Foi assim também com os rumores sobre o Woody Allen filmar no Brasil, não é mesmo? Todo esse zunzunzun, criando a maior expectativa, mas de novo ficou pros seus sucessores a tarefa de transmutar o boato em realização.
Até um filme sobre seu irmão mais novo, 2012, você arrumou pra tentar disfarçar seu jeitão folgado. Só eu percebi que o filme não era sobre seu irmão, mas sobre você? O resultado das negociações em Copenhague foi o epílogo desse filme e eu sei que você planejou isso direitinho. Transmedia storytelling. A história se espalhando por jornais, televisão, cinema e flashmobs inúteis.
Não me venha com Dirty Projectors e Emicida. Não me venha com Jupiter Apple e Black Drawing Chalks. Não me venha com Se Beber Não Case, Watchmen, District 9, Umbigo sem Fundo, Moon e Meu Querido Mês de Agosto. Não me venha com as baladas do Wado ou aquele showzinho do Little Joy no Opinião. Seus pequenos acertos a mim me parecem mais desvios de conduta. O Rio foi escolhido como sede da Copa do Mundo, tudo bem, mas de novo isso soa como alguma sacanagem sua com os caçulas 2010, 2011, 2012, 2013 e, especialmente, o pobre coitado de 2014.
No âmbito pessoal, posso dizer que você não pegou lá muito leve comigo. Tá certo, eu não vou me abster das minhas responsabilidades, principalmente no que diz respeito ao meu orgulho e minha mania de autosuficiência. Mas, na boa, você não precisava ser tão… drástico. Embora eu ache que em muitos pontos você estava certo, não gostei nada do seu tom. Tá bom, eu entendi o recado. Mas nem tudo eu digeri ainda e, gostando ou não, 2010 vai ter que terminar de descascar alguns abacaxis com que você me presenteou. Cada um com seus problemas, né 2009?
Bom, desculpe meu amargor. É mais um desabafo do que propriamente uma opinião sólida. Claro que você não é de todo mal e, agora mais calmo, também preciso admitir que você teve que lidar com o espólio da sua década, tudo que foi mal resolvido por 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 e seu irmão mais próximo, o 2008 (que muito espertamente deixou pra você administrar, por exemplo, toda a euforia em torno do Obama). Então, não me entenda mal, eu sei que seu ano também não foi fácil e vejo o por quê de você ter jogado tudo pra cima em novembro e dezembro: chuvaradas homéricas detonando várias regiões do Brasil, Mano Brown todo serelepe na capa da Rolling Stone, uns malucos enfiando agulhas em crianças. Até mesmo terrorista tentando explodir avião me apareceu e o controvertido Fábio Barreto se acidentou feio. Bizarro, 2009, bizarro. Você não é muito certo das idéias, na boa.
Mas, bem, eu estava tentando olhar para suas qualidades e sei que você tem algumas: você foi honesto, direto. O que aconteceu com o Michael Jackson na sua administração deixou todo o resto da biografia dele no chinelo. Assim é você. Vai metendo o dedo na ferida. Você não foi nada político e fez o que tinha que ser feito em muitos casos. Deu um Nobel sarcástico para o Obama e revelou o puritanismo/tesão reprimido dos brasileiros com a mina da Uniban. Prendeu o Polanski. Não precisava ter levado o Clodovil, mas em compensação, você expôs o Sarney de uma forma que não tínhamos visto ainda. Arrumou um namorado pra Madonna chamado Jesus (cara, você é definitivamente uma figura).
Por essas e por outras é que eu meio que admiro você e até perdôo alguns excessos. De novo, levando pro lado pessoal, confesso que eu andava precisando de umas chacoalhadas e nisso você foi mestre. No fundo, tenho uma certa gratidão por alguns de seus esparros. Embora o seu trabalho não seja de todo confortável, você é bom no que faz.
Resumindo, 2009, tudo de bom pra você, segue teu rumo, descansa, abraço na família.
Mas é o seguinte: não me aparece aqui de novo!
21 de julho de 2009 às 9h38
Dancing Lula
Sei que esse vídeo não é novidade. Mas não estou colocando aqui pra passar adiante. Você já deve ter visto. Tudo bem.
Eu só queria registrar: percebeu que é o melhor comentário político sobre o Lula ao longo de seus dois mandatos? Nenhum jornalista conseguiu resumir tão bem o ar “tô nem aí” do Lula quanto esse vídeo. Ele é, convenhamos, o símbolo da incompetência do Diogo Mainardi.
Mais do que isso. Dancing Lula é uma bela porta de entrada para um estudo do Brasil contemporâneo. É o Brasil do Cansei de Ser Sexy, do CQC, da cultura corporativa americana se estabelecendo nos trópicos, do Lula amigo do Obama, dos seguranças de terno que se acham presidentes do Brasil, do YouTube, do mashup como DNA brasileiro, da manipulação de imagens idem, do bom e velho Rio de Janeiro como cenário!
Problemas políticos, sociais ou financeiros? Coloque um TERNO, vá pra um HELIPORTO, ligue o DAFT PUNK no som, DANCE e SORRIA. A semiologia faz a festa com Dancing Lula. Todos os sinais de onde estamos e pra onde vamos estão aqui.
5 de novembro de 2008 às 14h02
Obama
Não sou dado a comentar política por aqui. Mas visto que Obama é um dos primeiros grandes ícones pop construídos nesse início de século, não posso deixar de sublinhar: o grande “reality check” começa agora, na esperança que o governante Obama faça jus ao símbolo Obama.
São duas coisas bem diferentes e a segunda foi absurdamente inflada ao longo da campanha eleitoral americana. Obama representa tanta coisa e foi depósito de tanto mais que me parece quase impossível estar à altura de tudo que foi sonhado nos últimos meses.
De minha parte, aprendi três lições com o Lula, que seguiu um esquema bastante similar.
Primeira: é muito importante que existam esses símbolos. E que eles estejam abrigados em seres humanos vivos, que andam por aí.
Segundo: esses símbolos provocam mudanças ao transformar em mainstream discursos de nicho (não vamos esquecer que muito da pauta de TODOS os partidos atuais foi discurso “radical” do PT nas décadas anteriores).
Terceiro: símbolos não salvam países. Pessoas salvam países. “Pessoas” e não “pessoa”.
Quarto: como diz o B Negão, o processo é lento. Mais do que esperança, há de se ter paciência.
Vamos ver onde isso tudo vai dar.





Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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