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Arquivo: Paciência

Os limites da cultura digital 2

Ele é incrível. Faz de tudo. Atende aos comandos dos nossos dedos. Faz barulhinhos sintetizados quando algo dá certo ou dá errado. Toca música, filminho e mostra foto. Guarda música, filminho e foto. Muita música, muito filminho e muita foto. Ah, o computador.

***

O computador é distração de gente grande. Sim, informa, educa, ajuda a comunicar, a construir e derrubar governos, a terminar monografias e teses, a realizar sonhos e administrar empresas. Mas também distrai. Distrai pra cacete.

Não apenas o computador, mas seu rosto, sua interface com o mundo, as telas. Sacanas. Telas, em geral, são ladras de atenção por excelência. Desde o tempo da TV. Experimente jantar em um restaurante com uma tela por perto. Elas são irresistíveis, com suas imagens coloridas em movimento e seu brilho hipnotizante. O primeiro bem subtraído na presença de uma tela é o ambiente, o segundo patrimônio perdido são as pessoas ao redor, mas o terceiro e talvez mais problemático fator esquecido é nosso próprio corpo. Se na frente da TV o corpo facilmente vira uma geléia, um mero acessório para segurar os olhos e os ouvidos, ao menos ele geralmente se encontra em uma posição de relativo conforto, jogado no sofá ou na cama cercado de almofadas. Mas, em frente à maior parte dos computadores e celulares, o corpo geralmente se torna uma estrutura alheia, corcunda e tensa, fadada a respirar mal e a desenvolver uma série de problemas.

E é aí que entra o post anterior sobre o assunto dos limites da cultura digital: é uma cultura pouco afeita à limites e isso inclui a relação do usuário com o seu corpo. Com o olho grudado na tela, a mente é agitada de tal forma que parece não se cansar. Pulando de site em site, de arquivo em arquivo, em uma sedutora sequência aparentemente eterna de hyperlinks, é possível consumir um pouco de cada coisa sem se aprofundar em nenhuma e dessa forma perder a medida das horas, ficando ligadaço, desrespeitando completamente os avisos do corpo: ombros tensos, dedos doloridos, antebraço ardendo, respiração curta, coluna curvada para a frente. Uma hora, a fome, ou o namorado, ou o despertador, ou o cansaço extremo dão o alarme e você precisa levantar, desgrudar da tela. Mas a mente continua ali ainda por um bom tempo, ligada e amortecida ao mesmo tempo. O corpo, por sua vez, leva junto a postura ruim, o inspirar e expirar combalidos e as dores como suspeitos troféus às vezes exibidos com um questionável orgulho.

A dica para evitar esse problema, que dá origem a muitos outros, é só uma: tomar consciência do corpo. Lembrar que ele existe. Prestar atenção em como ele se acomoda. O corpo é inteligente e cada pessoa sabe de seus limites, basta prestar atenção. Esse é o problema hoje em dia. Prestar atenção.

A respiração é um guia poderoso para a atenção: se ela está curta demais, não está bem. Se está cheia de pausas demais no meio da inspiração e expiração, não está bem também. Um corpo curvado não respira bem. Uma cabeça baixa durante muitas horas faz erguer e tensionar os ombros. Não respirar direito também tensiona os ombros. Ficar horas e horas jogado numa cadeira meio torto com os olhos grudados na tela é um pedido por escrito pra se incomodar mais adiante. Mas ficamos tão dentro da tela que esquecemos completamente do corpo, da respiração, das costas. E só lembramos ao levantar suspirando pesado, soltando ais e uis com surpresa.

Parece papo new age, mas eu acho que é muito mais simples e direto: causa e consequência. Fique assim que você levantará assado. Falar em prestar atenção na respiração parece algo ridículo. Como assim prestar atenção em algo que eu faço automático? Esse é o problema. O automático. Quem faz as coisas no automático é computador. Pessoas fazendo coisas no automático, bem, acredito que para os leitores desse blog não precisamos entrar nos detalhes desta questão. Até porque isso rende outro texto.

Tentando dar um fechamento ao post, então.

1) Sobre valorizar a atenção.

A atenção é um de nossos bens mais preciosos. É o que a indústria da mídia mais preza e o que mais custa caro. A sua atenção por 30 segundos custa uma fortuna na TV e está se valorizando na internet. Faz bem escolher onde aplicar a atenção, não tratá-la como uma balinha de 10 centavos.

2) Telas são ladras de atenção.

Mas o ponto aqui não é que elas roubem atenção somente de outros aspectos do ambiente ou de outras pessoas. Telas roubam nossa atenção de nós mesmos. Mergulhamos nas telas e esquecemos completamente do nosso corpo, por exemplo. Em alguns casos, isso traz prejuízos para o corpo e para a capacidade de prestar atenção.

3) A respiração é um guia confiável

A forma como respiramos reflete nossa posição de corpo e mente. Um corpo agitado respira de forma rápida e inconstante. Uma mente agitada também. O contrário também é verdade: acalmar a respiração influi na batida do corpo e da mente. Mas nem precisamos ir tão longe. Simplesmente prestar a atenção na respiração já muda o quadro em que estamos metidos.

Por hoje é isso. Talvez eu expanda esse post mais adiante. Talvez não. Vamos ver. O que vocês acham?

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Imagens roubadas do Flickr do Guilherme Dietrich, dica do Fernando Ribeiro.

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Autopista 22

Toda segunda tem Autopista. Clica na imagem pra ver maior.

PS: eu refiz a tira do Jorge Ben da semana passada. Tava faltando texto, viajei…

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Videosábado: Allan Wallace

A exemplo do vídeo do sábado retrasado, mais uma vez temos um praticante budista com um pendor para a linguagem científica (e traduzido em português pelo Eduardo). Dr. Wallace, que foi monge durante 14 anos, é formado em física, filosofia e doutor em Estudos Religiosos pela Universidade de Stanford. Como Matthieu Ricard, é um dos nomes mais frequentes nos encontros entre ciência e budismo e tradutor do Dalai Lama.

Um dos focos do trabalho de Allan Wallace é o treino da atenção como uma ferramenta indispensável para a felicidade. Em época de DDA como endemia e com gente tomando remédio pra dispersão como se fosse MM’s, a bandeira do cara vem bem a calhar.

Em 2005, Wallace esteve no Brasil (perdi, no mesmo dia fui pro Festival de Cannes…) a convite do Centro de Estudos Budistas Bodisatva e ao que tudo indica ele volta novamente este ano para falar de seus projetos relacionados ao estudo da consciência e da revolução que isso traz no pensamento científico.

Vamos ver se esse ano rola pra mim!

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De Fleet Maull a Isabella Nardoni

Fleet Maull não é primo do Darth Maul. O cara, na verdade, parece mais um típico produto da contracultura americana dos anos 60. Adolescente, desafiou sua bem estruturada família se envolvendo com todos os tags do gênero: filosofia oriental, LSD, sexo livre, protestos antiguerra e por aí vai. A vida lôka de Maull o levou, em certa altura, até o Peru, onde abandonou a detonação em troca de um cotidiano pacífico lendo textos budistas e taoístas enquanto  trabalhava em uma pequena fazenda junto do povo Quechua. Numa quebrada, entretanto, Fleet Maull pegou a contramão e começou a vender cocaína “inocentemente”, aqui e ali, de vez em quando, pra sustentar sua vida de vagabundo em busca da iluminação. Em 1974, ainda imerso na correria, leu na Rolling Stone um artigo sobre Naropa, a universidade budista do Colorado que teve como criador o tibetano Chogyan Trungpa Rinpoche e como professores alguns remanescentes da cena beatnik, sendo o mais conhecido o poeta Allen Ginsberg. Voltou na hora pros Estados Unidos com sua mulher peruana e o filho recém nascido. E se inscreveu em Naropa.

Mesmo estudando, praticando o budismo e em busca da sua graduação em psicoterapia contemplativa (que conquistou em 79), Maull não largou seu envolvimento pontual com o tráfico e uma hora acabou preso. A casa caiu e, pela primeira vez, seu professor, Chogyan Trungpa, e seus amigos da comunidade de praticantes budistas descobriram seu lado B. Ao se consultar com Trungpa Rinpoche sobre o que deveria fazer, se deveria fugir, o mestre foi categórico: disse que ele deveria encarar a situação de frente e que continuar suas práticas contemplativas encarcerado seria mais fácil do que em fuga. O aluno encarou, então, 14 anos de prisão nos quais aproveitou para chafurdar nos próprios demônios e transcendê-los através da meditação.

Embora palavras como “meditação” e “contemplação” levem a grande maioria das pessoas a pensar em algum tipo de letargia, inação, resignação ou ainda de um estado mental sublime, a prática em si é bem diferente. Na meditação, o praticante lida direta e cruamente com a agitação da sua mente, os pensamentos, os conceitos, os medos, as esperanças, enfim, o que é considerado o nascedouro de suas ações. Um dos predicados da meditação é eliminar as inúmeras distrações que criamos para evitarmos enxergar certos aspectos da nossa própria mente. Em um local tranqüilo e adequado, o contato nu com a essa massa turbulenta de pensamentos exige doses iguais e alternadas de firmeza e leveza. Em uma prisão, com seu cotidiano intenso, rude, amargo, o furo é bem mais embaixo.

Maull, contudo, não estava disposto a ceder e concentrou todas suas forças em familiarizar-se com o lado mais negro da sua mente e atravessá-lo com compaixão e amor em vez de multiplicar a mágoa e o ressentimento. Foi além e também não guardou suas descobertas para si, iniciando e conduzindo grupos de meditação dentro da prisão. De lá, também criou e administrou a Prison Dharma Network, uma rede de apoio a práticas contemplativas para presos.

Lendo uma entrevista de Maull à revista budista Trycicle, não pude deixar de pensar na matéria da última Rolling Stone a respeito dos eventos de violência espetacularizada na mídia brasileira em 2008. Nela, o jornalista investigativo Claudio Julio Tognolli esmiúça as implicações dos casos de Isabella Nardoni, Eloá Cristina e João Hélio conversando com médicos legistas, psicanalistas, familiares e um côro de vozes ligadas de alguma forma a cada situação. Todos batem na mesma tecla ao declarar como a humanidade nunca deixou de lidar com casos de violência juvenil desse calibre e que a teatralização, a exposição editada e intensa, é que é a grande novidade. A dita teatralização tem diversas implicações, mas duas delas são as mais tristes, a meu ver.

A primeira é retirar o impacto das mortes. Nunca vou me esquecer do escritor Guillermo Arriaga, ex-parceiro do diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu e roteirista de filmes como Amores Brutos, Babel e 21 Gramas. Notório por colocar o espectador em tremendo desconforto devido à forma como inclui a morte em suas histórias, Arriaga esclareceu, em uma entrevista ao Programa Roda Vida, que deseja com isso resgatar o impacto da morte na ficção, de tanto que a sua estilização não só no cinema mas nos noticiários nos deixa anestesiados. Ao longo das últimas décadas, desenvolvemos a incrível capacidade de ver toneladas de pessoas serem metralhadas em filmes sem sentir um pingo de compaixão.

Nos noticiários de casos como os citados acima, obviamente há sempre uma sensação de tremendo desconforto e tristeza pela vítima e seus parentes. Mas o nó no estômago não vai além de um intervalo comercial e não se traduz em um significado mais profundo. Veja bem, não estou nem cobrando ação. Citando o finado diplomata José Guilherme Mequior, a matéria da Rolling Stone lembra que “as pessoas gostam da mídia porque ela em geral não produz significados, mas efeitos”. A geração de sensações em frente à TV ou à tela do cinema é sedutora porque não exige mais do que isso, um envolvimento sensorial, quase estomacal, com as equações resolvidas na hora por uma turbulenta combinação de hábitos mentais ligados à auto-proteção. Tudo é rapidamente classificado pela mente de forma a erigir muros e separações entre “eu” e a “dor”. Assim, a martirização pública não alavanca discussões, apenas emoções. E ainda ficamos reclamando de falta de ação sem nem ao menos notar que o passo anterior à ação, a reflexão, ainda não foi resolvido.

O que nos leva ao segundo aspecto perverso da teatralização: somos co-criadores da tragédia. Não ao deixar de agir, mas ao trocar a reflexão pela emoção viciante da “monstrificação”. Criar monstros não é trabalho exclusivo da mídia, mas conta com a participação ativa do espectador, que, ao “monstrificar” pessoas com comportamento ultraviolento, dão origem a poderosos personagens coletivos que traçam uma clara linha de separação: eu nunca faria isso que ele fez, logo, não sou um monstro.

Nesse processo, todos são desindividualisados, desfigurados. O criminoso é o “monstro”, a vítima e seus familiares são os “coitados”. Jornalistas, editores, câmeras, apresentadores, fotógrafos são  “a mídia”. Policiais, delegados, investigadores, legistas são “a polícia”. Populares na porta da delegacia, espectadores em frente da TV, leitores de jornal são “as pessoas”. Dessa forma, o “monstro” deve ser eliminado, a “mídia” espetaculariza, a “polícia” não resolve os problemas e “as pessoas” são foda. As “vítimas”, sei lá. Elimnando-se o monstro, diminui-se a dor, quem sabe. Enfim. Desumanizamos automaticamente todo o sistema e nos retiramos dele arbitrariamente. Transformamos todos os seres envolvidos no caso em uma massa disforme de conceitos vagos. Assim fica fácil.

O que o caminho de Fleet Maull tem a ver com tudo isto? O ponto que liga os dois assuntos é a rejeição do teatro de forma clara, não se deixando levar pela indignação emotiva e inútil. Maull, ao que tudo indica, escolheu deliberadamente cortar o teatro e lidar diretamente com a negatividade da sua mente. Perseverou sistematicamente até descobrir a ponta do durex, de onde poderia puxar os aspectos mais claros do seu interior. E depois buscou uma forma de compartilhar essa liberdade que todos buscamos.

Como diz um clássico e profundo texto da filofosia budista, é difícil cobrir com couro um mundo inteiro cujo chão é feito de espinhos. Mas você pode cobrir seus pés com couro e não se machucar. Mais ainda, você pode compartilhar com outras pessoas a habilidade de procurar o courto, cortar e amarrá-lo nos pés. Não buscando cumprir o velho plano de um mundo sem espinhos, mas de oferecer a cada pessoa a liberdade de não se machucar.

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PS:

1) as imagens desse post são de detentos ligados à Prison Dharma Network.

2) Tem mais uma entrevista transcrita com Fleet Maull (em inglês) aqui e uma em vídeo aqui.

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Videosábado: hábitos de felicidade

Pô, olha que legal… eu tava desde a semana passada querendo postar esse vídeo aqui, mas meio com o pé atrás porque só tem inglês. Apesar de achar que a maior parte da audiência do Conector entende um certo inglês aê, não queria deixar ninguém de fora dessa ótima palestra. Mas então achei uma versão com legendas em português, dividida em três partes, cortesia de uma galera que vem generosamente traduzindo os vídeos do TED Talks.

Essa apresentação traz o monge budisa, escritor e fotógrafo Matthieu Ricard. Nos vinte minutos que o TED lhe concedeu, o monge Ricard destilou seu bom humor ao explicar de forma simples e útil os benefícios do treinamento sistemático da mente para buscar a tal da felicidade. O próprio conceito de felicidade é escrutinado e questionado na palestra. Acho que é o tipo de reflexão que não fazemos com muita frequencia, o que liga exclusivamente a felicidade a eventos, objetos ou circunstâncias externas à mente. Uma roubada total.

Além do background budista, Matthieu Ricard também tem proximidade com o pensamento científico por ter sido bioquímico formado no Instituto Pasteur. Isso faz dele tradutor e braço direito de S.S. Dalai Lama, especialmente em frutíferas conferências de diálogo entre a ciência e o budismo como os encontros do Mind and Life Institute.

Aproveita…

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Alfabetização do olhar

“Não que eu me achasse um grande desenhista, mas me dava a sensação de que estava pondo ordem no caos ao meu redor (…) Notei que, de uma maneira estranha, aquilo purificava a experiência do meu olho (…)”

- Bob Dylan, em ‘Crônicas: volume 1′, sobre quando ele começou a desenhar, no início dos anos 60.

Eu terminei hoje a leitura do ‘Crônicas’ [que é excelente, mas isso é outro assunto], e é claro que uma passagem sobre desenho ia chamar minha atenção. Não pelo fato do Dylan desenhar, mas pela relação dele com o desenho como algo que ajuda ele, de certa forma a afiar sua percepção. Na hora eu lembrei de algumas entrevistas que li com o Richard Serra, escultor que também tem um trabalho sensacional de desenho e que é dos meus favoritos. Sem contar que ele fala muito bem, de forma muito direta, sobre o trabalho dele. Entre as coisas que eu encontrei nas minhas anotações:

“Isso se tornou algo que eu sabia fazer, (…) como um modo de manter meu olho e minha mão coordenados em relação ao que eu via. (…) Acho que o olho é um tipo de músculo: quanto mais você desenha, mais definido fica o músculo, melhor você vê, na verdade.”

Uma coisa interessante é que ele nunca desenha suas esculturas em projeto, mas somente depois de prontas. Em um video que assisti [desse documentário] ele aparece com o caderno nas mãos, desenhando em pé, enquanto uma escultura de algumas toneladas é colocada no lugar por um guindaste. Infelizmente, o trecho que eu me refiro não está online. Pra piorar, o plugin é aquele realplayer que eu nunca consigo instalar.

Outra frase dele: “Olhamos para desenhos através dos desenhos que já vimos.” Pensa nisso. Vale pra muita coisa na vida. Soa óbvio, mas como tantas obviedades, a gente passa por ela batido a maior parte do tempo.

Tive um professor que diz que desenhar não é uma questão de coordenação motora, mas uma questão perceptiva. E, ao começar a desenhar, a gente se dá conta rapidinho disso.

Pesquisando um pouco sobre um outro escultor que faz desenhos sensacionais, Antony Gormley, encontrei esse post sobre uma palestra dele chamada “Desenhando o que você não consegue ver” [ó o que eu falei sobre percepção aí]. algumas frases que o autor desse post destacou da palestra:

“Desenhar é como pensar alto.”

“Desenhar é uma forma de explicar, é uma anotação de uma viagem.”

“O imediatismo do que está acontecendo é mais importante do que a acuidade. Você está tentando fazer uma anotação sobre algo que você não tem certeza sobre e é isso que faz [desenhar] ser valioso.”

“Você tem que desistir de todas as suas idéias de com o que determinada coisa se parece.”

Eu ainda queria fazer algumas relações entre percepção e a resistência ao novo que todos nós temos, mas acho melhor deixar pras próximas férias do Mini.

As imagens do post são alguns dos meus desenhos. Dá pra conhecer um pouco mais do meu trabalho de artista aqui, e um portfolio defasado pacas de ilustrador no Flickr. O título do post é uma definição de desenho que ouvi uma vez do Flávio Gonçalves, amigo e artista.

Post escrito por Guilherme Dable enquanto o Mini está de férias.

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Corrente de blogs por Santa Catarina

Fui convidado pelo Secco (que ironia…) a fazer o seguinte pelas vítimas das chuvas (e das ocupações irregulares e da falta de fiscalização) em SC: depositar R$ 100,00 (vale qualquer quantia, mas estão sugerindo esta) para a Defesa Civil e convidar outros blogs pra participar da empreitada. É legal, porque não fica na mera linkagem de lamentos e fotos chocantes.

Ainda estou aguadando a respostas dos blogs que convidei (cada um tem seu jeito de doar), mas assim que obtiver as respostas, linko eles aqui. Feita a contribuição, cada um cola no blog o comprovante.

No Fotolog dos Walverdes tem uma relação do que é mais preciso em termos de doaçoes materiais.

Boa sorte a Santa Catarina.

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Como alcançar o sucesso em 10.000 horas

A AIGA é uma das mais tradicionais associações de design no mundo, com eventos e publicações que tradicionalmente viram palco de debates inflamados e um nível de reflexão por vezes admirável. Pois no último foi no AIGA Business and Design Conference que o escritor, ensaísta e “pensador pop” (ugh!) Malcom Gladwell deu uma idéia ao vivo do que deve ser seu próximo livro, Outliars.

Em pouco mais de vinte minutos, Gladwell mais uma vez exerceu seu talento de provocar o senso comum e desestruturar preconceitos entranhados na cultura popular. No caso, trata-se de desfazer o mito do “gênio instantâneo”, começando com o exemplo do Fletwood Mac, passando por Mozart, Cezane, Mark Twain e os Beatles, todos casos nos quais a maestria em suas áreas demandou no mínimo 10.000 horas de prática. É isso mesmo, você ouviu direito: segundo Gladwell, não existe gênio que não tenha trabalhado pelo menos 10.000 horas na sua atividade até ela ser dominada.

Duvida? Problema seu. Agora vai ter que comprar o livro.

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Mas o mais bonito é o fechamento da fala de Gladwell. Ele lembra a velocidade dos dias atuais, a exigência para que bandas, por exemplo, aconteçam não mais no primeiro disco, mas no primeiro single. E coloca a atual crise financeira mundial como uma excelente oportunidade pra um back to basics de criatividade e inovação, onde a ansiedade e a loucura por fazer brotar uma solução dá lugar a um processo mais espaçoso de permitir sucessivas e quase intermináveis sessões de “tentativa-e-erro”. Algo impensável em certos ambientes comerciais.

Assistindo à palestra, me lembrei de algumas atividades a que me dediquei nos últimos dez anos cuja única disposição de tempo era entre 10 e 20 minutos diários. Eu sempre desprezei esse tempo e me achava preguiçoso e relapso, até que, nos últimos anos, comecei a perceber o acúmulo de prática daqueles 10 ou 20 minutos diários e tudo que eles me beneficiaram. Me fez pensar que não dá pra desprezar os dividendos do esforço constante e diligente (mesmo quando em pequenas doses e envolvido em tédio) em detrimento de fantasiosos espasmos de entusiasmo.

Enfim.

Não deixe de ver esse vídeo. E guarde o PDF com a transcrição.

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Oi, velocidade

Um dos clichês mais comuns que se ouve em elevadores e restaurantes a quilo é ouvir comentários sobre como “as coisas estão aceleradas”: o ano passa mais rápido, as crianças crescem mais rápido, os carros correm mais rápido, os computadores estão mais rápidos, os celulares ficam descartáveis mais rápido, as bandas surgem e somem mais rápido, as tendências brotam e se dissolvem mais rápido.

Pois é. Estamos correndo tanto que não é preciso nem mesmo correr para estar rápido. Mesmo quem está chapado na cama, vendo televisão e ouvindo vinil com um celular de 2005 que só manda e recebe mensagens, está correndo. Qualquer um que hoje fique parado no seu lugar está indo mais rápido do que seus antepassados recentes. Não tem jeito. Estamos dentro de um trem bala e ninguém ousaria puxar a cordinha do freio de emergência. Isso afetaria de modo irreversível o lançamento do próximo iPhone.

Existe uma série de explicações para esse fenômeno. Elas podem vir com o viés da economia, da tecnologia, da biologia, da física ou da história. Como eu não domino nenhuma dessas disciplinas e nem li Paul Virilio (considerado o filósofo da velocidade), tive que inventar minha própria tese.

A velocidade tonteia, mas também dá barato. Oferece uma sensação maior de suposta solidez dos nossos mundos interno e externo. É a vida feito flip-book: se continuarmos folheando rapidamente, poderemos ver nossa história se desenrolar. Se pararmos, só sobrarão desenhos estáticos em seqüência – uma série de fotogramas pintados à mão que, pausados, surgem com detalhes. Olhar esses detalhes é o ônus de estancar a velocidade. Mas é também o bônus. É possível enxergar os contornos, as pinceladas de cor, a textura do papel – veja você, se percebe até que havia papel envolvido na história.

É difícil tratar do assunto sem resvalar em um moralismo que leve à apologia da lentidão. A velocidade está aí e ponto final. Mas pelo menos, por uma questão de educação, a gente podia parar por um segundo, nem que seja pra olhar na cara dela e fazer o que não fizemos ainda: dar “oi”.

(clique nas imagens para obter os créditos)

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Isso foi a coluna da +Soma número 6.

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Pensando ConCulture#2

Um dos paralelos que estou fazendo automaticamente a cada parágrafo de Convergence Culture é com a forma de funcionamento das agências de publicidade. Nos últimos seis meses, tenho feito parte de um grupo ligado ao planejamento estratégico da Escala que está definindo os rumos da agência em termos de escopo. Aquela coisa: quais disciplinas serão incorporadas ao pensamento estratégico ou operação? Que tipos de serviços vamos entregar e que tipo vamos terceirizar, gerenciando o conteúdo de marca?

Em meio a essas discussões, obviamente surgiram muitas questões a respeito do perfil dos profissionais e da forma de trabalho dentro da agência quando as disciplinas atendidas vão além da tradicional campanha de TV/Jornal/Rádio/Outdoor. Enquanto os veículos que cobrem o setor se debruçam sobre a necessidade de se compreender as tecnologias, remuneração e linguagem de disciplinas correlatas à publicidade “convencional” (mobile marketing, guerrilha, ativação etc), eu não paro de pensar que esse é o menor dos problemas.

Venho insistindo que existem certas habilidades interpessoais tão importantes quanto conhecimento técnico ou habilidade criativa. Pessoas chave, detentoras de conhecimentos específicos que precisam ser espalhados por toda a agência, por exemplo, não podem fazer o gênero “gênio isolado”. Porque grande parte do trabalho delas é justamente espalhar conhecimento. Portanto elas precisam fazer mais o tipo “gênio pimpão”.

Mas antes de tudo, em geral os profissionais de agência hoje precisam de paciência. Paciência para suportar a ambiguidade dos papéis de empresas e pessoas ao seu redor; paciência de precisar desmontar e remontar briefings de acordo com o surgimento de novos pontos de contato periodicamente; paciência em trabalhar com um número maior de pessoas do que antes era possível para criar uma campanha; paciência em buscar consenso entre esse número maior de pessoas; paciência de ver pessoas que não entendem nada do seu campinho tendo idéias melhores que a sua; enfim, paciência.

A segunda habilidade é a capacidade de misturar mentalidade de criador e estrategista com mentalidade de produtor. Hoje, saber o “como” se faz qualquer coisa é parte fundamental do processo criativo. Não é mais possível montar um projeto complexo, que envolve novas tecnologias ou pontos de contato sem saber como essas tecnologias ou pontos de contato funcionam. Isso é uma mudança brutal de paradigma especialmente para a área de criação, que durante décadas não precisou se preocupar demais com o COMO, mas mais com O QUÊ. Hoje, se o criativo (e os planners, diga-se de passagem) não sabe o COMO, não tem muito como fazer um novo O QUÊ. Além disso, existem muitos novos COMO para serem explorados e descobertos. O que exige uma nova capacidade generalista, que inclui a habilidade de flutuar sobre áreas ainda mais vastas do que o costume e captar a essência do COMO de cada uma, bem como saber trabalhar em total parceria com quem sabe mais COMO de ALGUMA COISA do que você.

Não entendeu nada? Paciência…

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Imagens: esculturas do Antony Gormley

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Pensando ConCulture #1

Ao longo das próximas semanas, resolvi “pensar blogando” esse livro. Ler Henry Jenkins já me havia sido indicado por duas pessoas e agora que estou inciando o terceiro capítulo do Convergence Culture só posso pensar “demorô”.

Jenkins é Fundador e Diretor da área de Comparative Media Studies do MIT e autor ou editor de 11 livros a respeito de convergência, transmedia storytelling, fan-fiction, cultura gamer, essas coisas modernas. Basicamente o cara é uma peça rara: um fã-estudioso. A parte do fã traz paixão e visão insider, a parte estudioso oferece distanciamento e contextualização. Pra quem estiver por São Paulo em outubro, ele vem ao Maximídia falar. Fui no ano passado, mas não vou poder ir nesse ano. Gastei meus créditos na agência indo a Cannes.

Quem se conectar com a forma de pensar do cara também pode fazer um Open Courseware na área. O MIT oferece mais de 30 cursos online de grátis em Media Comparative Studies pra absolutamente qualquer um que saiba ler inglês. Não é a mesma coisa que ter aula com professores e colegas, mas você pode programas suas leituras e estudos, bem como tem acesso a anotações de aula feitas por algum aluno mais aplicado e, em alguns casos, podcasts e outros materiais multimídia de apoio. Estou pensando seriamente em “cursar” New Media Literacies nos próximos meses.

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Mas vamos ao livro. Pra começar, temos que estabelecer que essa capa é um tanto quanto clichezuda, não? Se fosse por essa capa, eu nunca compraria esse livro. Ainda bem que boas pessoas me indicaram, porque colocar um iPod e um videowall a la Matrix, embora personifique bem o espírito do Convergence Culture, também tem a maior cara de picaretagem.

Mas, veja você, o máximo de picaretagem a que o Jenkins chega é aquilo que o Matias chama de picaretagem do bem: o autor deliberadamente pula cercas convencionais, rouba assuntos daqui e dali e mistura tudo com um jeito pop de escrever. Em certo sentido, me lembra um pouco o estilo do Malcom Gladwell. Em vez de se sentir submerso em uma linguagem acadêmica impenetrável, é muito mais como se você estivesse passeando pelo assunto, lendo uma reportagem de revista semanal extendida – uma boa revista, não a Veja.

No caso, o assunto dessa imensa reportagem investigativa começa por corrigir a noção popular de convergência, essa palavrinha tão surrada e mal usada. Logo na página 3 da introdução, Jenkins larga um pequeno parágrafo que faz valer a grana investida no livro e, eu arrisco a dizer, se você entender bem esse trecho pode até não ler mais nada do livro ou do cara.

“A convergência não acontece através de aparelhos por mais sofisticados que eles sejam. A convergência acontece no cérebro dos indivíduos e nas suas interações sociais. Cada um de nós constrói sua própria mitologia a partir de bits e fragmentos de informação extraídos do fluxo na mídia e transformado em recursos através dos quais construímos sentido para nossa vida.”

Bom, eu não sei quanto a vocês e vou suplantar minha vergonha em admitir: eu nunca havia pensado nesse conceito tão óbvio, a convergência como uma ação ligada à mente de quem assiste e não a um suposto aparelho universal. A convergência é um assunto da mente e das interações sociais, não da tecnologia. Convergência é o que cada um de nós faz juntar o que assistimos/lemos/ouvimos vindo de diversas fontes de mídia e não o que a Sony ou a Nokia fazem nos seus laboratórios.

Enxergar a questão da convergência desse ponto de vista sob a luz da indústria brasileira de publicidade ou de mídia causa um enorme desconforto, porque o Brasil sempre foi o país do tiro de canhão: um comercial em um só canal de televisão sempre resolveu grande parte do trabalho sujo. Esse canal e esse comercial sempre foram os grandes eixos do conteúdo que seria convergido na mente de cada consumidor. Como telespectador, não havia muito trabalho a se fazer. Mas com a crescente disponibilidade de meios digitais nas mãos do grosso da população, o modelo de convergência proposto por Jenkins (que na verdade simplesmente retrata a forma como as coisas estão de fato acontecendo) bagunça tudo pra quem não souber enxergar dessa forma.

Colocar a mente das pessoas no centro da equação da convergência também derruba outro mito não falado: o entendimento da tecnologia à frente do entendimento da psicologia. Ou, melhor, o entendimento de uma coisa em detrimento de outra. Entender a convergência significa, justamente, entender de muita coisa ao mesmo tempo. Significa saber derrubar hierarquias dentro da nossa forma de pensar, conectando áreas de forma não vertical. Na prática, isso também quer dizer que chegou a era das pessoas que fizeram várias faculdades pela metade!

***

A cultura da convergência é a cultura do transmedia storytelling. Pedaços de informação e entretenimento captados em diversas mídias que servem para construir mundos na mente de cada receptor e compartilhados em certa medida pelos receptores com interesses em comum. Convergência é mais sobre criar mundos. E mundos não são – nunca foram e nunca serão – estáticos. São dinâmicos e, a rigor, sem possibilidade de controle total sobre o que acontece neles. Se você não quer se basear em exemplos rigorosamente da cultura anglo-saxônica (fan-fiction do Harry Potter ou todo o universo derivativo de Guerra nas Estrelas), pode começar a buscar exemplos bem brasileiros como a extensão de Duas Caras, novela das oito que tinha um braço dramático acontecendo no mundo real e protagonizado pelo autor, Aguinaldo Silva, em seu blog. Ou os inúmeros funks criados a partir de reportagens de emissoras obscuras com personagens bizarros vindos dos grotões do país.

Jenkins também cita muito uma suposta caixa preta mágica, que há alguns anos parecia que seria inventada. Um aparelho universal que substituiria todos os aparelhos que temos em casa. Uma só caixa preta para tocar música, mostrar vídeos, fazer café, massagem, buscar as pantufas e esquentar a pizza. Mas, como ele frisa, o que vem acontecendo é que os aparelhos estão se multiplicando dentro de casa, na gaveta do escritório ou na mochila.

Mais um sinal de que a convergência é mental e não tecnológica. Ninguém será capaz de criar um aparelho universal quando as pessoas estão encontrando cada vez mais condições de consumir de forma individualizada. Nem todo mundo quer tudo em um aparelho. Essa vontade de ter um tudo-em-um não é um desejo universal, mas de nicho. O processo industrial de criação de novos aparelhos está seguindo o modelo propost por Jenkins para interação com conteúdo: não é top-bottom (da indústria ao consumidor) nem bottom-top (do consumidor à indústria), mas ambos, acontecendo de forma dinâmica, fluída. E, apesar de muitos sugerirem ser o celular o “aparelho da convergência” (será? vc tá a fim de perder todos seus aparelhos qdo perder seu celular?), enquanto o voto do povo não atinge um consenso, a necessidade de muitos consumidores vai sendo suprida por muitos aparelhos.

Jenkisn cita um relatório de uma tal Cheskin Research: “O que nós estamos vendo agora é que enquanto o hardware diverge, o conteúdo converge.” Vai se dar bem quem souber fazer os diferentes conteúdos expostos nos diferentes aparelhos dialogarem. Os conteúdos que não dialogarem na mente das pessoas morrerão. Os aparelhos que não dialogarem entre si morrerão. Ou viverão em nicho, o que também não é um grande problema.

Já nas últimas frases do primeiro capítulo, o pesquisador americano decreta: “Estamos entrando numa era de prolongada transição”. Eu iria adiante. O que chamamos de transição é o novo cenário. Não haverá “solução” da forma como se está esperando. Não haverá um momento de “estabilidade”, onde todos saberemos exatamente o que fazer com o conteúdo que precisamos criar e distribuir. Precisamos desenvolver uma certa amizade com essa instabilidade.

Isso me lembra uma história dessas de “sabedoria oriental”. Certa vez, a monja Pema Chodron falou ao seu mestre Chogyan Trungpa Rinpoche: “acho que estou vivendo uma fase de transição”. O professor respondeu: “estamos sempre vivendo uma fase de transição.”

(continua)

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Chaleirismo

Em 1966, o jovem Edward Esper Brown estava trabalhando na cozinha de um resort em São Franciso. Em 1967, ele continuava na mesma cozinha, no mesmo lugar, mas agora fazia parte de um centro zen budista, entremeando suas atividades culinárias com a meditação. Isso porque no fim de 66, o resort comandado por Robert e Anna Beck foi vendido a uma comunidade zen budista e transformado no Tassajara Zen Mountain Center, o primeiro monastério da linhagem Soto-Zen nos Estados Unidos.

Brown foi aluno de Suzuki Roshi, um dos pioneiros no ocidente a desbravar a floresta de longos cabelos hippe abrindo picadas de lucidez e estabelecendo a base para a exploração de uma espiritualidade que fosse além de viagens lisérgicas imersas em auto-ilusão. Em 1970, o estudante foi ordenado professor por Roshi, atividade que levou adiante em paralelo com sua carreira de chef.

Fazendo a ponte entre a visão zen e a sabedoria de chef, Ed Bronw escreveu um livro que até hoje é considerado uma bíblia de bakery (qual seria a tradução? padaria?): The Tassajara Bread Book. Na sequência, ao longo de quase duas décadas, vieram The Tassajara Cooking e The Tassajara Recipe Book. Em 2006, 36 anos depois do primeiro livro, Brown virou tema de um dos mais interessantes documentários que eu já assisti nos últimos tempos. Em How To Cook Your Life, a cineasta Doris Dörrie, aluna de Brown, registra uma das oficinas do chef/mestre na qual ele ensina que o ato de cozinhar e o ato de meditar são caminhos muito parecidos.

How To Cook Your Life não é didático tampouco moralista. Portanto, foge da prateleita da auto-ajuda e flutua entre categorias. É um documentário mas não se limita a documentar; é sobre cozinhar, mas com ingredientes que estão dentro de nós; é sobre uma religião, mas em vez de pregar, seu objetivo é muito mais derivado da origem da palavra religião, o ato de religar. Algo fundamental quando, segundo a diretora do filme, ”nós nos tornamos especialistas em nos desconectarmos.”

Cena após cena, How To Cook Your Life não só retrata o dia-a-dia no curso liderado por Edward Espe Brown como oferece uma experiência imersiva: a trilha, a edição, o clima como um todo do filme transporta você por um tempo para uma outra batida. É assustador perceber que falar na necessidade de baixar o ritmo em um mundo cada vez mais acelerado  virou clichê. Mas é reconfortante ver que existem maneiras tão atraentes e eficientes de fazê-lo. Isso é How to Cook Your Life.

O filme entrega uma sequência inspiradora atrás da outra. Mas uma em especial me marcou muito.

O rosto do chef e professor aparece muito próximo de nós. Os olhos dele são calmos porém intensos.  É possível ver as rugas de expressão, bem como cada vinco da pele. Esse é Justamente o assunto que ele levanta, mostrando as antigas chaleiras da cozinha. As palavras não são exatamente estas porque não estou com o filme aqui. Mas é mais ou menos isso:

“Um dia eu estava olhando para estas chaleiras e percebi como elas são marcadas, amassadas, queimadas, por terem sido usadas por tantos anos. E percebi que nós somos assim também. A vida deixa marcas. A vida faz isso com os seres humanos também, ficamos marcados. Mas…”

Os olhos de Brown se enchem de lágrimas, porém ele continua sereno e com um leve sorriso.

“… eu também percebi que mesmo amassadas e queimadas as chaleiras ainda servem às pessoas. Ainda podemos usá-las pra esquentar água ou fazer café. Então eu percebi que também poderia ajudar as pessoas.”

How To Cook Your Life não saiu no Brasil, mas dá pra comprar na Amazon ou achar algum torrent da vida por aí.

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E.g.o.

Trabalhar com publicidade virou uma coisa bastante mais complicada do que há 10 anos. É muito comum, hoje, várias empresas com expertises diferentes (publicidade “tradicional”, promoção, interatividade, mobilidade, guerrilha) serem obrigadas a trabalhar juntas ou a disputarem espaços dentro dos clientes de um jeito absolutamente caótico, uma vez que ninguém sabe muito bem qual será o papel de cada um. Não é algo somente ligado ao mundo da publicidade, mas de toda e qualquer área que lide com questões de convergência.

De truculentas cotoveladas a acordos de cavalheiros, um comentário hipócrita mas bastante comum volta e meia surge nesse processo: a necessidade de trabalhar junto e de “não ter ego”, cada um dando o seu melhor “em busca do melhor resultado” no projeto em questão.

Eu cheguei a uma conclusão diferente: não acho que o ego de cada um deva colocado de lado, pelo contrário. Ele (e suas motivações) deveria ser claramente exposto e negociado. Na maior parte das vezes, isso é muito mais eficiente e honesto por dois motivos: 1) é muito fácil dizer “coloquei o meu ego de lado e 2) conheço pouquíssmas pessoas realmente capazes de fazer isso às ganha.

Sendo assim, o melhor é construir processos e ambientes onde seja possível expôr e negociar.

Não que seja fácil. Mas fica a anotação.

***

Imagem: Tokyo Undressed.

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David Lynch em Porto Alegre

E David Lynch conseguiu mais uma vez: criou um ambiente surreal, mas dessa vez de um jeito que ninguém esperava (apesar do claro título da palestra). Sua participação na conferência Fronteiras do Pensamento estava mais pra “A História Real” do que pra “Cidade dos Sonhos”. Em vez de enfatizar o lado bizarro e obscuro do ser humano, como faz na maior parte dos seus filmes, Lynch veio subilnhar a natureza pura e brilhante da mente humana que ele declara experienciar regularmente por ser praticante da Meditação Transcedental.

Técnica divulgada pelo mestre indiano Maharishi Mahesh Yogi, a Meditação Transcedental se tornou célebre nos anos 60 e 70 quando os Beatles, o cantor folk Donovan e Mike Love dos Beach Boys (que virou professor de MT) se conectaram com os ensinamentos de Maharishi. Uma história controversa no retiro de seis semanas dos Beatles jogou sombras sobre a experiência durante um tempo, mas tanto Lennon quanto George e outros presentes desmentiram a maledicência creditada ao “mago da eletrônica” da Apple Records Alexis Mardas. O que há por trás de tudo isso, não sei dizer ao certo, teria que pesquisar mais.

O fato é que a Meditação Transcedental é uma das práticas contemplativas que mais ganhou notoriedade no ocidente. Eu, particularmente, não conheço e vejo algumas diferenças básicas com as práticas budistas que eu pratico, mas fiquei muito feliz de ver um cara como o David Lynch chegar aqui e subverter o clichê do gênio atormentado que cria obras dementes e divulgar amplamente uma prática de meditação. Para algumas pessoas, ouvir certas palavras de um cara imerso na cultura pop faz mais sentido do que se elas fossem ditas por um senhor de barbas, cabelos, roupas brancas e chinelos. São nossas limitações. Eu sou meio assim às vezes.

Lynch contou que pratica Meditação Transcedental há 35 anos e que a considera uma chave para acessar um nível de consciência mais claro, infinito, repleto de potencial criativo e amoroso. Falou de estados de bem aventurança que experimenta graças à sua prática e também das soluções criativas que ela traz para determinados filmes.

“Cidade dos Sonhos foi rodado para ser um piloto de TV. Um executivo da ABC assistiu ao copião às seis e meia da manhã, com uma caneca de café numa mão e um telefone na outra. Ele detestou o filme e eu fiquei com aquelas histórias abertas todas sem saber o que fazer. Demorou um ano para termos a liberação legal do que foi filmado e quando conseguimos eu precisava transformar aquilo em um filme pra cinema. A solução criativa veio em uma sessão de Meditação Transcedental, como um colar de pérolas que brotou do meu interior”.

O diretor de Veludo Azul também defendeu que uma técnica contemplativa como a Meditação Transcedental ajuda as pessoas a procurarem a felcidade e a criatividade dentro de si e jogou uma pá de cal sobre a imagem de artista sofrido dizendo que a negatividade é inimiga da criatividade, que você não pode criar em estados depressivos e, em voz firme, pausada e clara que “o ser humano não existe para sofrer. Nossa natureza básica é a felicidade. O indivíduo é cósmico”, slogan que repetiria ainda umas duas vezes ao longo da noite. Contou do trabalho de sua fundação, que levantou mais de 5 milhões de dólares nos últimos dois anos para divulgar e implantar programas de meditação em escolas públicas e privadas, contribuindo para a diminuição da ansiedade, stress e violência.

A uma certa altura, uma pergunta bem colocada veio da platéia: “Por que então seus personagens sofrem tanto?” A resposta veio sem constrangimento: “Em todo lugar as pessoas me perguntam isso. Acontece que todas as histórias tem conflitos. Mas o artista não precisa sofrer pra mostrar sofrimento”. Ainda trouxeram à tona os exemplos de Van Gogh e Artaud, mas ele não arredou o pé: “Garanto que enquanto Vang Gogh e Artaud criavam, eles experimentavam felicidade.”

Sobre cinema, falou pouco e ninguém pareceu sentir muita falta. A respeito das limitações de certos equipamentos digitais, comentou que a má qualidade pode ser uma ferramenta: “Você acaba mostrando na tela menos coisas e isso aguça a imaginação de quem assiste.” Também declarou que no momento não tem planos para um longa e que o meio ideal para histórias contínuas como Twin Peaks é a internet. E que tem se dedicado a divulgar a Meditação Transcedental, a pintar e a fotografar.

A platéia se mostrou bastante receptiva às idéias contemplativas de Lynch, provavelmente encantada por sua figura carismática, calma e elegante. No final da palestra, entrou em cena o parceiro de Lynch na tour de divulgação da Meditação Transcedental, o trovador escocês Donovan. Armado apenas com um violão e um amplificador, tocou seus clássicos entremeados com histórias dos Beatles e de Maharishi. Uma vibe boa invadiu o Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, mas tive que sair antes do final, perdendo a recitação do mantra de Maharishi pelo David Lynch. Ainda pude pegar, ao menos uma pergunta do mediador Gilberto Perin sobre a relação entre drogas e auto conhecimento. Donovan falou na boa: “As drogas são um caminho de fora pra dentro. A meditação é um caminho de dentro pra fora”.

Enfim. Fazendo jus à sua imagem de cineasta altamente criativo, Lynch teve a manha de inverter algumas lógicas do seu meio. Mesmo sem ter uma câmera ao seu comando, criou uma atmosfera e fez mais do que falar de sua obra e contar histórias. Mesmo a quem não se conectar com seu caminho, deixou um recado claro e importante a respeito da necessidade de paz interior como eixo fundamental de uma paz no “mundo externo”. Também é interessante alguém falar de técnica, regularidade e disciplina no que diz respeito à contemplação. A vasta literatura e o jornalismo de auto-ajuda falam, falam, falam em buscar a felicidade interior, mas muito pouco é dito sobre a necessidade de treinamento de práticas contemplativas. Quando vemos uma reportagem em uma revista ou na TV, parece que “basta você simplesmente querer”, mas esse tipo de coisa é como aprender a tocar um instrumento, uma nova língua ou desenhar ou tocar: é preciso treino, prática constante e, o mais importante e diferente de tocar guitarra, um professor.

***

Um disclaimer necessário: não conheço a tradição da Meditação Transcedental e seus professores e acho muito delicado sugerir algo desse tipo às pessoas sem um contato mais próximo. Portanto, se alguém quiser alguma dica de centro de meditação ligado à tradição budista, que é o que eu conheço, é só escrever: gustavomini(arroba)gmail.com.

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Adorável Bagunça: rescaldo de Cannes

Picasso: bagunça na percepção

Todo mundo tentou. Trazendo cases. Teorias. Explicações. Esquemas. Rótulos. Processos. Exemplos. Caixinhas. Modelos. Promessas. Idéias. Rascunhos. Teses. Etceteras. Mas a real é que o Festival de Cannes este ano terminou e mais uma vez ninguém conseguiu explicar direito o que está acontecendo: empresas de marketing direto se tornando agências digitais. Agências digitais ocupando o espaço de agências “tradicionais”. Bureaus de mídia montando estruturas para a criação de branded content. Agências “tradicionais” desenvolvendo incríveis projetos online. Agências de digitais fazendo ativação no mundo offline. Adorável bagunça!

Bagunça é uma palavra feia no mundo dos negócios porque indica falta de controle. Falta de controle significa perda de dinheiro e perda de dinheiro é uma coisa bem complicada. No entanto, todo salto evolutivo implica em perdas e a primeira delas é a perda do controle.

Na tentativa de controlar o incontrolável, criam-se modelos. Os bons modelos vingam e são implementados com sucesso. Os ótimos não duram. Mas dão espaço para formas orgâncias de ação que vão se transformando ao longo do tempo.

Girl Talk: bagunça no som

Com as pessoas, é a mesma coisa. O processo evolutivo do profissional de marketing e publicidade hoje passa obrigatoriamente pelo desenvolvimento de uma qualidade muito difícil de se cultivar nessa área: tolerância ao caos.

Por uma questão de sobrevivência física e emocional, o sistema nervoso humano se estrutura de forma a estabelecer padrões e tentar, ao máximo, mantê-los. Ao processo de quebrar esses padrões dá-se o nome de “crescimento” e isso nunca ocorre sem uma boa dose de angústia por ir contra nossa tendência natural de buscar o que é confortável e previsível.

Mashup Face Generator: bagunça na cara

Crescem mais psicologicamente não as pessoas ou empresas mais “bem estruturadas”, que conseguem fortalecer seus padrões, mas sim as de melhor nível de tolerância à constante desestruturação que a realidade nos impõe. E esse é o desafio que enfrentamos no marketing e na publicidade: aumentar o grau de tolerância à incerteza evitando construir estruturas e processos fixos demais ou nos fecharmos na busca de respostas apressadas que vão oferecer alívio meramente temporário.

O caminho daqui pra frente não parece passar por encontrar respostas e sim por conviver numa boa com intermináveis perguntas. Eu sei que é muito mais fácil e romântico falar do que fazer, mas justamente por isso talvez toda a energia investida na busca pela milagrosa solução definitiva deva ser realocada para a busca da receita de como ampliar nossos limites de paciência, tantos pessoais como organizacionais.

Duchamp: bagunça na bicicleta e no banquinho

Paciência não é uma qualidade muito bem vista porque freqüentemente é confundida com passividade. No entanto, quando a ansiedade se torna o status quo, alimentar a ansiedade é que pode ser considerado uma atitude passiva. E ser paciente, a grande revolução.

Sejamos pacientes com a bagunça. Ela é adorável. A bagunça está no âmago de manifestações culturais importantes como o dadaísmo, o cubismo, a filosofia open source e toda a incrível cultura dos mashups. Se tivermos paciência ao lidar com o caos, por si só ele nos apontará o caminho natural nessa nova realidade. Que eu não sei qualé. Mas que também não quero ter pressa para descobrir.

***

(valeu o papo, Will)

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Mais Soma Ano Um


A revista mais legal do Brasil conseguiu completar um ano de vida na ascendente em termos de qualidade gráfica e de conteúdo. Conector esteve presente desde o primeiro número, começando com essa entrevista do Jonathan Harris e depois estabelecendo uma coluna sem muito estilo ou assunto definido. Eu esqueci de divulgar o lançamento da número 5, então aviso que a 6 está por aí e abaixo vai o texto que saiu na 5.

foto daqui


Oficina de Zen-Shiatsu


Uma pessoa deitada à minha frente no tatame. Uma pessoa: dois braços, duas pernas, uma cabeça, tronco e, destaco, uma mente. Cobrindo uma parte considerável do corpo, há músculos enrijecidos – não por musculação ou exercícios, mas pelo simples andar intenso dos dias. É assim com todos. De diferentes maneiras, todos usamos um pouco nosso corpo como depósito do que nos acontece. Como um armário, as coisas vão se empilhando. Como um armário, existe uma parte mais aparente (que algumas pessoas costumam dar uma ajeitada rápida) e outra mais profunda, cuja limpeza demanda, mais do que atenção, um bom motivo para ser mexida.

Dois polegares, trabalhando juntos, em dupla, são instrumentos eficientes no lidar com esse armário. Eu me curvo o mais atento que é possível naquele dia (às vezes não muito), junto os polegares e deixo que o peso do meu corpo chegue até os polegares. Eles pressionam o músculo endurecido enquanto respiramos: eu, a pessoa no tatame, meus polegares, seus músculos, meus pensamentos, seus ruídos. Todos damos uma boa respirada, caso eu consiga não cruzar a linha que determina quando termina a intenção e quando começa a invasão.

Quando aplico zen-shiatsu em alguém, também recebo. Sem o músculo doente, não haveria a possibilidade de promoção dos meus polegares. O refino da minha atenção (e da minha intenção) é, nesse caso, totalmente dependente do músculo duro empurrando meu dedo de volta. Sua resistência é causa de mudança em mim também. A força contrária viaja pelos meus polegares e toma conta de toda minha pessoa. A inspiração, a expiração, a inclinação e a consciência são convidadas a dançar. Sem precisar ir a uma festa, a dança me faz mais suave, mais alegre e mais ligado.

Não dá para dizer exatamente onde começa e onde termina o zen-shiatsu. E nem qualquer atividade. Com a música é a mesma coisa. Há uma intenção de tocar, cordas sendo manipuladas, som produzido, ouvidos recebendo o som e uma mente processando tudo. Nada disso sozinho constitui um show. O ouvido que bem recebe e o ouvido que mal recebe também são responsáveis pela experiência. Nada é mérito próprio, não há um elo ou uma figura singular que possa apreender o sucesso ou mesmo o fracasso. São todos veículos fluídos.

Da mesma forma, essa é uma compreensão inútil sob a forma de estalo ou epifania. Em outras palavras: é fácil absorvê-la em nossos elaborados esquemas intelectuais. Mas é um pouco mais trabalhoso integrá-la de forma prática ao dia-a-dia. Sem a repetição continuada por anos a fio, não haverá familiaridade com a idéia de que você co-escreve essa coluna comigo a cada palavra que lê. E tudo terminará apenas como um gancho para um final espertinho de texto.

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Menos é menos (e tudo bem!!!)

Nota do Blue Bus hoje dá que os usuários do Flickr estão revoltados com a inclusão de postagem de vídeo no querido lar de suas fotos (aqui tem também o post da Wired). O ponto central da notícia é a contradição 2.0: um empreendimento que se baseia na colaboração e na via de mão dupla não ter trocado uma idéia com seus usuários antes de dar um passo tão radical.

Mas não era isso que eu queria sublinhar. Na verdade a tal nota me lembrou uma entrevista com o Adam Seif (em espalhol), um dos fundadores do Fotolog (e também do pré-orkut six degrees). Criticado sobre o design tosco de sua ferramenta, ele devolve:

“É verdade, mas não é um acidente. Queremos dar mais atenção às fotos de nossos usuários do que nosso site. Os protagonistas são os usuários e sempre procuramos manter um design bastante simples e não muito cool. Dito isso, estamos trabalhando para melhorá-lo. Estamos conversando com os membros da comunidade e eles nos fazem sugestões. Certamente precisamos chamar um designer melhor do que eu. E vamos incorporar algumas funcionalidade para personalizar as páginas, mas também não queremos ser muito abertos como está fazendo o Facebook, Myspace ou Google, que estão deixando os usuários loucos”.


Ou seja: pra que diabos o Flickr vai enfiar vídeos numa comunidade tão bem sucedida tendo por base a postagem de fotos? Ainda que não seja o ápice da simplicidade, o Flickr ainda consegue a proeza de colocar fotógrafos, artistas plásticos e ilustradores ao lado de gente como a gente que simplesmente cria seus três albinhos pra compartilhar fotos com o pessoal. Ao começar com o empilhamento de ferramentas e aplicativos, alé de perder seu ar singelo, corre o risco de perder o respeito dos usuários que realmente sustentam a naba.

***

Não creio que poluição visual ou de aplicativos seja problema para a grande maioria dos usuários de redes sociais. Nunca vi alguém com menos de 30 anos reclamando de excesso de informação. Mas isso não significa que quem está em posições estratégicas tenha que rezar conforme a cartilha do desespero. Danger danger: nunca a síndrome da festa do Campari foi tão forte.

A síndrome da festa do Campari é o seguinte (vi numa coluna do João Paulo Cuenca na TPM, se não me engano). Ele dizia que todo homem casado acha que em algum lugar, nesse exato momento, está acontecendo uma festa tipo aquelas de anúncio de Campari, com minas maravilhosas à beira de uma piscina, drinks cítricos e a promessa do puro prazer. Aí o cara se separa e começa a procurar essa festa do Campari. Descobre que ela não existe, não ao menos com a freqüência, intensidade ou tamanha riqueza de detalhes deliciosos que parecia ter.

***

No mundo em que eu trabalho, está acontecendo a mesma coisa. A possibilidade da festa do Campari está enlouquecendo algumas pessoas que trabalham com publicidade e marketing – e essas pessoas estão me enlouquecendo sem necessidade. Meu, vou te contar…


Num artigo de 2001 (dois mil e um!!!!), o Douglas Rushkoff defendeu uma questão interessante:
“Como os adolescente podem hoje desenvolver sua própria cultura quando cada nova idéia é cooptada e vendida de volta antes de ter a chance de amadurecer? (…) Os adultos não tem nada melhor a oferecer pra essas pessoas do que um espelho? Se quem manda na indústria do design não está na posição de definir tendências para o século 21, quem está? Não olhe pros garoos, olhe pra você mesmo.”

Ok, talvez o texto do Rushkoff soe um tanto quanto anacrônico, ainda mais falando em coisas como “século 21″. Mas se você fizer a costura com a entrevista do Adam Seif, vai se dar conta que muita gente grande está abrindo mão de tomar decisões por medo de enfrentar pesquisas e artigos que dizem o quanto é preciso ouvir os consumidores, os usuários, os fãs, a garotada ou os trendsetters.

***

Tudo bem, subterfúgio louvável e, muitas vezes, eficiente. Mas que também pode servir (e vem servindo) como uma glamourosa rede de proteção para mentes medrosas e incapazes de levar adiante, defender e embasar suas próprias opiniões – mesmo que anacrônicas – sobre pra onde a comunicação pode ir.

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Conector de férias – leia o texto, desfrute dos arquivos e volte no dia 15

Você já experimentou aquela esquisita sensação de que a sua cabeça está parecendo um engarrafamento em São Paulo? Ou um HD com a memória absolutamente cheia, trancando os programas? Ou ainda, um jornal de domingo, obeso, com cadernos inúteis e folhas transbordando?

Não vou fingir que eu sou uma revista semanal e apelar pra números e pesquisas. É desnecessário ser cientista pra perceber que hoje se vende nos camelôs dez álbuns em um único CD-R, que assistir um filme em casa agora inclui junto making of e extras, que a quantidade de canais de televisão vem aumentando a cada ano, que com câmera digital você tira muito mais fotos do que costumava tirar e não vamos nem entrar na internet e no celular.

***

Existem diversas saídas possíveis para a mente não se perder nessa nuvem de gafanhotos: você pode se tornar um autista cultural, meio chapadão, que fica fechado no seu mundo e não deixa muita coisa entrar; você pode virar um consumidor ávido, compulsivo e superficial; você pode passar a dormir apenas 2 horas por dia e tentar se aprofundar em tudo; você pode trocar o prazer da absorção de informação pelo da classificação (muito embora “keeping things clean doesn’t change anything, segundo Jeff Tweedy no último álbum do Wilco”); ou você pode deixar cair.

***

Deixar cair foi um dos melhores conselhos que eu já recebi. Me lembrou um pouco uma história de anos atrás, contada pelo Lama Padma Samtem, onde ele dizia que levamos nossa vida como aqueles equilibristas de pratos, sempre tentando não deixar as coisas caírem, sempre adicionando mais e mais pratos girando. Não sei se o “deixar cair” que me falaram foi utilizado no contexto dos pratos. Mas me pareceu adequado conectar o conselho à história e me lembrar que, de fato, não é possível segurar dezenas de pratos girando para o resto da vida indefinidamente. A menos que seu objetivo de vida seja ficar equilibrando pratos. O que não me parece uma boa idéia, que me desculpem os equilibristas.

Há dois anos o conceito de “life hacking” vem ganhando popularidade entre pessoas que querem ser mais produtivas nas suas atividades diárias pra girar mais pratos em menos tempo e arrumar intervalos para não fazer nada. O termo vem do jornalista de tecnologia inglês Danny O’Brien, que pescou o conceito dos atalhos de rotina criados por programadores e recontextualizou a parada estabelecendo quase um estilo de vida para aqueles que buscam diligentemente formas mais inteligentes e eficientes de executar suas tarefas do dia-a-dia. Os defensores do “life hacking” destacam que a idéia não tem a ver apenas com produtividade profissional, mas principalmente com liberar a mente e abrir tempo no dia-a-dia para curtir mais a vida.

É um ponto interessante mas, ao mesmo tempo, fácil imaginar que muita gente acaba preenchendo muito da sua agenda com dicas, estudos, técnicas e práticas de… life hacking. Sei disso porque sou meio obcecado por organização e há algumas semanas comecei a pesquisar sites de life hacking em busca de uma ferramenta para organizar minhas atividades. Em poucos dias eu estava totalmente imerso nas técnicas, arrumando MAIS uma coisa para fazer: desenvolver um sistema, conhecer os recursos, as principais obras, etc, etc, etc. E chegou o momento de “deixar cair” a obsessão. Até porque eu meio que me assustei com os gurus de life hacking: se até água demais não faz bem, produtividade demais também deve ter lá seus efeitos colaterais.

“Deixar cair” não é pra qualquer um. Há pessoas com vidas mais equilibradas. Há atividades que precisam ser levadas a cabo e que não se pode “deixar cair” sob pena de atrapalhar a vida de outrém. Há os relapsos que deixam tudo cair e se tornam um estorvo. Na verdade, “Deixar cair”, parafraseando uma entrevista do Gilberto Dimenstein, é como as estrelas: você pode não até não alcançá-las, mas elas servem perfeitamente para navegação.

***

Texto publicado no número 3 da revista +Soma.

Tudo de bom, até a volta!

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Cuidado com o bom senso


Eu não sei quanto a você, mas se tem uma coisa que eu sempre acho muito esquisito e ando ficando com um pé atrás – às vezes os dois – é quando alguém diz, no meio de uma discussão, aquela tradicional frase:

“Gente, gente… vamos usar o bom senso”.

A maior parte das pessoas concorda com a cabeça…

“Lógico.”
“Bom senso, né…”
“Isso aê…”
“Disse tudo.”

… mas eu tenho certeza que se, pararmos pra pensar por um minuto, vamos começar a nos fazer perguntas bastante incômodas.

Por exemplo: o que é bom senso? Quem detém seu padrão? Por que autoridade ou por que instituição devemos nos guiar para determinar o grau de bomsensozice de uma ação? O bom senso é escrito anualmente e fica guardado em algum cofre da ONU? Ou está nos servidores do Google?

Aí é que está, essas perguntas não têm resposta e eu acho isso muito assustador. Porque a impressão que dá é que “bom senso” é um conjunto de regras que está por aí, no ar, solto, pra quem quiser usar e, o mais perigoso, manipular. A grande verdade – que ninguém quer discutir pra não afetar a já delicada estabilidade da geopolítica mundial – é que não existe esse tal de bom senso. Isso é uma fantasia. Eu não sei quem foi que inventou essa história, mas tenho quase certeza que ele é fruto da mesma mente que criou o gerundismo no atendimento ao consumidor.

***

O bom senso também é uma espécie de acordo de cavalheiros para não expôr ou não trazer à tona determinadas discordâncias. Se todos concordamos em “usar o bom senso”, não precisamos entrar em detalhadas negociações sociais com nossos próximos.

Tudo bem: em determinados âmbitos isso funciona. Invocar o bom senso tem uma tremenda utilidade em certos casos. O problema é a alta volatilidade do bom senso. Já houve um dia, e não faz muito tempo, que fumar uma marca de cigarro em detrimento de outra era considerado “questão de bom senso”.

Outra boa forma de enxergar a questão é imaginar os terroristas ligados aos atentados de 11 de setembro planejando ação na sua caverninha no Afeganistão. Todo mundo lá, sentado com suas xícaras de chá e seus lança-foguetes, comendo pita-bread e batendo papo furado…

“Precisamos mostrar pro mundo a nossa força.”
“Vamos detonar uma bomba atômica!!”
“Gente, gente… por favor… vamos usar o bom senso… quem sabe derrubar um ou dois prédios em Nova Iorque…”

***

O bom senso atua intensamente no ramo da prostituição conceitual. E isso não vem de hoje. Não é porque “o mundo está perdido” ou porque “no meu tempo o bom senso era mais sensato”. Já foi considerado de “bom senso” queimar cientistas, aceitar que o mundo é plano, ir para o sol sem protetor solar, não usar cinto de segurança e votar no PT. Como isso?

Muito simples, comissário: se o bom senso não se prostituir, ele não sobrevive.

***

Quando alguém diz “gente, vamos usar o bom senso”, geralmente está querendo dizer “gente, vamos usar o MEU bom senso”. É uma forma sutil de muitos chefes não se comprometerem com as diretrizes de certas tarefas e poderem dar um escândalo depois.

“Eu disse pra você usar o bom senso e você me faz isso?”
“Eu juro que eu estava usando o bom senso…”
“Impossível… ninguém em sã-consciência faria isso…”

A pobre sã-consciência (????) é sempre invocada quando alguém não usa o bom senso. Mas isso deixaproutrahora…

***

Fotos: Viagem Secreta

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Humor

um desenhozinho na tarde pra relaxar

O grande defeito de fábrica do mau humor é que parece que ele vai durar pra sempre. Aliás, o grande defeito de fábrica do bom humor é o mesmo.

Né?

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a mente.

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Simplicidade – parte 1

foto daqui

Talvez não exista hoje artigo mais valioso nesse mundo doente, caótico e saturado. Na real, nem todo mundo valoriza, a maioria não quer nem saber, mas eu sou um tanto quanto obcecado por simplicidade. O que não quer dizer que eu seja bom no assunto, que eu seja uma pessoa simples, de hábitos simples, de cotidiano simples. Na verdade, muito antes pelo contrário. Muito antes pelo contrário, meus amigos. “Menos é mais” pra mim não é nem uma filosofia de vida e nem uma habilidade, é um peso no outro lado da balança.

***

Mas não foi por falta de aviso. Não posso, de jeito e maneira, reclamar das instruções que eu recebi. Talvez a melhor delas veio no meu pouco contato com o zen-budismo e o zen-shiatsu. Diferente do budismo tibetano, repleto de cores, rituais, sabores e matizes, o zen-budismo é muito direto ao responder as principais questões da existência. O sentido da vida, a solução para problemas cotidianos, saúde, prosperidade e sabedoria respondem a uma só ordem: sentaí e fica quieto.

Pode parecer simplista, mas vamos combinar que o mundo seria muito melhor se umas 50 pessoas específicas atendessem a essa singela recomendação.

Sentaí e fica quieto.

foto daqui

Por exemplo.

O autor de The Laws of Simplicity, John Maeda, é cientista do MIT. E designer gráfico. E artista. Anda com figurões de grandes empresas, dá palestras no circuito mundial do business e dirige o SIMPLICITY CONSORTIUM do MIT.

Quem sou eu pra falar. Mas, pô, Maeda. Sentaí e fica quieto!

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Por não ficar quieto, Maeda acabou com um livro nas mãos. Um livro interessante. Não exatamente uma obra prima. Mas antes de mais nada, um livro que parece ter sido escrito com o coração.

Os três primeiros capítulos são os melhores. Diretos e práticos, definem 3 leis básicas da simplicidade: redução, organização e uso do tempo. O capítulo da redução, em especial, é o mais legal de todos e foi o que fez eu sair falando pra várias pessoas sobre o livro. Na verdade, me arrependi um pouco depois porque fui continuando a leitura e me frustrando um pouco. Tudo começa muito claro e promissor, mas aos poucos vai ficando um tanto quanto sistemático demais até para o meu gosto.

foto daqui

Ainda assim vale a pena.

Maeda começa tudo apontando: “A melhor maneira de alcançar a simplicidade é reduzindo”. Isso soa como sublinhar o óbvio, mas vivemos em tempos em que o óbvio precisa desesperadamente ser sublinhado. O exemplo mais clássico sobre isso é o tal do Google, uma página simples com uma caixa onde você faz sua busca e clica no botãozinho, beijo e tchau, sem toda aquela poluição visual dos outros buscadores até então. Como comando prático para se atingir esse tipo de “simplicidade”, Maeda joga na área o acrônimo SHE: Shrink, Hide, Embed – Encolha, Esconda, Incorpore.

Encolha. Não é preciso lembrar a tendência de encolhimento de tudo no mundo. Daqui um pouco vai acontecer de você mexer num bolso da calça e dizer “bah, aquele celular que eu tinha no ano passado!!!!” Mas o lance mais curioso que o Maeda traz a respeito de “Encolher” é o poder que um objeto ganha ao ser reduzido. Por exemplo, você pega um iPod e fica olhando aquela caixinha ridícula, chega a dar pena. Mas aí você descobre que o troço guarda, organiza e executa um bilhão de músicas, mais meio bilhão de vídeos e tudo mais. Se ele tivesse o triplo do tamanho, não causaria tanto furor. Maeda afirma: “Um objeto maior que um ser humano demanda respeito, enquanto que um objeto minúsculo parece merecer pena” diz ele. Quanto menor, menor o tamanho e a expectativa, maior o assombro se o pequenino fizer coisas interessantes. Hm.

foto daqui


Esconda.
Do canivete suíço às janelas de computador que você minimiza, “esconder” é um antigo truque indígena que funciona para ajudar a simplificar o uso de uma ferramenta: você utiliza uma e as outras ficam escondidas. Nos dois exemplos acima, “esconder” significa “gerenciar”: você decide qual lâmina deixar aberta e quais outros apetrechos deixar fechados. É o mesmo no computador. Enquanto Encolher tem a ver com o gerenciamento das expectativas, Esconder diz respeito ao gerenciamento direto da complexidade. Viu como a coisa toda é meio complicada?

foto daqui


Incorpore.
Aqui o Maedinha começa a entrar total no psicológico da galera. “Os consumidores apenas vão ser atraídos por um produto pequeno e aparentemente menos funcional (encolhido & escondido) se ele for percebido como de mais valor que um produto maior e com mais features. Ou seja, aqui é uma questão de uma “sensação” que está incorporada ao produto que faz ele emanar um significado que o deixa mais importante e relevante do que objetos maiores e mais enfeitados. Essa sensação nem sempre vem de uso de materiais específicos, mas de um culto em torno do produto/objeto, seja um culto criado por meios de marketing ou não. Mais uma vez me vem o exemplo da Apple: muito marketing permite que as pessoas aceitem pouco enfeite, minimalismo, aquele lance cool minimalista que os tunadores de carro, os punks, os indianos, as escolas de samba e os budistas tibetanos rejeitam completamente.

(continua amanhã)

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