OEsquema

Arquivo: Pensar é de graça

E.g.o.

Trabalhar com publicidade virou uma coisa bastante mais complicada do que há 10 anos. É muito comum, hoje, várias empresas com expertises diferentes (publicidade “tradicional”, promoção, interatividade, mobilidade, guerrilha) serem obrigadas a trabalhar juntas ou a disputarem espaços dentro dos clientes de um jeito absolutamente caótico, uma vez que ninguém sabe muito bem qual será o papel de cada um. Não é algo somente ligado ao mundo da publicidade, mas de toda e qualquer área que lide com questões de convergência.

De truculentas cotoveladas a acordos de cavalheiros, um comentário hipócrita mas bastante comum volta e meia surge nesse processo: a necessidade de trabalhar junto e de “não ter ego”, cada um dando o seu melhor “em busca do melhor resultado” no projeto em questão.

Eu cheguei a uma conclusão diferente: não acho que o ego de cada um deva colocado de lado, pelo contrário. Ele (e suas motivações) deveria ser claramente exposto e negociado. Na maior parte das vezes, isso é muito mais eficiente e honesto por dois motivos: 1) é muito fácil dizer “coloquei o meu ego de lado e 2) conheço pouquíssmas pessoas realmente capazes de fazer isso às ganha.

Sendo assim, o melhor é construir processos e ambientes onde seja possível expôr e negociar.

Não que seja fácil. Mas fica a anotação.

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Imagem: Tokyo Undressed.

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Transfer Espiritual

Programa de família na semana retrasada: almoçar no Mercado Público e fazer uma já há horas prometida visita à Transfer. Aberta desde julho no Santander Cultural, é a primeira mostra de grande porte que coloca nomes marcantes de street art/fanzines pra dentro de um espaço expositivo mais institucional aqui em Porto Alegre (me corrijam se eu estiver errado) com todas as implicações que isso trás – alguns narizes torcidos, questionamentos clichê a respeito do que funciona dentro de museu ou não, etc e tal. A mostra é MASSA, representativa (vai desde gringos como Beautiful Losers até confirmados nacionais como Osgêmeos, MZK, Carlos Dias etc), inspiradora e envolveu um povo de considerável interessância não só nas paredes do Santander mas também na curadoria e na produção (gente da Galeria Adesivo, da Maria Cultura, da Lava, Instituto Tri, entre muitos outros).

Bom, eu faço questão passar ao largo da discussão “street art em museu” e investir mais tempo em outro aspecto que me chamou muito mais a atenção em meio a vários trabalhos legais: a espiritualidade dos artistas brasileiros em relação ao trabalho mais político/contracultural dos gringos. O gancho que me despertou pra isso foi ver em pelo menos quatro ou cinco trabalho nuvens desenhas num estilo praticamente tibetano, derivado da pintura sacra budista. Vamos deixar os desenhos falar.

Olha só esses trabalhos gringos expostos lá:

Chris Johanson – Beautiful Losers

Harmony Korine – Beautiful Losers

Cherry Dunn – Beatiful Losers

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Uél, não que tenha só esse tipo de trabalho, mas dá pra notar essa veia política/contracultural de americano alternativo, saca? Agora pega o trabalho de alguns brasileiros tipo o…

… Bruno Novelli. Essas mãozinhas aí inspiradas nos mudras… esse panteísmo descarado, esse elefantinho indiano, essa paisagem de pintura tibetana… e tem mais… tipo…

… essa sala escura pintada pelo Herbert Baglione com um sujeito flutuando, coisas saindo da barriga, pequenos homenzinhos voando e percorrendo o corpo do barrigura. “Coisas saindo da barriga” é um claro sinal de uma abordagem espiritual. Homenzinhos voando então nem se fala. Não tem como mostrar a sala toda aqui, não podia fotografar. Vale a visita. Enfim, vamos a outro caso…

… que é o Stephan Doitschinoff. Essa não é uma imagem da exposição (não achei), mas representa bem a pilha do cara. Numa das Mais Soma tem uma matéria bem considerável sobre ele e todos os murais e desenhos que ilustram o texto tem essa inclinação para uma espiritualidade ligada às questões da morte.

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Enfim. Não estou fechando a questão aqui e nem buscando desenvolver uma tese. É uma impressão que eu queria dividir com vocês porque acho que ela faz sentido e vale a pena prestar atenção. O povo brasileiro é muito conhecido no mundo todo pelo apreço à expressão religiosa – e quando mais ao norte do país mais isso fica extremamente exuberante e muitas vezes ligado a manifestações na rua. Uma hora isso iria parar em algum ponto da street art.

Ah, um PS: agora me lembrei de outra coisa que eu pensei vendo algum trabalho d’Osgêmeos que é a questão da disciplina visual. O desejo de ordem no meio do caos urbano. Muito da street art passeia por esse desejo, me parece. No meio do caos urbano (desculpem o chavão), vocês já prestaram a atenção em como todos os personagens dos trabalhos dos caras são sempre tão alinhados? Arrumadinhos, tudo coordenando, mesmo os que seriam mais mulambentos carregam uma dignidade incrível por intermédio de roupas coordenadas e cuidadosamente vestidas.

Dignidade.

Também é um elemento importante da espiritualidade. De certa forma.

Veremos.

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As desire lines nas agências

Esse lance de desire lines é uma mão na roda pra explicar uma pá de coisas. Minha última coluna da +Soma foi com uma metáfora de desire lines e relações pessoais. E aqui na agência, essa semana, usei o conceito pra explicar o que eu considero a melhor forma de implantar processos relacionados à inovação.

Apesar de nunca ter estudado formalmente o assunto, não ter MBA e não conhecer teorias relacionadas a processos, me coube nos últimos 15 meses ajudar de forma bastante ativa na implantação de uma nova cultura através de um novo departamento aqui na agência. Nesse tempo todo, eu ganhei mais alguns cabelos brancos, perdi algumas noites de sono, tive umas crises gástricas – e isso tudo, vamos deixar bem claro, é uma MERDA, destestaria fazer apologia da loucura que é trabalhar nesse ritmo de agência mais do que seis, digo, oito horas por dia.

Mas enfim, ao menos nesse trajeto eu aprendi muito (sobre o novo momento da publicidade, sobre mim, sobre os outros, sobre pessoas em geral). Tive o privilégio de viver no limbo por esse tempo, sem ter uma função e processos muito bem definidos (pontos para o meu chefe que sacou que o lance é começar beta), flutuando nos mais diversos projetos e transitando por departamentos muito diferentes, tratando com pessoas de diversos backgrounds, construindo (poucos) cases interessantes que foram pra rua, criando (muitas) possibilidades que não deram em nada, angariando (alguma) simpatia e tomando (alguma) porrada.

Bom, a coisa mais valiosa que eu aprendi nisso tudo (entre zilhões) foi que a melhor forma de estabelecer uma nova cultura em uma agência (ou locais semelhantes) é respeitar as desire lines criadas pelas pessoas. Pra quem não sabe, as desire lines são os caminhos alternativos que as pessoas fazem em parques e praças, buscando atalhos ou simplesmente uma caminhada mais agradável que não havia sido detectada pela pessoa que projetou a calçada.

Em toda empresa existem desire lines. Às vezes são caminhos improdutivos mas na maior parte dos casos são atalhos inteligentíssimos ou então vias muito mais interessantes do que aquelas que estão pavimentadas. É pelas desire lines corporativas que circulam as informações mais ricas e por onde de fato acontecem os projetos. É por onde você anda de pé no chão ou enlameando os tênis, sem tantos pudores.

As desire lines corporativas não invalidam a necessidade de calçadas. Isso eu também aprendi: essa coisa de “ame o caos” é muito bonita em palestra de gringo (na verdade tudo uns puta control freak) mas extremamente estressante e contraproducente se mal aplicada em uma estrutura mais formal.

Não é possível uma agência de maior porte querer se comportar como hotshop (pequenos estúdios com práticas mais livres e foco maior em criatividade). É uma idéia absurda e muito frustrante pra todo mundo (embora bastante popular). Quem quer trabalhar (ou liderar) uma hotshop, deveria urgente tentar montar uma (pra ver o que é bom pra tosse) em vez de tentar implantar uma cultura dessas dentro de uma estrutura que não está preparada para tanto.

Então a meu ver o ideal é manter as calçadas e usá-las, mas sem desprezar ou matar o espaço das desire lines. Isso é muito mais fácil falar do que fazer porque as desire lines tem uma natureza anárquica, colaborativa e anti-institucional. Elas são móveis, surgem e se desfazem ao longo dos meses. Algumas que eram muito úteis podem se tornar um estorvo depois de alguns meses, como uma trilha que fica TÃO enlameada que é impossível passar por ela. Mas, diferentes das calçadas erradas, as desire lines erradas morrem por si só porque não precisam ser quebradas a martelo. É só parar de passar por ali e deixar a natureza fazer seu trabalho.

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Imagens: daqui.

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Beleza

“Na vida humana, a forma estética consiste no fato de princípios sólidos e firmes como montanhas tornarem-se agradáveis em virtude de sua lúcida beleza.”

Li isso no I Ching esse fim de semana e me remeteu ao que eu havia escrito a respeito do Florent e à necessidade de se ter uma base conceitual forte para qualquer projeto que envolva estética. O antigo livro chinês segue:

“Contemplando as formas existentes no céu, pode-se compreender o tempo e suas diferentes exigências. Contemplando as formas existentes na sociedade humana, pode-ser estruturar o mundo.”

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Imagem: Jeana Sohn

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Conector em Gotham – parte 5

Eis que ao pesquisar pra repassar umas dicas de Nova Iorque pra um amigo, descubro que eu e minha mulher pegamos os últimos suspiros do Florent: o restaurante idiossincrático do aventureiro Florent Morellet fechou suas portas cerca de um mês depos de passarmos por lá.

Olha o que foi a despedida do bistrô: uma série de eventos tresloucados ao longo de cinco semanas, cada uma delas correspondendo ao estágio de luto do modelo Kubler-Ross: uma semana de Negação, outra de Raiva, mais uma de Negociação, a seguinte de Depressão e a final de Aceitação.

Por aí dá pra ter uma idéia do motivo (nada gastronômico) pelo qual eu quis ir ao Florent: descobri ele no livro Perverse Optimist, que reúne os principais trabalhos do designer Tibor Kalman, fundador da M&CO, influência direta do Stefan Segmeister e co-criador da Colors junto com o Oliviero Toscani. A M&CO foi responsável não só pela identidade gráfica do Florent como também pela divulgação através de pôsteres, anúncios e brindes carregados de ironia e crítica política/cultural. O trecho do livro dedicado ao trabalho de Kalman ao Florent é tão interessante (uma aula de conceituação e de atenção consistente aos detalhes) que quando decidimos ir pra Nova Iorque, incluí o pequeno bistrô no roteiro.

O Florent foi um dos primeiros (senão o primeiro) empreendimento não ligado ao comércio atacadista de carne (seja gado ou travestis) a se instalar no Meatpacking District, vizinhança totalmente degradada lá em 1986. O aventureiro Molleret resolveu colocar ali seu bistrozinho que passou a receber sequelados quase uma década antes de boutiques, restaurantes chiques e clubs iniciarem uma espécie de revalorização da área, uma revalorização tão tão eficiente que o aluguel do Florent ficou impraticável, acarretando o fechamento do lugar.

Fomos lá duas vezes durante nossa estadia e na primeira desistimos por causa da fila enorme. O público, claro, já não era mais aquela coisa underground que deve ter sido nos anos 80, mas ainda assim fazia jus ao que eu li no Perverse Optimist: “Eu queria abrir um restaurante que, se possível, não precisasse de design nenhum. Um lugar que já existisse, que parecesse que sempre existiu e que parecesse ficar lá pra sempre.” Com certeza parte da ironia de ocupar um american dining e colocar um espelhão em frente ao balcão (característica de bistrôs franceses), bem como a localização inicialmente obscura se perderam no tempo. Mas esse clima meio indefinível de irreverência com nostalgia me pareceu estar lá ainda.

foto daqui

Mas o que que isso interessa? Eu não queria deixar esse post como uma dica duplamente inútil (primeiro porque o lugar fechou, segundo porque não é bem assim pra ir ali em Nova Iorque comer num restaurante…).

O que me atraiu no Florent foi o fato de ser um lugar com raiz, com alma, com uma história interessante que sustenta opções estéticas e não o contrário. Toda vez que essa equação é invertida e se colocam as opções meramente estéticas (ou sensoriais, etc, etc, etc) como base para um conceito surgido sabe-se lá de onde, o resultado é menos criativo, menos instigante e, em última análise, menos humano.

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somsitneteS

“Quando criamos esse personagem, nos divertimos pensando em alguém que tivesse essa liberdade toda. Eu certamente adoraria beber tanto quanto ele e não me preocupar com o meu fígado. Seria legal acordar de manhã numa total ressaca, já pegar uma garrafa de Scotch, beber uns goles no gargalo, dizer ‘Ah, me sinto melhor agora’ e então começar meu dia. Mas eu nunca faria isso porque eu me preocuparia o dia todo se não estou me tornando um alcoólatra, se eu estou me destruindo, se meu casamento não vai sofrer com isso. Ele não pensa nessas coisas e há algo incrivelmente atraente a respeito disso.”

Trecho de uma matéria no caderno de mídia do Guardian que explora um fenômeno praticamente estabelecido no mainstream, mas ainda pouco comentado mais claramente: a cultura machoman setentista no jeito de ser e vestir, acho que até mais no vestir do que no ser. O texto do articulista John Harris é todo calcada em cima do seriado Life on Mars, que eu nunca vi mais gordo, mas que também não senti a necessidade de assistir pra escrever esse post. Porque, você vai ver, no fim das contas tudo que é comentado ali de certa forma é facilmente encontrável em outras referências que andam nos rodeando.

O ponto do Harris é que o clima de “sou durão e posso tudo” que emana dos antigos seriados de televisão e hoje permeia a cultura pop traz consigo uma certa inocência também derivada daquela época. E ele traz mais uma declaração do criador de Life on Mars a respeito de sua cria:

“Se ele soubesse o que sabemos hoje, provavelmente ele não se comportaria assim. (…) O fato é que na vida real Gene Hunt seria provavelmente feio e racista.”

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Memórias dos anos 70 trazem uma estranha nostalgia: ela pega de jeito as pessoas entre 27 e 35 anos e ok, normal. Mas o engraçado aqui é como esse refluxo estético e, por vezes, comportamental, está tão onipresente independente da pessoa ter vivido ou não aquela época – um traço fascinante da forma como as pessoas se instruem e se divertem hoje. Uma das explicações, caso você queira teorias: as pessoas entre 27 e 35 anos estão distribuídas estrategicamente em funções influentes da indústria do entretenimento, informação e tecnologia.

Se é difícil determinar pontos de mudança definitivos (uma vez que o caldo cultural se move de maneira fluída, numa espécie de degradê), com um mínimo esforço podemos pinçar obras de referência que sacramentaram o início do retro-setentismo em nossa era. Agora me vêm à cabeça apenas dois: o Boogie Nights do Paul Thomas Anderson (derivado de Os Bons Companheiros e Cassino) e o Soundgarden (as pessoas falam falam do Nirvana e esquecem a banda que de fato trouxe o Sabbath de volta). Se formos adiante, vamos chegamos no stoner rock, no Hermes & Renato (trazendo de volta toda uma subcultura de amor aos Trapalhões e às pornochanchadas brasileiras), o Canal Brasil e o culto ao Peréio. Em paralelo, o Cidade de Deus, queira ou não queira, cimentou a estética brasileira dos anos 70 que já vinha sendo embalada pela volta do samba rock e pelo prévio resgate underground do Tim Maia Racional.

Na raia ao lado, temos os shows da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A revivendo um certo riponguismo universitário que veio desaguar no Cordel do Fogo Encantado e, mais recentemente, no Teatro Mágico. O Cheiro do Ralo, do Heithor Dhalia, é um dos melhores e mais interessantes ícones dessa estética (felizmente acompanhado de algo que nem sempre está presente: conteúdo). Não vi O Dia em que meus Pais Saíram de Férias, mas sei que também está nessa pilha.

A lista é grande e grifada com marca texto eu certamente destacaria Zodíaco, filme mais recente do David Fincher que não só investiga a história real de um serial killer americano dos anos 70 como mergulha totalmente no clima e no visual da época. Tive uma sensação engraçadíssima com esse filme: me senti em casa, totalmente reconfortado com aquelas imagens todas, a fotografia, os objetos, as roupas, muito embora eu não tenha vivido tanto nos anos 70 (6 anos apenas), muito menos nos Estados Unidos e muito menos perto de serial killers (que eu saiba). Deve ser a exposição massiva aos seriados dos anos 70 ao longo dos anos 80. Enfim.

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O mercado publicitário abraçou totalmente esse sabor setentista, em parte pela influência do Hermes & Renato e tudo isso que viemos comentando, em parte porque é o jeito como os argentinos fazem publicidade – e eles estão pautando os comerciais brasileiros nos últimos 3 anos. Se bem me lembro, tudo começou com uns comerciais da Sprite meio que imitando Hermes & Renato, lembra disso? Tem esse daí de cima do Twix também, o melhor de todos.

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Ah.. como é que eu fui esquecer uma das PRINCIPAIS obras nesse lance de “neo-setentismo” (inventei agora, não existe, não passe adiante): o Âncora.

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Como é que se explica tudo isso? Que misteriosas forças na cultura fazem com que isso tudo aconteça? Me recuso a teorizar demais porque só pensei clichês: o conforto de voltar ao passado, especialmente aquele que não vivemos e que permite refilmagens mentais particulares, bem como o limbo temporal que as tecnologias digitais ajudaram a criar (tudo pode em qualquer tempo).

O fato é que esses dias eu olhei pra mim: casaco de abrigo Adidas azul marinho, calça de veludo meio boca de sino cor de vinho, tênis Adidas branco…. me dei conta, pô, que cheguei aos 33 anos de idade vestido de um jeito muito parecido com quando eu tinha seis…

Os psicanalistas podem ficar à vontade nos comentários, mas eu não vou pagar a consulta.

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Dilemas Universais da Pessoa Humana

É curioso isso: toda vez que um entrevistado responde à pergunta “O que você faz no seus momentos de lazer?”, ele sempre frisa assim:

“Gosto de ler um bom livro.”

“Adoro ficar em casa e tomar um bom vinho.”

“Ah, eu adoro assistir a um bom filme.”

Ninguém diz assim.

“Adoro ficar em casa com a minha família e ler um livro ruim que não diz coisa com coisa.”

Ou então.

“Meu programa predileto no final de semana é reunir os amigos pra tomar um vinho horroroso, que dá azia. Engolimos o mais rápido possível pra não sentir o gosto, é um stress. Mas fazer o que, precisamos relaxar.”

Perceba que, se analisarmos os relatórios de venda de vinho e livros, veremos enormes colunas coloridas no Excel onde diz “livros chatos que não dizem coisa com coisa” e “vinhos horrorosos que dão azia”, de forma que algo me diz que, se depender das entrevistas, a matemática toda do universo não está fechando.

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Os teóricos e Oesquema

O que é Oesquema? Nem a gente sabe direito. Mas o leitor Gabriel Andrade achou que esses trechos do livro que ele está lendo tinha a ver com a parada. Que cada um tire suas próprias conclusões. Valeu, Gabriel.

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Lucianetti + Ghostbike

Triste coincidência: foi colocada em Foripa uma ghostbike pro Rodrigo Lucianetti. Ele foi um dos caras que alimentou musicalmente uma pá de gente (hoje distribuída em pontos influentes da indústria do entretenimento brasileiro e quiçá mundial) disponibilizando discos inteiros em mp3 quando não era tão fácil assim conseguir os arquivos. A foto da bike veio do Bianchini.

A morte do Lucianetti gerou alguns posts-tributo (comece pelo do Matias e siga as placas) que sublinham uma conexão bonita: poucos o conheceram pessoalmente mas muitos foram impactados de forma positiva pelos discos que ele disseminava de forma generosa. Eu fui um deles e espero que o cara siga pra próxima (seja qual for ela) em paz.

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Lixeiras

Um amigo meu me chamou a atenção e agora eu não consigo dirigir pela cidade sem prestar atenção nessas simpáticas lixeiras que a Prefeitura está instalando por toda Porto Alegre e que o pessoal do Nova Corja acha parecido com o Kenny.

Fora o fator DEMORÔ, é uma boa novidade. Segundo o DMLU, já foram instaladas 5 mil lixeiras e o objetivo é chegar a 8 mil. Como eu circulo mais pela área central, estou vendo bastante delas, meio que parece uma epidemia. Espero que as periferias não estejam sendo negligenciadas.


Mas o grande lance, além da quantidade, é esse design mais amigável, menos durão e burocrático (que o pessoal do Noteu chama de R2D2). Pode parecer bobagem, tem gente que acha frescura, mas esse tipo de coisa ajuda no panavision da cidade, faz parte daquela coisa chamada qualidade de vida.

Isso não vai me fazer votar no Fogaça, mas enfim, fica o registro.

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Ghostbikes

Estava vasculhando as lindas fotos do Takeda em NYC quando esbarrei nos comentários do Flickr dele, onde um pessoal explicou o que era essa bicicleta branca que o Tax havia fotografado. Trata-se de um memorial urbano dedicado à memória de um ciclista que morreu ali em um acidente. Em outras palavras, Ghostbikes.

De parecido por aqui, já vi nas estradas do Rio Grande do Sul cruzes de madeira enterradas ao lado da rodovia marcando o local de algum acidente, mas na cidade é raro. O que me lembro de ter visto – e achado muito interessante – são as borboletas da Fundação Thiago Gonzaga, que também marca locais de acidentes fatais.

O que me chama a atenção em tudo isso é que tanto as bicicletas quanto as borboletas (super interessantes pela simplicidade) são um tipo de apropriação espiritual do espaço urbano (artística já é mais comum), uma expressão perdida seja pela velocidade imposta às grandes metrópoles do primeiro mundo, seja pela violência e desestruturação no caso das metrópoles dos países emergentes.

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Agora, a grande questão: vão colocar uma ghostbike pro Isaac Hayes em algum lugar?

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David Lynch em Porto Alegre

E David Lynch conseguiu mais uma vez: criou um ambiente surreal, mas dessa vez de um jeito que ninguém esperava (apesar do claro título da palestra). Sua participação na conferência Fronteiras do Pensamento estava mais pra “A História Real” do que pra “Cidade dos Sonhos”. Em vez de enfatizar o lado bizarro e obscuro do ser humano, como faz na maior parte dos seus filmes, Lynch veio subilnhar a natureza pura e brilhante da mente humana que ele declara experienciar regularmente por ser praticante da Meditação Transcedental.

Técnica divulgada pelo mestre indiano Maharishi Mahesh Yogi, a Meditação Transcedental se tornou célebre nos anos 60 e 70 quando os Beatles, o cantor folk Donovan e Mike Love dos Beach Boys (que virou professor de MT) se conectaram com os ensinamentos de Maharishi. Uma história controversa no retiro de seis semanas dos Beatles jogou sombras sobre a experiência durante um tempo, mas tanto Lennon quanto George e outros presentes desmentiram a maledicência creditada ao “mago da eletrônica” da Apple Records Alexis Mardas. O que há por trás de tudo isso, não sei dizer ao certo, teria que pesquisar mais.

O fato é que a Meditação Transcedental é uma das práticas contemplativas que mais ganhou notoriedade no ocidente. Eu, particularmente, não conheço e vejo algumas diferenças básicas com as práticas budistas que eu pratico, mas fiquei muito feliz de ver um cara como o David Lynch chegar aqui e subverter o clichê do gênio atormentado que cria obras dementes e divulgar amplamente uma prática de meditação. Para algumas pessoas, ouvir certas palavras de um cara imerso na cultura pop faz mais sentido do que se elas fossem ditas por um senhor de barbas, cabelos, roupas brancas e chinelos. São nossas limitações. Eu sou meio assim às vezes.

Lynch contou que pratica Meditação Transcedental há 35 anos e que a considera uma chave para acessar um nível de consciência mais claro, infinito, repleto de potencial criativo e amoroso. Falou de estados de bem aventurança que experimenta graças à sua prática e também das soluções criativas que ela traz para determinados filmes.

“Cidade dos Sonhos foi rodado para ser um piloto de TV. Um executivo da ABC assistiu ao copião às seis e meia da manhã, com uma caneca de café numa mão e um telefone na outra. Ele detestou o filme e eu fiquei com aquelas histórias abertas todas sem saber o que fazer. Demorou um ano para termos a liberação legal do que foi filmado e quando conseguimos eu precisava transformar aquilo em um filme pra cinema. A solução criativa veio em uma sessão de Meditação Transcedental, como um colar de pérolas que brotou do meu interior”.

O diretor de Veludo Azul também defendeu que uma técnica contemplativa como a Meditação Transcedental ajuda as pessoas a procurarem a felcidade e a criatividade dentro de si e jogou uma pá de cal sobre a imagem de artista sofrido dizendo que a negatividade é inimiga da criatividade, que você não pode criar em estados depressivos e, em voz firme, pausada e clara que “o ser humano não existe para sofrer. Nossa natureza básica é a felicidade. O indivíduo é cósmico”, slogan que repetiria ainda umas duas vezes ao longo da noite. Contou do trabalho de sua fundação, que levantou mais de 5 milhões de dólares nos últimos dois anos para divulgar e implantar programas de meditação em escolas públicas e privadas, contribuindo para a diminuição da ansiedade, stress e violência.

A uma certa altura, uma pergunta bem colocada veio da platéia: “Por que então seus personagens sofrem tanto?” A resposta veio sem constrangimento: “Em todo lugar as pessoas me perguntam isso. Acontece que todas as histórias tem conflitos. Mas o artista não precisa sofrer pra mostrar sofrimento”. Ainda trouxeram à tona os exemplos de Van Gogh e Artaud, mas ele não arredou o pé: “Garanto que enquanto Vang Gogh e Artaud criavam, eles experimentavam felicidade.”

Sobre cinema, falou pouco e ninguém pareceu sentir muita falta. A respeito das limitações de certos equipamentos digitais, comentou que a má qualidade pode ser uma ferramenta: “Você acaba mostrando na tela menos coisas e isso aguça a imaginação de quem assiste.” Também declarou que no momento não tem planos para um longa e que o meio ideal para histórias contínuas como Twin Peaks é a internet. E que tem se dedicado a divulgar a Meditação Transcedental, a pintar e a fotografar.

A platéia se mostrou bastante receptiva às idéias contemplativas de Lynch, provavelmente encantada por sua figura carismática, calma e elegante. No final da palestra, entrou em cena o parceiro de Lynch na tour de divulgação da Meditação Transcedental, o trovador escocês Donovan. Armado apenas com um violão e um amplificador, tocou seus clássicos entremeados com histórias dos Beatles e de Maharishi. Uma vibe boa invadiu o Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, mas tive que sair antes do final, perdendo a recitação do mantra de Maharishi pelo David Lynch. Ainda pude pegar, ao menos uma pergunta do mediador Gilberto Perin sobre a relação entre drogas e auto conhecimento. Donovan falou na boa: “As drogas são um caminho de fora pra dentro. A meditação é um caminho de dentro pra fora”.

Enfim. Fazendo jus à sua imagem de cineasta altamente criativo, Lynch teve a manha de inverter algumas lógicas do seu meio. Mesmo sem ter uma câmera ao seu comando, criou uma atmosfera e fez mais do que falar de sua obra e contar histórias. Mesmo a quem não se conectar com seu caminho, deixou um recado claro e importante a respeito da necessidade de paz interior como eixo fundamental de uma paz no “mundo externo”. Também é interessante alguém falar de técnica, regularidade e disciplina no que diz respeito à contemplação. A vasta literatura e o jornalismo de auto-ajuda falam, falam, falam em buscar a felicidade interior, mas muito pouco é dito sobre a necessidade de treinamento de práticas contemplativas. Quando vemos uma reportagem em uma revista ou na TV, parece que “basta você simplesmente querer”, mas esse tipo de coisa é como aprender a tocar um instrumento, uma nova língua ou desenhar ou tocar: é preciso treino, prática constante e, o mais importante e diferente de tocar guitarra, um professor.

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Um disclaimer necessário: não conheço a tradição da Meditação Transcedental e seus professores e acho muito delicado sugerir algo desse tipo às pessoas sem um contato mais próximo. Portanto, se alguém quiser alguma dica de centro de meditação ligado à tradição budista, que é o que eu conheço, é só escrever: gustavomini(arroba)gmail.com.

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Entrando NOesquema

Já escrevi no antigo Conector a respeito das Desire Lines, mas se você não está a fim de ler o meu post anterior ou o artigo da Wikipedia, aqui vai um resumo: são aquelas trilhas que atravessam gramados em parques devido à vontade coletiva de encontrar uma alternativa mais curta ou mais agradável aos caminhos calçados. O bonito das desire lines é que elas não são combinadas, mas surgem de forma espontânea de acordo com vontades coletivas em um ambiente urbano que nem sempre consegue dialogar com as necessidades menos objetivas das pessoas.

OESQUEMA nasceu assim e, acho que pretendemos, vai permanecer assim: um parque com muitas desire lines pra gente se perder e com algumas poucas calçadas pavimentadas pra coisa não ficar riponga demais.

Vamonessa.

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Foto: daqui.

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Nossas Narrativas

O psicanalista Contardo Calligaris esteve aqui em Porto Alegre na segunda pro Fronteiras do Pensamento. Eu não fui, mas minha mulher foi e o que ela me contou me deixou com idéias pipocando por tudo quanto é lado. Calligaris trouxe suas idéias a respeito da “ficção como linha de conduta pra inventar a vida”, um assunto que ele explorou dias antes em uma entrevista pra Zero Hora.

“Nossa subjetividade é fundamentalmente uma história, a história que nós contamos a nós mesmos, a história da nossa vida, digamos assim, e a história que contamos aos outros como sendo a nossa, eventualmente a que os outros nos contam como sendo a nossa e que no fundo é uma história só. E uma história que é construída de maneira sempre dinâmica. (…) É a vida como criação de uma narrativa e, portanto, regrada muito mais por uma necessidade estética do que ética.”

Bom, começa que eu acho linda essa noção da vida como uma história, não pelo aspecto poético, mas pelo aspecto prático de liberdade que esse conceito oferece. Nós somos educados a enxergar o universo dentro de termos objetivos e a reboque vão juntos todas nossas subjetividades. Pra deixar mais claro: vivemos como se existissem fatos concretos acontecendo em uma sequência temporal lógica e que tudo aquilo que cerca essa construção objetiva (nossas percepções, sensações, conceitos mentais, nossas memórias, etc) são uma mera narrativa da trajetória objetiva. E isso é tão pouco, é olhar a vida de forma tão afunilada, fecha muitas portas, tolhe a nossa liberdade de nos reconstruírmos.

A idéia atual é que somos fundamentalmente uma história que vamos compondo a partir do que acontece, mas também a partir das várias histórias com as quais cruzamos ao longo da nossa vida – as contadas por outros, as que lemos ou às quais assistimos e que constituem um imenso patrimônio das histórias possíveis.

A crença na concretitude dos fatos externos leva à criação da necessidade de encontrar concretitude na história interna. E é aí que perdemos nossa maior liberdade, ficando preso nas nossas identidades. O bonito no que o Contardo Calligaris frisa não é podermos nos narrarmos, mas sim lembrar que essas narrativas não estão – e nunca estarão completas. Elas são mais parecidas com um perfil de Orkut do que com um livro: são editadas constantemente à medida em que vamos nos relacionando com outras pessoas e entrecruzando nossos caminhos.

Somos essa história em progresso, uma maneira de traduzir a expressão “in the making”, algo que vai se fazendo. E isso é um traço dito “específico da modernidade”, o que é verdade apenas para os últimos 250 anos, e mesmo assim na cultura ocidental.

Hoje, se quisermos falar de um novo léxico das narrativas internas, vamos obrigatoriamente ter que passar pelas conversas de MSN, pelos SMS, pelos perfis do Orkut e pelos Fotolog. A cada novo scrap, a cada nova edição do perfil, a cada novo diálogo no MSN, vamos transformando nossos “fatos” em “narrativas”. Nesse processo, as peculiaridades de cada ferramenta desempenham um papel fundamental, moldando a forma como nos relacionamos não só com outras pessoas mas especialmente com a nossa própria narrativa interna.

Por exemplo, eu acho fascinante que a forma como os Orkuts, Fotologs e Facebooks da vida estão organizados nos fazem mudar o jeito como pensamos sobre nós mesmos. Preecher um profile, determinar níveis de privacidade, selecionar o que vai e o que não vai para os álbuns de foto, agregar aplicativos, escolher de que forma você vai usar a página de recados são todos diálogos internos que moldam não apenas o perfil que os outros vão ver mas também a forma como cada um de nós se vê. Não é preciso pensar muito para chegar à conclusão que grande parte das fotos digitais tiradas por aí hoje têm seu ângulo e seu conteúdo determinado pelo destino final de upload. E não vejo isso como problema. É um traço da cultura contemporânea.

Os perfis de redes sociais (ou qualquer outro tipo de banco de dados que gerenciamos, como a agenda do celular) estão lentamente transferindo sua arquitetura daquele software para o nosso software – a mente. Estamos internalizando esse tipo de pensamento, tornando-as a nossa forma coletiva de organização de dados.

O ponto aqui não é entrar numa paranóia orwelliana a respeito do Google e afins. Eu não estou nem aí pra isso. O ponto é a liberdade perante as nossas identidades. Seja emulando a estrutura dos folhetins, seja o editar repetido de perfis, o upload regular de fotos, os diálogos constantes no MSN ou as mensagens de SMS, o fato é que a nossa identidade e a nossa história não são estruturas fixas, o que oferece um amplo campo de possibilidades no que diz respeito a viver melhor.

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Imagens: Heather Horton.

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Adorável Bagunça: rescaldo de Cannes

Picasso: bagunça na percepção

Todo mundo tentou. Trazendo cases. Teorias. Explicações. Esquemas. Rótulos. Processos. Exemplos. Caixinhas. Modelos. Promessas. Idéias. Rascunhos. Teses. Etceteras. Mas a real é que o Festival de Cannes este ano terminou e mais uma vez ninguém conseguiu explicar direito o que está acontecendo: empresas de marketing direto se tornando agências digitais. Agências digitais ocupando o espaço de agências “tradicionais”. Bureaus de mídia montando estruturas para a criação de branded content. Agências “tradicionais” desenvolvendo incríveis projetos online. Agências de digitais fazendo ativação no mundo offline. Adorável bagunça!

Bagunça é uma palavra feia no mundo dos negócios porque indica falta de controle. Falta de controle significa perda de dinheiro e perda de dinheiro é uma coisa bem complicada. No entanto, todo salto evolutivo implica em perdas e a primeira delas é a perda do controle.

Na tentativa de controlar o incontrolável, criam-se modelos. Os bons modelos vingam e são implementados com sucesso. Os ótimos não duram. Mas dão espaço para formas orgâncias de ação que vão se transformando ao longo do tempo.

Girl Talk: bagunça no som

Com as pessoas, é a mesma coisa. O processo evolutivo do profissional de marketing e publicidade hoje passa obrigatoriamente pelo desenvolvimento de uma qualidade muito difícil de se cultivar nessa área: tolerância ao caos.

Por uma questão de sobrevivência física e emocional, o sistema nervoso humano se estrutura de forma a estabelecer padrões e tentar, ao máximo, mantê-los. Ao processo de quebrar esses padrões dá-se o nome de “crescimento” e isso nunca ocorre sem uma boa dose de angústia por ir contra nossa tendência natural de buscar o que é confortável e previsível.

Mashup Face Generator: bagunça na cara

Crescem mais psicologicamente não as pessoas ou empresas mais “bem estruturadas”, que conseguem fortalecer seus padrões, mas sim as de melhor nível de tolerância à constante desestruturação que a realidade nos impõe. E esse é o desafio que enfrentamos no marketing e na publicidade: aumentar o grau de tolerância à incerteza evitando construir estruturas e processos fixos demais ou nos fecharmos na busca de respostas apressadas que vão oferecer alívio meramente temporário.

O caminho daqui pra frente não parece passar por encontrar respostas e sim por conviver numa boa com intermináveis perguntas. Eu sei que é muito mais fácil e romântico falar do que fazer, mas justamente por isso talvez toda a energia investida na busca pela milagrosa solução definitiva deva ser realocada para a busca da receita de como ampliar nossos limites de paciência, tantos pessoais como organizacionais.

Duchamp: bagunça na bicicleta e no banquinho

Paciência não é uma qualidade muito bem vista porque freqüentemente é confundida com passividade. No entanto, quando a ansiedade se torna o status quo, alimentar a ansiedade é que pode ser considerado uma atitude passiva. E ser paciente, a grande revolução.

Sejamos pacientes com a bagunça. Ela é adorável. A bagunça está no âmago de manifestações culturais importantes como o dadaísmo, o cubismo, a filosofia open source e toda a incrível cultura dos mashups. Se tivermos paciência ao lidar com o caos, por si só ele nos apontará o caminho natural nessa nova realidade. Que eu não sei qualé. Mas que também não quero ter pressa para descobrir.

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(valeu o papo, Will)

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O Viral do Ano

Eu quase postei isso ontem imaginando que o ministro Tarso Genro havia criado o maior assunto de corredor dos ultimos anos per se. Mas aa ontem um comentario do Julio (que ta produzindo o novo Walverdes) fechou todas: a Lei Seca o o viral de uma, quem sabe, candidatura para a presidencia em 2010. Tem a Dilma com o Pac e o Tarso com a Lei Seca. Noo que todo mundo esteja gostando dessa historia, mas pela primeira vez vejo gente questionando a sorio sua conduta e com as mortes por acidente caindo em quase 30% em algumas rodovias, jo viu no…

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Conector em Gotham – parte 1 de muitas

Pôr do sol na sétima avenida

Onde eu andei todo esse tempo? Eu estava em Nova Iorque. The Big Apple. Gotham. Nova Iorque Contra o Crime. Lar do Demolidor.

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Foram 8 dias da melhor forma possível: com a minha mulher, que além de ser minha amada, já foi meia dúzia de vezes pra cidade. Ou seja, em nenhum momento precisei me preocupar com aquela coisa de mapas ou direções. Tudo que eu precisava fazer era ficar boquiaberto com a quantidade absurda de informação que meu cérebro tentava absorver. O principal efeito de Nova Iorque sobre mim: fazer eu me sentir com oito anos de idade.

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Por muitos motivos me senti dessa forma. Primeiro por isso, por estar sendo levado de um lado para o outro feito sem precisar nem olhar nome de rua. Segundo porque estar na cidade ativou um sem número de lembranças sentimentais ligadas a filmes e quadrinhos que entraram pelos meus olhos e ouvidos especialmente na infância. Terceiro porque tudo na cidade parece ser tão farto e estar tão à mão em uma variedade tão grande que me senti uma criança numa loja de brinquedos.

frio na sétima avenida

Durante os primeiros três dias parecia que eu tinha fumado haxixe. Não consegui entrar na vibe aceleradíssima da cidade, como uma espécie de distanciamento, mas ao mesmo tempo me sentia meio em casa com tantas esquinas e prédios já visitados através das história do Demolidor ou dos filmes do Woody Allen. É uma sensação muito esquisita e várias outras pessoas que já foram pra lá me confirmaram esse efeito.

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Mas isso foi uma espécie de proteção. Porque, na real, a impressão que eu tive é que o ar da cidade cheirou cocaína. Em todo lugar tem gente andando rápido, indo de um lugar para outro. Muita gente. O tempo todo. “The city that never sleeps”, diz um slogan local. Não sei se isso deveria ser motivo de orgulho.

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A grande questão é: pra onde essas pessoas todas estavam indo? Pra outro lugar não é porque, até onde sei, a população da cidade está crescendo e não diminuindo. Então temos mais de oito milhões de pessoas trabalhando duro, trabalhando muito mesmo (parece que mesmo os ricos trabalham bastante lá, vai entender), correndo o tempo todo e não indo a lugar algum. A cidade nunca dorme mas também está sempre lá, parada no mesmo lugar. Não há notícias de que as ilhas que formam Nova Iorque tenham se movido em alguma direção que seja. De alguma forma, não parece fazer sentido toda essa velocidade. É um verdadeiro paradoxo de física moderna.

(continua…)

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Um pensamento rápido

Não tenho bem certeza, mas é o seguinte: muito se fala a respeito de como a internet aproxima, conecta as comunidades, redes sociais e tudo mais. Mas raramente alguém sublinha (acho que nunca vi isso escrito) que a conexão digital aliada à distância física facilita muitas parcerias (artísticas/comerciais/pessoais) que talvez não funcionassem no dia-a-dia, na erosão natural do tétiatéti. Nénão?

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Cardápio de Revivals Conector

Você, amigo que trabalha com publicidade, marketing ou design, não se sente absolutamente cansado da velocidade com que as novidades estão aparecendo? Pois é! A coisa tá feia! E parece que não vai parar de descer a ladeira!

Mas o negócio é não se estressar. Ficar parado é o movimento mais contemporâneo e inovador que existe. Se você estiver parado, todas as tendências passam e você fica! Uma hora, você e as tendências se encontram.

Por isso, aqui vão algumas sugestões de algumas coisas que você não deve se desfazer em hipótese alguma, porque mais dia menos dia, não se preocupe: elas vão voltar! E valendo muito mais!!!

1) TV PRETA

Não corra pra comprar um plasma ou LCD! Assim que você terminar de pagar, a velha TV PRETA vai voltar. Então deixe a sua exatamente onde está! Lembra da trabalheira que foi encontrar de novo som pra tocar vinil?

2) WEB 2.0


O coitado do uso de internet baseado em colaboração dinâmica e redes sociais é a Mallu Magalhães da cultura web: tão rapidamente quanto surgiu já apareceu gente detonando e dizendo que já era. Que web semântica o quê! Não se engane! Muito em breve você vai encontrar a web 2.0 em brechós. Ela vai ser utilizada por garotos descolados, aparecer em festas grunge e logo depois se tornará tão cool quanto a fita cassete é hoje.

3) COMIC SANS


O documentáro da Helvetica que saiu ano passado é a prova: em breve será a vez da Comic Sans. Portanto, pare de torcer o nariz.

4) iPhone


Eu sei que você acabou de comprar. Mas a hora dele vai chegar. Ou por acaso você guardou seu G4? E o seu iMac? Ou seja: guarde bem seu iPhone! Porque como o G4 e o iMac, uma hora ele vai voltar!!

5) Strokes


Depois do grunge, houve uma época meio paradinha no rock. Aí em 2000 o single de Modern Age surgiu em tudo que é lista de emails e logo a banda novaiorquina inaugurou o novo hábito de estourar sem ter gravadora, sem ter disco e quase sem ter música.

Como o revival dos anos 90 está tomando espaço do revival dos anos 80, os próximos da fila são os anos 00, então pode tirar a poeira do seu CD-R (lembra CD-R?) do Strokes.

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Menos é menos (e tudo bem!!!)

Nota do Blue Bus hoje dá que os usuários do Flickr estão revoltados com a inclusão de postagem de vídeo no querido lar de suas fotos (aqui tem também o post da Wired). O ponto central da notícia é a contradição 2.0: um empreendimento que se baseia na colaboração e na via de mão dupla não ter trocado uma idéia com seus usuários antes de dar um passo tão radical.

Mas não era isso que eu queria sublinhar. Na verdade a tal nota me lembrou uma entrevista com o Adam Seif (em espalhol), um dos fundadores do Fotolog (e também do pré-orkut six degrees). Criticado sobre o design tosco de sua ferramenta, ele devolve:

“É verdade, mas não é um acidente. Queremos dar mais atenção às fotos de nossos usuários do que nosso site. Os protagonistas são os usuários e sempre procuramos manter um design bastante simples e não muito cool. Dito isso, estamos trabalhando para melhorá-lo. Estamos conversando com os membros da comunidade e eles nos fazem sugestões. Certamente precisamos chamar um designer melhor do que eu. E vamos incorporar algumas funcionalidade para personalizar as páginas, mas também não queremos ser muito abertos como está fazendo o Facebook, Myspace ou Google, que estão deixando os usuários loucos”.


Ou seja: pra que diabos o Flickr vai enfiar vídeos numa comunidade tão bem sucedida tendo por base a postagem de fotos? Ainda que não seja o ápice da simplicidade, o Flickr ainda consegue a proeza de colocar fotógrafos, artistas plásticos e ilustradores ao lado de gente como a gente que simplesmente cria seus três albinhos pra compartilhar fotos com o pessoal. Ao começar com o empilhamento de ferramentas e aplicativos, alé de perder seu ar singelo, corre o risco de perder o respeito dos usuários que realmente sustentam a naba.

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Não creio que poluição visual ou de aplicativos seja problema para a grande maioria dos usuários de redes sociais. Nunca vi alguém com menos de 30 anos reclamando de excesso de informação. Mas isso não significa que quem está em posições estratégicas tenha que rezar conforme a cartilha do desespero. Danger danger: nunca a síndrome da festa do Campari foi tão forte.

A síndrome da festa do Campari é o seguinte (vi numa coluna do João Paulo Cuenca na TPM, se não me engano). Ele dizia que todo homem casado acha que em algum lugar, nesse exato momento, está acontecendo uma festa tipo aquelas de anúncio de Campari, com minas maravilhosas à beira de uma piscina, drinks cítricos e a promessa do puro prazer. Aí o cara se separa e começa a procurar essa festa do Campari. Descobre que ela não existe, não ao menos com a freqüência, intensidade ou tamanha riqueza de detalhes deliciosos que parecia ter.

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No mundo em que eu trabalho, está acontecendo a mesma coisa. A possibilidade da festa do Campari está enlouquecendo algumas pessoas que trabalham com publicidade e marketing – e essas pessoas estão me enlouquecendo sem necessidade. Meu, vou te contar…


Num artigo de 2001 (dois mil e um!!!!), o Douglas Rushkoff defendeu uma questão interessante:
“Como os adolescente podem hoje desenvolver sua própria cultura quando cada nova idéia é cooptada e vendida de volta antes de ter a chance de amadurecer? (…) Os adultos não tem nada melhor a oferecer pra essas pessoas do que um espelho? Se quem manda na indústria do design não está na posição de definir tendências para o século 21, quem está? Não olhe pros garoos, olhe pra você mesmo.”

Ok, talvez o texto do Rushkoff soe um tanto quanto anacrônico, ainda mais falando em coisas como “século 21″. Mas se você fizer a costura com a entrevista do Adam Seif, vai se dar conta que muita gente grande está abrindo mão de tomar decisões por medo de enfrentar pesquisas e artigos que dizem o quanto é preciso ouvir os consumidores, os usuários, os fãs, a garotada ou os trendsetters.

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Tudo bem, subterfúgio louvável e, muitas vezes, eficiente. Mas que também pode servir (e vem servindo) como uma glamourosa rede de proteção para mentes medrosas e incapazes de levar adiante, defender e embasar suas próprias opiniões – mesmo que anacrônicas – sobre pra onde a comunicação pode ir.

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Na Natureza Selvagem – o veredicto


Minha ida ao cinema na sexta passada teria grandes chances de dar em desastre: como você deve notar lendo meu post anterior sobre o assunto, “Na Natureza Selvagem” é um um livro sobre o qual eu já investi uma certa atenção. Quando fiquei sabendo do filme do Sean Penn, então, a área da minha mente responsável por construir antecipações começou a ficar ouriçada: como colocar todo o universo de premissas, suposições, imagens, devaneios, questionamentos, idas e vindas da mente numa tela de cinema?

Bom, o Sean Penn fez um lance bem legal: ele tramou, teceu sua visão da história com dois ou três fios condutores que se entrelaçam e, como uma corda, fortalecem o filme de um jeito que não evita totalmente uma leitura ingênua da tragédia, mas oferece degraus para uma descida mais profunda.

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Quando eu falo de dois ou três fios condutores, não são aquelas hoje já batidas “narrativas paralelas”, muito embora Penn trabalhe com idas e vidas temporais absurdamente bem calibradas. No caso, são as formas de enxergar a odisséia de McCandless e há pelo menos duas bem indentificadas: uma é a do garoto idealista com a cabeça cheia de Henry David Thoreau e Tolstói, buscando a todo custo destilar confusas cachaças existenciais a fim de extrair uma essência que lhe dê tranqüilidade. A outra – menos evidente, mas bastante presente – é a da criança machucada por uma convivência familiar tumultuada e por uma referência masculina/paterna repleta de rachaduras.

O primeiro ponto de vista tem uma vida mais exuberante: dali deriva-se a veia lúdica do filme, calcada na exploração de lindíssimos espaços abertos e selvagens, bem como na fauna social que habita o acostamento da sociedade americana: comunidades hippies itinerantes, veteranos de guerra, agricultores, mochileiros escandinavos, moradores de rua, uma coleção de tipos que não é exclusiva dos Estados Unidos, mas que só lá (obviamente por causa da grana) floresce e se sustenta de forma tão viva e bem estruturada a ponto de funcionar tão naturalmente como ornamento de jornada espiritual. Descontando-se o fato de que é possível romantizar qualquer coisa, as paisagens naturais e as figuras pitorescas da América são os pontos de apoio para McCandless construir sua identidade e também os pilares que sustentam Na Natureza Selvagem em uma área mais colorida e menos sombria.

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Porque o segundo ponto de vista é bem menos glamouroso. E se mostra como um garoto intensamente imerso em rancor e disfarçando sua raiva com referências culturais pré-beats, passando verniz em suas feridas – um verniz que não cura diretamente, apenas as deixa mais brilhosas.

Embora esse viés esteja em desvantagem, competindo com toda a miríade de acontecimentos, personagens e paisagens interessantes, Penn abre um pouco de espaço para o lado birrento e as consequências não tão agradáveis da aventura de Chris. De tempos em tempos, a inebriante viagem (interna e externa) do rapaz é temperada com a compreensão triste da irmã e o desespero dos pais. A cena de Walt McCandless sentado no chão no meio da rua com as pernas abertas como uma criança é simples e devastadora. Funciona, para quem se ligar, como uma placa de desvio no meio da estrada e se você pegar essa via de chão batido por alguns quilômetros, ela vai lhe levar a um lugar um pouco diferente do prometido pelo lado mais lúdico e sonhador do filme.


No fim das contas, é um filme triste. Um rito de passagem que terminou mal. Quando McCandless encontra as respostas que procurava, estava tão isolado da civilização que morreu e não pode exercitar o que descobrira ser a felicidade: o compartilhar.

Pior, não estava nem tão isolado assim (informação negada ao espectador, mas disponível ao leitor do livro). Se estivesse munido de um simples mapa, que desprezara para poder viver uma experiência supostamente mais pura, teria provavelmente encontrado um caminho para contornar o rio descongelado que o impedia de voltar por onde viera.

Até mesmo o fim de Chris foi uma lição simbólica: a grande dificuldade dos ritos de passagem (seja em que idade aconteçam) talvez seja desprezar os generosos sinais que aparecem aqui e ali. Um passo em falso e vem o fim, grandioso porém sufocante: surgem as luzes da redenção não levada a cabo, mas as trombetas ficam para a próxima. No lugar de sons celestiais, um coração batendo angustiado e uma respiração pesada que vai minguando. As imagens da ficção dão lugar a uma foto do “verdadeiro” Chris. A tela é preenchida com um pedaço de ônibus corroído, janelas quebradas, o número 142 e um sorriso desafiador e confiante que simplesmente ficou para trás.

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Quitute pro finde: Hopper


Eu honestamente desconheço as motivações do Edward Hopper (apesar de ter um livro dele lá em casa que nunca li o texto, só vi as figurinhas).


Mas sempre achei um tanto quanto acalentadora a tradução que ele faz da solidão humana.


Como é freqüente na cultura americana, a solidão vem sempre cenografada: as pessoas sozinhas não apenas em oposição a outras, mas também perdidas em vastos espaços (como quartos ou os próprios pensamentos).


As janelas, e a luz que elas deixam entrar (ou sair), parecem indicar rotas de saída.


Mas esse é o grande engano de cada dia: olhar para a janela como se ela fosse uma janela e não um espelho.

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Bom fim de semana e boa sorte a todos nós.

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The rise and fall of uncool

pra cima de moá não

Eu sou fã do trabalho e da postura da Santa Clara, uma das agências de publicidade que parece ter melhor sacado o novo momento da comunicação.

Mas esse artigo na Creativity foi meio viagem. Eu explico.

A agência assinou um texto decretando “The birth of uncool”, celebrando o uncool como um respiro em meio ao mar de coolzismo que existe no meio publicitário. Diz lá:

“Decidimos nos erguer e defender o uncoolness da humanidade. Porque o Homem, esse macaco pelado, é incrivelmente uncool. Nós roncamos. Nós temos mau hálito de manhã. Nós temos barriga de cerveja. Nós peidamos e arrotamos, mesmo em silêncio. Se pegos desprevenidos, nós sorrimos pras fotos de bebê da Anne Gedde.

Somos uncool. Uncool é o natural. O cool é uma armadura que colocamos no dia-a-dia para sobreviver no século 21 e colocar comida na mesa, garantindo a sobrevivência da espécie.”



Enfim. A iniciativa é ótima, mas eu só vejo um problema: o uncool também é uma potente armadura e costuma ser largamente utilizado para os objetivos originais do cool.

O Brasil é um país onde o uncool é largamente celebrado. Nunca vou me esquecer do dia em que o Fernando Meirelles foi entrevistado no tapete vermelho do Oscar e declarou para o repórter: “Olha, a gente não sabe bem o que está fazendo aqui, nós somos meio que penetras nessa festa.”

A síndrome do Saltimbanco. O cool em ser uncool. Está por toda parte.

Cuidado.

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Normal


“Esse culto ao normalismo tende a ficar cada vez mais explícito. Quanto mais gente se tatua e pinta o cabelo de azul, se filia a cultos estranhos e gasta seu dinheiro com passatempos sem sentido, a tendência é que o papo da família nuclear, do emprego de 9 às 6 e a casa com jogo de sofá não se torne uma minoria – e sim seja cada vez mais celebrada. Como Spielberg, cujos pais eram boêmios e isso fez com que dedicasse toda sua filmografia em busca de uma infância normal. Não está o longe o futuro em que Spielberg e o Weezer (e talvez a Miranda July, Little Miss Sunshine e os Simpsons) estejam na mesma linha evolutiva que inclua Norman Rockwell, A Feiticeira e A Família Trapo. São os mods do futuro – com roupas da C&A. ”

Observação legal do Matias a respeito do estado das coisas. Ele parte de toda uma reflexão em cima do Rivers Cuomo, do Weezer e chega na C&A. Não é pra menos que, por exemplo, os programas da MTV brasileira cada vez mais parecem ser transmitidos direto do quarto de adolescentes (ou ao menos do quarto psicológico). Demorô.

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Celeuma


Há semanas que eu estou para linkar aqui um ótimo texto do Fernand Alphen, diretor de planejamento da F/Nazca, a respeito do conteúdo dos blogs. A crítica do cara é a respeito do excesso de regurgitação de informação: muita referência, pouca reflexão.

“Não existe nada mais infértil do que a imensa maioria dos blogs. Falo desse moto-continuo de repetição poluidora. Blogs e mais blogs que são o espelho deformado uns dos outros. Um tosco copy-paste. Um “blogo logo blogo”. “

Quando o texto parece que vai entrar numa espiral descendente de detonação, engata uma segunda e traz uma proposição:

“Talvez, no entanto, seja oportuno revelar ou ressaltar a enorme oportunidade que, a livre manifestação, através da blogosfera, suscita. Talvez seja oportuno apelar e dizer que os blogs são, antes de tudo, um fermento do raciocínio e do pensamento, das idéias, dos argumentos, da imaginação, da poesia.

Ao invés de reproduzir ad-perpetum informações, muitas das quais “anonimizadas” voluntariamente, que tal ser mais antropofágico? Digerir antes de copiar. Enfim, usar o cérebro.

Assim, talvez possamos mais frequentemente dizer “penso logo blogo”.”

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Coincidentemente (ou não, não sei) o post do Fernand acontece na mesma época em que o Edney do Interney lança o tal do “Blogagem Inédita“, que também tem por objetivo incentivar uma blogagem mais pensada e menos regurgitadora.

Tá mas e daí? E daí que é sempre bom a gente lembrar e discutir e conversar e sublinhar que a mera linkagem desenfreada não contribui muito pra melhorar o nível de informação circulante. Quantos blogs têm surgido como um simples depositório de embeds de filmes, músicas ou imagens, com nem mesmo uma linha de comentário particular, um mínimo penso em cima daquilo? Não precisa nem ser um comentário textual. Algumas pessoas editam tão bem suas escolhas que o seu critério já é uma contribuição.

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Infelizmente, reflexão não é algo muito valorizado hoje em dia porque reflexão exige tempo e não podemos perder tempo!!! Rápido, rápido!

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Em outro texto, o Fernand Alphen propôs: Vamos abolir a palavra mídia?
“Um veículo de comunicação não limita mais sua atuação ou se o faz, é uma opção poética. Dizer que O Globo é só papel é ofensa grave, gravíssima. Dizer que a Rede Globo é um entretenimento de sofá, idem. Um anunciante não é um anunciante de TV ou de Jornal. Uma agência — ainda que persistam as irritantes separações de disciplinas — não pode ser uma coisa tão pequena, terra de especialistas bitolados e caretas.”

São palavras totalmente voltadas ao novo contexto publicitário, total em crise, todo mundo muito louco no momento. Bom, mas o fato é que o texto virou uma discussão sem fim no Blue Bus, o café da esquina do mercado da publicidade. O que é ótimo, porque, como eu disse, não tem muita reflexão no mercado publicitário, essa reflexão mais solta, que você não precise terminar com uma lâmina de power point com o custo final da ação – isso é realmente enlouquecedor pra algumas pessoas.

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Qual é a conexão entre esses dois assuntos? Não sei, acho que precisamos perder mais tempo. Menos referência, mais reflexão. Puxar o freio de mão nunca foi tão necessário.

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