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O underground da espiritualidade

Caminho espiritual é um assunto complicado. Pra começar, é um pouco como a noção de “bom senso”: cada um tem o seu. Em segundo lugar, muita gente tem aversão a termos como “caminho espiritual” ou “espiritualidade” porque lembram de péssimas experiências religiosas de infância, geralmente mais ligadas a protocolos sociais do que propriamente a uma busca sua, genuína e de coração. E, por último, falar de caminho espiritual também traz junto conceitos difusos e errôneos como passividade lacônica (“hoje não fiz nada o dia todo, fiquei bem zen”), idealismo ingênuo ou relações bastante superficiais com coisas como maconha e ácidos meia boca.

Pra efeito de você ir adiante nesse post, vamos tentar fazer um acordo que vale ao menos aqui no Conector: caminho espiritual não é aquela missa de domingo que você ia quando criança e nem tampouco as lajotas se liquefazendo depois que você tomou aquele AC no carnaval. Também não vale aquela discussão sobre Matrix ou aquela super ficha que caiu quando você resolveu TODOS seu problemas depois de ficar olhando o mar de cima do Morro da Guarita em Torres por duas horas.

O caminho espiritual de que vou falar aqui, combinemos, tá mais pra 1) quando a gente procura resolver nossas questões mais profundas olhando pra dentro e não pra fora, e 2) faz isso de forma mais ou menos constante, como parte do dia-a-dia e não apenas como uma experiência de fim de semana ou como um tipo de férias da vida comum.

Bom, se você mais ou menos concorda com esse postulado e o acha simpático, vamos lá: é sobre isso que fala Jack Kornfield em “Depois do Êxstase, Lave a Roupa Suja”. Reconhecido professor de meditação nos Estados Unidos, Kornfield entrevistou dezenas de outros mestres e contemplativos do budismo, hinduísmo, judaísmo, sufismo e outros ismos pra falar dos descaminhos, acostamentos, desvios, obstáculos, enfim, do “Lado B” da busca pelo fio da meada da mente e do coração humanos.

São cerca de 250 páginas com centenas de depoimentos costurados pelo texto simples e direto de Kornfield. Grande parte das histórias traz revelações íntimas, algumas pesadas, como problemas com a família, períodos de vida depressivos, cisões em comunidades espirituais, desprezo ao corpo, entre tantos quebra-molas que aparecem e que, como os relatos insistem em ratificar, devem ser trazidos para o caminho em vez de serem tratados como anomalias. Parágrafo após parágrafo, essa parece brotar como a grande mensagem de “Depois do Êxtase…”: o caminho espiritual é um caminho de inclusão dos obstáculos, de desenvolver a habilidade de lidar, dançar com eles e não de eliminá-los. Como diz Kornfield a certa altura, “não existe aposentadoria iluminada”.

A busca por respostas internas, segundo vários depoimentos, pode até passar por experiências de êxtase ou de transcendência (seja lá o que isso significa). Mas ficar preso a uma dessas experiências, sublinha-se repetidamente, pode trazer mais apego e mais dificuldades em vez da tão almejada liberdade. Na essência dos caminhos espirituais genuínos está uma mente aberta e inclusiva. Diz um mestre entrevistado:

“Sob vários aspectos, a transformação espiritual das décadas passadas é diferente do que eu havia imaginado. Sou ainda a mesma pessoa esquisita, com o mesmo estilo e maneira de ser. Por fora, não sou aquela pessoa incrivelmente transformada e iluminada que eu queria ser. Mas por dentro a transformação é grande. (…) Minha vida era como uma garagem entulhada, onde eu ficava trombando com os móveis e me julgando. E agora parece que eu mudei para um hangar que está sempre com as portas abertas. Tenho as mesmas coisas, mas elas não me limitam mais como antes.”

Essas não são apenas idéias de religiosos. Além de pessoas ligadas a caminhos espirituais formais, Konrfield se vale de constantes citações de outros buscadores, como escritores (Walt Withman, Alice Walker, Rainer Maria Rilke, TS Elliot), ativistas (Martin Luther King, As Mães da Praça de Maio) e outras referências célebres (Anne Frank, Carl Sagan, Joseh Campbell). O mosaico pode parecer indigesto e um tanto quanto new age, mas funciona para abrir um pouco o escopo de experiências e mostrar que, por mais diferentes que sejam as trilhas, os calos nos pés são comuns a todos os caminhantes. Não existe ninguém especial. Todos são especiais.

Conclusão da história: o mundano e o espiritual não são excludentes. E, provavelmente, talvez não sejam nem mesmo duas coisas separadas. Ou, como diz o poeta beat, pai e professor zen Gary Snider:

“Todos nós aprendemos com o mesmo professor – a realidade… pôr as crianças na perua escolar todas as manhãs é tão difícil quanto cantar os sutras no salão do Buda nas manhãs frias. Uma coisa não é melhor que a outra, as duas podem ser aborrecidas e ambas têm a virtuosa qualidade da repetição. A repetição e seus bons resultados transformam as atividades da vida no caminho.”

***

Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey, da biografia da monja inglesa Tenzin Palmo e das memórias do ex-monge búlgaro Nikolai Grozni.

Turtle Feet: The Making and Unmaking of a Buddhist Monk

Nikolas Grozni era um simples jovem búlgaro, estudante prodigioso de jazz, treinado desde os 4 anos em piano clássico e mais tarde aceito na famosa faculdade de música de Berkeley. Como qualquer jovem, búlgaro, estudante e prodigioso, Grozni passava seus dias às voltas com os bundalelês da faculdade, tocando a vida à base de bebida, maconha, sexo, Coltrane e muito questionamento existencial.

Porém, enquanto as buscas existenciais de muitos eram sufocadas com os anestésicos comuns à idade, Grozni acordou um dia com seu bichinho da curiosidade atiçado e foi atrás de respostas mais decentes. Foi assim que se aproximou do budismo e foi assim que começou a ler filosofia budista e praticar meditação por conta própria. A certa altura do campeonato, entretanto, algumas fichas mais pesadas caíram e ele acabou abandonando o dia-a-dia de universitário pra pedir ajuda aos universitários, abraçando a vida monástica na India.

Turtle Feet é o livro de memórias do período indiano de Grozni e cobre seus três anos de estudo de tibetano e dialética budista, bem como sua ordenação de monge do Budismo Tibetano e suas tremendas confusões ao lado de habitantes do underground de Dharamsala. À primeira vista, a contracapa de Turtle Feet engana pois promete uma visão ácida do autor a respeito das instituições monásticas. Mas, mesmo com opiniões contundentes e fatos curiosos pra sustentar seu ponto de vista, no fim o que Grozni faz é reforçar a necessidade de uma mente crítica e aberta para quem quiser ir além de um olhar superficial da vida, seja dentro de uma estrutura religiosa ou não.

Grande parte do livro, na verdade, é calcada nas muitas desventuras vividas por Grozni ao lado das figuraças que formavam seu círculo social em Dharamsala. A principal delas é Tsar, um refugiado da guerra da Iugoslávia sem documentos e nem dinheiro que também se ordenou monge mas que largou os mantos pra viver da ajuda de eventuais namoradas ou de negócios bizarros. O melhor de todos, sem dúvida, é a padaria que improvisa no seu barraco, instalando resistências elétricas direto no assoalho para usar o cômodo principal como forno.

Tsar é a grande estrela de Turtle Feet e, como personagem, serve de porta-voz das idéias mais dissonantes de Grozni. Durante toda a segunda metade da narrativa, Tsar discursa incansavalmente sobre o absurdo da existência humana enquanto procura por sexo e se mete em problema atrás de problema no que parece ser o roteiro perfeito para uma Sessão da Tarde. Sem passaporte, por ter jogado fora o seu durante uma crise de identidade, Tsar é um cara flutuando entre definições, sem nacionalidade, sem destino, sem plano de vida concreto, sem futuro. Ou seja, no fundo é como qualquer um de nós.

Ou seja, o que faz de Turtle Feet um livro interessante e cômico não são as dificuldades particulares que um ocidental enfrentou para se tornar um monge budista, mas sim as dificuldades universais de quem tenta se encontrar. Por mais bizarras e únicas que sejam as situações que Grozni viveu na India, a impressão que se tem é que por baixo de todas as cascas culturais e circunstanciais de cada capítulo, temos contato direto com o dramático e hilário recheio que se encontra dentro de qualquer pessoa em qualquer coordenada deste estranho planetinha.

O preço absoluto das coisas

É algo que todo mundo pensa mas ninguém fala abertamente. É uma espécie de tabu conceitual. Um assunto pairando, um vespeiro que é melhor não mexer. O preço absoluto das coisas é como, já falei aqui, o bom senso: cada um tem o seu. É o seu preço do coração, que não obedece a qualquer lei de mercado ou lógica cartesiana. Na minha opinião, por exemplo, é ridículo que muitos carros custem mais do que apartamentos.

Portanto, eu, Gustavo Bittencourt, declaro que acho que as seguintes coisas deveriam custar os seguintes preços.

CD – 5 reais.

Ipod – 50 reais.

Laptop – 800 reais

Computador de mesa – 500 reais.

Camiseta básica da Hering – 10 reais.

Um Palio completo (ar, direção hidráulica, trio elétrico) – 10.000 reais

Um blackberry – 50 reais

Um iPhone – 80 reais

Mp3 Player de camelô – 15 reais

Pen Drive 2GB  – 15 reais

Pen Drive 4GB – 18 reais

Apartamentos de três quartos em geral – 50.000 reais

Apartamentos de um quarto em geral (com cozinha americana) – 10.000 reais

Carrão importado – preço máximo de 40 mil reais.

Uma consulta médica particular (qualquer)  – 50 reais

Um bom jantar num restaurante fino – 30 reais por pessoa

Um jantar razoável num restaurante qualquer – 10 reais

Uma pizza BOA grande – 18 reais

Uma pizza RUIM grande – 5 reais

Uma água sem gás (500ml) – 50 centavos

Uma água com gás (500ml) – 45 centavos (tem menos água devido ao gás)

Um ingresso de cinema – 10 reais (todos os horários, todas as idades)

Um ingresso pra filmes como Transformers – 2 reais

Um ingresso pra show do Queens of The Stone Age em Porto Alegre – 25 reais

Um pacote com seis pares de meias das BOAS – 12 reais

Um pacote com seis pares de meias que estragam rápido – 3 reais

Um saco de pipoca BOA – um real

Uma revista Veja – dois reais

Uma revista Época – quatro e cinquenta

Uma graphic novel – 12 reais

Um casacão pro inverno gaúcho – 80 reais

Um amplificador Fender valvulado (que dê pra tocar no Jeckyll): 1.200 reais

Assinatura do Net Combo – 45 reais

Assinatura do Net Combo com HBO – 55 reais

Passagem aérea Porto Alegre – São Paulo (Congonhas) – 100 reais ida e volta

Passagem aérea Porto Alegre – São Paulo (Guarulhos) – 80 reais ida e volta

Passagem aérea Porto Alegre – Florianópolis – 20 reais ida e volta

Cerveja 600 ml – 1 real

Latinha – 50 centavos

Uma calça Levi’s – 75 reais

Um livro bom e grosso do Phillip Roth – 25 reais

Um livro bom e fino do Phillip Roth – 15 reais

Um livro meia boca qualquer – 5 reais

Cachecol preto básico de lã – 15 reais

Tênis Adidas Originals – 30 reais

Havaianas basicona – 2 reais

Havaianas de estilista – 10 reais

Havaianas de cartunista – 10 reais

Havaianas com desenho fashion – 8 reais

Havaianas da Coca Cola – você recebe 100 reais pra usar um verão

Chá Twinnings – 5 reais uma caixa grande

Uma cola bastão Pritt – 1 real

Um pacote com mil canetas bic – 12 reais

Pedágio pra praia – 1 real

Pedágio pro interior – 50 centavos

Diária no Formule 1 da Consolação – 12 reais

Download de 1 mp3 – 75 centavos

Dowload de 10 mp3 – 5 reais

Um HD externo de 500GB – 30 reais

Ingresso pra qualquer museu do país – 10 centavos

Meio quilo de damasco seco – 5 reais

Uma cartela de Tylenon 750 – 50 centavos

Pãozinho com manteiga no couvert do restaurante – 1 real (em todo Brasil)

Água de Côco – 50 centavos em todo Brasil

Biquínis legais – 35 reais

Bermuda de entrar no mar – 30 reais

Bermuda cargo boa – 25 reais

E por aí vai.

Conector em Gotham parte 12: jesus é véio

… já a Liu Chuang, diferente do Sang Dong (sonoro esse início de post, não?) escolheu uma abordagem diferente pra questionar noções de identidade e falar da relação das pessoas com seus objetos e sentimentos. Ela simplesmente chegou em algumas pessoas aleatoriamente na rua e comprou TUDO que a pessoa estava usando e portando no momento, INCLUINDO chicletes, cuecas e documentos. TUDO. Depois, ajeitou as coisas numa bancada do New Museum e chamou a parada de “Buying Everything On You”. Eu olhei e comprei a idéia na hora. Foi mal aí o trocadilho, mas eu realmente me conectei com o trabalho da Liu Cheung por mais óbvio e direto que ele seja. Se um grande pintor pode, em pleno museu, despir uma pessoa com um quadro intenso, por que negar a outro artista a oportunidade de fazer isso literalmente e no meio da rua? E depois trazer pra dentro do museu não a pessoa prestes a ser despida mas tudo aquilo do que ela foi despida? Você vai negar? Hein? Hein? Eu não.

E se outro chinês, o Chu Yun, quiser criar uma escultura usando uma pessoa? E se a única forma de convencer essa pessoa a fazer parte de uma escultura viva for emboletar a querida com Dormonid (ou outra dessas substâncias que as pessoas usam pra se anestesiar) e colocá-la pra dormir dentro do museu (quem nunca “dormiu” dentro de um museu?), em uma cama branca, com lençóis brancos, como são as paredes da maior parte dos museus? Quem vai dizer que talvez ela seja a pessoa mais concentrada que está lá dentro? Não me meto nessas coisas. Cada um com seus problemas.

E o que você me diria se aparecesse mais um desse hoje ubíquo país pra botar alguns pingos nos is e outros embaixo do ponto de interrogação quando falamo da cultura cosplay, congelando imagens de cosplayers em situações absolutamente cotidianas, dando a real não apenas para eles, mas também para quem não entende qualé, borrando os limites e mostrando que está tudo certo como está, não há qualquer dissonância de realidade no cosplay? O que você me diria?

E, quando, cansado de chineses, você se deparasse com desenhos aparentemente infantis de objetos domésticos? E descobrisse que são desenhos da vó da Katerina Seda, a qual, nos seus últimos anos de vida, foi convencida a desenhar o que a rodeava, fazendo você pensar na degradação do corpo e da mente ao mesmo tempo em que tenta lhe convencer do valor do mundo cotidiano? E se isso tudo lembrasse a pequena distância que existe entre a infância e a velhice, lembrando que quando crianças desenhamos para conhecer um mundo que vamos explorar e que a senhora ali está desenhando infantilmente um mundo do qual está prestes a se despedir? Você ia sacanear a senhora e dizer que os desenhos dela não prestam?

E se você chegasse ao fim de um post cheio de pontos de interrogação e descobrisse que isso foi só uma gambiarra pra encobrir o fato de que o blogueiro amigo não sabia direito por onde começar o seu texto, estava com preguiça de consolidar um raciocínio decente então tacou-lhe o conteúdo fazendo pergunta atrás de pergunta para um leitor aleatório, puro fruto da imaginação hiperativa de alguém que queria, de alguma forma, por mais estúpida que fosse, dividir um pouco da fascinação que lhe causou a exposição Younger Than Jesus que estava rolando no New Museum?

Hein? Hein?

Cave in the Snow

Falar sobre longos retiros geralmente causa uns calafrios não é mesmo? Imagina deixar o conforto da sua casa, desfazer os laços (físicos) familiares, abrir mão de todo o vasto leque de distrações disponíveis e de todo o sistema social e psicológico em que crescemos em troca de ficar consigo mesmo, convivendo, conhecendo e se aprofundando na própria mente e seu vasto potencial durante mais de uma década em uma caverna pedregosa na India. Não é pra qualquer um, né? E não é mesmo.

Existem muitas boas lições na biografia da monja budista Tenzin Palmo, mas o fato de ser especificamente ela a protagonista de sua história é uma das mais importantes. Calma que eu já explico. Palmo nasceu Diane Perry no East London em 1943 e cresceu em uma família humilde, porém feliz, que se estruturou ao redor da figura materna após a morte do pai. Até os 20 anos, viveu uma vida “normal”. Brincou, estudou, namorou, dançou na swinging london, mas o bichinho da curiosidade espiritual a corroeu desde pequena. Buscou alimento para o bichinho em diversas religiões, mas a ficha caiu mesmo quando ela encontrou os primeiros e escassos ensinamentos budistas disponíveis no Ocidente através de alguns livros e conexões com intelectuais interessados no Tibet. A partir daí, uma peça começou lentamente a encaixar na outra: Diane conheceu os primeiros lamas budistas a aportarem na Inglaterra, se mandou pra India, quase casou na viagem de barco, se instalou em uma escola fundada por uma inglesa, deu aulas de inglês para lamas e finalmente encontrou o professor que a guiaria uma boa parte da vida.

A sede por realizar o potencial mais perfeito de sua mente a lançou numa busca constante por conhecimento e espaço para praticar o conhecimento adquirido. Para unir os dois, pediu ordenação de monja e, depois de alguns anos de estudo e serviços para a comunidade monástica local, partiu para meditar em uma caverna nos himalaias indianos. Desencorajada por muitos colegas (que julgavam uma mulher ocidental incapaz da empreitada) porém apoiada por seu professor, a agora monja Tenzin Palmo concentrou sua energia em uma série de retiros fechados nos quais ficava até oito meses sem ver ninguém (nem mesmo o sol no duríssimo inverno dos Himalaias). Na etapa final de sua trajetória de retirante, Palmo completou três anos em total isolamento até ser despejada da India por problemas legais com seu visto.

A volta à vida em sociedade, entretanto, não foi um fardo. Pelo contrário, a monja abraçou o novo capítulo em sua vida, colocando sua experiência a serviço de causas interessantes. Por um lado, Palmo passou a militar ativamente no meio religioso pelo reconhecimento dos direitos e das nuances femininas dentro das comunidades espirituais, geralmente organizações mais masculinas e de contornos patriarcais. Em outro âmbito, menos político e mais prático, viajou o mundo levantando fundos para a construção de um mosteiro para monjas tivessem condições de receber os ensinamentos completos, algo negado a muitas mulheres em determinadas tradições budistas.

Contada assim, rapidamente, a história de Tenzin Palmo tem sementes de fantasia. Tipo…. mulher-ocidental-larga-tudo-e-vai-viver-o-misticismo-oriental-na-caverna. Porém, Cave in The Snow dificilmente passa como conto da carochinha. A ida de Tenzin Palmo para a India não foi uma fuga repentina de alguém estressado com seu cotidiano ou a tentativa de realização de uma idéia juvenil. Foi, isso sim, uma peça no lego particular de uma menina desde cedo bastante encucada com os mistérios não exatos do universo. Quando ela falou para sua mãe que estava pensando em ir à India buscar ensinamentos, não recebeu olhares de espanto ou reprimendas, mas uma simples pergunta: “Quando você vai?”. A dona de casa de Bethnal Green conhecia bem a filha e sempre apoiou sua busca.

Esses e muitos outros detalhes tornam Cave In The Snow uma leitura interessante mesmo pra quem não sente nenhuma vontadezinha de ter um envolvimento tão intenso com a prática espiritual. Ao contrário do que poderia ser, o livro é dedicado a desmistificar os anos na caverna. Eles recheiam o livro mas não são de forma alguma o único fator de reflexão. Página após página, um paradoxo se constrói: por mais particular que seja a história de Tenzin Palmo, ela também é temperada fortemente com o viés das questões humanas universais: insegurança acerca de nossa identidade, medo da morte, a necessidade de recursos financeiros pra viver, amores não correspondidos, relações complicadas, as diferenças entre o mundo masculino e feminino, e a velha pergunta… no que vale a pena investir tempo da sua vida?

Para Tenzin Palmo, encontrar a resposta passava por ficar um bom tempo em retiro. Ela nunca teve dúvidas disso. Não sofreu com o isolamento. Encontrou sua vocação. Mas depois, ao precisar fazer uma difícil escolha, se viu de volta ao mundo cotidiano, viajando em turnês mundiais, dando ensinamentos e buscando fundos para a construção de um mosteiro. Dividindo o que descobriu na caverna.

Talvez cada um de nós tenha uma caverna nos esperando. Para alguns ela pode até estar nos Himalaias. Para outros, ela pode significar simplesmente algumas horas sem banda larga. Ainda há os que vão encontrar sua caverna ao se retirar de situações de isolamento e ao engajar-se em uma atividade. Quem sabe? A autora do livro e jornalista Vicky Mackenzie delega ao leitor, com a ajuda de livros inspiradores como esse, encontrar os paralelos e descobrir o seu caminho.

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Mais três coisas.

1. A Elka, que morava aqui no templo de Três Coroas, se mandou há alguns meses pra India com sua filha pequena. Ela vem escrevendo em um blog pra TPM sobre as experiências que está vivendo lá e também falou da Tenzin Palmo em um post de junho, que também traz algumas palavras sobre a situação das monjas e das mulheres na India.

2. O Guardian também fez uma matéria sobre ela (a monja) recentemente.

3. Existe um documentário bem simples mas bem bom sobre a trajetória de Tenzin Palmo. Se chama Cave in The Snow. Me foi copiado por um amigo. Não sei se você vai encontrar um torrent. Mas se encontrar, faça com eu: depois doe o valor de um DVD nacional pra causa da Tenzin Palmo.

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Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey.

Dancing Lula

Sei que esse vídeo não é novidade. Mas não estou colocando aqui pra passar adiante. Você já deve ter visto. Tudo bem.

Eu só queria registrar: percebeu que é o melhor comentário político sobre o Lula ao longo de seus dois mandatos? Nenhum jornalista conseguiu resumir tão bem o ar “tô nem aí” do Lula quanto esse vídeo. Ele é, convenhamos, o símbolo da incompetência do Diogo Mainardi.

Mais do que isso. Dancing Lula é uma bela porta de entrada para um estudo do Brasil contemporâneo. É o Brasil do Cansei de Ser Sexy, do CQC, da cultura corporativa americana se estabelecendo nos trópicos, do Lula amigo do Obama, dos seguranças de terno que se acham presidentes do Brasil, do YouTube, do mashup como DNA brasileiro, da manipulação de imagens idem, do bom e velho Rio de Janeiro como cenário!

Problemas políticos, sociais ou financeiros? Coloque um TERNO, vá pra um HELIPORTO, ligue o DAFT PUNK no som, DANCE e SORRIA. A semiologia faz a festa com Dancing Lula. Todos os sinais de onde estamos e pra onde vamos estão aqui.

Conector em Gotham parte 8: high line

É engraçado. A série Gotham na verdade começou há um anos e pouco, quando passei dez dias com minha mulher em Nova Iorque. Como você pode ler aqui, eu fiquei bastante impressionado com minha primeira vez nos Estados Unidos. Da mesma foma que a maior parte das pessoas de classe média no Brasil, cerca de 70% da minha formação cultural se deu por intermédio de produtos americanos (de todas as qualidades). Fora isso, tenho algumas ligações sentimentais com a língua e o jeito como os americanos organizam sua sociedade.

Essa segunda viagem a Nova Iorque só veio confirmar as sensações misturadas da primeira: adoro o lado cosmopolita e cultural da cidade, mas aquela correria e aquela ansiedade no ar definitivamente não me fazem tão bem. De modo que meus dois lugares prediletos são o Central Park (como achei no ano passado) e a recém inaugurada High Line. O Central Park você conhece bem de todos aqueles filmes que já viu. Mas a High Line é uma jóia fresca, foi inaugurada há algumas semanas, uma alternativa de passeio poética e inteligente em uma cidade cravada de pequenos prédios e arranha céus que parece ter se tornado o novo orgulho dos novaiorquinos (ou ao menos os representados pela mídia…).

A idéia tem mais de dez anos e foi declinada pelo prefeito da tolerância zero, Rudolph Giuliani. Basicamente, o que se pretendia era pegar uma linha de trem “aérea” e transformá-la em um… parque. Parte da linha original foi derrubada muito antes, mas o que sobrou recebeu um redesenho completo, com passeio, uma vegetação que simula o verde selvagem que cresce em torno de ferrovias e facilidades como bancos, telefones de emergência, escadas de acesso e um curiosíssimo anfiteatro com uma enorme vitrine que dá para a rua.

Passear na High Line foi certamente uma das coisas mais especiais que fizemos. Ela literalmente eleva o seu passeio, o coloca em um outro nível numa cidade onde a maior parte das caminhadas do circuitomais turístico (a não ser aquelas na orla da ilha de Manhattan) são sufocadas por prédios por todos os lados. Ok, os prédios ainda estão lá, mas o pedestre parece ganhar um outro status, ao menos ao conseguir enxergar a rua de cima e o segundo ou terceiro andares dos prédios ao redor olho no olho. Pra completar, a High Line fica a poucos quarteirões da orla do Rio Hudson, o que oferece algumas vistas incríveis quando a prediarada (coletivo para prédios) dá um tempo.

Aqui em Porto Alegre temos um projeto chamado Aeromóvel que chegou a ser construído mas nunca foi utilizado comercialmente. O projeto piloto foi instalado próximo ao centro da cidade e até hoje está lá, jogado às moscas. Daria uma boa High Line para nós.

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Curiosidade: fui pesquisar sobre o Aeromóvel e descobri que ele é uma tecnologia brasileira. Existe apenas uma outra linha operando no mundo em Jakarta.

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A série sobre Nova Iorque continua nos próximos dias.

Street Zen: The Life and Work of Issan Dorsey

Issan se preparando para a ação.

Espiritualidade é um tema complicado de abordar num país como o Brasil. Vivemos uma espécie de paradoxo. Se temos uma população que se diz majoritariamente católica (83%), no dia-a-dia ela se ampara mais no sincretismo, na crença em santos particulares ou então na boa e velha reza aleatória na hora do desespero. Para deixar tudo ainda mais ambíguo, apesar de muitos não praticarem formalmente o cristianismo, a moral cristã meio que paira sobre a cultura do país. Ela não rege os desejos e não dá as cartas claramente, mas funciona como o eixo médio da nossa moral coletiva e qualquer duas horas de televisão aberta mostram isso. Mesmo os intelectuais do país costumam frequentemente se comportar como carolas: apontam, acusam, pedem punição.

No outro extremo do espectro, existe também, claro, uma adoração dos loucos desvairados como oposição à moral instituída, mas isso é apenas o outro lado da moeda. 99% das vezes que vejo alguém puxar o saco de algum “rebelde”, me parece mais birra do que qualquer outra coisa. A verdade é que raramente ambos conceitos, suposta perfeição e suposta imperfeição, convivem em harmonia.

Se na vida cotidiana eles são obrigados a conviver, o mesmo não acontece no imaginário popular. A ambiguidade no Brasil, acredito, é sutilmente bem vinda na prática, mas na teoria, no discurso ou na iconografia ela não pega bem. Somos um país de mulatos práticos que gosta do preto no branco teórico. Ainda que saibamos de todos os detalhes sórdidos sobre nossos santos/modelos/salvadores/representantes, preferimos os relegar a um papel secundário de seu caráter, recusando-nos a acreditar que o lado escuro da mente e do coração de alguém possa realmente fazer parte do seu todo.

Por isso, enquanto virginiano inverterado e maniqueísta eventual, achei tão inspiradora a leitura de Street Zen. O livro é a biografia do mestre zen budista Issan Dorsey escrito por um jornalista, colega praticante e amigo que escolheu abordar todos os aspectos da vida de Dorsey sem deixar nada de fora. Tudo é exposto, desde seu homossexualismo, seu trampo de drag queen e eventual garoto de programa, sua relação com anfetaminas, heroína e LSD, sua convivência com estratos baixos e considerados pervertidos da sociedade até sua trajetória como praticante zen, criador de um hospice pioneiro para pacientes de AIDS e reconhecido professor que… morreu de AIDS. Pra resumir, um outro mestre zen americano, Bernie Glassman, escreveu no prefácio que via Issan como “uma mistura de Lenny Bruce e S.S. Dalai Lama”.

O interessante da abordagem de Street Zen é que a primeira etapa da vida do biografado em momento algum é colocada como oposição à segunda. A jornada descrita no livro não segue o roteiro comum de “degradação, descida ao inferno, expiação dos pecados por meio do sacrifício e redenção”. É mais como se fosse tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. O lado outsider de Issan Dorsey, em vez de contraponto ao lado religioso, funcionou como base, como fundação, como fonte de incríveis ferramentas sociais e espirituais que ele utilizou mais tarde para ajudar os que habitavam as margens da conservadora sociedade americana dos anos 60, 70 e 80.

A trupe da qual Issan fazia parte como Tommy Dee.

A mensagem aqui é uma só: por conta de nossas limitações, achamos que só os perfeitos alcançam a perfeição e Issan Dorsey vem para torcer completamente essa lógica injusta e inútil. A compaixão mais ampla não deixa nada nem ninguém de fora. Nem as pessoas que marginalizamos socialmente, nem nossos sentimentos e aspectos pessoais que marginalizamos mentalmente, escondendo no fundo do baú. Dorsey, segundo o livro, foi a personificação desse tipo de compaixão. Justamente por sua convivência com pessoas marginalizadas, por ter experimentado e visto de tudo, ele serviu de referência para os sem-referência. Ele abraçou tudo. O próprio autor da biografia diz que, se não fosse pelo amigo, talvez não se sentisse apto a praticar o budismo.

Como pano de fundo pra tudo isso, recebemos de brinde uma série de rápidas porém valiosas contextualizações: o surgimento da cena psicodélica em San Francisco; a chegada de Suzuki Roshi (um grande mestre zen budista) aos Estados Unidos e o desenvolvimento de sua comunidade, com direito a escândalos cabeludos protagonizados pelo seu sucessor; a intersecção do mundo gay de San Francisco com as comunidades espirituais; e os primeiros baques ali causados pela AIDS.

Street Zen é de escrita simples, fluída e direta. Uma boa parte das histórias vêm contada em primeira pessoa, por Issan ou por companheiros próximos. Dessa forma, em dois ou três capítulos você já se sente íntimo dele e lá pela página 200 bate uma certa melancolia porque os dois estão chegando ao fim: o livro e o protagonista. Issan morreu em 6 de setembro de 1990 de complicações ligadas à AIDS, no próprio hospice que criou, cercado de amigos e experimentando na prática lições básicas do budismo que vinha ensinando: compaixão e, principalmente, a impermanência.

Vertido das páginas do diário pessoal do autor, o relato dos últimos dias de Issan são crus e perturbadores. Sensacionalismo? Não. Uma narrativa que se pretendia tão aberta quanto seu personagem principal realmente não poderia se eximir e deixar de fora o momento de maior significado da história de Issan e que Suzuki Roshi chama de “O maior professor”: a morte.

Desesperador, desagradável e incômodo, muitas vezes é melhor nem tocar nesse assunto. Mas, se for pra tocar, melhor que seja assim, como Issan fez, de forma completa. Mesmo sofrendo e com dificuldades físicas, ele deixou sua última lição ao abraçar a morte da mesma forma que abraçou a vida.

A verdadeira publicidade sustentável

A máxima é conhecida e, hoje, bastante divulgada: todo ato relacionado ao consumo causa impacto ambiental. Todos nós já concordamos com isso e estamos cientes de que a saída é uma abordagem sustentável, o que significa a revisão de processos econômicos, sociais e culturais, não apenas o uso racional de recursos naturais. No universo do marketing e da publicidade, a sustentabilidade pegou. E propagou-se feito viral em milhares de campanhas mundo afora. Algumas de forma bastante supérfluas, outras tantas, felizmente, acompanhadas do esforço sincero de indivíduos e organizações realmente preocupadas em não deixar o assunto virar um eterno habitante do planeta Power Point.

Porém, talvez seja o momento de aprofundar um pouco mais o conceito de sustentabilidade na publicidade, lembrando que o efeito causado por nosso trabalho vai além do resultado de nossos clientes ou dos copinhos de plástico de café usados na agência. Nós mesmos, como produtores de uma quantidade incrível de mensagens diárias, somos em parte responsáveis pela manutenção da ecologia da informação. Nos últimos dez anos, testemunhamos boquiabertos a explosão dos pontos de contato que podem ser utilizados por uma marca para se conectar ao seu público. As comportas foram abertas e entramos na era em que Qualquer Coisa pode virar publicidade. Uma delícia para quem gosta de experimentar. Uma complicação para quem precisa tomar decisões diárias sobre budget. Um pesadelo para a poluição informacional.

Como vantagens desse período, temos a possibilidade de gerar melhores expressões de nossas estratégias. Tornar Qualquer Coisa publicidade pede escolhas mais inteligentes. O exercício da escolha com rigor e poesia em meio a um mar de opções refina o produto publicitário e poupa o ambiente onde a informação circula (a mente de todos nós) pois quanto mais certeiros, menos precisamos gritar, menos precisamos poluir. Este é o ponto mais delicado de uma publicidade sustentável: precisamos, mais do que nunca, incrementar nossa capacidade de escolha. É bom para todos. Para a agência, que trabalha mais focada. Para o cliente, que vê seu dinheiro melhor investido. E para o consumidor, que não é cercado de publicidade irrelevante e meramente poluidora.

Olhando desse ponto de vista, parece não haver dilema algum. As soluções brilhantes propostas pela publicidade sempre foram baseadas no que o pensamento estratégico pode oferecer de melhor. Mas, do jeito maluco que a informação circula hoje, é preciso uma atitude um pouco mais ousada do que simplesmente levantar a sobrancelha e declarar que “sempre foi assim”. Se vivemos cada vez mais soterrados (pessoal e profissionalmente) em informação, os ninjas da hora não são os que fazem escolhas, mas os que sabem criar espaços lúcidos para que, aí sim, sejam feitas as escolhas.

Ambientes de trabalho saudáveis e lúcidos são a base de uma publicidade sustentável. E pedem mais do que refeições grátis, sofás para descanso e videogames para a diversão. Pedem respeito à saúde física e mental das pessoas que fazem e que dão suporte à atividade estratégica de fazer escolhas. Em atividades intensas como a publicidade, essa noção de respeito precisa ser constantemente relembrada para não se tornar um mero conceito bonitinho. Não é um compromisso apenas dos líderes, mas também dos liderados.

As estratégias desenvolvidas dentro de um espaço lúcido serão automaticamente lúcidas. E, portanto, sustentáveis. A alguns este pode parecer um raciocínio esquisito. Mas ele é lógico e direto. Somos mais do que o resultado de nossas escolhas. Somos o resultado da forma como fazemos nossas escolhas. Portanto, se a atitude mais importante na publicidade atual é escolher, precisamos pensar seriamente não apenas nas escolhas que fazemos, mas em que condições de temperatura e pressão as estamos fazendo.

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Artigo publicado no jornal do Festival de Gramado.

Ainda estou pensando no que escrevi…

E um adendo ao post do Vôo 447

Como eu tava falando. Não podemos ignorar outros aspectos simbólicos desse acidente. Não foi um vôo qualquer, que caiu no interior do Brasil levando um monte de “gente comum”. Foi um vôo da Air France que ia do Rio pra Paris. O tanto de glamour envolvido no imaginário desse trajeto não é recente. A conexão Rio e Paris no início do século passado era intensa. É o ano da França no Brasil. O primeiro ministro francês vem sendo figura constante na mídia, ainda mais casado com quem é. Esse tipo de acidente acaba mexendo com uma série de ligações pouco visíveis.

Não, Harry Potter não vai chutar a sua bunda

(Continuação desse post.)

Harry Potter não vai chutar a sua bunda porque, e isso é uma suposição ainda, ele não tem nada contra você. O problema do Harry Potter, até onde entendi, é com aquele de quem não se diz o nome. Mais curiosamente, Harry Potter não vai chutar a bunda do pai dele ou da sociedade, porque ele não tem grandes problemas com o pai ou com mais ninguém. Talvez os tios, mas ele tira de letra. O problema de convivência com os tios e o primo é facilmente sublimado com pequenas transgressões mágicas, nada de muito pesado. Não é necessário. Harry Potter não vai chutar sua bunda porque não é preciso. A grande questão da série Harry Potter é lutar com os próprios demônios com o suporte da amizade (esse é um dos grandes temas da série, não é mesmo?). De alguma forma que não sei explicar, isso me parece bastante mais leve do que a temporada de Luke Skywalker em Dagobah. Perto de Harry, Luke é muito mais birrento. A geração Harry Potter pode ser mais mal acostumada com certos confortos, mas me parece menos birrenta. Atenção: não estou falando das pessoas ou de casos individuais. Estou falando da cultura pop como um todo. A cultura dos anos 00 é mais blasé, menos birrenta, mais inclusiva. Não é?

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É incrível que a obra musical que serviu de porta-voz para uma revolução latente no início dos anos 90 se chame Nevermind. Tradução livre: deixa quieto. Deixa pra lá. Dá nada. Entende a ironia? Nevermind não deixou nada quieto. Foi o catalisador de um movimento que vinha se ensaiando durante todos os anos 80, naquele tradicional movimento de contração e expansão da cultura pop, no qual a onda vigente é sempre uma negação radical da anterior. Nevermind! Não dá nada. E deu tudo. A geração chamada de slacker, preguiçosa, sub-empregada apesar de over-educada, sem querer acabou mexendo com tudo. Nunca a preguiça foi tão ativa e presente. Nunca a largação foi tão eloquente. Nem mesmo no punk: ali havia raiva, havia uma energia clara sendo exposta. Com todo aquele papo de grunge, foi a letargia que virou vetor de transformação. Quem diria! Não lembro de alguém ter sublinhado essa ironia tão clara. Eles vieram, disseram Nevermind, mas todo mundo “mind”. E deu no que deu.

Os anos 90 acabaram sendo a última década em que era preciso escolher um lado. As cansativas discussões em listas sobre o mundo “corporativo” e o “mundo indie”. O Cobain aparecendo na capa da Spin com uma camiseta dizendo “Corporative rock magazines suck”. A questão das bandas que assinavam ou não assinavam com majors. Filmes independentes contra filmes de grandes estúdios. Todas as dicotomias, ao longo dos anos 00, se tornaram anacrônicas.

A partir de 2001 tudo ficou mais bagunçado. É um ano emblemático nesse sentido. Obrigado por avisar, Kubrick & Clarke! 2001, afinal, foi o ano em que:

- a Apple lançou o iPod, inaugurando uma era em que as coleções de música abrigavam sem constrangimento Strokes, Ivete Sangalo, Chico Buarque e Rick e Renner lado a lado.
- os Strokes lançaram o EP com Modern Age/Last Nite/Barely Legal, botando os indies pra dançar nas pistas novamente e não apenas se balançar com músicas sem ritmo ou pular ao som de funk metal.
- caiu na roda A Stroke of Genius, o mashup de Christina Aguillera com Strokes do Freelance Hellraiser, fato auto-explicativo
- saiu As Heard on Radio Soulwax, album do 2ManyDjs que regurgitava em um único set 45 músicas de diferentes frentes do pop, dando a cara esquizofrênica das pistas da década que começava.
- Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro filme da série, foi lançado nos cinemas (se não me engano desbancando no Brasil um recorde do Rambo III), atingindo um público que os livros não atingiam.
- as Torres Gêmeas e a noção de que os Estados Unidos eram uma ilha no mundo caíram.

(No Brasil, não me lembro bem de cabeça. Mas também foi uma época de queda de barreiras. Acho que foi nessa época que os festivais fora do eixo Rio/SP começaram a se fortalecer. Foi uma época em que viajamos bastante com a banda, vários produtores independentes começaram a trazer bandas menores pro Brasil com shows em cidades inusitadas. Mudhoney no Brasil foi em 2001. Jon Spencer, Luna, Cat Power, Nebula (pra quem abrimos quatro ou cinco shows) também. Os sorocabanos do Wry foram pra Londres em 2001. O Festival Calango, que botou Cuiabá no mapa, começou em 2001. Acho que foi por esse ano que bandas como MQN, Forgotten Boys e Autoramas começaram a ter uma base de fãs mais respeitável. E por aí vai.

Mas a questão aqui é a seguinte. Olhe para os exemplos citados na lista acima. Todos eles têm a marca da inclusão e não da exclusão. O punk, o new wave e o grunge traziam a marca da exclusão. O punk brigava com o “sistema”, a new wave com a simplicidade, o grunge com o sistema de novo. Os anos 2001 não vieram pra brigar com ninguém. Sua arma foi a inclusão. Tá todo mundo no mesmo barco. Strokes com Cristina Aguillera, guitarras com pista de dança, 45 músicas onde Emerson Lake and Palmer convivem com Basement Jaxx, um aparelho que permite carregar toda sua biblioteca musical junta, um filme no qual um garoto com poderes mágicos transita entre o mundo da magia e o mundo dos trouxas, festivais e bandas relevantes em locais tradicionalmente excluídos do circuito cultural brasileiro.

Harry Potter não vai chutar a sua bunda porque uma antiga batalha acabou. O sarcasmo, a combatividade e a desilusão dos anos 90 hoje são mainstream. Não são mais tão relevantes, não fazem mais cosquinha. Depois de dez anos aprendendo a misturar e incluir, vamos cozinhar nos próximos dois anos novos conceitos e novos sabores que vão dar o tom da década vindoura. Eu não sei bem quais são eles, mas sabe o que mais? Deixa quieto…

Vôo 447

A queda de um avião sempre mexe com todo mundo das mais variadas formas. Alguns ficam com medo de voar. Outros relembram histórias de pessoas próximas que viveram um drama similar. Uma outra turma se dedica à criar ou repassar piadas relacionadas ao evento. Também tem os que, silenciosos, refletem sobre o significado mais profundo da vida. Uns abrem o coração à distância, se solidarizando da forma como podem com os familiares das vítimas. Outros tem o ímpeto de empreender alguma ação, procurar um responsável. Cada um ao seu jeito, estamos todos, penso eu, procurando absorver o fato absolutamente ordináro de que a morte pode chegar a qualquer momento e de qualquer forma.

Como existe uma distância enorme entre saber racionalmente e integrar isso à compreensão direta, são esses acontecimentos cheios de simbolismos que fazem o trabalho sujo de colocar um tema desconfortável em nossa pauta diária. Quando morrem pessoas em um deslizamento de uma favela, em um ataque da polícia, em um acidente rodoviário, em uma epidemia de dengue, é mais fácil aceitar pois as causas são visíveis e a indignação encontra rapidamente uma via para fluir. Temos explicações, culpados, medidas a serem tomadas.

O Vôo 447, no entanto, parece pertencer mais ao universo do Lost do que do Jornal Nacional: estamos sendo obrigados a engolir uma quantidade incrível de hipóteses sem nenhuma conclusão por tempo demais do que estamos acostumados. E não está sendo divertido. Não é JJ Abrams que está no comando. Não tem ninguém no comando.

Enquanto isso, vamos sendo soterrados com gráficos e explicações para lidar com uma questão mais complicada: não importa o quanto tentemos, o quanto nos tornemos bons em engenharia, um avião de uma companhia respeitável pode sumir de uma hora pra outra e levar consigo uma galera.

A instantaneidade da comunicação digital, nesse caso, vem sendo inútil. Não há novidades na velocidade em que podemos nos atualizar. Ficamos sabendo que um destroço foi encontrado. Que o navio da marinha chegou ao local. Assistimos a representações gráficas do possível local do acidente. Ficamos andando em círculos, fingindo que estamos sabendo de alguma coisa pela crescente incapacidade de suportar o não saber de coisa nenhuma.

Harry Potter vai chutar a sua bunda

Há um tempão li um artigo muito legal na Esquire a respeito da importância do Harry Potter para a cultura pop contemporânea. O ponto do jornalista Chuck Klosterman era muito simples: se você não está acompanhando a série agora em algum nível, prepare-se para ser excluído: você vai perder o fio da meada da maior parte dos produtos da cultura pop dos próximos trinta anos.

Como isso? Bem, acompanhe o gráfico. Se você tem aí entre 25 e 35 anos, com certeza teve algum nível de contato com a série Guerra nas Estrelas ou Os Trapalhões. Da mesma forma, deve ter amigos que não absorveram essas referências e hoje têm dificuldades em serem engajados por determinadas músicas, programas de televisão, filmes ou seriados produzidos hoje. Tenho um amigo que passou batido pelos Trapalhões por morar nos Estados Unidos e o melhor do Hermes e Renato não faz nem coceirinha nele.

Estamos falando aqui de Unidades Básicas de Cultura Pop. Guerra nas Estrelas e Trapalhões são Unidades Básicas de Cultura Pop, átomos fundamentais que serviram de espinha dorsal para uma série de estruturas nas décadas subsequentes. A disco music e o Monthy Pyton são outros exemplos clássicos. Sem o Monty Phyton, não existiria TODA a publicidade contemporânea, especialmente a produzida entre 95 e 2005. Sem a disco music, não teríamos uma cinzenta área sexual que permite a homens chegarem perto do limiar da homossexualidade sem se comprometer demais, mas isso é outro assunto. Também tenho vontade de expandir esse tópico para os filmes do trio Zucker, Abrahams and Zucker como Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu e a obra prima Top Secret, mas isso também rende um blog inteiro…

De volta ao cerne da questã.

A princípio, parecemos estar falando a respeito de um universo bastante restrito formado pelo entretenimento masculino jovem de classe média ocidental. Mas isso é o suficiente para causar uma fissão nuclear. Piadas internas de Star Wars não ficaram presas à órbita desses imberbes. Elas ganharam o mundo, chegaram a paródias de Bollywood e letras de funk carioca. Isso acontece porque os representantes mais intensos dessa cultura, à medida que crescem, passam de fãs a pessoas extremamente bem posicionadas na indústria cultural, chegando ao posto de produtores de cultura pop mainstream. Eu vi isso acontecer com meus próprios olhos. Eu participei de uma lista de emails em 1995 com pessoas que hoje ocupam postos chave da cultura pop (em diferentes níveis, ok). As “bobagens” discutidas naquela lista hoje pautam investimentos substanciais de alguns players relevantes nessa área – inclusive em nível gringo.

Resumindo: quem vai escrever, produzir, dirigir e criticar os seriados, as músicas, os filmes e os games das próximas décadas passou as últimas se embebendo da cultura da magia, especialmente em Harry Potter mas também através da trilogia Senhor dos Anéis, pra não falar de todo o caldo esotérico-tecnológico de Matrix. Se você, como eu e o Chuck Kloterman, não tem uma afinidade muito grande com o mundo das varinhas mágicas, dos elfos, das vassouras que voam, você está FORA. Para quem trabalha com comunicação, isso pode ser impeditivo.

Existem três saídas clássicas pra esse problema que me ocorrem no momento. A primeira é ler os livros da série Harry Potter, um investimento de tempo e paciência talvez muito grande pra quem, como eu, não tem pendor pelo universo de magia. O segundo é ver os filmes, embora você corra o risco de pegar uma fatia mais superficial daquele universo. E o terceiro é o que acabou me beneficiando: conviver com crianças. Minha enteada de 8 anos não é propriamente maluca por Harry Potter, mas tem os filmes e os vê com uma certa regularidade. Ela é minha esperança. Meu salvo-conduto. Meu visto americano. Minha memória expandida em termos de Unidade Básica de Cultura Pop.

(continua semana que vem)