Arquivo: Porto Alegre ’
1 de dezembro de 2011 às 11h53
Três bandas, uma só voz
Amantes dos riffs lancinantes e das batidas contudentes que estiverem por perto de Porto Alegre: não percam esse show sexta-feira! Não é sempre que um line-up se alinha tão bem dessa forma, que a combinação encaixa tanto. Não estamos falando de rock, estamos falando de ciência!
Estamos falando do autoproclamado GRUNGE UNIVERSITÁRIO dos Hangovers, uma das bandas mais bacanas e intensas que apareceu em Porto Alegre nos últimos anos. Se você não acredita em mim, dá uma ouvida nos sons que tem na Trama Virtual – onde, aliás, eles andaram frequentando o primeiríssimo lugar nas paradas por muitas semanas logo que lançaram seu EP, Academia Brasileira de Tretas.
Se o Hangovers trilha o caminho do GRUNGE UNIVERSITÁRIO, a Viana Moog é o NOISE COM MESTRADO. Os caras são mestres em no mínimo duas coisas: misturar poesia ácida (nos dois significados da palavra) com tramas barulhentas de guitarras e também em colocar São Leopoldo no mapa roqueiro do país. A Viana já frequentou as paradas de São Leopoldo, especialmente aquelas na época do colégio no Sete de Setembro.
Já os Walverdes, minha banda, eu espero que você conheça já que frequenta o blog. Desde nossa fundação, em 1993, já fomos escolhidos quatro vezes BANDA DO ANO pelo CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU, duas vezes PERSONALIDADE CARICATA DO ANO pela NASA e cinco vezes PESQUISADORES CONVIDADOS DA UNIVERSIDADE DE HARVARD EM MASSACHUSSETS, OHIO (onde apresentamos o pré-projeto da tese intitulado “Walking backwards – an essay”).
Ficamos seis semanas consecutivas em PRIMEIRO LUGAR NAS PARADA 75 e 76 da RS 40 esperando um ônibus pra Viamãop. Ao lado do GRUNGE UNIVERSITÁRIO do Hangovers e do NOISE COM MESTRADO da Viana Moog, vamos apresentar nossa TESE DE DOUTORADO EM ROCK PAULEIRA.
Quem perder vai ficar mais burro.
***
Ah: chegaram as novas velhas camisetas dos Walverdes. À venda no show ou pelo email marcosrubenich75@gmail.com
30 de novembro de 2011 às 9h00
Tapumes
Não sei se vocês notaram, mas os tapumes de obra mudaram de categoria nas nossas vistas. Eles não são mais efêmeros. Eles não vão mais embora. Um vai, aparece três. Eles se transformaram, praticamente, em parte do acervo permanente da cidade.
8 de novembro de 2010 às 14h22
Paul em Poa
Histórico, lendário, imperdível, arrebatador, incendiário, encontro de gerações… os clichês abundam em tempos de Paul McCartney em Porto Alegre, mas tudo é desculpável porque, vamos combinar, ele foi um dos que inventou todos esses clichês. Não só os clichês que a gente usa até hoje pra descrever fenômenos pop, mas também clichês que nós usamos à exaustão (sem exauri-los) pra nos divertir, pra nos confortar, pra nos entender e até pra fazer negócios.
O impacto do show de Paul McCartney em Porto Alegre vai muito além dos corações acelerados dos fãs mais exaltados e também transcende as inúmeras expressões materiais de carinho e gratidão (tanto as pessoais quanto as institucionais) que o ex-Beatle (existe ex-Beatle??) recebeu. Na verdade, à medida em que o show vai ficando pra trás na memória, lentamente, tenho cada vez mais certeza: não nos é possível entender o impacto e todas suas ramificações que um show desses tem uma cidade como Porto Alegre.
Não se trata aqui de veneração cega ou de atribuição de deidade a uma pessoa tão especial. Na verdade, vamos contextualizar: até sexta-feira eu nem ia no show. Mongol que sou, achei que não seria uma perda tão grande, ninguém morre por não ir a um show. Mas, como os ingressos começaram a pipocar na internet nos últimos dias, intuitivamente acabei comprando o meu e evitei a tempo a falta grave.
Não é preciso chover no molhado quanto aos predicados do show: o set list bem equilibrado, a banda incrível e o homem fazendo jus à lenda. Por isso, vou me focar em escrever um pouco sobre outros aspectos que não estão sendo comentados com tanta intensidade. A começar pela desmistificação da lenda.
Não que Paul, como eu disse, não faça jus à aura mística que se cria em torno dele (lembrem-se que até morto ele esteve), mas é curioso ver que em três horas de show ele leva o público às alturas com os dois pés bem fincados no chão. O rock é um companheiro tinhoso: mexe com você, desestrutura, mas ao mesmo tempo pode colocar as pessoas num transe fantasioso de eterna adolescência, numa acomodação velada. O que se viu ontem, pelo contrário, foi um espetáculo que contém com todas as nuances dessa eterna contradição, o encontro da energia primal com a maturidade e seus resultados impressionantes.
Do domínio da energia primal, vimos um senhor de seus 68 anos tocar durante 3 horas sem pestanejar, sem tomar um gole d’água (até o bis, pelo menos, conforme prometido ao Zeca Camargo…), sem falhar a voz. Engana-se quem pensa que essa é uma característica dos deuses. Ela é dos homens, especialmente dos homens que encaram palcos há mais de 50 anos e que começaram a vida de trabalhador do pop batendo ponto em exaustivas jornadas de trabalho nos bares de Hamburgo.
Talvez dessa verve de operário do entretenimento também venha de uma profunda compreensão das suas responsabilidades e papéis. Paul não resmungou, não fez discurso político, não fingiu ser o messias nem se dobrou ao peso da sua majestade. Em cima do palco, mais uma vez, estava o homem, ladeado por uma estrutura financeira e física de milhões de dólares e guarnecido por um repertório de inigualável apelo. Ele fez, então, o que mandava sua responsabilidade e não sua vontade (embora talvez as duas se mesclem): divertiu o público, fez todo mundo cantar junto, dançar e se emocionar, como os melhores entertainers de arena fazem, entregando o que há de melhor em si, o melhor que é possível de acordo com as condições. E as condições eram excelentes.
Não podemos esquecer que um show dessa magnitude tem outra capacidade de alcance com os recursos contemporâneos. Um som cristalino e perfeito (o operador de som deveria ser condecorado pela Rainha também), além de telões de alta definição possibilitaram a todos no estádio terem acesso aos olhares, os sussurros e os salamaleques não apenas de Paul, mas também de toda sua corte. Agora entendo o problema dos Beatles nos anos 60, quanto tentavam fazer shows em estádios e as músicas eram sobrepostas pela histeria das fãs. Com os recursos tecnológicos de hoje, não haveria esse problema e talvez a história da música fosse outra. Então, não vamos ser hipócritas: música é alma, é coração, é energia, mas uma boa fortuna em tecnologia e estrutura também tem seu papel na construção de um show tão envolvente pra tanta gente.
Eu fui em poucos megashows e esse do Paul foi sem dúvida o maior em todos os aspectos: o de mais público (a visão de cima do anel superior do Beira Rio era extasiante, ainda mais com o sol de pondo), o de melhor som, o de melhor repertório… Mas acima de todos os superlativos, pairou o tempo todo na minha mente uma única idéia, uma idéia simples. Eu me lembrava do Butch Vig, produtor do segundo disco do Nirvana, comentando do poder de fogo da banda. Não recordo bem os termos e as palavras, mas falava da simplicidade da formação em relação ao impacto. Guardadas as devidas proporções, esse era meu sentimento no coração ontem. A beleza de uma configuração tão simples – músicas de três minutos, em grande parte tocadas com duas guitarras, baixo, bateria e teclado - conjurar momentos tão grandiosos.
Como diz outro produtor clássico dos anos 90, Conrad Uno: “You dont need too much. All you need is some mics and maybe some bad reverb.” E, claro, com um adicional que Paul não cantou mas deixou no ar: “All you need is love”.
***
Fotos: a primeira eu roubei da Zero Hora, é do Mauro Vieira. As outras duas são do meu celular.
***
Leiam nos comentários críticas à estrutura local do show no que diz respeito a organização de filas, bebidas e banheiros. Não vivi isso porque cheguei em cima da hora e não saí do meu lugar, mas tem bastante gente reclamando.
3 de agosto de 2010 às 17h50
Pelas costas
Não sei se foi muita leitura de Demolidor e Homem Aranha, mas desde criança eu tenho uma tremenda curiosidade de ver prédios de cima e pelas costas. O centro de Porto Alegre, então, é um prato cheio pra esse voyeurismo urbano.
O que não é fachada geralmente esconde um universo rico tanto para o olhar quanto para a imaginação. E geralmente não só nos prédios, né…
5 de julho de 2010 às 9h59
Hoje à noite!
26 de maio de 2010 às 9h16
Walverdes & The Name hoje no Beco
O Quarta Rádio Show, produzido pelo Marcos (nosso batera) é um programa completo que anda rolando no Beco toda… quarta. A função é a seguinte: começa com a gravação do Império da Lã Apresenta, programa do combo alucinado que é transmitido no domingo pela Ipanema (inclusive na web); na sequência, rola a balada e os shows.
Hoje, além de nosostros, Walverdes, tem mais uma oportunidade pra ver ao vivo em Porto Alegre o The Name, trio de Sorocaba que, a exemplo dos conterrâneos Wry, tem a manha de fazer um som consistente e contemporâneo sem soar como uma afetação de última hora. As músicas no MySpace já cativam e o show me foi bem recomendado por várias fontes confiáveis. Não confia em mim? Então dá uma olhada neles tocando Can You Dance Boy no programa do Lucio Ribeiro, onde eles foram ano passado.
Os caras estão voltando de uma tour gringa. Tocaram até no South By Southwest.
Até logo mais à noite. Tem lista de desconto aqui.
***
Walverdes no Myspace
Walverdes no Orkut.
Walverdes no Fotolog.
Walverdes no TramaVirtual (Playback inteiro pra baixar de graça, bem como a Demo Amarela e o Demasiada Sequela)
Walverdes no Conector
22 de abril de 2010 às 10h49
Balanço Geral
Antes tarde do que nunca: fui ver a exposição do Raul Mourão na Subterrânea no último dia, sábado passado. Conhecia o Raul de nome, das caixas de comentários do Conector. E também tinha visto que ele tinha sido comentado em uma matéria especial da Monocle sobre o Rio (bem antes do caos hidráulico recente). Mas, como bem sabemos, nome é uma coisa e experiência visitando exposição é outra bem diferente.
Não tenho gostado muito de escrever sobre arte. Primeiro porque, craro, me falta conhecimento de causa. Segundo porque, me perdoem o clichê, sempre parece que as palavras não são o suficiente pra enganchar os leitores na minha experiência. Logo, ter ido ver o trabalho do Raul na Subterrânea é mais um desses casos constrangedores: eu quero falar bem, mas não sei como fazer isso sem soar extremamente pretensioso.
Bom… talvez a melhor forma seja simplesmente recomendar fortemente aos leitores que, aparecida a oportunidade, se joguem pra dentro de um espaço com o trabalho do cara e se contentem em passear por ali. Foi mais ou menos essa a minha sensação com o Balanço Geral: o negócio ali não é olhar, apreciar, raciocinar ou pensar. As esculturas cinéticas (ó, já estraguei tudo…) do Raul Mourão parecem pertencer a uma outra classe de coisas que terminam com “ar”: visitar, passear, caminhar, respirar, só estar junto das obras, conviver um pouco com elas (não muito). Quem sabe até comendo um amendoim ou fingindo que não está nem aí. Só não recomendo fones de ouvido e som, acho que aí sim atrapalharia a experiência. Mas, sei lá. Vai saber se pra voce não é melhor?
Bom. Isso tudo não é algo das obras, claro. Nem da exposição ou do espaço. É um lance meu. Se é seu… como saber? Não adianta, você vai ter que dar um jeito de conferir. Cada um com seus problemas.
***
Aproveitando o ensejo, hoje abre um expo nova na Subterrânea. Lyneas e Camadas, com desenhos de artistas latino-americanos. Na abertura, rola bebida e o já tradicional sorteio de obras, no melhor estilo rifa de colégio com números a 5 reais. Um novo clássico de Porto Alegre dando uma refrescada na cena cultural da cidade. Mais informações aqui.
19 de março de 2010 às 15h34
Franz Ferdinand em Porto Alegre
O Matias printscreenou meus tweets. E eu printscreenei o Sujo. Vai lá que tem set list e vídeo do shows Porto Alegre.
1 de outubro de 2009 às 11h51
Conector: agora também no rádio
Gente amiga: a partir de hoje estou em rede nacional na OI FM duas vezes por dia com comentários de um minuto sobre todas essas coisas que eu escrevo no Conector. O programete se chama Minimalismo e veicula às 13h45min e às 20h30min.
Além da felicidade de voltar pro rádio (depois de uma temporada do Ligado, Plugado, Amplificado na Ipanema FM há dois anos), ainda me sinto privilegiado de estar tão bem acompanhado no ar: na Oi tem programa de gente da estirpe do Reverendo Fábio Massari, Maurício Valladares e o Moby (sim, ele mesmo), além de um monte de amigos e conhecidos como o Guilherme Dable, a Juli Baldi, o Cardoso, o Ferla (que é o diretor da Oi aqui em Porto Alegre e me colocou na empreitada), o Leo Felipe, entre outros tantos.
À medida em que os programas forem pro ar, vou colando aqui o texto ou o áudio deles. Fique no aguardo e, se você é de Porto Alegre, comece a sintonizar o 90.3. Pra outras cidades, dá uma olhada aqui no site da Oi.
24 de julho de 2009 às 8h00
Walverdes: segunda CEDO no Jeckyll
Atenção portoalegrenses e arredoresenses: já faz alguns meses que o Jeckyll voltou ao circuito do róque e melhorado: a cerveja está mais barata e os shows não começam à uma e meia. Nesta seguna vamos estar lá, no palco a partir das onze e meia, mostrando as músicas do disco novo com a participação do Julio Porto (Ultramen) que foi produtor do disco (além de colocar umas guitarras massa).
A fotaí de cima foi tirada pelo Xiru na sexta passada lá em São Leopoldo.
E não esqueça: indo agora mesmo no Diesel Cult você pode ouvir duas das músicas novas (Cérebro e Diagonal). Tem também no MySpace, mas a qualidade lá não é das melhores, por isso acabamos indo pro Diesel Cult.
***
Walverdes no Orkut.
Walverdes no Fotolog.
Walverdes no TramaVirtual (Playback inteiro pra baixar de graça, bem como a Demo Amarela e o Demasiada Sequela)
Walverdes no Conector.
14 de julho de 2009 às 11h15
Woody Allen em Porto Alegre
A Zero Hora cometeu um de seus gauchismos mais interessantes no último sábado. Três páginas do Segundo Caderno foram dedicadas a imaginar como seria um filme do Woody Allen se ele viesse filmar aqui. É sabido que ultimamente o diretor novaiorquino vem produzindo em cidades como Londres ou Barcelona graças ao incentivo de produtores ou governos desses locais. Por isso, o diretor, roteirista e ex-Replicantes Carlos Gerbase, a escritora Cinthia Moscovitch e a escritora Claudia Tajes foram convidados pelo nosso querido jornal local a dar sua versão portoalegrense do fato. É só clicar nos nomes que a internet te leva pros respectivos textos.
Eu, de minha parte, passei o fim de semana pensando, então, em como seria o meu filme do Woody Allen em Porto Alegre. Seria assim…
Noah Flemming é um escritor novaiorquino em fim de carreira. Seus livros raivosos e libertários foram quitutes valorizados nos anos 70 e até a metade dos anos 80. Mas, a partir daí, tudo que ele produziu se tornou irrelevante. Diferente de seu público habitual, Flemming não amadureceu e manteve a mesma verve adolescente até os 60 anos. Por mais 20 anos não houve problema, pois ele nunca deu grande peso à bajulação do público e os direitos autorais de seus livros e das adaptações (teatro, cinema, TV) sustentaram sua rotina simples (acordar, escrever, passear, beber, jantar fora, assistir TV e dormir com muitas mulheres).
Mas quando os contratos começaram a expirar, o escritor se viu com uma série de dívidas incrementadas com as pensões de suas três ex-mulheres. A saída foi aceitar todo e qualquer bico que surgisse, fosse de escritor ou não. Uma das fontes de remuneração mais consistentes de Flemming era a doação sistemática de esperma a um banco de um laboratório que ficava feliz em pagar um bônus extra pelos espermatozóides de um intelectual renomado ainda que semi-esquecido. Dessa forma, a vida seguia com algumas dificuldades mas sem grandes sobressaltos.
Problema mesmo foi quando ele descobriu em um médico que uma série de ataques depressivos que vinha lhe acometendo tinham uma origem clara: seus orgasmos. Cada vez que atingia o orgasmo, fosse na cama com uma de suas frequentes companhias, fosse na doação de esperma, Flemming sofria uma severa depressão aguda que durava exatas 24 horas. Para um homem que vivia psicologicamente e financeiramente de ejaculações, a vida começava a se tornar um pequeno inferno.
Sem poder abrir mão do dinheiro do laboratório e com medo de perder suas companheiras, Flemming passou a viver um dia deprimente atrás do outo enquanto buscava uma solução. Nenhum médico de nenhuma área oficial ou alternativa foi de ajuda. Contrariando toda sua mentalidade cética, a resposta veio em um documentário sobre a Amazônia que passou de madrugada na TV e que mostrava um curandeiro capaz de resolver qualquer problema sexual com a baba de sapo. Descrente porém desesperado, Noah Flemming, intelectual que nunca havia tirado os pés de Manhattan, comprou um pacote turístico (incluindo trechos locais pela VARIG) que o levaria até a floresta amazônica pra resolver o único obstáculo intransponível da sua vida.
Foi uma viagem triste. Primeiro porque Flemming tivera que deixar porções extra de esperma no laboratório para poder bancá-la. Segundo, porque quando chegou em Guarulhos, a VARIG estava às portas de falir. Na confusão, uma atendente trocou por engano sua passagem para Porto Velho por uma para Porto Alegre. Dezoito horas depois de sair do aeroporto Kennedy, Flemming desembarcou em uma cidade fria, úmida e sem nenhum traço de floresta por perto. Que espécie de Brasil era aquele?
Ele não entendeu nada. Foi reclamar no balcão da Varig, mas a companhia praticamente não existia mais. Um atendente compreensivo lhe arrumou um voucher para ele passar uns dias em Porto Alegre até que conseguisse que lhe mandassem pra Porto Velho. Desesperado, sem falar português, pegou um táxi para o Sheraton, no Moinhos de Vento (bairro de classe média alta que flutua entre o agradável e o pretensioso). Se a língua e o destino errado preocupavam Flemming, ao menos algo lhe fazia bem: sem precisar doar esperma e encontrar suas namoradas, ele não precisava ejacular nem atender às ligações de suas ex-mulheres.
À medida em que os dias passavam, enquanto ele esperava uma solução da Varig, ele tinha seus dias mais tranquilos e felizes em um bom tempo. Nos primeiros dias, apenas passeou a pé pelas imediações do hotel, conhecendo belas praças, olhando as lindas mulheres e tomando café enquanto fingia ler jornais em português. Depois, se aventurou pelo Museu Iberê Camargo. No terceiro dia, até aceitou a sugestão da concierge e foi a uma churrascaria, onde pôde experimentar um pouco da selvageria brasileira com aquele monte de carne espetada sendo trazida de forma intensa à mesa. Talvez, pensava, não precisava mesmo de baba de sapo de curandeiro, mas simplesmente um pouco de férias e de excessos latinos.
A tranquilidade foi interrompida por um encontro casual no corredor do hotel. Ao ajudar uma mulher a abrir a porta do seu quarto, Flemming se viu atraído por uma conterrânea. A dra. Amy Fitzpatrick se apresentou como uma cardiologista novaiorquina participando de um trabalho no Instituto do Coração por tempo indeterminado. Estava ficando o primeiro mês no hotel, mas depois iria para um apartamento alugado por uma fundação e ficara feliz de encontrar alguém da sua cidade. À noite, os dois jantaram no Bar do Beto (outra sugestão da concierge), beberam uma cerveja que só tem no Rio Grande do Sul e resolveram caminhar na beira do Parque da Redenção às dez da noite, como gostavam de fazer no Central Park individualmente quando estavam na sua cidade. Quase foram roubados, não fosse a intervenção de um vendedor de cachorro quente que os advertiu minutos antes de serem abordados por assaltantes.
Já no hotel, Flemming resistiu bravamente às insistentes propostas de Amy para que os dois dormissem juntos. Sentindo-se solitária e sendo bastante ativa sexualmente, desde o jantar ela começara a fazer insinuações, mas com medo de cair novamente em depressão, ele se fez de salame e conseguiu escapar por pouco. No entanto, havia se afeiçoado por ela. Na semana seguinte, os dois passaram todo o tempo livre de Amy juntos. Conheceram a Zona Sul de Porto Alegre e visitaram o centro em um fim de semana. Foram ao Theatro São Pedro e comeram no Mercado Público. Pediram bauru por tele-entrega no hotel uma noite e em outra passearem pela Cidade Baixa (os dois tinham isso em comum, adoravam caminhar) e acabaram a noite tomando Polar e comendo xis no Cavanha’s. Nessa noite, bêbado no Cavanha’s, Flemming revelou sua história a Amy. Contou de seu problema e por que vinha resistinto às investidas da amiga, apesar de estar bastante interessado. Chocada, ela comentou com ele que sua pesquisa versava justamente sobre os efeitos do orgasmo no coração. Bêbado, ele acreditou e aceitou se submeter a um exame no Instituto do Coração.
No dia seguinte, tomado por uma ressaca portoalegrense, Flemming correu vinte minutos em uma esteira do Instituto do Coração e quase morreu. Passou o dia no hospital dormindo e no fim da tarde recebeu a notícia de Amy: seu problema havia sido resolvido com o desentupimento voluntário de uma artéria. Ela mostrou rapidamente os exames a ele, que não entendeu nada, mas ficou tão feliz que pulou da cama e a convidou de volta para o hotel, o que ela aceitou prontamente.
Na manhã seguinte, após uma noite de amor, Flemming acordou receoso. Abriu primeiro um olho, depois o outro. Olhou para Amy ao seu lado na cama e depois para o próprio corpo. Abriu uma fresta na janela e viu que o dia estava nublado, cinza. Ainda assim, sentia-se bem. Achou o cinza inspirador e a chuva que se anunciava como um bom sinal. Estava curado.
Antes de acordar, ainda percebeu uma folha dobrada que havia sido empurrada por baixo da porta do quarto. Era um bilhete da recepção, avisando que a companhia aérea havia resolvido a questão de sua passagem e que ele podia partir para Porto Velho no mesmo dia. Olhou para Amy e olhou para a carta em suas mãos.
Corta para dois meses adiante.
Amy e Flemming estão caminhando na beira do Rio Guaíba, olhando o Pôr-do-Sol com o Gazômetro às costas. Crianças brincam ao redor e Flemming está com cara de surpreso olhando para Amy. Fala de forma nervosa:
“Quer dizer que aquele exame era de outra pessoa? Nunca houve nada de errado comigo? Você simulou aquele teste? Os relaxantes musculares, tudo aquilo… você me manipulou? Eu não posso acreditar como caí nessa. Você vê a ironia disso tudo? Eu deixei de ir à Amazônia me consultar com um curandeiro duvidoso pra me colocar nas mãos de uma cientista e você…. você…. Amy… você é incrível…”
Os dois se abraçam com o Pôr-do-Sol às costas e o filme termina.
22 de maio de 2009 às 14h19
Walverdes e Superguidis: bastidores
Desde que a idéia desse encontro surgiu, passei a tomar notas em um caderninho registrando fatos e sensações de todo o processo de produção, ensaio e troca criativa entre nós e a Superguidis. Abaixo vai um compilado dos relatos mais relevantes.
06 de janeiro de 2009 – Vitor (dono do Beco) ligou pro Marcos (baterista e produtor dos Walverdes) e marcou um encontro secreto no Cavanha’s (bistrô portoalegrense). Chegando lá, o Marcos achou estranho o Vitor estar de sobretudo e óculos escuros em uma tarde de verão, mas de qualquer forma ouviu a proposta dele: um milhão de reais para um show conjunto com a Superguidis. Na hora, o Marcos infartou e o garçom do Cavanha’s chamou uma ambulância da SAMU e trouxe a conta.
07 de janeiro de 2009 – Eu (guitarrista e faxineira dos Walverdes) e o Patrick (baixista e chapeador dos Walverdes) visitamos o Marcos (gaitista e frentista dos Walverdes) no Pronto Socorro de Porto Alegre, onde ele contou do milhão. Chegamos à conclusão de que ele estava delirando, o que foi confirmado pelo Vitor (arquiteto do Beco), que foi visitar o Marcos vestido de czar russo. Ele disse que ofereceu 400 reais. Eu e o Patrick aceitamos na hora, mas o Marcos ficou agitado e foi preciso chamar enfermeiros de torso esbelto com medicamentos fortes pra contê-lo.
19 de fevereiro de 2009 – Marcos (escultor e eletricista dos Walverdes) acordou do coma induzido e foi levado pela Lise direto para o estúdio Marquise 51 onde começamos os ensaios das músicas do Superguidis. Mesmo debilitado, ele tocou brilhantemente. Após oito horas de intenso trabalho, conseguimos tocar os dois primeiros compassos da introdução de O Véio Máximo e saímos pra comer um pastel com borda.
31 fevereiro de 2009 – Eu (quiropraxista e tocador de tuba dos Walverdes) recebi uma ligação da secretária do apresentador e torturador de meninininhas Silvio Santos pedindo a letra de Altos e Baixos. Ouvi risadas ao fundo, mas desde que perdi um pacote turístico pra Europa porque não acreditei na mulher do telemarketing do Show de Prêmios Biloca, passei a responder a todo e qualquer telefonema esquisito. Enviei a letra para o fax particular do apresentador, na sede do SBT em Phobos, uma das luas de Marte.
1º março de 2009 – Comprar meias urgente.
5 de março de 2009 – Hoje Andrio (cabelereiro do Superguidis) tentou atropelar o Marcos (motoboy e modelo dos Walverdes), que se salvou pulando dentro de um papa-entulho (o que vai gerar material pra piadas por meses a fio). De dentro do equipamento, o Marcos ouviu o Andrio vociferar algo a respeito da dificuldade em acertar as batidas quebradas de Anticontrole.
23 de março de 2009 – Concluímos o ensaio da primeira parte de O Véio Máximo. O mês de abril será dedicado ao refrão.
28 de março de 2009 – O Patrick (estilista e maquiador dos Walverdes) lançou pela sua grife Sound and Image uma camiseta com os acordes e a letra de Spiral Arco Íris do Superguidis. Um fã ardoroso da banda de Guaíba (cidade famosa por hospedar o sol após o pôr-do-sol de Porto Alegre) corrigiu o Patrick no Orkut, no Twitter, no Facebook e por cartão-postal, dizendo que está tudo errado, fora a palavra Arco Íris. Embora sejam duas palavras, o garoto está certo mas foi sumariamente vetado do mailing da Sound and Image, o que lhe causou problemas de pele e complicou a parada do visto pra Eslováquia.
20 de março de 2009 – Começou o outono.
1º de abril de 2009 – Um DOC no valor de 1 milhão de reais caiu na conta do Marcos (economista e poeta dos Walverdes). O preço do trigo no Zimbabwe disparou.
12 de abril de 2009 – Lucas (articulista e chargista da Superguidis) me ligou de madrugada e conversamos longamente sobre progressões de acordes, dedilhados, pestanas e piruetas das músicas da Publica. Falei que eles tinham que tocar Walverdes mas ele me ignorou e mudou de assunto, passando a comentar sobre as progressões de acordes, dedilhados, pestanas e piruetas das músicas da Publica. Desde então, cortei a comunicação falada e passamos a nos dirigir um ao outro apenas pela língua dos sinais.
18 de abril de 2009 – Michele (produtora e ativista social do Beco) ligou para o Marcos (coletor de impostos e fotógrafo dos Walverdes) implorando que fizéssemos um ensaio sensual com as duas bandas seminuas para o Colírio do ClicRBS. Ofereceu um milhão de reais, o que levou o Marcos de volta ao hospital (as anotações do resto desse dia estão confusas, muitas contas e desenho, como se eu tivesse passado bastante tempo ao telefone).
1º de maio de 2009 – Dia do Trabalhador.
12 de maio de 2009 – Diogo (mestrando em direito e vestibulando de nutrição dos Superguidis) fez um comentário jocoso sobre o cabelo do Marcos (geógrafo e manipulador de imagens dos Walverdes) em pleno Open Bar do Beco às 4 da madrugada, o que gerou uma briga escorregadia sobre uma poça de conhaque, lembrando aquelas lutas femininas no gel. O Vitor (cientista e maquinista do Beco) pediu que eles repetissem a performance no fim de semana seguinte e lançou o Teatro do Beco.
17 de maio de 2009 – Grande dia! Finalmente as duas bandas se reuniram! Grandes esclarecimentos, me sinto muito mais aliviado agora que descobrimos estar tocando tudo errado! Realmente, O Véio Máximo não é uma polka como julgávamos! Planejamos tocar juntos, mas perdemos a tarde e a noite inteira buscando uma saída para as empresas de Warren Buffet, que foi capa da Exame. A revista pegou pesado com o bom velhinho, acusando-o de investidor fracassado. Às 3 e meia da madrugada em Guaíba, encontramos uma saída para os investimentos de Buffet, mas perdemos o papel.
***
Espero que essas anotações tenham enriquecido a experiência de quem foi ao show e oferecido a quem não foi um olhar mais aprofundado no incrível processo desse projeto!
Até a próxima!
21 de maio de 2009 às 7h52
É hoje: Walverdes toca Superguidis toca Walverdes
19 de maio de 2009 às 14h52
Se disserem por aí que tomblochearei, é verdade
Dia 21, se der tempo, estarei na platéia. Porque temos show com os Superguidis no Beco, conforme falei alguns centímetros abaixo. Dia 28, por outro lado, vou me juntar à Tom Bloch pra tocar três músicas da banda das que eu fiz ou ajudei a fazer. Dá vontade de tocar um show inteiro.
28 de janeiro de 2009 às 1h19
Little Joy estréia turnê em Porto Alegre
Há pouco mais de 2 horas terminou o primeiro show da turnê brasileira do Little Joy, parceria do hermano Rodrigo Amarante, do Stroke Fabrizio Moretti e a mina-de-nome-cool Binki Shapiro. Como era de se esperar, apesar de eu realmente não ter lembrado disso, o bar Opinião foi absolutamente lotado por fãs de Los Hermanos. Essa é a única explicação para o fato de não haver disponível espaço para coisas básicas como respirar durante a bela apresentação de 50 minutos do trio que ao vivo vira sexteto.
Amarante estava emocionado, fazendo suas dancinhas clássicas. Fabrizio Moretti ensaiou um português alegre e Shapiro tem a presença de palco de um vaso ming, mas fecha total com o que se espera do conjunto. A galera na platéia simplesmente estava FELIZ. O show foi inspirado, descontraído e querido. Amarante fez questão de frisar sua escolha por Porto Alegre como início da turnê por motivos emocionais. Moretti disse que era a primeira vez que tocavam se sentindo em casa, apesar de terem feito vários outros shows ao redor do mundo. Na platéia, alguns representantes da clássica ironia portoalegrense gritavam pedindo Ana Júlia. Mas 99% do público estava lá para curtir qualquer suspiro de Amarante, que cumpriu as expectativas do povo.
O clima era muito parecido com um show dos Los Hermanos (idolatria), com um detalhe: a despretensão era clara no ar. O rock, em geral, funciona em uma espécie de régua de extremos. As bandas mais legais são as absurdamente pretensiosas ou as absurdamente despretensiosas – desde que a despretensão ou a pretensão sejam combinadas com talento. No caso do Little Joy, o fator despretensão toma a frente da parceria com talento. Como no disco, o show soa um encontro de amigos num fim de tarde na praia. O que você quer mais?
O detalhe é que esses amigos tem referências relevantes e sabem o que fazer com meia dúzia de notas, um tecladinho e uma guitarra semi-acústica. O resultado é muito simples e independe da platéia paga-pau: rock com influências cinquentistas/sessentistas, praiano, alto astral e relaxado, sem pedir mais do que a simples curtição. Poucas vezes o nome de uma banda foi tão adequado. Little joy, um pequeno prazer, é tudo que precisamos em uma era de cultura multifacetada, complexa e cheia de barroquismos digitais.
Tomara que os caras não compliquem.
*******
Foto roubada do Danilo, que tem mais a falar sobre o show.
15 de novembro de 2008 às 8h00
É hoje: Walverdes no Gig
Olha o cardápio:
Arthur de Faria
Nobs
Canja Rave
Atrack
Camboja Motel
Viana Moog
Alcaloides
Mallu Magalhães (SP)
Nevilton (PR)
Pública
Revoltz (MT/RS)
Walverdes
Identidade
Superguidis
***
O festival vai rolar na quadra da Escola de Samba Praiana (Av. Pe. Cacique, 1261).
Ingressos antecipados na Pó de Estrela (Alberto Torres, 228).
11 de setembro de 2008 às 9h34
Hives em POA – 8.09.08
O Hives é aquela coisa: uma verdadeira obra de engenharia sueca que não soa como uma. Vindos do país que inventou o relógio (ou ao menos o elevou ao estado de arte), os caras martelam riffs de forma exata, tudo dentro do tempo como se um metrônomo fosse o sexto membro da banda (um amigo meu me assoprou que o batera, sim, toca com um ponto e um metrônomo, bem como existem uns amps extra atrás dos “oficiais”). Fora a amizade com o andamento, as roupas alinhadas e a noção de espetáculo expõem ao olhar mais atento um outro significado para a palavra “engrenagem”. Tudo funciona bem no Hives. É incrível.
Apesar disso, três coisas impedem a banda de soar como ciência exata: a excelente fonte de referências (quem conseguiria misturar tão bem a sujeirada e a velocidade do Sonics e com a batida reta do Devo?), a aparente paixão e a atitude entertainer. É esse terceiro elemento, contudo, que mantém a banda longe da vala comum da mera regurgitagem do rock – afinal referências e paixão dão origem a muita porcaria.
No palco do Hives, não apenas o vocalista Howlin’ Pelle Almvquist comanda o espetáculo com carisma e habilidade como os outros integrantes da banda compõem um retrato equilibrado deixando espaço adequado para todos: o jeitão psicopata de Mr. Nicholar Arson, o “tô na minha tocando intenso” do Vigilante Halmstrom, o desdém meio “Blues Brothers” de Dr. Matt Destruction e o olhar assassino do baterista Chris Dangerous. Tudo isso poderia dar em um show estilo “malvadão do rock”, mas uma generosa camada de sarcasmo capitaneada pela interação do vocalista com a platéia distensiona tudo, oferecendo a um público cri-cri pra cacete a oportunidade de sorrir um pouco e de:
- Bater palmas quando o vocalista manda
- Responder ativamente ao chamado “Te amo Porto Alegre”
- E participar de coros desavergonhosamente…
… sem o perigo de destoar do ambiente que o som venenoso da banda poderia criar.
Coisa de engenheiro do bem.
Os caras são bons. Não vão mudar o mundo, mas espalham um pouco mais de bom humor sobre uma base musical consistente. Perto do que vemos muitas vezes, já tá de bom tamanho.
***
Foto: daqui.
14 de agosto de 2008 às 11h59
Lixeiras
Um amigo meu me chamou a atenção e agora eu não consigo dirigir pela cidade sem prestar atenção nessas simpáticas lixeiras que a Prefeitura está instalando por toda Porto Alegre e que o pessoal do Nova Corja acha parecido com o Kenny.
Fora o fator DEMORÔ, é uma boa novidade. Segundo o DMLU, já foram instaladas 5 mil lixeiras e o objetivo é chegar a 8 mil. Como eu circulo mais pela área central, estou vendo bastante delas, meio que parece uma epidemia. Espero que as periferias não estejam sendo negligenciadas.
Mas o grande lance, além da quantidade, é esse design mais amigável, menos durão e burocrático (que o pessoal do Noteu chama de R2D2). Pode parecer bobagem, tem gente que acha frescura, mas esse tipo de coisa ajuda no panavision da cidade, faz parte daquela coisa chamada qualidade de vida.
Isso não vai me fazer votar no Fogaça, mas enfim, fica o registro.
12 de agosto de 2008 às 11h16
David Lynch em Porto Alegre
E David Lynch conseguiu mais uma vez: criou um ambiente surreal, mas dessa vez de um jeito que ninguém esperava (apesar do claro título da palestra). Sua participação na conferência Fronteiras do Pensamento estava mais pra “A História Real” do que pra “Cidade dos Sonhos”. Em vez de enfatizar o lado bizarro e obscuro do ser humano, como faz na maior parte dos seus filmes, Lynch veio subilnhar a natureza pura e brilhante da mente humana que ele declara experienciar regularmente por ser praticante da Meditação Transcedental.
Técnica divulgada pelo mestre indiano Maharishi Mahesh Yogi, a Meditação Transcedental se tornou célebre nos anos 60 e 70 quando os Beatles, o cantor folk Donovan e Mike Love dos Beach Boys (que virou professor de MT) se conectaram com os ensinamentos de Maharishi. Uma história controversa no retiro de seis semanas dos Beatles jogou sombras sobre a experiência durante um tempo, mas tanto Lennon quanto George e outros presentes desmentiram a maledicência creditada ao “mago da eletrônica” da Apple Records Alexis Mardas. O que há por trás de tudo isso, não sei dizer ao certo, teria que pesquisar mais.
O fato é que a Meditação Transcedental é uma das práticas contemplativas que mais ganhou notoriedade no ocidente. Eu, particularmente, não conheço e vejo algumas diferenças básicas com as práticas budistas que eu pratico, mas fiquei muito feliz de ver um cara como o David Lynch chegar aqui e subverter o clichê do gênio atormentado que cria obras dementes e divulgar amplamente uma prática de meditação. Para algumas pessoas, ouvir certas palavras de um cara imerso na cultura pop faz mais sentido do que se elas fossem ditas por um senhor de barbas, cabelos, roupas brancas e chinelos. São nossas limitações. Eu sou meio assim às vezes.
Lynch contou que pratica Meditação Transcedental há 35 anos e que a considera uma chave para acessar um nível de consciência mais claro, infinito, repleto de potencial criativo e amoroso. Falou de estados de bem aventurança que experimenta graças à sua prática e também das soluções criativas que ela traz para determinados filmes.
“Cidade dos Sonhos foi rodado para ser um piloto de TV. Um executivo da ABC assistiu ao copião às seis e meia da manhã, com uma caneca de café numa mão e um telefone na outra. Ele detestou o filme e eu fiquei com aquelas histórias abertas todas sem saber o que fazer. Demorou um ano para termos a liberação legal do que foi filmado e quando conseguimos eu precisava transformar aquilo em um filme pra cinema. A solução criativa veio em uma sessão de Meditação Transcedental, como um colar de pérolas que brotou do meu interior”.
O diretor de Veludo Azul também defendeu que uma técnica contemplativa como a Meditação Transcedental ajuda as pessoas a procurarem a felcidade e a criatividade dentro de si e jogou uma pá de cal sobre a imagem de artista sofrido dizendo que a negatividade é inimiga da criatividade, que você não pode criar em estados depressivos e, em voz firme, pausada e clara que “o ser humano não existe para sofrer. Nossa natureza básica é a felicidade. O indivíduo é cósmico”, slogan que repetiria ainda umas duas vezes ao longo da noite. Contou do trabalho de sua fundação, que levantou mais de 5 milhões de dólares nos últimos dois anos para divulgar e implantar programas de meditação em escolas públicas e privadas, contribuindo para a diminuição da ansiedade, stress e violência.
A uma certa altura, uma pergunta bem colocada veio da platéia: “Por que então seus personagens sofrem tanto?” A resposta veio sem constrangimento: “Em todo lugar as pessoas me perguntam isso. Acontece que todas as histórias tem conflitos. Mas o artista não precisa sofrer pra mostrar sofrimento”. Ainda trouxeram à tona os exemplos de Van Gogh e Artaud, mas ele não arredou o pé: “Garanto que enquanto Vang Gogh e Artaud criavam, eles experimentavam felicidade.”
Sobre cinema, falou pouco e ninguém pareceu sentir muita falta. A respeito das limitações de certos equipamentos digitais, comentou que a má qualidade pode ser uma ferramenta: “Você acaba mostrando na tela menos coisas e isso aguça a imaginação de quem assiste.” Também declarou que no momento não tem planos para um longa e que o meio ideal para histórias contínuas como Twin Peaks é a internet. E que tem se dedicado a divulgar a Meditação Transcedental, a pintar e a fotografar.
A platéia se mostrou bastante receptiva às idéias contemplativas de Lynch, provavelmente encantada por sua figura carismática, calma e elegante. No final da palestra, entrou em cena o parceiro de Lynch na tour de divulgação da Meditação Transcedental, o trovador escocês Donovan. Armado apenas com um violão e um amplificador, tocou seus clássicos entremeados com histórias dos Beatles e de Maharishi. Uma vibe boa invadiu o Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, mas tive que sair antes do final, perdendo a recitação do mantra de Maharishi pelo David Lynch. Ainda pude pegar, ao menos uma pergunta do mediador Gilberto Perin sobre a relação entre drogas e auto conhecimento. Donovan falou na boa: “As drogas são um caminho de fora pra dentro. A meditação é um caminho de dentro pra fora”.
Enfim. Fazendo jus à sua imagem de cineasta altamente criativo, Lynch teve a manha de inverter algumas lógicas do seu meio. Mesmo sem ter uma câmera ao seu comando, criou uma atmosfera e fez mais do que falar de sua obra e contar histórias. Mesmo a quem não se conectar com seu caminho, deixou um recado claro e importante a respeito da necessidade de paz interior como eixo fundamental de uma paz no “mundo externo”. Também é interessante alguém falar de técnica, regularidade e disciplina no que diz respeito à contemplação. A vasta literatura e o jornalismo de auto-ajuda falam, falam, falam em buscar a felicidade interior, mas muito pouco é dito sobre a necessidade de treinamento de práticas contemplativas. Quando vemos uma reportagem em uma revista ou na TV, parece que “basta você simplesmente querer”, mas esse tipo de coisa é como aprender a tocar um instrumento, uma nova língua ou desenhar ou tocar: é preciso treino, prática constante e, o mais importante e diferente de tocar guitarra, um professor.
***
Um disclaimer necessário: não conheço a tradição da Meditação Transcedental e seus professores e acho muito delicado sugerir algo desse tipo às pessoas sem um contato mais próximo. Portanto, se alguém quiser alguma dica de centro de meditação ligado à tradição budista, que é o que eu conheço, é só escrever: gustavomini(arroba)gmail.com.
12 de junho de 2008 às 10h18
Iberê
Domingão frio, chuvoso, úmido, chato. A família a fim de dar um passeio e qual é a opção de lugar fechado? Shopping. Não dá né. Pois então. Agora tem um lugar pra passear em Porto Alegre. Um lugar incrível. A nova sede da Fundação Iberê Camargo, projetada pelo arquiteto português Álvaro Siza, com um projeto premiado na Bienal do Tal e Tal e vencedor da Comenda do Passarinho Não Sei Aonde.
Sei que parece bobagem reduzir um puta dum museu a um “lugar pra passear”, mas vou te dizer que eu considero esse o maior dos elogios que poderia me brotar. É de coração. Porque nosso passeio no domingo foi bem isso, um passeio, como quem caminha por um parque, dá uma respirada, olha ao redor, enche os pulmões e segue em frente renovado.
No lugar das árvores, uma retrospectiva da obra de Iberê Camargo, pintor, gravurista e escultor gaúcho que tem nome no meio da arte mas que eu, confesso, nunca tinha olhado direito. E saí de lá muito impactado. Vou voltar outras vezes. Não só pra ver o museu, que é uma coisa, mas quero revisitar a obra do Iberê (até fim de agosto, a mostra fica lá).

Eu ainda não tenho muito o que escrever sobre meu encontro com o Iberê. Mas sei que a história dos carretéis me fisgou. Ele tem duas fases de vida, se não me engano, em que pintou carretéis. E eu pensando “qualé a desse cara com esses carretéis…” Até li a explicação da parede, falando na questão da industrialização e o fim da utilidade dos carretéis… mas e daí? Achei pouco… até que me dei conta, até que eu comecei a ver que os carretéis são na verdade esqueletos do tempo.

Carretéis vazios da linha do tempo, ossos expostos do que antes era coberto pela ilusão do tempo. Sem o fio que cruza os nossos acontecimentos, só sobram os carretéis desnudos… tem coisa aí… eu não sei exatamente o que, mas eu garanto que tem… tem ainda as bicicletas… meu, tem coisa lá…
***
Uma curiosidade… “Kikito aos Medas”, música que abriu a terceira fita cassete dos Walverdes em 1994 (além de integrar uma coletânea da finada Banguela em CD), trazia uma lista de nomes de pessoas que morreram em 94. Além de Iberê, naquele ano se foram Mário Quintana, Kurt Cobain, Charle Bukowski, Mussum e mais alguém que não me lembro…todos eles eram a letra de Kikito.
30 de abril de 2008 às 15h57
Conector entrevista Disc-o-nexo

Esse post é uma falcatrua. O entrevistado é meu amigo. Ele tem uma festa. E eu nunca fui na festa. Mas uma falcatrua legal: o assunto é música boa em uma festa diferente e muitas pessoas que eu conheço foram e deram o aval. Na dúvida, dê uma olhada nas fotos. Aproveita e já olha os flyers.
Enfim. Disc-o-nexo é o nome e o conceito por trás da fritação quinzenal que acontece no Laika em Porto Alegre. Tudo na Disc-o-nexo procura desdizer cada palavra que dizem as outras festas daqui. Começa pelo local, fugindo do clichê da hora que é pegar o circuito Cidade Baixa/Bom Fim. Passa pela música, que transcende gêneros em nome de um eixo dançante e alegre, fugindo do clichê rock e/ou electro e/ou sixties. E termina assumindo a regra “locals only”, fugindo do clichê de ficar babando ovo de alguém só porque não é da cidade.
Os dois criadores da Disc-o-nexo têm credenciais suficientes para levar a peteca adiante. Landosystem é o nome falso de Renan Schmidt. Renan tem uma folha corrida de serviços prestados à cena eletrônica da cidade, seja como designer (responsável por começar a onda dos flyers decentes e também pela programação visual de algumas casa emblemáticas na cena como o bar Espiral e o club Spin), seja como DJ, seja como grilo falante atuando de forma intensa em conversas com outros DJs, produtores e donos de casas noturnas. O DJ Chaves, além da sua produção própria, comandou o baixo da Groove James, banda de soul/funk ligada a toda uma geração de estudantes de comunicação da PUC e que teve o primeiro disco produzido por ninguém menos que EduK.
Mas isso é passado. Os dois agora só querem saber de fritura e disconexões. Sobre isso, o Renan (com quem, na real, eu até já tive uma banda) falou com o Conector.
Conector: Como surgiu a idéia da festa?
Landosystem: Eu e Chaves já tocávamos há uns 3 anos no circuito eletrônico de Porto Alegre e interior, quando sentimos uma certa limitação diante da generalização e repetição da música que se esperava dessa cena. Por outro lado, a cena rock da cidade, que aqui normalmente é bastante conservadora, teve um pequeno surto de influências dançantes, o que se percebia em festas convergentes como a saudosa O Dia Do Flamingo. Mas, ainda assim, absorvíamos muita música incrível e híbrida que não rolava em nenhuma pista na cidade. Ano passado trocamos umas idéias com o Marcelo do Laika que curtiu a idéia da festa logo de início.
Conector: Me diz uma coisa: pra que produzir festa? Não dá muito trabalho?
Landosystem: É tudo motivado pelo amor à música: escutar coisas emocionantes, vontade de compartilhar essas isso com outras pessoas, dançar e mixar músicas diferentes num alto e bom som na compania dos amigos. Dá um certo trabalho, mas mantendo essas simples motivações em foco, rola uma troca de energia muito bacana.
Conector: Qual a melhor parte de fazer a festa?
Landosystem: Tocar durante os diferentes momentos da noite, e ver a música chegando nas pessoas, se manifestando nas dancinhas e nos sorrisos. Isso, e aumentar o volume.
Conector: E a pior?
Landosystem: Esperar a hora dela começar! Nunca sei o que fazer pra passar o tempo.
Conector: Por que o conceito de “locals only”? Isso não acaba fechando demais as possibilidades? Não acaba corroborando a idéia de gaúcho bairrista?
Landosystem: Essa idéia surgiu mais como necessidade da situação… nossa festa é pequena, provocante na sonoridade, acontecendo não uma mas duas vezes ao mês, numa cidade pequena como Porto Alegre. Até hoje, tudo que rolou de grana, foi reinvestido na estrutura técnica, surpresinhas para os convidados e alta tecnologia robótica. Somos dois hiperativos em relação à música, querendo repassar muita informação, e desde o início Chaves e eu contamos com apoio integral de amigos, e alguns desses como o Pedro Damasio são DJs com ótimos sons, sacam nossa pilha ainda que mantenham personalidade própria. Então nessa fase inicial acho que ainda temos muito o que aprender entre nós mesmos. Sobre o bairrismo gaúcho, sobre esse assunto o que mais percebo por aqui é pagação de pau só porque tal DJ ou produtor vem de fora do estado. Às vezes isso acaba desviando atenção da responsabilidade e produção dos artistas locais. Quem sabe num futuro próximo poderemos bancar ótimos artistas de fora sem comprometer o desenvolvimento sustentável da festa.
Conector: Rola um intercâmbio com DJs ou produtores de outras festas?
Landosystem: De Porto Alegre? Sim, nós sempre enviamos nossos spams pra eles, e eles nos retornam com o spam deles, sistematicamente tentando copiar o nosso.
Conector: Quem é Robopop? O que ele faz na festa?
Landosystem: Robopop é o domínio do nosso site e também um avatar promocional, era o host inflável da festa mas explodiu. Ele já foi substituido, estamos na terceira geração de upgrades.
Conector: Os estilos musicais que aparecem na divulgação são bem contemporâneos (nu-disco, nu-rave, discorock, essas coisas). O que vai se fazer quando esses estilos começarem a ser considerados passado, o que pode acontecer a qualquer momento?
Landosystem: Não levamos esses nomes muito a sério, pra nós eles funcionam mais como sinalizadores da nossa ênfase em novidades interessantes, e isso é uma coisa que estaremos sempre afim de manter. Quando começamos a divulgação da festa há um ano, descrevíamos a festa de uma certa forma e no som rolavam várias coisas, hoje em dia tudo isso já mudou muitas vezes e não temos medo de abandonar idéias em favor de outras, ou trocar de nomes. Desde que estejamos nos divertindo no momento, isso é o que nos leva adiante.
Conector: Quem vocês gostariam de trazer se quebrassem a própria regra de “locals only”?
Landosystem: O Laika é compacto, não comporta grandes shows… mas alguns exemplos seriam os curitibanos Bo$$ In Drama que tem um live super animado, e seria uma honra receber os argentinos do The Spirals, adoramos o som deles e ouvimos dizer que ao vivo é incrível.
Conector: Quando vocês vão agilizar isso?
Landosystem: Deve acontece quando pudermos bancar propriamente artistas que consideramos bacanas, mantendo a qualidade de toda estrutura que permite ser divertido tanto pra nós quanto pro público. Não queremos que venham tocar de favor, mas sim quando for viável e relevante pra festa.
Conector: O que vocês fariam diferente nas primeiras festas? O que vocês aprenderam a regular ao longo do tempo?
Landosystem: Aumentaríamos mais o volume! Ter uma residência fixa, nesse formato quinzenal, é um aprendizado incrível em vários aspectos, tu começa a desenvolver sensibilidade sobre a noite como um todo, e não só pela duração de um set.
Conector: Existe door police? Alguém não é bem-vindo?
Landosystem: Não temos door policy até porque nem temos uma hostess ainda… será que alguém se candidata?
Todos são bem-vindos pra fritar com a gente, só não pode ir esperando que os DJs toquem Britney Spears ou algum electrotrash vulgar da hora, a gente sempre vai preferir coisas menos óbvias e mais originais pra sacudir na pista.
Conector: É muito raro uma festa durar muito tempo sem ir minguando aos poucos… não existe muita longevidade nesse negócio. Como vocês pretendem lidar com isso?
Landosystem: Nos concentramos em chegar na semana seguinte, porque no geral não pensamos tão além. Mesmo se pensássemos, teríamos em mente que é tudo sempre ligado à música, e nossa curiosidade afins de coisas divertidas. A festa naturalmente espelha essa característica, e se chegar o momento em que não ela fizer mais sentido, principalmente pra nós mesmos, não vamos hesitar em desfazer tudo pra começar uma história em outro sentido. Ou não.
Conector: Por que vocês sempre fazem a festa quando eu estou viajando?
Landosystem: Que culpa temos nós se tu tem banda, blog, família e emprego? A festa é sempre no primeiro e terceiro sábados do mês, te coordena! :P













































Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 
