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Arquivo: Porto Alegre

Conector entrevista Disc-o-nexo


Esse post é uma falcatrua. O entrevistado é meu amigo. Ele tem uma festa. E eu nunca fui na festa. Mas uma falcatrua legal: o assunto é música boa em uma festa diferente e muitas pessoas que eu conheço foram e deram o aval. Na dúvida, dê uma olhada nas fotos. Aproveita e já olha os flyers.

Enfim. Disc-o-nexo é o nome e o conceito por trás da fritação quinzenal que acontece no Laika em Porto Alegre. Tudo na Disc-o-nexo procura desdizer cada palavra que dizem as outras festas daqui. Começa pelo local, fugindo do clichê da hora que é pegar o circuito Cidade Baixa/Bom Fim. Passa pela música, que transcende gêneros em nome de um eixo dançante e alegre, fugindo do clichê rock e/ou electro e/ou sixties. E termina assumindo a regra “locals only”, fugindo do clichê de ficar babando ovo de alguém só porque não é da cidade.

Chaves & Landosystem

Os dois criadores da Disc-o-nexo têm credenciais suficientes para levar a peteca adiante. Landosystem é o nome falso de Renan Schmidt. Renan tem uma folha corrida de serviços prestados à cena eletrônica da cidade, seja como designer (responsável por começar a onda dos flyers decentes e também pela programação visual de algumas casa emblemáticas na cena como o bar Espiral e o club Spin), seja como DJ, seja como grilo falante atuando de forma intensa em conversas com outros DJs, produtores e donos de casas noturnas. O DJ Chaves, além da sua produção própria, comandou o baixo da Groove James, banda de soul/funk ligada a toda uma geração de estudantes de comunicação da PUC e que teve o primeiro disco produzido por ninguém menos que EduK.

Mas isso é passado. Os dois agora só querem saber de fritura e disconexões. Sobre isso, o Renan (com quem, na real, eu até já tive uma banda) falou com o Conector.

Uffie Vs. Disc-o-nexo

Conector: Como surgiu a idéia da festa?
Landosystem: Eu e Chaves já tocávamos há uns 3 anos no circuito eletrônico de Porto Alegre e interior, quando sentimos uma certa limitação diante da generalização e repetição da música que se esperava dessa cena. Por outro lado, a cena rock da cidade, que aqui normalmente é bastante conservadora, teve um pequeno surto de influências dançantes, o que se percebia em festas convergentes como a saudosa O Dia Do Flamingo. Mas, ainda assim, absorvíamos muita música incrível e híbrida que não rolava em nenhuma pista na cidade. Ano passado trocamos umas idéias com o Marcelo do Laika que curtiu a idéia da festa logo de início.

Conector: Me diz uma coisa: pra que produzir festa? Não dá muito trabalho?
Landosystem: É tudo motivado pelo amor à música: escutar coisas emocionantes, vontade de compartilhar essas isso com outras pessoas, dançar e mixar músicas diferentes num alto e bom som na compania dos amigos. Dá um certo trabalho, mas mantendo essas simples motivações em foco, rola uma troca de energia muito bacana.

Conector: Qual a melhor parte de fazer a festa?
Landosystem: Tocar durante os diferentes momentos da noite, e ver a música chegando nas pessoas, se manifestando nas dancinhas e nos sorrisos. Isso, e aumentar o volume.

Conector: E a pior?
Landosystem: Esperar a hora dela começar! Nunca sei o que fazer pra passar o tempo.

tem até gente com bandana moderna

Conector: Por que o conceito de “locals only”? Isso não acaba fechando demais as possibilidades? Não acaba corroborando a idéia de gaúcho bairrista?
Landosystem: Essa idéia surgiu mais como necessidade da situação… nossa festa é pequena, provocante na sonoridade, acontecendo não uma mas duas vezes ao mês, numa cidade pequena como Porto Alegre. Até hoje, tudo que rolou de grana, foi reinvestido na estrutura técnica, surpresinhas para os convidados e alta tecnologia robótica. Somos dois hiperativos em relação à música, querendo repassar muita informação, e desde o início Chaves e eu contamos com apoio integral de amigos, e alguns desses como o Pedro Damasio são DJs com ótimos sons, sacam nossa pilha ainda que mantenham personalidade própria. Então nessa fase inicial acho que ainda temos muito o que aprender entre nós mesmos. Sobre o bairrismo gaúcho, sobre esse assunto o que mais percebo por aqui é pagação de pau só porque tal DJ ou produtor vem de fora do estado. Às vezes isso acaba desviando atenção da responsabilidade e produção dos artistas locais. Quem sabe num futuro próximo poderemos bancar ótimos artistas de fora sem comprometer o desenvolvimento sustentável da festa.

Chaves e o quase residente Damasio

Conector: Rola um intercâmbio com DJs ou produtores de outras festas?
Landosystem: De Porto Alegre? Sim, nós sempre enviamos nossos spams pra eles, e eles nos retornam com o spam deles, sistematicamente tentando copiar o nosso.

Conector: Quem é Robopop? O que ele faz na festa?
Landosystem: Robopop é o domínio do nosso site e também um avatar promocional, era o host inflável da festa mas explodiu. Ele já foi substituido, estamos na terceira geração de upgrades.

guampinhas disconexas

Conector: Os estilos musicais que aparecem na divulgação são bem contemporâneos (nu-disco, nu-rave, discorock, essas coisas). O que vai se fazer quando esses estilos começarem a ser considerados passado, o que pode acontecer a qualquer momento?
Landosystem: Não levamos esses nomes muito a sério, pra nós eles funcionam mais como sinalizadores da nossa ênfase em novidades interessantes, e isso é uma coisa que estaremos sempre afim de manter. Quando começamos a divulgação da festa há um ano, descrevíamos a festa de uma certa forma e no som rolavam várias coisas, hoje em dia tudo isso já mudou muitas vezes e não temos medo de abandonar idéias em favor de outras, ou trocar de nomes. Desde que estejamos nos divertindo no momento, isso é o que nos leva adiante.

Conector: Quem vocês gostariam de trazer se quebrassem a própria regra de “locals only”?
Landosystem: O Laika é compacto, não comporta grandes shows… mas alguns exemplos seriam os curitibanos Bo$$ In Drama que tem um live super animado, e seria uma honra receber os argentinos do The Spirals, adoramos o som deles e ouvimos dizer que ao vivo é incrível.

Conector: Quando vocês vão agilizar isso?
Landosystem: Deve acontece quando pudermos bancar propriamente artistas que consideramos bacanas, mantendo a qualidade de toda estrutura que permite ser divertido tanto pra nós quanto pro público. Não queremos que venham tocar de favor, mas sim quando for viável e relevante pra festa.

sopra, minha filha

Conector: O que vocês fariam diferente nas primeiras festas? O que vocês aprenderam a regular ao longo do tempo?
Landosystem: Aumentaríamos mais o volume! Ter uma residência fixa, nesse formato quinzenal, é um aprendizado incrível em vários aspectos, tu começa a desenvolver sensibilidade sobre a noite como um todo, e não só pela duração de um set.

Conector: Existe door police? Alguém não é bem-vindo?
Landosystem: Não temos door policy até porque nem temos uma hostess ainda… será que alguém se candidata?
Todos são bem-vindos pra fritar com a gente, só não pode ir esperando que os DJs toquem Britney Spears ou algum electrotrash vulgar da hora, a gente sempre vai preferir coisas menos óbvias e mais originais pra sacudir na pista.

Conector: É muito raro uma festa durar muito tempo sem ir minguando aos poucos… não existe muita longevidade nesse negócio. Como vocês pretendem lidar com isso?
Landosystem: Nos concentramos em chegar na semana seguinte, porque no geral não pensamos tão além. Mesmo se pensássemos, teríamos em mente que é tudo sempre ligado à música, e nossa curiosidade afins de coisas divertidas. A festa naturalmente espelha essa característica, e se chegar o momento em que não ela fizer mais sentido, principalmente pra nós mesmos, não vamos hesitar em desfazer tudo pra começar uma história em outro sentido. Ou não.

Conector: Por que vocês sempre fazem a festa quando eu estou viajando?
Landosystem: Que culpa temos nós se tu tem banda, blog, família e emprego? A festa é sempre no primeiro e terceiro sábados do mês, te coordena! :P

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Porto Alegre, um lugar qualquer

Adorei o novo clip da Pública, banda daqui cujo release escrevi ano retrasado. Originalmente, ele surgiu do convite da MTV pra bandas do Brasil todo fazerem vinhetas mostrando suas cidades. Das vinhetas derivou-se o vídeo, que tem como cenário uma série de postais de Porto Alegre vistos a partir do ônibus “double-decker” da Prefeitura que faz a Linha Turística. A maior parte da galera que está no passeio está ligada a alguma banda ou outra atividade independente na cidade. Ou seja, se o ônibus tivesse virado, perderíamos uma parte da tal “cena”.

Imagens legais à parte (sou suspeito, adoro essa cidade), o clima de camaradagem é amplificado pela linda canção, uma das minhas preferidas do Polaris.

***

Tem gente nos comentários do YouTube fazendo a conexão Porto Alegre-Inglaterra. Inicialmente, parece um excessivo entusiasmo-anglófilo-juvenil, mas na real não é uma relação tão esquisita já que uma boa parte da nossa cultura urbana é muito influenciada pelo rock inglês. O clip da Pública apenas reflete uma forma de olhar bastante presente por aqui, goste-se ou não… Acho que escrevi uma vez em algum lugar que Pública consegue soar como uma mistura de Nei Lisboa com Stone Roses. E isso é um elogio.

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Complementando o preguiçoso post anterior

paradox of praxis: alÿs empurra um cubo de gelo até derreter – é a vida…

A duna do Francis Alÿs não sai da minha cabeça. E eu esqueci de falar do trabalho do Dario Robleto. Eu pensei, inicialmente, que o cara fosse brasileiro. Pelo nome. Dario. Mas não é, é do Texas.

A sala dele na Bienal consistia só em textos escritos na parede. Textos que descreviam ações que ele pôs em prática nos últimos dez ou mais anos. Coisas como pegar todas as lâmpadas dos alpendres de casas da vizinhança onde ele nasceu e trocar por lâmpadas bem mais fortes. Tudo feito durante a noite. Sem as pessoas perceberem, ele trouxe mais brilho para o neigbourúd. Isso era uma obra. Resgate da magia no cotidiano. Tão necessário…

Outra. Ele vem se dedicando há anos a mudar as datas do fim do mundo em livros de bibliotecas. O objetivo, com isso, é fazer com que todos nós ganhemos mais tempo de vida. Outra obra. Vontade de permanência. Inocência. Ingenuidade. Melhor que o sarcasmo e a frieza. Coração puro.

Quatrocentos estudantes da Universidade de Lima são convidados a mudar uma duna de lugar. Isso é uma obra? É uma mão-de-obra, sem dúvida. Ha ha ha. Eu achei isso maravilhoso. É tão inútil, mas também diz tanto. Na falta de opiniões melhores de minha autoria, eu copio. No desespero para encaixar meus sentimentos em relação ao que vi, fui pra internet procurar artigos e entrevistas. Achei uma frase num artigo do Artforum a respeito do lance da duna: “O trabalho de Alÿs nunca conta nenhuma história em particular mas, antes de mais nada, cristaliza uma imagem que dá origem a uma história a ser contada como um processo ativo de interpretação. Um dia, uma montanha se moveu 4 polegadas. E então começa a história que nós, a audiência, temos que contar.

A duna continua se movendo, você vê?

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Bienal


Chiho Aoshima. City Glow. Tentei ir atrás do vídeo, mas no You Tube não tem nenhum muito bom.


Então olha pra essas imagens e imagina que isso é um grande aquário. É mais ou menos isso. Mas quem é o peixe? Eu sou o peixe.


O Francis Alÿs, que já andou empurrando um cubo de gelo por aí, juntou 400 estudantes de engenharia da Universidade de Lima para mudar uma duna de lugar com pás. Chama “Quando a fé move montanhas” e pode parecer a bobagem do mundo.


Mas eu acho que não é. E o brilho nos olhos das pessoas que participaram é um argumento que eu usaria para defender o meu ponto de vista.


E tem a sala do William Kentridge. Tudo escuro. Muito escuro. Projeções em todas as paredes. Ele desenhando. Ele desenhando ao contrário. Re-encenação do Viagem à Lua dos Irmãos Lumière… opa… quer dizer, como corrigiu o Sapo, Geroge Meliès. Formigas em negativo vivendo na tela. Tinta, uma mulher nua, um homem desenhando. É tipo um quebra-molas de percepção. Ou você freia, sobe e desce, tendo que olhar tudo ao seu redor com mais atenção, ou vem o baque – e a atenção à força.


E nem os mapas da Rivane Neunschwander. Pintados em cima de restos de papel destruídos pela chuva. Com uma espécie de nuvem sobre as nossa cabeças. Literalmente.


Steve Roden. Sai som desse troço. Sons cujas notas musicais estão ordenadas de acordo com uma codificação que relaciona o desenho ao nome das constelações estelares. Tu vê só.

***

O cara sai depois de ver tudo isso – e muito mais – com vontade de compartilhar. E de fazer coisas.

E eu saí pensando muito na variedade de explicações e perguntas e visões sobre o problema básico humano, que é a instabilidade das coisas.

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Notas para uma pedagogia visual bem-humorada

1. é natural que utilizemos obras de arte para o exercício de nossa
desconfiança. cultivar suspeitas pode nos salvar das verdades.

2. não se deixe enganar por tentativas de explicação de obras de
arte; na maioria dos casos elas são desmentidas pelas obras mesmas.

3. não confie na autonomia “soberana” das obras de arte, pois elas
dependem do desconhecido que as tornou possíveis.

4. acredite nas dúvidas, especialmente naquelas sugeridas pelas
obras; algumas delas são necessárias para a superação de nosssas
limitações.

5. procure ver somente o necessário. a quantidade indiscriminada das
coisas visíveis pode reduzir em muito a qualidade das experiências.

6. não espere ver o que esperava antes de conhecer. só as obras de
arte de qualidade duvidosa atendem a esta expectativa.

7. não confie em artistas que parecem querer chamar a atenção com
artimanhas e “técnicas mirabolantes”. estes bajuladores de público
estão interessados apenas em mídia.

8. se um objeto artístico não parece ser arte, não o discrimine
automaticamente. só falsificadores estão preocupados em fazer algo
que se “pareça com arte”. artistas, por outro lado, se preocupam em
fazer apenas o que deve ser feito.

9. considere sobretudo o “teor de evidência” de um objeto. por mais
completa que uma obra de arte possa parecer, elas será sempre
insuficiente em relação àquilo que desconhecemos. se for uma obra-
prima, superará até mesmo o desconhecido.

10. a espontaneidade não é um valor. é uma partida ou uma chegada. a
simplicidade ou a complexidade ocorrerão apesar dela.

11. não pergunte o que os artistas querem dizer com suas obras.
pergunte às obras. ou encontre a satisfação nos riscos que estimulam
sua curiosidade.

12. a transcendência e o sorriso são invenções humanas. um outro lado
do ar é a contribuição dos artistas.

- waltercio caldas. 6ª bienal do mercosul.

***

Meu amigo Sapo me mandou. Tá num painel da Bienal do Mercosul. Domingo dei um pulo lá. Não vi esse texto, mas vi coisas. Coisas legais. Ainda falarei aqui do William Kenthridge e do Francys Ally. Aguardai.

As imagens do post são da obra do tal Waltercio cuja obra, confesso, nunca vi mais gorda.

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