OEsquema

Arquivo: Quadrinhos

R.I.P. Canini – o verdadeiro criador do Zé Carioca

 

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Morreu noite passada em Pelotas (RS), o cartunista Renato Canini, um nome cuja menção nunca vai dar conta da sua importância. Além de um forte trabalho autoral, foi ele que criou a versão mais essencial do Zé Carioca: traço propositalmente errático, cenários urbanos favelizados, piadas internas, tudo isso dentro de uma indústria bastante tradicional. Nem ele entendia como durou seis anos trabalhando pra Disney. Entre as diversas curiosidades dessa relação, está o fato de que, apesar de ter criado toda uma iconografia local para o Zé Carioca, Canini nunca esteve no Rio de Janeiro.

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Tive o privilégio de, na 5ª série, há quase 30 anos, ter entrevistado o Canini pra um trabalho de colégio. Eu era fã, meu pai me levou na casa dele em Porto Alegre e tudo que lembro foi de ter sido muito bem recebido e ter tido atenção incomum. Não sei se foi mesmo ou se eu estava embevecido de conhecer o desenhista do Zé Carioca. No início desse ano, escrevi aqui sobre o último livro dele, o excelente Pago Pra Ver.

Vai em paz, Canini!

***

Tirei a foto acima de um post do Blog do Orlando, que também traz uma entrevista com Canini.

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O lado mágico de crescer

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Esse final de semana terminei de ler o volume encadernado dos quatro números que deram origem ao universo Livros da Magia, criado por Neil Gaiman. Aos não-iniciados, um rápido resumo: é uma mini-série que trata da introdução de um garoto de 12 anos, Timothy Hunter, ao vasto mundo da magia através de uma tour guiada por quatro outros personagens de quadrinhos ligados ao misticismo. Aos quatro, que compõem um grupo, cabe não apenas a missão de informar Tim de que ele é algo como um predestinado à magia, como também descortinar as maravilhas e os perigos mortais que o espreitam ao escolher viver como um mago contemporâneo. A mini-série termina sem Tim decidir. Os episódios se fecham, mas não a história. Gaiman é um escritor notório e devidamente reconhecido por sua habilidade na criação de universos ricos, de uma generosidade narrativa sem tamanho. Qualquer um que pegue a trama a partir do final da mini-série tem caminhos de sobra para explorar por toda uma vida.

Livros da Magia, na verdade, é uma história  sobre  ritos de  passagem e sua riqueza está também na forma como inverte a lógica popular que acompanha esse conceito. Em geral, diz-se que a saída da infância e a entrada na vida adulta é um período de desencantamento, de fixar os pés no chão, de abraçar o que é concreto e sólido, de deixar de besteira. Em Livros da Magia, o recado subjacente é virado do avesso. A suposta inocência infantil de Tim é convidada a se retirar não para dar lugar a um mundo compreensível e dominável, muito antes pelo contrário: o crescer é apresentado como uma miríade de reinos que beiram o insano. Entendo que não há nada  de fantasioso nessa  proposição. Pelo que tem me constado, crescer é bem mais parecido com isso do que com a ideia de  desencantamento. Crescer é mágico – não no sentido de um deslumbramento colorido, de fadas madrinhas, poções mágicas e varinhas de condão, mas no sentido de que você se mete em situações mais bizarras do que poderia imaginar quando mais jovem, lida com demônios  assustadores (os seus próprios), se mete em lugares mal assombrados, dá de cara  com ogros por aí – aliás, frequentemente se torna um.

Há seis anos sou padrasto e ano passado me tornei pai. Essas também são experiências mágicas e de uma forma que contraria o clichê que a cultura popular vende de magia. A rotina com um bebê, por exemplo, não é mágica por ser cheia de momentos coloridos e inebriantes e sim porque mexe com energias intensas: quase todos os dias parece  que passou um poltergeist pela casa, volta e meia você se vê coberto por substâncias esquisitas (mais ou menos como retratado em Caça-Fantasmas), objetos somem e se  quebram  sem explicação, pra não falar de todos os deuses e religiões que você invoca quando não quer que a criança acorde. Também é mágico ser praticamente obrigado a desconstruir verdades que você construiu tão dedicadamente, e fazer isso mês após mês, sentindo-se nauseado e meio pirado com a sucessão caleidoscópica de pequenos universos que vão se abrindo – alguns curiosos e cativantes, outros francamente desesperadores.

Enfim, eu sempre penso como é que meus pais criaram três filhos em uma época e em condições bem mais adversas, ou então nos milhões de famílias brasileiras que dão um jeito, a duras penas, de alimentar, educar e cuidar dos seus. Aí, só posso concluir: pra realizar a tarefa mais comum e ordinária nessa terra, que é simplesmente tocar o barco da vida em família, o cara tem realmente que ser mágico.

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Pagando por Sexo de Chester Brown

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Lançado no ano passado no Brasil, Pagando por Sexo é um romance-estudo-resportagem-autobiografia no qual o canadense Chester Brown conta detalhadamente como chegou à decisão de se relacionar sexualmente apenas com prostitutas, abandonando a ideia do amor romântico e do “sexo gratuito” como parte inerente de uma relação afetiva. O tema é cabeludo, mas a habilidade de Brown como narrador e ilustrador, já reconhecidas no meio literário, resolve tudo. Além de tornar uma reflexão cultural interessante e divertida, Pagando por Sexo enfileira causos e argumentos (inclusive com uma polpuda bibliografia) para sustentar moralmente e socialmente a escolha de seu autor.

Questões sexuais à parte, o que mais me chamou a atenção no livro foi o fato de Brown ter construído e divulgado formalmente uma via pouco usual de relação com mulheres. Não me interessa discutir os motivos da escolha ou investigar suas emoções, mas sim o fato notável dele ter aberto esse espaço, ainda que isso tenha acontecido em um país como o Canadá, que me parece ser mais tolerante à diversidade. Pagando por Sexo, nesse sentido, é fascinante.

Dias depois, lendo “Cultura, Um Conceito Antropológico” de Roque de Barros Laraia (clique aqui com o botão direito pra baixar em PDF), me deparei com esse parágrafo abaixo. É uma pequena ode à diversidade cultural do ser humano e na hora pensei que descreve bem o que senti lendo Pagando por Sexo:

“Não se pode ignorar que o homem, membro proeminente da ordem dos primatas, depende muito do seu equipamento biológico. Para se manter vivo, independente do sistema cultural ao qual pertença, ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respiração, a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções sejam comuns a toda humanidade, a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra. É esta grande variedade na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.”

Não se deveria cobrar de todos que aceitem ou apreciem a diversidade. Contemplá-la como fato já seria um belo começo.

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Pampa Drawings & New York Drawings

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Nas últimas semanas, me debrucei sobre dois livros de ilustração tão bons quanto diferentes, dois universos opostos mas que convivem e se completam na minha cultura particular. Acredito que muitas outras pessoas tem essa combinação em sua formação: um pouco de metrópole, um pouco de campo (ou de praia ou de cidadezinha do interior). Primeiro vamos falar do campo, retratado no excelente Pago pra Ver, de um grande mestre nacional.

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Se a essência de um desenho é a capacidade de observação (interna ou externa), sem dúvida Renato Canini é um Thundercat com visão além do alcance. Caso você não ligue o nome à pessoa: Renato Canini foi o responsável pela fase brasileira-chanchada-urbano-tropical-desbunde do Zé Carioca, aquela série de histórias que antecipou em duas décadas toda a onda de valorização da estética brasileira que se seguiu a Cidade de Deus. Entre tantas outras coisas.

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Em Pago Pra Ver, Canini se voltou pro universo visual e afetivo do pampa gaúcho (“os pagos”, como se diz também) com suas duas principais características: o traço rasgado e o humor sutil, injetado a partir do traço. Como em todos os seus trabalhos, o poder de observação do Canini cobre tanto o que é visível (formas, paisagens, objetos) quanto o que não se vê (a cultura e seus comentários). Frequentemente, ele torna o invisível visível e esconde no clima do desenho o que geralmente a gente procura com os olhos.

 

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Como fazem poucos grandes artistas, o Canini consegue equilibrar observação, homenagem e crítica social. Na verdade ele mistura esses três elementos e você nunca sabe muito bem quando ele está simplesmente fotografando, homenageando ou tirando uma onda. Coisa de mestre mesmo, ainda mais levando-se em consideração o tradicionalismo gaúcho, sempre pronto pra puxar uma faca e discutir possíveis “faltas de respeito”.

Um detalhe importante: Pago Pra Ver saiu meio batalhado. Pelo que sei, foi difícil alguma editora se interessar pela obra. Quem acabou bancando a edição foi o Instituto Estadual do Livro, ligado à Secretaria de Cultura do Estado do RS. Pontíssimo pro IEL.

Se você quer dar uma olhada nos desenhos, vai no blog da associação gaúcha de cartunistas, a Grafar, que publicou uma série deles com o objetivo de incentivar o interesse pelo trabalho.

 

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Agora vamos de New York Drawings, do quadrinista e ilustrador americano Adrian Tomine. Eu já conhecia o trabalho de Tomine nos quadrinhos – e confesso que não sou grande fã. Mas quando vi que as ilustrações dele relativas ao universo de Nova Iorque (muitas das quais saíram na revista The New Yorker) foram reunidas em livro, não tive dúvidas pra comprar – meus bodes com Tomine como autor não se sustentam com seu ótimo lado desenhista. O motivo fica bem claro em New York Drawings.

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Mais do que uma simples coletânea, o livro serve de tributo de um observador à atividade de observação. A gente nota isso porque os desenhos mais bacanas são justamente os que parecem recortados de uma cena maior, que sugerem mais o cantinho de uma fotografia do que o centro.

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Claro que há muitos outros desenhos, vinhetas e retratos que ilustram matérias das mais diversas naturezas e ângulos. Mas os que escolhi pra ilustrar esse post e os que considero que se destacam no livro tem essa qualidade colateral, de fazer foco no que geralmente não é foco.

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Pampa e Nova Iorque, Tomine & Canini. Isso dá dupla sertaneja, dá um disco de vanguarda ou dá um poema, hein… no mínimo, uma letra do Engenheiros do Hawaii.

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Retrospectiva OEsquema 2012 – Jerusalem por Guy Delisle

O ano que marcou a volta da beligerância extrema entre palestinos e israelenses também teve o lançamento do diário de viagem em quadrinhos mais recente do franco-canadense Guy Delisle. Escrevi sobre ele em agosto, veja o post aqui.

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Jogo político

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Jerusalem por Guy Delisle

O trabalho do Guy Delisle é parecido com o passaporte dele. Em ambos os casos, estamos falando de páginas ilustradas (com carimbos ou desenhos) que revelam a trajetória de um globetrotter quase por acaso. A editora Zarabatana publicou no Brasil os incríveis diários de viagem de Delisle sobre a Coréia do Norte, China (as duas como diretor de animação) e  Burma (acompanhando sua esposa, que trabalha no Médico Sem Fronteiras). Em breve, vai ser a vez do esforço mais recente desse cartunistas e animador canadense, que andou passando um ano em Israel e cujo resultado de viagem é mais uma vez um volume de sensibilidade artística e humor únicos.

Quem já passeou por Pyongyang, Shenzen e por diversas regiões de Burma na companhia de Delisle sabe que não se pode esperar de Jerusalem – Chronicles from the Holy City, o jornalismo histórico-investigativo de Joe Sacco. Embora a primeira associação dessa região com quadrinhos pudesse levar nessa direção, o que nós testemunhamos nesse caso é o cotidiano de um cartunista expatriado tentando manter seu caderninho de sketches e ministrando workshops enquanto mantém a logística doméstica em um país conflagrado (Guy e Nadége tem dois filhos que costumam ir junto nas viagens). E, surpresa, a ausência de um mergulho documental e profundo no dna problemático do oriente médio não priva o livro de levantar questionamentos políticos e reflexões morais.

Pelo contrário. São justamente as tarefas cotidianas (ir ao supermercado, levar as crianças na escolinha, comprar um carro usado) que, colocadas contra o pano de fundo palestino-israelense, revelam os pontos nevrálgicos de uma região marcada pela tensão constante: o engarrafamento na ida pra escola dos filhos é devido a um problema em um checkpoint militar; a babá chega em casa de olhos vermelhos porque sua casa vai ser demolida pelo governo israelense; e assim por diante.

Elegante e lúdico, o traço de Delisle serve também para enganar olhos destreinados. Enquanto vai cativando o leitor com vinhetas divertidas do dia-a-dia e com sketches de locais históricos, um painel bastante rico da questão israelense-palestina vai sendo composto. No fim das trezentas e tantas páginas, o leitos se divertiu, se deleitou e também compartilhou um pouco de uma outra visão de mundo.

 

Pra fechar, bato mais uma vez na tecla do valor que tem esses diários de viagem em quadrinhos. Como escrevi já anteriormente, eles trazem uma particularidade em relação a diários escritos ou fotografados por serem a soma de decisões e atenções do olhar do cartunista. No caso, como estamos falando de um artista de reconhecida sensibilidade, quanto mais particular esse olhar – me desculpe o clichê – também mais universal.

***

Repetindo: Jerusalém em breve estará à venda em português no Brasil. Fique ligado no site da Zarabatana Books, onde você encontra os outros livros de Delisle.

Mais um link: este é o site do canandense, onde você encontra também um blog com posts em francês e rascunhos constantes.

Por último, eu venho escrevendo de vez em quando sobre quadrinhos autobiográficos ou jornalísticos. Aqui vai uma pequena lista:

- Exit Wounds de Rutu Mondam e Notas sobre Gaza de Joe Sacco. O primeiro, Exit Wounds, traz uma rara visão de uma quadrinista israelense dos conflitos da área.
- The Quitter do Harvey Pekar
- Jefrey Brown
- Lucy Knisley
- Josh Neufeld
- David B.
- Dash Shaw
- Liniers
- Alison Bechdel (aqui e aqui).
- Guy Deslile

…e…

- Cachalote, que não é propriamente autobiográfico, mas vou botar aqui.

Aqui vai o link pra meus posts sobre quadrinhos.

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The Mindscape of Alan Moore – legendado

Fácil assim: é dar o play e se deleitar com os 77 minutos de monólogo de um dos grandes nomes da nossa era. Contador de histórias nato, hábil agregador de conteúdo, Moore começa pelos fatos da sua infância e chega até a uma linda explicação sobre por que considera a si mesmo (e todos os artistas e inclusive os publicitários) um mago. A partir daí, vira uma salada de frutas artística-esotérica-científica – mas que salada de frutas, meus amigos! Que salada de frutas!

Enquanto assistia a esse vídeo, me senti privilegiadíssimo por ter lido Watchmen em 1988, com 14 anos, na oitava série. A minha ida até a banca do outro lado da rua do colégio pra comprar o primeiro número está marcada na minha mente.  Sabe-se lá que tipo de cozido essa leitura fez no meu cérebro naquela idade, mas sem dúvida eu só tenho a agradecer.

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No coração das tréva!

O Brasil República mal completava 30 anos quando o jornalista Ulisses de Araújo foi enviado aos grotões de Minas Gerais pra cobrir a convulsão social gerada por um grupo de bandoleiros. Os relatos misturavam histórias de saques e violência com fortes teorias de associação com o demônio – só isso explicaria a crueldade e a suposta invencibilidade do líder do bando, Antonio Mortalma. Mas, na medida em que Ulisses vai penetrando o Estado e as diversas camadas de informações desconexas fornecidas por autoridades, religiosos e cidadãos, um quebra-cabeças mais complexo vai se montando. Mortalma, na verdade, é apenas um dos vértices de uma disputa maior e mais virulenta entre ele, outro bandoleiro chamado Manoel Grande e o lado da lei, representado pelo Coronel Odorico Pereira.

Num primeiro olhar, então, o fio condutor de Estórias Gerais parece cobrir o processo de formalização da república brasileira, o trabalho de levar a lei onde não há lei. Mas claro que mesmo os quadrinhos em preto & branco não são em preto & branco e à medida em que avançamos na leitura vamos acompanhando, pelos olhos de Ulisses, a descoberta dos fundamentos humanos que regem as estruturas & as batalhes de poder. São questões, então, estruturais e que persistem até hoje. A história se passa em 1920 mas tem todos os ingredientes do noticiário atual. Poderia muito bem se estar falando da atuação das milícias nas comunidades cariocas ou dos bandos endemoniados que agem no Senado e no Congresso. Muda o tom e a cor da novelinha, mas os elementos são estritamente os mesmos.

Por outro lado, a investigação de Ulisses também é interna e não apenas externa. Essa noção me veio quando lembrei do comentário de um amigo sobre a história de Apocalipse Now (e calcada no romance “O Coração das Trevas” de Joseph Conrad). Segundo ele, há uma leitura que olha a essência de ambas as obras como uma viagem interior disfarçada de aventura exterior. Assim como no filme a trajetória do Capitão Willard rumo ao coração do Camboja pra resolver a insanidade do Coronel Kurtz poderia ser comparada à imersão que muitas pessoas fazem em seu próprio “coração das trevas”, em Estórias Gerais a viagem ao interior do Brasil pelo jornalista Ulisses pode também ser lida como uma investigação da alma brasileira, da linha nacional que separa barbárie e civilidade. E aí está se falando tanto a linha externa, no âmbito social, quando a interna, que se funda no âmbito psíquico (do coletivo ou de cada indivíduo).

Ficou complicado? É culpa minha que viajei na análise, porque Estórias Gerais é simplesmente Guimarães Rosa com Francis Ford Coppola, um livro direto, vigoroso e dinâmico, sublimemente roteirizado por Wellington Srbek (aliás, um dos melhores roteiros de HQ que já li) e divinamente desenhado, uma delícia de ler. Tem um ritmo e uma habilidade no contar da história que servem de plataforma pra arte minimalista e exuberante (sim, adjetivos aqui não excludentes) de um grande mestre dos quadrinhos, o Flávio Colin. Ou seja, não estamos falando de “mais uma graphic novel”, mas sim de um trabalho que atravessa gêneros e culturas, que diverte, instrui, chacoalha e faz pensar, cumprindo integralmente a ambição de uma forma maior de arte pop.

***

Estórias Gerais saiu em 2001 em edição limitada e foi relançada em 2007 em formato mais amplo e comercial pela Conrad. Compre lá.

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Os dois lados da moeda

Dois toques rápidos sobre quadrinhos de não-ficção e graphic novels.

Quem acompanha esse mundo já vem convivendo há alguns anos com o dia-a-dia atribulado dos refugiados palestinos, cortesia do respeitável trabalho jornalístico de Joe Sacco. O cartunista americano-maltês tem retratado o conflito entre Israel e Palestina com talento e sensibilidade únicos, abrindo feridas e colocando o resto do mundo dentro da casa e da alma de gente que toma na cabeça praticamente todos os dias.

Mas, raramente temos um vislumbre, nessa mesma linha, do cotidiano do outro lado do muro. Por diversos motivos que não cabem a mim explorar, a vida de figuras ordinárias em Israel acaba chegando aqui mais ou menos da mesma forma rasa e superficial que a imagem esteriotipada do desespero e da revolta palestina. É aí que entra Exit Wounds.

A graphic novel da quadrinista israelense Rutu Mondam cobre justamente a vida de um jovem taxista de Tel Aviv – e quando ela é atravessada por fragmentos da guerra. O encontro com uma também jovem oficial do exército traz novidades relacionadas ao paradeiro do pai desaparecido do tal taxista. O que houve? Ele sumiu? Morreu num atentado? As perguntas e as respostas não são simples. Elementos como o exército israelense, atentados sucididas, pessoas desaparecidas e a tensão constante da guerra se alinham com temas como família, amor e solidão. Nesse sentido, Exit Wounds traz bem menos desespero, pobreza e destruição explícitas do que as histórias de Joe Sacco. Mas isso não faz dela, em nenhum momento, menos humana.

Então, é simples: gosta de graphic novel, gosta de Joe Sacco, gosta de um pouco de romance contado de forma inusitada, manda ver em Exit Wounds.

Um lembrete, algo que já escrevi aqui: ler esse tipo de história especificamente EM QUADRINHOS sempre oferece uma dimensão extra à narrativa. Nos desenhos, temos acesso a todo um âmbito visual que é fruto de estilo e escolhas pessoais, o que coloca no relato mais profundidade e personalidade.

Outra nota: tem uma edição da Drawn & Quarterly de Exit Wounds que vem com uma entrevista da Rutu Modan feita por ninguém menos que o próprio Joe Sacco.

Última: vale dar uma olhada no blog da Rutu Modam no New York Times.

Não vou me debruçar demais em cima de Notas sobre Gaza, que terminei de ler esse fim de semana. Então vamos rapidamente e direto ao assunto: quem curte Joe Sacco vai certamente abraçar com gosto esse volumão. Mas vale avisar: não é bem mais do mesmo. É um trabalho diferente de, por exemplo, Palestina ou Gorazde. Bem menos dinâmico e mais investigativo, aqui Sacco foca todo seu poder de fogo em um massacre ocorrido na Faixa de Gaza em 1956. O livro é igualmente o resultado e o relato dessa investigação, uma vez que o autor divide com o leitor seu esforço em espremer a verdade de exaustivas entrevistas pessoais que são equilibradas com documentos oficiais. Uma aula de história, jornalismo investigativo, quadrinhos e, sem dúvida, humanismo.

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Atenção: volta e meia o Submarino anda fazendo promoções dos livros dele.

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Laerte

Não sei se vocês notaram, mas o Laerte vem prestando um serviço de valor inestimável pro nosso país. Não, eu não estou falando dele assumir publicamente o fato de usar/desfrutar/curtir roupas femininas. O que eu acho mais fundamental é a FORMA como ele vem fazendo isso na mídia, com uma mistura de clareza, firmeza e ternura que raramente se vê em quem está tentando alargar um pouco os horizontes dos costumes sociais.

Às vezes sinto que falta no ativismo social um pouco desse jogo de cintura, dessa paciência em explicar, dessa tolerância para com a dificuldade do outro em compreender novos paradigmas. Em certos momentos, quem quer defender a justiça social parece que vira ditador: tome porrada em quem deu porrada em sem teto, dê-lhe linchamento em quem maltratou cachorro, corte-se a cabeça dos políticos corruptos! É muito sangue nos olhos e daí não dá pra enxergar direito.

Por isso, vejo em Laerte um exemplo a ser seguido nesse sentido bem específico. Empurrar os limites com menos belicismo é mais uma das artes que ele está executando tão bem.

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Mistura finíssima: Laerte + Pereio no Sem Frescura.

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Melhores Posts de 2011

 

Estou de férias e volto só dia 9 de janeiro. Enquanto isso, fique com uma seleção dos posts mais bacanas de 2011 selecionados por uma comissão formada por me, myself and I.

Toque - uma tela touch no aeroporto de Florianópolis.

New Orleans After The Deluge – quadrinhos jornalísticos sobre a tragédia do Katrina.

Minhas impressões sobre o Kindle – é isso aí que o título diz.

Intermediários – a chuva na fazenda.

Pimpão – a importância do especialista de tecnologia ser simpático.

Reclamões - o bom uso da energia das reclamações digitais.

5 Coisas que deveriam ter sumido das palestras publicitárias em 2011 – será que se foram?

Jeffrey Brown – ele parece não saber desenhar, mas acho que é truque

Acúmulo – juntar coisas digitais também é juntar tralha.

Diversidade – não dá mais pra dizer “meu, não acredito q vc não viu isso!”

Crônicas de Gelo, Fogo e Sangue do Autor – o bullying em cima do criador de Guerra dos Tronos.

Corrida-dô – anotações sobre o livro do Murakami, aquele de corrida.

Malditos Cartunistas – a grande colaboração desses caras na análise do Brasil.

Calças cáqui – tudo pode virar ícone…

Patti Smith em Cannes – eu estava lá!

O início, o fim e o meio – por que tantos shows de discos clássicos?

Ginsberg – anotações sobre a biografia dele.

De todos os tamanhos – sobre a escalabilidade do rock.

Amigos, amigos, redes à parte – tiveram que nos explicar a diferença.

TV did not kill the web stars – as empresas de internet se mandam pra TV.

Television em Porto Alegre – eu fui e tava massa.

Telas – elas sempre chamam nossa atenção.

Diferentes iguais – sobre Diálogons en La Escuridad e Yo También.

The Quitter – anotações sobre esse livrinho do Harvey Pekar.

Documentário como ferramenta de marketing – além dos 30 segundos.

Sobre escrever – um texto que escrevi  sobre… escrever.

Nevermind em 12 faixas – todo mundo falou alguma coisa sobre ele. Eu também quis.

Primal Scream em Porto Alegre – eu fui e tava massa.

Matt Damon, educação e idéias vagas – o pessoal não pensa antes de falar.

Nunca esqueça da torneira – pra não se afogar em informação.

Regras da firma – redes sociais no trabalho.

Balde – chutá-lo ou não chutá-lo?

Clichês – como evitá-los.

Minha impressão sobre o iPad 2 – é isso aí!

Julgamentos – anotações sobre o documentário Judgment Day – Intelligent Design on Trial

Linha da vida – a arrogância da Timeline do Feice.

El Jardin Armado – mais um belo trabalho do David B.

 

 

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El Jardin Armado, David B.

O David B. já tinha dado a dica. Na sua já clássica graphic novel autobiográfica, Epilético, as batalhas medievais apareciam como fertilizantes pra imaginação e impulso artístico desde a infância do autor. Tamanha foi essa influência que a história da família Beauchard acabou retratada, de fato, como uma longa cruzada em busca da cura e redenção da epilepsia do irmão de David.

Desta vez, em El Jardim Armado y Otras Historias, as batalhas são o mote principal dos três contos criados e ilustrados pelo cartunista francês. Flutuando com elegância entre história e mito, David B. nos leva a lugares como a Pérsia no século VIII, em pleno califado de Harun Al Rashid (de Mil e Uma Noites) e Praga no século XVI. Em cenários de disputas territoriais, políticas e, sobretudo, religiosas, se desdobram episódios que promovem o encontro de três forças: os governantes e seu poderio militar, o homem comum em busca do paraíso e seres místicos que encaminham ou desencaminham conforme alguma lógica não-aparente.

Não se engane com meu palavreado ou com a minha descrição barroca: as páginas de David B. fluem como uma mãe lendo um conto de fadas na beira da cama à noite. Não há compromisso excessivo com o rigor histórico. A arte é primorosa e agradável. Tudo que temos que fazer é sentar confortavelmente, abrir o livro e deixar símbolos universais fazerem o seu habitual trabalho.

O livro saiu em espanhol pela Editoral Sin Sentido. E tem também em inglês na Amazon.

Ah: quem curtiu Persépolis vai certamente encontrar alguma afinidade com El Jardim Armado. Embora o trabalho do David B. não seja, neste caso, autobiográfico, o sabor do oriente médio está presente. Vai sem medo.

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American Widow

Esses dias a Época publicou uma matéria reunindo obras no que poderia se configurar uma certa onda de literatura dedicada ao luto. Podiam ter incluído o trabalho da Alissa Torres, viúva cujo marido morreu no World Trade Center no 9 de setembro e que transformou seu luto em uma graphic novel. Não li ainda, mas parece promissor.

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Screamadelica em Poa

Nada melhor que um show do Screamadelica pra comemorar os 20 anos do Nevermind…

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La Editorial Comun

Uma descoberta recente de minha parte –> a editora do Liniers anda lançando coisas bem bacanas além das coisas bacanas dele. Aí em cima estão três exemplos que conheço. De baixo pra cima, vemos: 1) a versão argentina de Umbigo sem Fundo (cuja edição brasileira resenhei aqui) 2) o Liniers em carne e osso mostrando no scanner o Vírus Tropical da equatoriana/colombiana Power Paola (resenha assim que eu tiver tempo!) e 3) uma aventura meio urbana meio fantástica do argentino Federico Pazos que está na fila de leitura aguardando também o bom e velho TEMPINHO LIVRE (hahahaha).

Aguardem sentados.

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The Quitter, Harvey Pekar

Nos últimos dois anos tenho escrito com frequência sobre quadrinhos de jeitão autobiografico, sejam relatos de viagem, sejam simples fatias do cotidiano servidas individualmente ou em narrativas mais complexas. Esta cepa, cada vez mais rica em opções para quem quer variar um pouco do universo de heróis uniformizados ou de historias fantásticas, não nasceu ontem e nem vem do nada. Na verdade, ela tem uma linhagem clara de autores e, na base deste cânone, um dos pilares leva o nome de Harvey Pekar.

Verdadeiro muso do underground, Pekar ficou conhecido fora do seu círculo natural em 2003* devido à passagem de American Splendor pelo circuito alternativo de cinema. Premiado em Cannes e Sundance, o filme é um primor da metalinguagem, mesclando um pouco de filmagem documental com a escultura narrativa que todos nós fazemos (verbalmente ou mentamente) com a nossa vida. A única diferença é que Harvey transformava o material em (bons) roteiros de quadrinhos.

Boa parte da vida de Pekar poderia ser a vida de qualquer um. Mesmo numa cultura específica, sendo um jovem judeu americano num bairro pobre de Cleveland nos anos 50, a maioria dos dilemas que brotam das páginas dessa excelente Graphic Novel são de fácil identificação. The Quitter (que poderia ser traduzido como “O Desistente”) relata as repetidas e fracassadas tentativas do protagonista de criar um eixo para sua vida em torno dos esportes, da universidade e da carreira profissional. Vez após vez, ele desiste de caminhos relativamente retos quando encontra obstáculos universais (pais distantes, vizinhança inóspita, solidão adolescente, trabalhos tediosos). Atormentado por inseguranças e construindo involuntariamente a crença em sua displicência, Pekar vai se descobrindo bom em uma coisa: desistir das coisas.

Ao menos o que se convenciona de chamar de “coisas” na competitiva sociedade americana. Enquanto ia enfileirando empregos burocráticos, Harvey semeava uma vida paralela à base de boemia cultural leve, reviews não pagos para revistas de jazz e, mais adiante, roteiros inovadores para quadrinhos underground. Contemporâneo e parceiro de Robert Crumb (outro mestre da mesma linhagem), a descoberta da vocação não trouxe fama e fortuna, mas ao menos contradisse a “maldição do desistente”.

Não dá pra desprezar a dor e o drama de Harvey Pekar, mas de certa forma ele enganou a todos nós. Em primeiro lugar, pintou sua imagem como “desistente”, quando no fim das contas se engajou em algo realmente significativo. Em segundo, parecia escrever quadrinhos de não-ficção, mas contar a própria história é sempre um exercício ficcional. Por fim, costumava desprezar revistas de homens em uniformes coloridos combatendo gênios do mal. Mas, ao lutar contra seus demônios e fantasmas, ao encerrar uma graphic novel pedindo aprovação geral e dinheiro para pagar as contas, o que ele faz em “The Quitter” é mostrar um outro significado – talvez mais verdadeiro – para a palavra super-herói.

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Mais algumas notas.

1. De primeira, eu torci o nariz para a arte do Dean Haspiel. Não sou muito fã desse traço estilizado e anguloso. Mas, aos poucos, fui percebendo o MEU olhar superficial e percebendo a profundidade dos quadros, os enquadramentos, a estética e o ritmo que o cara imprime: é coisa finíssima.

2. Antes do lançamento do American Splendor em filme, o Harvey Pekar teve um período curto de celebridade televisiva ao participar de oito programas do David Letterman. Como ele era muito ácido e falou mal da proprietária do canal NBC, acabou cortado do programa, conforme ele mesmo contou ao Douglas Rushkoff. A história aparece nessa série de quadrinhos online da Smith.

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Jeffrey Brown

Numa rápida folheada, o que mais chama a atenção em um livro do Jeffrey Brown são aspectos que provavelmente vão afastar a maior parte das pessoas. Afinal, estamos falando de 1) quadrinhos 2) autobiográficos 3) desenhados toscamente, uma combinação que não fica em pé na sua estante ou na sua memória a menos que 1) o cara seja muito bom contador de histórias e 2) os desenhos toscos sejam mera fachada.

Esse é o golpe ao contrário de Jeffrey Brown que, de fato, me enganou direitinho. Não fosse minha mulher, que nem é fã de quadrinhos mas que teve a sensibilidade de comprar dois livretos dele, eu não teria ultrapassado esse esquisito pedágio estético e não teria tido 3 das leituras mais bacanas dos últimos tempos.

Vamos começar por Clumsy, primeiro livro publicado por Brown e também o primeiro que eu li dele. Curiosamente, também é o tipo de livro do qual eu fujo: cansei de quadrinhos sobre caras desajeitados (uma das traduções pra clumsy) e suas desventuras sentimentais. Mas, por algum motivo, Clumsy me prendeu do início ao fim e nem tanto porque eu queria saber o fim da história (o rompimento da relação de Brown com uma namorada à distância, anunciado logo de cara) nem tampouco porque eu precisasse ir até o fim para terminar a narrativa (Clumsy é uma coleção de pequenas cenas cotidianas).

O grande atrativo do Clumsy (e, na verdade, também dos outros dois livros dele que eu li) é a sensibilidade de Brown pra escolher a dedo que momentos da vida privada rendem uma cena interessante. Em uma época em que o escangalhamento da privacidade é regra, se torna ainda mais difícil criar narrativas a partir de momentos privados, já que muita gente passou a acreditar que todo momento privado fosse naturalmente uma narrativa. É aí que entra o treinamento exaustivo a que o autor se submeteu.

Em Funny Misshapen Body, Brown deixa de focar apenas sua vida sentimental pra nos entregar fartas e bem servidas sequências de sua formação. Lá descobrimos que ele se alimentou durante anos de uma dieta consistente de quadrinhos, começando com os super heróis mas passando, mais adiante, para a seara das graphic novels independentes. Nomes como Chris Ware e Daniel Clowes são frequentemente citados e, no caso de Ware, ele mesmo é personagem de algumas historietas deste volume: o respeitado autor de Jimmy Corrigan é quem dá o primeiro empurrão na carreira de quadrinista de Brown, orientando o rapaz a investir na autopublicação de Clumsy depois de repetidas rejeições editoriais.

Isso é bacana: após acompanharmos o autor em momentos de sua infância, da vida na escola, da escolha pela educação formal em arte (tô dizendo que esses desenhos toscos são só pra nos enganar…), pelos seus clássicos subempregos de Geração X e até por alguns relacionamentos, o livro termina com a história da concepção e publicação de Clumsy, o primeiro livro. Algum ciclo certamente se fecha aí.

O título Funny Misshapen Body é inspirado em grande parte na doença crônica de intestinos que acompanha Brown num bom pedaço da sua vida até então. Essa passagem é ao mesmo tempo exercício e prova do talento do cartunista: transformar um episódio médico de intestinos em algo a ser acompanhado exige mais do que meia dúzia de câmeras escondidas e uma audiência adestrada no mundo dos reality shows. É preciso, de fato, ter o olhar detalhista que revela (ou induz) as nuances escondidas no cotidiano mais intragável. Não estamos falando de um mero relato, mas quase de um trabalho de escultura, de retirar os excessos e deixar o essencial, tanto em termos verbais quanto visuais.

Little Things pende mais para Body do que para Clumsy. Continuam, aqui e ali, as aventuras sentimentais, mas está mais para uma coleção de fatias (como diz o subtítulo) da vida cotidiana. Apesar de ser mais do mesmo, é um pouco como Ramones: se você curte o jeito como ele resolve as coisas no papel (que não deixa de ser meio Ramones, à base do 1-2-3-4), não é enjoativo.

A história que fecha Little Things, assim como em Body, também é simbólica. Deixando pra trás os rolos de relacionamento, as doenças crônicas, as viagens de acampamento e a vida de gerente de loja de CD pra dar as primeiras pinceladas da paternidade. De novo, o tema de concepção fecha um volume do autor. Não sei dizer se esse padrão se repete no resto da obra, mas assim que eu for voltando aos livros de Brown, o que pretendo fazer aos poucos, vou contando pra vocês.

Deixo aqui, então, mais essa indicação dessa tecla que tenho insistido em bater: quadrinhos de não-ficção. Em temos de investigação endêmica da vida alheia, como já disse, por meio de reality shows e redes sociais, é bacana ver uma abordagem que se insere nesse traço forte da cultura contemporânea conseguindo fugir da vulgaridade. Ou seja, não precisamos negar nossa inserção no zetgeist, no espírito do tempo, e nem precisamos chafurdar na superficialidade.

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Algumas notas finais.

A produção de Brown é relativamente grande. Não deixe de dar uma olhada na página dedicada a ele na Amazon ou, se preferir, compre direto nas editoras. O site do autor tem os links.

Ele inclusive já publicou material de ficção e humor, fora do escopo das próprias memórias. Mas esses, confesso, ainda não conheço.

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Cheguei no trabalho do Jeffrey Brown de um jeito muito bacana e meio do avesso. Em outubro, eu e minha mulher estávamos em Montreal (ainda sai um post sobre a cidade) quando encontramos por acaso (juro) a loja da Drawn & Quaterly, uma das mais importantes editoras de quadrinhos independentes do mundo, uma espécie de Fantagraphics menorzinha e canadense. Lamentavelmente, me esqueci de tirar uma foto na frente da loja.

Bem, na primeira esbarrada com a D&Q, fizemos uma visita rápida pois nossa caminhada tinha outros objetivos e também tinha tanta coisa pra comprar que fiquei meio tonto e não gosto de comprar nada logo de cara. Alguns dias depois, voltamos lá dedicados a explorar a loja de fato e saímos com duas sacolas de material muito bom. Foi lá que comprei, por exemplo, o French Milk e o New Orleans After the Deluge, já comentados aqui.

Minha mulher, que não é tão fã de quadrinhos, também fez seu pequeno rancho e levou dois pequenos livros do Jeffrey Brown, além de um outro álbum bacana que ainda não li e que certamente será comentado aqui em breve. Devo a ela a descoberta. É como se eu, inapto para o mundo gourmet, tivesse apresentado um bom restaurante a ela, que domina os prazeres da mesa.

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Se você também curte quadrinhos, explore a categoria LIVROS do blog. Eu não faço distinção entre livros “escritos” e livros “desenhados”. Pra mim é tudo LIVROS.

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New Orleans After the Deluge

Como todos sabemos, é da cultura televisiva diária privilegiar o impacto, bem como é do telespectador menos curioso tomar o impacto pelo conteúdo. Tem sobrado para alguns meios pouco tradicionais o fardo da grande reportagem, que aprofunda e revela os meandros, as ambigüidades e os desdobramentos que o pico de adrenalina da notícia diária muitas vezes oblitera.

Uma das formas mais eficientes de fazer isso têm sido os quadrinhos jornalísticos e analíticos, representados em sua forma mais popular nos últimos anos pelo americano Joe Sacco e seu mergulho no universo do Oriente Médio. No Brasil, o Allan Sieber também tem feito, à sua maneira, o trabalho de contar histórias verídicas de um ponto de vista não muito visto por aí.

Como fã de Sacco (essa frase não pega bem, né), estou sempre à cata de relatos nessa área. Nessa busca, esbarrei, ano passado, com o execelente New Orleans A.D. do americano Josh Neufeld. O livro (que vem infelizmente a calhar nessa semana em que o Brasil acompanha o drama das chuvas na serra carioca) trata dos fatos que acompanharam a passagem do furacão Katrina pela região de Nova Orleans em 2005, especialmente o drama de quem ficou ilhado devido às inundações que inviabilizaram a fuga da cidade no meio do caos.

Neufeld é fonte de primeira mão: ele esteve no pós-Katrina como voluntário da Cruz Vermelha e blogou sobre seu trabalho lá. Essa impressões se transformaram em uma webcomic (ainda no ar), que é a semente do livro. Mas, diferente de Sacco, que costuma se colocar como o centro de seus relatos, Neufeld escolheu focar todo seu olhar em cinco personagens que sofreram em diferentes níveis a passagem do Katrina. A diversidade de experiências e de background social mapeia de forma bastante pessoal um drama coletivo e de forma direta e de maneira quase serena um evento que costuma sucitar histeria midiática.

Tudo isso, faz de New Orleans A.D. um trabalho que não interessa apenas ao leitor tradicional de quadrinhos, mas a todo aquele que gosta de mergulhar um pouco mais na história de um evento que, quanto mais você conhece suas particularidades, mais o considera universal. Que o digam os moradores da serra do Rio de Janeiro, que também mereciam um Josh Neufeld ou um Joe Sacco para contar uma história que não se resume a imagens impactantes e choros convulsivos transmitidos em rede nacional.

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Ah: tem pra encomenta na Cultura por um preço humano.

Ou vai na Amazon mesmo.

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Outros posts sobre quadrinhos de não-ficção:

- French Milk por Lucy Knisley

- Fun Home por Alison Bechdel

- Conejo de Viaje por Liniers

- Pyongyang por Guy Deslile

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French Milk – Lucy Knisley

Nos últimos anos, algum bichinho me mordeu e tenho preferido muito mais ler não-ficção do que ficção. Biografias e diários de viagem, em especial, tem me chamado a atenção e não vou aborrecer vocês com possíveis detalhes psicanalíticos sobre os motivos que me levaram a gestar essa nova preferência.

Mais especificamente, diários de viagem em quadrinhos passaram a ocupar mais espaço na minha biblioteca e a razão é muito simples: embora escritores, em geral, tenham um olhar rico para relatos estrangeiros, quando eles são produzidos por cartunistas, esse olhar é de fato um olhar (com os olhos!) Mais do que isso, é quase um processo de transferência,  uma relação interativa porque como leitores a gente compartilha não só as impressões verbais mas também um pouco do universo visual visitado, mediado pela sensibilidade plástica e pelo traço particular de quem desenha. Ou seja, a gente viaja um pouco mais no relato de viagem ilustrado.

Enfim, foi por isso (e impulsionado pela capa adorável) que acabei comprando French Milk, da Lucy Knisley (tem pro Kindle!). O livro é o relato do período de um mês que a cartunista americana passou com sua mãe em Paris na dobra da adolescência para os primeiros passos do mundo adulto. É durante French Milk, flanando por Paris, que Lucy começa a ter pequenos lampejos das dúvidas práticas e existenciais que vão permear sua década pós-faculdade. E embora sem muita profundidade, o traço simpático beirando o clássico (lembra um pouco Craig Thompson e Will Eisner, bem como antigos cartunistas americanos) e a boa noção de Lucy ao selecionar recortes de sua estadia sem necessariamente montar uma narrativa com focos dramáticos (de dramatização, não de dramalhão) – essa equação que acabou me ganhando.

Nesse sentido, ler French Milk é bem diferente de ler os relatos de Guy Deslile ou Conejo de Viaje do Liniers (cartunistas em diferente estágio de maturidade artística e pessoal). Também não dá pra colocar Lucy na mesma área de gente com densos ares autobiográficos como o Dash Shaw e a Alison Bechdel. Mas essa despretensão não chega a diminuir o prazer de folhear a crise de 1/4 de idade de Lucy. Ainda mais uma crise que come croissant e visita o túmulo do Oscar Wilde. Se não é chique no último, deve ser pelo menos no antepenúltimo. E já tá de bom tamanho.

Bom, disto isto, não deixe de dar uma olhada no blog da Lucy, onde você também vai encontrar mais uma história confessional sobre a separação com o namorado (que aparece em French Milk). São 20 páginas com uma série de pequenos insights bacanas sobre a participação de objetos pessoais em separações e que poderiam muito bem render um disco emo caso fossem mal lapidados – e não são. Salvaged Parts está pra download em PDF (dá pra carregar no Kindle também e fica bem decente) por míseros dois dólares.Eu baixei e vale os R$ 3,50.

Além do mais, o blog é recheado com ilustrações doces e divertidas como essa:

Ou então, o trabalho que ela teve de compactar um filme inteiro do Harry Potter em um único poster:

Alô, Zarabatana Books! Ficadica!

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Cachalote – Rafael Coutinho e Daniel Galera

Queiramos ou não, a distância é uma questão recorrente no mundo contemporâneo. Começou com aquele papo de globalização nos anos 90, com as distâncias comerciais e culturais erodindo devido à queda de algumas barreiras econômicas. Nos anos 00, a digitalização dos meios de comunicação elevaram o clichê da “redução de distâncias” a um novo patamar e entramos os anos 10 com uma cultura consolidada de crítica sistemática ao tal “distanciamento entre as pessoas” causado pelo ambiente urbano conturbado e pelos meios digitais. Conversa vai, conversa vem, a distância acabou tornou-se praticamente uma criminosa no nosso léxico. Ela, que no passado já foi motivação para explorações e aventuras, que já foi estopim de grandes movimentos humanos, que é a base química da palavra mais brasileira do mundo – saudade – agora é persona non grata nos círculos intelectuais.

Eis que surge Cachalote, obra gráfico-literária que, de forma enviesada, contrasta totalmente com o pânico da distância que tomou conta da nossa sociedade. Querendo ou não, Rafael Coutinho e Daniel Galera escreveram uma ode à distância e nos proporcionaram um saudável contrapeso à pichação impensada e automática que rola por aí. Nesse sentido, Cachalote talvez tenha vindo para consolidar uma contratendência, uma reação natural ao hipermedo da distância que está em vias de se tornar uma endemia.

O trabalho de Galera e Coutinho, na verdade, resgata uma equação esquecida, a da distância como fator de intimidade. É dessa forma que os personagens e seus dramas nos são apresentados: o escultor que mantém uma devota companheira a uma distância em busca de integridade artística; um ator asiático cumprindo obrigações promocionais no Brasil, distante milhares de quilômetros de casa, distanciando-se também da sua lucidez; um mauricinho que é obrigado a se distanciar do seu tio que o sustentava, refugiando-se na Europa com um “amigo” de tempos distantes; um funcionário de uma loja de ferragens cuja proximidade com uma nova namorada apenas deixa mais aguda a óbvia distância entre os dois; um casal separado cuja distância conjugal serve de ponte para uma relação mais estreita do que a anterior.

Enfim, distância, distância, distância, mas sempre como elo de ligação, como elemento de perspectiva e não propriamente de abandono ou de desconhecimento. Em Cachalote, as pessoas se afastam umas das outras, mesmo inconscientemente, mas ganham perspectiva, como o pintor que de vez em quando dá um passo atrás para olhar o que está fazendo com uma visão mais ampla. Não sem dor, não sem perdas, mas levando de brinde uma visão mais ampla.

Em Cachalote, os espaços entre as pessoas, entre os cenários, entre os quadrinhos e entre os focos de ação narrativa são imensos. Sabiamente, Coutinho e Galera escolheram manter esses espaços abertos. Todos os personagens vivenciam esses espaços em vez de preenchê-los, um toque sutil que faz toda a diferença. O fato dos autores declararem em entrevistas que as histórias não são conectadas – também diferenciando-se de uma tradição recente da literatura e do cinema – só embasa essa idéia. As histórias, na verdade, são sim conectadas. Mas por espaços e distâncias e não por nexos ou qualquer outro tipo de preenchimento. Em resumo, os personagens de Cachalote tem muito em comum e sua história é a mesma. Uma história de distâncias vividas em plenitude, não por opção espiritual ou estética, mas por ser a única possibilidade do momento.

Ao leitor é relegado o mesmo destino. Somos mantidos a uma certa distância do universo dos personagens, a ponto de nos ser negado conhecer o rosto de uma das figuras mais enigmáticas do livro. Mas, em vez de nos afastar, esse recurso nos torna íntimo do núcleo central de Cachalote. Ao sermos afastados, somos paradoxal e incontestavelmente colocados dentro da história. Mais uma vez, a equação se confirma e abre a porta para uma leitura otimista e humanista de um livro que pode, ao primeiro olhar, parecer pessimista e misógino.

Ou seja, não é que Cachalote tenha sido escrito como uma campanha de apologia da distância. Mas, a meu ver, ele não está longe de servir como um forte libelo pela sua descriminalização.

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Epilético – David B.

Até os 11 anos, a vida de Pierre François Beauchard foi a de uma criança comum, na medida em que uma infância pode ser comum. Ladeado por uma irmã menor, Florence, e um maior, Jean-Christophe, os dias dos três se resumiam a explorações lúdicas dos subúrbios de Orleans, na França, invadindo celeiros abandonados e pátios de vizinhos mal humorados. Mas a diversão despreocupada não durou muito tempo. Nem pra eles, e nem pra nós, leitores da graphic novel Epiléptico, do francês David B (nome adotado por Pierre na pós-adolescência). Já na página 9, o irmão maior,  Jean-Christophe, está brincando sobre a moto do namorado da babá quando congela, cai e começa a tremer, sob os olhos apavorados do caçula.

A cena é simples e se desenrola em seis quadrinhos de tamanho regular que não dão a dimensão da história que vem a seguir. Ainda estamos na primeira parte de Epiléptico e seu autor está ainda semeando o terreno do que vai se transformar em uma das mais intensas e ricas memórias já exorcizadas em quadrinhos.

O personagem central de Epiléptico é a doença que dá nome ao livro. De uma hora pra outra, os ataques epilépticos de Jean-Christophe Beauchard se tornam o centro nervoso da história pessoal de cada um dos membros da família. Na verdade, não é só a epilepsia que mexe com a rotina e os laços dos Beauchard, mas também (e talvez principalmente) a tortuosa, frustrante e infindável busca pela cura. Na ânsia de descobrir como resolver o problema, os pais de David empreendem com os filhos uma maratona que atravessa duas décadas e que envolve todo o tipo de médicos e curandeiros.

Todo o tipo mesmo. Nesse sentido, David B. é generoso com o leitor ao descrever com detalhes cada encontro e o background de cada área esotérica coberta pela maratona, num panorama interessante do que aconteceu em termos de medicina alternativa na Europa durante os anos 60. Dentro todas as tentativas, merece destaque as temporadas que a trupe dos Beauchard passou em comunas macrobióticas e onde David aprendeu a desconfiar de figuras “santas”.

À medida em que a história se desenrola, Epilético se movimenta de dentro para fora. As imagens objetivas dos personagens e as paisagens por onde eles navegam vão sendo substituídas pelo universo interno do autor numa das mais comoventes traduções visuais de um drama individual que eu já vi. Na imagem acima, por exemplo, testemunhamos um ataque epilético de Jean-Christophe como David enxergava: uma serpente, de tom mítico e traços tribais, que envolve e convulsiona o corpo do irmão.  Mas isso, creia-me, é só a ponta do iceberg.  Página após página, quadrinho após quadrinho, Epilético vai cada vez mais fundo.

Esse é justamente o grande predicado do livro: ele revolucionou as graphic novels de memória ao focar de forma virtuosa e atenta o universo interno do autor. Diferente da longa linhagem em que se insere e renova (trabalhos de Robert Crumb, Art Spiegelman e, mais recentemente, obras como Fun Home e Umbigo sem Fundo), Epiléptico se destaca por ir abrindo mão da história objetiva e investir pesado na construção de uma narrativa visual de forte apelo mitológico, repleta de símbolos universais (serpentes, armaduras, pássaros, esqueletos, fantasmas) traduzidos para o uso da situação particular dos Beauchard.

(Os símbolos universais ainda são uma das melhores bóias para mergulhar no caos, manter a comunicação com o mundo e voltar pra contar uma boa história.)

É lindo o paradoxo que acontece: quanto mais fundo David vai em si mesmo, mais universal e atemporal seu drama e o drama da sua família se tornam. Quanto menos interessa o que está acontecendo objetivamente, mais objetiva a história se torna, mais sentido ganha. E não apenas pra nós, mas também para o autor.

Aqui, entramos em uma área perigosa. O exorcismo de problemas pessoais via quadrinhos (ou literatura ou música ou pintura…) é um setor lodoso. Quando serve mais ao autor do que à audiência, mostra-se irrelevante como obra, não adiciona nada à arte à qual está vinculado e possivelmente é raso como gancho para descobertas pessoais de qualquer um que não tenha participado da sua concepção. Quando serve mais à audiência do que ao autor, pode ser triste do ponto de vista humano: quer coisa mais melancólica que um Nick Drake da vida, compositor de melodias incrivelmente inspiradoras mas que morreu cedo e deprimido?

Mas Epiléptico consegue o feito de ser funcional tanto como exorcismo particular quanto como referência no campo cultural que ocupa. O primeiro resultado pode ser auferido tanto durante a leitura (nos capítulos finais David conta como trabalhar no livro mudou sua visão de mundo e o salvou da força centrípeta da doença do irmão) quanto por entrevistas. O segundo depende das resenhas que você encontrar por aí bem como da sua experiência ao se relacionar com o calhamaço. Leia Epilético e coloque na sua estante mental junto com os já citados Crumb, Spielgman e outros da mesma cepa. Poucas obras tem tanta capacidade de falar por si, seja verbalmente ou visualmente.

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Epiléptico saiu no Brasil em dois volumes pela Conrad. Se você se interessou, não bobeie: faça as contas, economize e compre logo os dois de uma vez.

A edição americana vem com a história completa.

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Além de uma grande obra de arte, Epiléptico também oferece um olhar honesto e amplo sobre a epilepsia. Os relatos não são maniqueístas e a forma como David B. retrata a relação dele com seu irmão cobre uma boa gama de matizes.  Ou seja, não espere encontrar fórmulas hollywoodianas, como a do irmão são que recupera o irmão doente ou o irmão doente que oferece algum tipo de redenção ao irmão são. As coisas são mais complexas, mais feias e mais bonitas do que isso. E David não esconde o jogo nesse sentido.

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Dependendo do seu estado de espírito, Epiléptico não é uma leitura rápida. O livro foi meu companheiro por dois ou três meses não porque seja complexo ou difícil, mas porque é tão rico e tão intenso que merece uma atenção especial: vale parar, ler com atenção, desfrutar dos desenhos, deixar cada trecho descansar e dormir com você. É mais do que uma leitura, é realmente uma pequena jornada bastante recompensadora.

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Sobre ir fundo em camadas horizontais

David e Maggie Loony se conheceram, namoraram e viveram casados por 40 anos. Ao longo desse tempo, tiveram três filhos, Dennis, Claire e Peter, que foram criados em uma casa de três andares na praia. Agora, beirando os 70 anos, papai e mamãe Loony chamam os filhos de volta à casa para um último aviso: eles estão se separando. Dennis pira, Claire reflete sobre o próprio divórcio e Peter… bem, Peter é o único que não é retratado com uma cabeça humana, mas com a de um sapo. E, não sei se tem a ver com isso, Peter encontra uma oportunidade de respirar.

Umbigo sem Fundo é isso: pura investigação humana usando como ferramentas a dissolução, a manutenção e a construção de laços familiares, usando um arsenal de escolhas narrativas e estéticas que faz o livro não parecer as 720 páginas que tem. Como objeto, Umbigo Sem Fundo é pesado e chato de carregar. Mesmo assim, eu o levei pra ler na praia, porque, como obra, a densidade e o peso do assunto são temperadas com um olhar amplo que empresta leveza e espaço pra que qualquer leitor (mesmo que não seja americano e filho de pais idosos se separando) possa se identificar com algum aspecto do impacto da decisão de David e Maggie. Conscientemente ou não, o que o jovem autor Dash Shaw fez foi transformar os meandros dolorosos da micro-saga dos Loony em um buffet de pequenas questões universais que pode ser acessado – como os bons buffets – por vários lados.

E assim o mundo anda. Página após página, podemos observar o desdobramento do divórcio dos Loony através diversas camadas: temos o discurso, as palavras, o que é dito pelos personagens; temos as onomatopéias, que são tão presentes na história como os ruídos do dia-a-dia são em momentos embaraçosos; temos as escolhas anatômicas dos personagens (Dennis é meio Homer Simpson, Peter é meio Caco dos Muppets); temos as decisões estéticas e técnicas de linguagem de quadrinhos (Shaw usa quase tudo que é possível usar); temos os cenários, os móveis, o céu, a areia, o mar, todos fazendo as vezes de apoio visual para pequenos dramas; e, por fim, temos a casa dos Loony, personagem fundamental na trama por servir de território de busca física e emocional, de Dennis e sua sobrinha Jill.

Pra completar, o traço de Shaw ainda se localiza numa espécie de limbo técnico: parece rascunho, mas é detalhista; é detalhista, mas parece relapso; é relapso, mas bate fundo. Como se isso não bastasse, a edição brasileira (talvez a americana também, não sei) vem impressa (por quê?) em uma cor bege, o que é perfeito para o tom da história já que pouca coisa entre os Loony é, em termos de sentimentos, só preto ou branco.

Bom, a essa altura talvez você já tenha notado… uma família disfuncional, uma casa na praia, um narrador que oferece espaço para a história se desenrolar e gosta de usar cenários e objetos como personagens. Se você juntar A com B, vai perceber que Umbigo sem Fundo se insere em toda uma linhagem americana de autores que trabalham dessa forma. Nos quadrinhos, já falei aqui sobre a recente Fun Home (aqui e aqui), por exemplo. No cinema, não é difícil lembrar de Margot e o Casamento, A Lula e a Baleia, e Tempestade de Gelo, Os Excêntricos Tennenbauns, pra ficar em algo recente (alguém lembra de coisas mais antigas nesse sentido?) Se algum desses títulos calou fundo aí, não pense duas vezes sobre adquirir o pesado tomo de Umbigo sem Fundo. Também é um bom presente de Natal para um amigo ou parente que gosta de boas histórias desenhadas.

Exemplares autografados por Shaw durante a Bienal do Rio.

Uma última nota curiosa: diferente do que esse tipo de graphic novel/filme/romance possa sugerir (e quanta terapia disfarçada de literatura se faz nesse sentido!), Dash Shaw disse em entrevista à New Yorker que o livro não é autobiográfico. A família do autor sempre foi tranquila, seus pais estão juntos até hoje e, segundo ele, tem muito pouco dos Loony. O que talvez explique a poesia de Umbigo Sem Fundo: pra enxergar com tantas nuances certas tragédias, é preciso 1) a capacidade de se distanciar ou 2) estar de fato distante delas.

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Bom, aqui tem dois links interessantes caso você queira ir um pouco mais adiante. Mas minha sugestão é a seguinte: leia o livro primeiro, depois explore as entrevistas.

Em todo caso, aqui estão elas.

Em inglês, pra New York Magazine: How Dash Shaw Wrote The Graphic Novel of The Year.

Em português, pro Grito.

E também, pra facilitar sua vida, comparação de preços no Buscapé.

Boa leitura.

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Fun Home, revisitado

Na real, na real, achei que meu post sobre o livro ficou muito burocrático. Entenda-se: eu vinha de oito dias na praia com os neurônios em pleno estado de largação nas areias de Santa Catarina e acabei me tensionando ao tentar passar para o blog minhas impressões mais emocionais sobre o livro.

A bem da verdade, não tem muito como dividir com vocês o que eu senti ao ler Fun Home. Obviamente eu revisitei minhas próprias questões familiares com o apoio da edição elegante e o olhar compassivo da Alison Bechdel. Às vezes, o calor das questões presentes nos rouba a elegância e a compaixão, mas não custa nada buscá-las na hora de revisitar tais questões. Fun Home foi um passeio interessante em um local que poderia ser assustador.

Isso é algo bonito sobre arte, quando ela entra como uma agulha através da pele e chega até alguns recantos lodosos da nossa mente incutindo um pouco de espaço. Isso pode ser feito de muitas formas, algumas divertidas, outras incômodas, melhor ainda quando são divertidas E incômodas juntas. Significa que algo está sendo mexido mas com um pouco mais de leveza. Ponto para a autora ao fazer isso comigo, loas amplificados caso isso tenha acontecido em uma escala maior (acredito que sim, ou o livro não teria sido alvo de tanta atenção qualificada).

Mais: é boa essa sensação, a de ler sem matar tempo. Não existe, lembra o lama budista e diretor de cinema Dzongsar Khyentse RInpoche, expressão mais estúpida do que “matar tempo”. Tempo é o que temos de mais valioso, a possibilidade de respirar e andar sobre essa terra. Por isso, eu me regozijo em não ter matado tempo lendo um livro, mas realmente ter aproveitado pra fazer algo interessante com meus pensamentos, minhas memórias e algumas de minhas mofadas paredes mentais.

Bom, agora eu estraguei tudo de vez. Se antes alguém se sentiu incentivado a comprar Fun Home, espero que agora eu não tenha exagerado colando o rótulo de terapia pop na capa. Não se deixe enganar pelo sentimentalismo que estou arranhando. Alison Bechdel simplesmente fez o que um bom artista deve fazer: ao abrir o seu coração e a sua mente, ofereceu ganchos para que o leitor atento também o fizesse.

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Fun Home

Alison é uma menina crescendo no interior da Pensilvânia, em uma cidadezinha conservadora. Seu pai, Bruce, professor de inglês, é apaixonado por Scott Fitzgerald, decoração e envolve os três filhos em tudo que diz respeito a cuidar da casa vitoriana, de pendurar cortinas e lustrar candelabros a cortar a grama e fechar janelas por causa de uma devastadora tempestade que se aproxima. A mãe, contrariada, não tem forças para intervir e se refugia em sua tese de mestrado bem como em sua carreira de atriz amadora de teatro. Bruce é distante. Dá mais atenção à reforma da casa do que aos filhos. Alison resigna-se e segue sua vida. Vai descobrindo-se lésbica. Ao saber, sua mãe conta que seu pai é gay. Pouco tempo depois, Bruce se suicida. Não que uma coisa tenha a ver com a outra.

Pensa bem. Bruce e Alison. Que prato incrível para um melodrama rasgado e previsível. Mas, para nossa sorte, não é o que acontece. Fun Home – Uma Tragédia em Família, desvia do dramalhão mexicano e se mostra um mergulho disciplinado e corajoso de Alison Bechdel nas águas profundas de suas relações familiares. A coragem da autora, cuja reputação vem da série de tiras lésbicas Dykes To Watch Out For, não se deve simplesmente por abrir publicamente suas feridas (com uma duvidosa anuência de sua mãe), mas sim da capacidade de explorá-las de forma dedicada e generosa, sem cair um quadrinho sequer no sarcasmo fácil ou na confissão pura e óbvia.

Durante sete anos, Bechdel trabalhou arduamente no projeto de seu álbum, revisitando seus antigos diários (alguns escritos em um período de transtorno obsessivo compulsivo), utilizando fotos de álbuns de família como referência para seus desenhos, confeccionando mapas geográficos para entendermos melhor a história, reproduzindo capas de jornais e cartas à mão e, acima de tudo, demonstrando uma empatia comovente para com a figura controversa de seu pai.

Em termos narrativos, Alison se valeu de um catatau de referências literárias (não gratuitas, mas devido às paixões intelectuais de família Bechdel) que vai de Marcel Proust a James Joyce. Entremeada de citações mas sem prejuízo para o espectador iletrado (grupo no qual me incluo), a rede de lembranças é explorada de forma não linear, com saltos para frente ou para trás que não trazem qualquer obstáculo à compreensão da história por um motivo muito simples: é assim que a nossa memória funciona.

Em termos visuais, Alison declaradamente se filia à tradição de Robert Crumb e Hergè (e eu ainda adiciono Will Eisner e também lembra o Laerte!), mestres em retratar quadros realistas com ares cartunescos, o que significa transpor a riqueza de detalhes do “mundo real” para traços firmes e de proporções levemente arredondadas. Uma escolha interessante, pois traz leveza e ingenuidade a uma história de contornos muitas vezes mórbidos. É irônico, porém bonito, que fique mais fácil enxergar a face humana dos personagens quando eles parecem ter saído de antigos desenhos animados.

No caminho disso tudo, ainda temos amostras incrivelmente ricas da cultura de classe média americana dos anos 60 e 70, tanto no âmbito interiorano como nos primeiros espasmos da cultura gay novaiorquina. É possível investigar cada quadrinho em busca de signos estéticos que numa passada de olho servem apenas para temperar a história.

Em resumo, Fun Home é uma maravilhosa história (uma experiência, na verdade) de reconstrução de identidade a partir da investigação de lembranças, sensações, sentimentos e pensamentos. Em grande parte das resenhas que você encontrar na internet, as memórias de Alison Bechdel são reduzidas à questão da homossexualidade, dela e de seu pai. Mas Fun Home transcende esse aspecto, mostrando-se um abrangente compêndio sobre os retorcidos laços que ligam as famílias e as reentrâncias que nem sempre precisam ser totalmente iluminadas para serem aceitas.

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