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Nunca é demais reafirmar o valor do Laerte pra nossa cultura

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Pra quem acompanha a trajetória do Laerte, pode parecer redundante ficar ressaltando suas qualidades artísticas e sua importância humana na esfera pública. Mas cada entrevista que eu leio dela, cada trabalho que sai, eu me convenço de que é preciso sim martelar a qualidade da contribuição que ela vem dando pra cultura brasileira. Senão, é capaz de tomarmos por garantido uma participação que é na verdade muito única e especial.

Recentemente, o portal do jornal português Públicou botou no ar uma longa e rica entrevista com Laerte. E de novo, ela faz reflexões importantes sobre sua arte e sua vida que, se quisermos, podemos enxergar como sintomáticas do contexto cultural brasileiro. Entre muitas passagens interessantes, destaco uma que me tocou:

Nunca fiz isso (me vestir de mulher) com tanta clareza. Tinha curiosidade e desejos de frequentar a feminilidade, mas não era uma coisa clara.” Outra das diferenças com as outras meninas, afirma Laerte, é ter sido aceite com muita rapidez. “Não só pela minha família, pelo meu entorno, meus colegas, meus empregadores, pelo meu público. Eu fico sentindo, por que é que eu não fiz isso antes? Quanto tempo eu perdi nisso? [risos] O que é um pensamento bobo porque a gente não perde tempo. Este é o meu tempo.”

Estamos vivendo um momento muito particular no país, com ânimos exaltados e muitos conceitos cristalizados sendo questionados, abertos, examinados, remontados. Às vezes, dá a impressão de que queremos, coletivamente, apressar esse processo, como se estivéssemos perdendo tempo se não virássemos o país do avesso. Mas uma coisa é a vontade difusa e intensa de resolver as coisas e outra completamente diferente é o tempo de andamento das nossas estruturas culturais e sociais, que não necessariamente respondem com a mesma velocidade a essa massa disforme de vontades.

Em meio a essa tensão, é bom que haja referências públicas como Laerte, pois ela aborda questões espinhosas com uma sensibilidade poética que amacia e torna próximo o que poderia ser tomado apenas como algo idiossincrático (que é o que acontece com muitos questionamentos no Brasl hoje). Laerte se articula com frescor e humanidade para falar de temas que em geral são discutidos ou com pavor preconceituoso ou com academicismo distante. Repetindo: não tomemos isso como algo garantido. É raro e precisa ser valorizado, destacado, reforçado.

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Foto: Wikimedia Commons

R.I.P. Canini – o verdadeiro criador do Zé Carioca

 

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Morreu noite passada em Pelotas (RS), o cartunista Renato Canini, um nome cuja menção nunca vai dar conta da sua importância. Além de um forte trabalho autoral, foi ele que criou a versão mais essencial do Zé Carioca: traço propositalmente errático, cenários urbanos favelizados, piadas internas, tudo isso dentro de uma indústria bastante tradicional. Nem ele entendia como durou seis anos trabalhando pra Disney. Entre as diversas curiosidades dessa relação, está o fato de que, apesar de ter criado toda uma iconografia local para o Zé Carioca, Canini nunca esteve no Rio de Janeiro.

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Tive o privilégio de, na 5ª série, há quase 30 anos, ter entrevistado o Canini pra um trabalho de colégio. Eu era fã, meu pai me levou na casa dele em Porto Alegre e tudo que lembro foi de ter sido muito bem recebido e ter tido atenção incomum. Não sei se foi mesmo ou se eu estava embevecido de conhecer o desenhista do Zé Carioca. No início desse ano, escrevi aqui sobre o último livro dele, o excelente Pago Pra Ver.

Vai em paz, Canini!

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Tirei a foto acima de um post do Blog do Orlando, que também traz uma entrevista com Canini.

O lado mágico de crescer

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Esse final de semana terminei de ler o volume encadernado dos quatro números que deram origem ao universo Livros da Magia, criado por Neil Gaiman. Aos não-iniciados, um rápido resumo: é uma mini-série que trata da introdução de um garoto de 12 anos, Timothy Hunter, ao vasto mundo da magia através de uma tour guiada por quatro outros personagens de quadrinhos ligados ao misticismo. Aos quatro, que compõem um grupo, cabe não apenas a missão de informar Tim de que ele é algo como um predestinado à magia, como também descortinar as maravilhas e os perigos mortais que o espreitam ao escolher viver como um mago contemporâneo. A mini-série termina sem Tim decidir. Os episódios se fecham, mas não a história. Gaiman é um escritor notório e devidamente reconhecido por sua habilidade na criação de universos ricos, de uma generosidade narrativa sem tamanho. Qualquer um que pegue a trama a partir do final da mini-série tem caminhos de sobra para explorar por toda uma vida.

Livros da Magia, na verdade, é uma história  sobre  ritos de  passagem e sua riqueza está também na forma como inverte a lógica popular que acompanha esse conceito. Em geral, diz-se que a saída da infância e a entrada na vida adulta é um período de desencantamento, de fixar os pés no chão, de abraçar o que é concreto e sólido, de deixar de besteira. Em Livros da Magia, o recado subjacente é virado do avesso. A suposta inocência infantil de Tim é convidada a se retirar não para dar lugar a um mundo compreensível e dominável, muito antes pelo contrário: o crescer é apresentado como uma miríade de reinos que beiram o insano. Entendo que não há nada  de fantasioso nessa  proposição. Pelo que tem me constado, crescer é bem mais parecido com isso do que com a ideia de  desencantamento. Crescer é mágico – não no sentido de um deslumbramento colorido, de fadas madrinhas, poções mágicas e varinhas de condão, mas no sentido de que você se mete em situações mais bizarras do que poderia imaginar quando mais jovem, lida com demônios  assustadores (os seus próprios), se mete em lugares mal assombrados, dá de cara  com ogros por aí – aliás, frequentemente se torna um.

Há seis anos sou padrasto e ano passado me tornei pai. Essas também são experiências mágicas e de uma forma que contraria o clichê que a cultura popular vende de magia. A rotina com um bebê, por exemplo, não é mágica por ser cheia de momentos coloridos e inebriantes e sim porque mexe com energias intensas: quase todos os dias parece  que passou um poltergeist pela casa, volta e meia você se vê coberto por substâncias esquisitas (mais ou menos como retratado em Caça-Fantasmas), objetos somem e se  quebram  sem explicação, pra não falar de todos os deuses e religiões que você invoca quando não quer que a criança acorde. Também é mágico ser praticamente obrigado a desconstruir verdades que você construiu tão dedicadamente, e fazer isso mês após mês, sentindo-se nauseado e meio pirado com a sucessão caleidoscópica de pequenos universos que vão se abrindo – alguns curiosos e cativantes, outros francamente desesperadores.

Enfim, eu sempre penso como é que meus pais criaram três filhos em uma época e em condições bem mais adversas, ou então nos milhões de famílias brasileiras que dão um jeito, a duras penas, de alimentar, educar e cuidar dos seus. Aí, só posso concluir: pra realizar a tarefa mais comum e ordinária nessa terra, que é simplesmente tocar o barco da vida em família, o cara tem realmente que ser mágico.

Pagando por Sexo de Chester Brown

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Lançado no ano passado no Brasil, Pagando por Sexo é um romance-estudo-resportagem-autobiografia no qual o canadense Chester Brown conta detalhadamente como chegou à decisão de se relacionar sexualmente apenas com prostitutas, abandonando a ideia do amor romântico e do “sexo gratuito” como parte inerente de uma relação afetiva. O tema é cabeludo, mas a habilidade de Brown como narrador e ilustrador, já reconhecidas no meio literário, resolve tudo. Além de tornar uma reflexão cultural interessante e divertida, Pagando por Sexo enfileira causos e argumentos (inclusive com uma polpuda bibliografia) para sustentar moralmente e socialmente a escolha de seu autor.

Questões sexuais à parte, o que mais me chamou a atenção no livro foi o fato de Brown ter construído e divulgado formalmente uma via pouco usual de relação com mulheres. Não me interessa discutir os motivos da escolha ou investigar suas emoções, mas sim o fato notável dele ter aberto esse espaço, ainda que isso tenha acontecido em um país como o Canadá, que me parece ser mais tolerante à diversidade. Pagando por Sexo, nesse sentido, é fascinante.

Dias depois, lendo “Cultura, Um Conceito Antropológico” de Roque de Barros Laraia (clique aqui com o botão direito pra baixar em PDF), me deparei com esse parágrafo abaixo. É uma pequena ode à diversidade cultural do ser humano e na hora pensei que descreve bem o que senti lendo Pagando por Sexo:

“Não se pode ignorar que o homem, membro proeminente da ordem dos primatas, depende muito do seu equipamento biológico. Para se manter vivo, independente do sistema cultural ao qual pertença, ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respiração, a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções sejam comuns a toda humanidade, a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra. É esta grande variedade na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.”

Não se deveria cobrar de todos que aceitem ou apreciem a diversidade. Contemplá-la como fato já seria um belo começo.

Pampa Drawings & New York Drawings

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Nas últimas semanas, me debrucei sobre dois livros de ilustração tão bons quanto diferentes, dois universos opostos mas que convivem e se completam na minha cultura particular. Acredito que muitas outras pessoas tem essa combinação em sua formação: um pouco de metrópole, um pouco de campo (ou de praia ou de cidadezinha do interior). Primeiro vamos falar do campo, retratado no excelente Pago pra Ver, de um grande mestre nacional.

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Se a essência de um desenho é a capacidade de observação (interna ou externa), sem dúvida Renato Canini é um Thundercat com visão além do alcance. Caso você não ligue o nome à pessoa: Renato Canini foi o responsável pela fase brasileira-chanchada-urbano-tropical-desbunde do Zé Carioca, aquela série de histórias que antecipou em duas décadas toda a onda de valorização da estética brasileira que se seguiu a Cidade de Deus. Entre tantas outras coisas.

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Em Pago Pra Ver, Canini se voltou pro universo visual e afetivo do pampa gaúcho (“os pagos”, como se diz também) com suas duas principais características: o traço rasgado e o humor sutil, injetado a partir do traço. Como em todos os seus trabalhos, o poder de observação do Canini cobre tanto o que é visível (formas, paisagens, objetos) quanto o que não se vê (a cultura e seus comentários). Frequentemente, ele torna o invisível visível e esconde no clima do desenho o que geralmente a gente procura com os olhos.

 

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Como fazem poucos grandes artistas, o Canini consegue equilibrar observação, homenagem e crítica social. Na verdade ele mistura esses três elementos e você nunca sabe muito bem quando ele está simplesmente fotografando, homenageando ou tirando uma onda. Coisa de mestre mesmo, ainda mais levando-se em consideração o tradicionalismo gaúcho, sempre pronto pra puxar uma faca e discutir possíveis “faltas de respeito”.

Um detalhe importante: Pago Pra Ver saiu meio batalhado. Pelo que sei, foi difícil alguma editora se interessar pela obra. Quem acabou bancando a edição foi o Instituto Estadual do Livro, ligado à Secretaria de Cultura do Estado do RS. Pontíssimo pro IEL.

Se você quer dar uma olhada nos desenhos, vai no blog da associação gaúcha de cartunistas, a Grafar, que publicou uma série deles com o objetivo de incentivar o interesse pelo trabalho.

 

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Agora vamos de New York Drawings, do quadrinista e ilustrador americano Adrian Tomine. Eu já conhecia o trabalho de Tomine nos quadrinhos – e confesso que não sou grande fã. Mas quando vi que as ilustrações dele relativas ao universo de Nova Iorque (muitas das quais saíram na revista The New Yorker) foram reunidas em livro, não tive dúvidas pra comprar – meus bodes com Tomine como autor não se sustentam com seu ótimo lado desenhista. O motivo fica bem claro em New York Drawings.

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Mais do que uma simples coletânea, o livro serve de tributo de um observador à atividade de observação. A gente nota isso porque os desenhos mais bacanas são justamente os que parecem recortados de uma cena maior, que sugerem mais o cantinho de uma fotografia do que o centro.

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Claro que há muitos outros desenhos, vinhetas e retratos que ilustram matérias das mais diversas naturezas e ângulos. Mas os que escolhi pra ilustrar esse post e os que considero que se destacam no livro tem essa qualidade colateral, de fazer foco no que geralmente não é foco.

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Pampa e Nova Iorque, Tomine & Canini. Isso dá dupla sertaneja, dá um disco de vanguarda ou dá um poema, hein… no mínimo, uma letra do Engenheiros do Hawaii.

Jerusalem por Guy Delisle

O trabalho do Guy Delisle é parecido com o passaporte dele. Em ambos os casos, estamos falando de páginas ilustradas (com carimbos ou desenhos) que revelam a trajetória de um globetrotter quase por acaso. A editora Zarabatana publicou no Brasil os incríveis diários de viagem de Delisle sobre a Coréia do Norte, China (as duas como diretor de animação) e  Burma (acompanhando sua esposa, que trabalha no Médico Sem Fronteiras). Em breve, vai ser a vez do esforço mais recente desse cartunistas e animador canadense, que andou passando um ano em Israel e cujo resultado de viagem é mais uma vez um volume de sensibilidade artística e humor únicos.

Quem já passeou por Pyongyang, Shenzen e por diversas regiões de Burma na companhia de Delisle sabe que não se pode esperar de Jerusalem – Chronicles from the Holy City, o jornalismo histórico-investigativo de Joe Sacco. Embora a primeira associação dessa região com quadrinhos pudesse levar nessa direção, o que nós testemunhamos nesse caso é o cotidiano de um cartunista expatriado tentando manter seu caderninho de sketches e ministrando workshops enquanto mantém a logística doméstica em um país conflagrado (Guy e Nadége tem dois filhos que costumam ir junto nas viagens). E, surpresa, a ausência de um mergulho documental e profundo no dna problemático do oriente médio não priva o livro de levantar questionamentos políticos e reflexões morais.

Pelo contrário. São justamente as tarefas cotidianas (ir ao supermercado, levar as crianças na escolinha, comprar um carro usado) que, colocadas contra o pano de fundo palestino-israelense, revelam os pontos nevrálgicos de uma região marcada pela tensão constante: o engarrafamento na ida pra escola dos filhos é devido a um problema em um checkpoint militar; a babá chega em casa de olhos vermelhos porque sua casa vai ser demolida pelo governo israelense; e assim por diante.

Elegante e lúdico, o traço de Delisle serve também para enganar olhos destreinados. Enquanto vai cativando o leitor com vinhetas divertidas do dia-a-dia e com sketches de locais históricos, um painel bastante rico da questão israelense-palestina vai sendo composto. No fim das trezentas e tantas páginas, o leitos se divertiu, se deleitou e também compartilhou um pouco de uma outra visão de mundo.

 

Pra fechar, bato mais uma vez na tecla do valor que tem esses diários de viagem em quadrinhos. Como escrevi já anteriormente, eles trazem uma particularidade em relação a diários escritos ou fotografados por serem a soma de decisões e atenções do olhar do cartunista. No caso, como estamos falando de um artista de reconhecida sensibilidade, quanto mais particular esse olhar – me desculpe o clichê – também mais universal.

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Repetindo: Jerusalém em breve estará à venda em português no Brasil. Fique ligado no site da Zarabatana Books, onde você encontra os outros livros de Delisle.

Mais um link: este é o site do canandense, onde você encontra também um blog com posts em francês e rascunhos constantes.

Por último, eu venho escrevendo de vez em quando sobre quadrinhos autobiográficos ou jornalísticos. Aqui vai uma pequena lista:

- Exit Wounds de Rutu Mondam e Notas sobre Gaza de Joe Sacco. O primeiro, Exit Wounds, traz uma rara visão de uma quadrinista israelense dos conflitos da área.
- The Quitter do Harvey Pekar
- Jefrey Brown
- Lucy Knisley
- Josh Neufeld
- David B.
- Dash Shaw
- Liniers
- Alison Bechdel (aqui e aqui).
- Guy Deslile

…e…

- Cachalote, que não é propriamente autobiográfico, mas vou botar aqui.

Aqui vai o link pra meus posts sobre quadrinhos.

The Mindscape of Alan Moore – legendado

Fácil assim: é dar o play e se deleitar com os 77 minutos de monólogo de um dos grandes nomes da nossa era. Contador de histórias nato, hábil agregador de conteúdo, Moore começa pelos fatos da sua infância e chega até a uma linda explicação sobre por que considera a si mesmo (e todos os artistas e inclusive os publicitários) um mago. A partir daí, vira uma salada de frutas artística-esotérica-científica – mas que salada de frutas, meus amigos! Que salada de frutas!

Enquanto assistia a esse vídeo, me senti privilegiadíssimo por ter lido Watchmen em 1988, com 14 anos, na oitava série. A minha ida até a banca do outro lado da rua do colégio pra comprar o primeiro número está marcada na minha mente.  Sabe-se lá que tipo de cozido essa leitura fez no meu cérebro naquela idade, mas sem dúvida eu só tenho a agradecer.

No coração das tréva!

O Brasil República mal completava 30 anos quando o jornalista Ulisses de Araújo foi enviado aos grotões de Minas Gerais pra cobrir a convulsão social gerada por um grupo de bandoleiros. Os relatos misturavam histórias de saques e violência com fortes teorias de associação com o demônio – só isso explicaria a crueldade e a suposta invencibilidade do líder do bando, Antonio Mortalma. Mas, na medida em que Ulisses vai penetrando o Estado e as diversas camadas de informações desconexas fornecidas por autoridades, religiosos e cidadãos, um quebra-cabeças mais complexo vai se montando. Mortalma, na verdade, é apenas um dos vértices de uma disputa maior e mais virulenta entre ele, outro bandoleiro chamado Manoel Grande e o lado da lei, representado pelo Coronel Odorico Pereira.

Num primeiro olhar, então, o fio condutor de Estórias Gerais parece cobrir o processo de formalização da república brasileira, o trabalho de levar a lei onde não há lei. Mas claro que mesmo os quadrinhos em preto & branco não são em preto & branco e à medida em que avançamos na leitura vamos acompanhando, pelos olhos de Ulisses, a descoberta dos fundamentos humanos que regem as estruturas & as batalhes de poder. São questões, então, estruturais e que persistem até hoje. A história se passa em 1920 mas tem todos os ingredientes do noticiário atual. Poderia muito bem se estar falando da atuação das milícias nas comunidades cariocas ou dos bandos endemoniados que agem no Senado e no Congresso. Muda o tom e a cor da novelinha, mas os elementos são estritamente os mesmos.

Por outro lado, a investigação de Ulisses também é interna e não apenas externa. Essa noção me veio quando lembrei do comentário de um amigo sobre a história de Apocalipse Now (e calcada no romance “O Coração das Trevas” de Joseph Conrad). Segundo ele, há uma leitura que olha a essência de ambas as obras como uma viagem interior disfarçada de aventura exterior. Assim como no filme a trajetória do Capitão Willard rumo ao coração do Camboja pra resolver a insanidade do Coronel Kurtz poderia ser comparada à imersão que muitas pessoas fazem em seu próprio “coração das trevas”, em Estórias Gerais a viagem ao interior do Brasil pelo jornalista Ulisses pode também ser lida como uma investigação da alma brasileira, da linha nacional que separa barbárie e civilidade. E aí está se falando tanto a linha externa, no âmbito social, quando a interna, que se funda no âmbito psíquico (do coletivo ou de cada indivíduo).

Ficou complicado? É culpa minha que viajei na análise, porque Estórias Gerais é simplesmente Guimarães Rosa com Francis Ford Coppola, um livro direto, vigoroso e dinâmico, sublimemente roteirizado por Wellington Srbek (aliás, um dos melhores roteiros de HQ que já li) e divinamente desenhado, uma delícia de ler. Tem um ritmo e uma habilidade no contar da história que servem de plataforma pra arte minimalista e exuberante (sim, adjetivos aqui não excludentes) de um grande mestre dos quadrinhos, o Flávio Colin. Ou seja, não estamos falando de “mais uma graphic novel”, mas sim de um trabalho que atravessa gêneros e culturas, que diverte, instrui, chacoalha e faz pensar, cumprindo integralmente a ambição de uma forma maior de arte pop.

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Estórias Gerais saiu em 2001 em edição limitada e foi relançada em 2007 em formato mais amplo e comercial pela Conrad. Compre lá.

Os dois lados da moeda

Dois toques rápidos sobre quadrinhos de não-ficção e graphic novels.

Quem acompanha esse mundo já vem convivendo há alguns anos com o dia-a-dia atribulado dos refugiados palestinos, cortesia do respeitável trabalho jornalístico de Joe Sacco. O cartunista americano-maltês tem retratado o conflito entre Israel e Palestina com talento e sensibilidade únicos, abrindo feridas e colocando o resto do mundo dentro da casa e da alma de gente que toma na cabeça praticamente todos os dias.

Mas, raramente temos um vislumbre, nessa mesma linha, do cotidiano do outro lado do muro. Por diversos motivos que não cabem a mim explorar, a vida de figuras ordinárias em Israel acaba chegando aqui mais ou menos da mesma forma rasa e superficial que a imagem esteriotipada do desespero e da revolta palestina. É aí que entra Exit Wounds.

A graphic novel da quadrinista israelense Rutu Mondam cobre justamente a vida de um jovem taxista de Tel Aviv – e quando ela é atravessada por fragmentos da guerra. O encontro com uma também jovem oficial do exército traz novidades relacionadas ao paradeiro do pai desaparecido do tal taxista. O que houve? Ele sumiu? Morreu num atentado? As perguntas e as respostas não são simples. Elementos como o exército israelense, atentados sucididas, pessoas desaparecidas e a tensão constante da guerra se alinham com temas como família, amor e solidão. Nesse sentido, Exit Wounds traz bem menos desespero, pobreza e destruição explícitas do que as histórias de Joe Sacco. Mas isso não faz dela, em nenhum momento, menos humana.

Então, é simples: gosta de graphic novel, gosta de Joe Sacco, gosta de um pouco de romance contado de forma inusitada, manda ver em Exit Wounds.

Um lembrete, algo que já escrevi aqui: ler esse tipo de história especificamente EM QUADRINHOS sempre oferece uma dimensão extra à narrativa. Nos desenhos, temos acesso a todo um âmbito visual que é fruto de estilo e escolhas pessoais, o que coloca no relato mais profundidade e personalidade.

Outra nota: tem uma edição da Drawn & Quarterly de Exit Wounds que vem com uma entrevista da Rutu Modan feita por ninguém menos que o próprio Joe Sacco.

Última: vale dar uma olhada no blog da Rutu Modam no New York Times.

Não vou me debruçar demais em cima de Notas sobre Gaza, que terminei de ler esse fim de semana. Então vamos rapidamente e direto ao assunto: quem curte Joe Sacco vai certamente abraçar com gosto esse volumão. Mas vale avisar: não é bem mais do mesmo. É um trabalho diferente de, por exemplo, Palestina ou Gorazde. Bem menos dinâmico e mais investigativo, aqui Sacco foca todo seu poder de fogo em um massacre ocorrido na Faixa de Gaza em 1956. O livro é igualmente o resultado e o relato dessa investigação, uma vez que o autor divide com o leitor seu esforço em espremer a verdade de exaustivas entrevistas pessoais que são equilibradas com documentos oficiais. Uma aula de história, jornalismo investigativo, quadrinhos e, sem dúvida, humanismo.

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Atenção: volta e meia o Submarino anda fazendo promoções dos livros dele.

Laerte

Não sei se vocês notaram, mas o Laerte vem prestando um serviço de valor inestimável pro nosso país. Não, eu não estou falando dele assumir publicamente o fato de usar/desfrutar/curtir roupas femininas. O que eu acho mais fundamental é a FORMA como ele vem fazendo isso na mídia, com uma mistura de clareza, firmeza e ternura que raramente se vê em quem está tentando alargar um pouco os horizontes dos costumes sociais.

Às vezes sinto que falta no ativismo social um pouco desse jogo de cintura, dessa paciência em explicar, dessa tolerância para com a dificuldade do outro em compreender novos paradigmas. Em certos momentos, quem quer defender a justiça social parece que vira ditador: tome porrada em quem deu porrada em sem teto, dê-lhe linchamento em quem maltratou cachorro, corte-se a cabeça dos políticos corruptos! É muito sangue nos olhos e daí não dá pra enxergar direito.

Por isso, vejo em Laerte um exemplo a ser seguido nesse sentido bem específico. Empurrar os limites com menos belicismo é mais uma das artes que ele está executando tão bem.

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Mistura finíssima: Laerte + Pereio no Sem Frescura.

Melhores Posts de 2011

 

Estou de férias e volto só dia 9 de janeiro. Enquanto isso, fique com uma seleção dos posts mais bacanas de 2011 selecionados por uma comissão formada por me, myself and I.

Toque - uma tela touch no aeroporto de Florianópolis.

New Orleans After The Deluge – quadrinhos jornalísticos sobre a tragédia do Katrina.

Minhas impressões sobre o Kindle – é isso aí que o título diz.

Intermediários – a chuva na fazenda.

Pimpão – a importância do especialista de tecnologia ser simpático.

Reclamões - o bom uso da energia das reclamações digitais.

5 Coisas que deveriam ter sumido das palestras publicitárias em 2011 – será que se foram?

Jeffrey Brown – ele parece não saber desenhar, mas acho que é truque

Acúmulo – juntar coisas digitais também é juntar tralha.

Diversidade – não dá mais pra dizer “meu, não acredito q vc não viu isso!”

Crônicas de Gelo, Fogo e Sangue do Autor – o bullying em cima do criador de Guerra dos Tronos.

Corrida-dô – anotações sobre o livro do Murakami, aquele de corrida.

Malditos Cartunistas – a grande colaboração desses caras na análise do Brasil.

Calças cáqui – tudo pode virar ícone…

Patti Smith em Cannes – eu estava lá!

O início, o fim e o meio – por que tantos shows de discos clássicos?

Ginsberg – anotações sobre a biografia dele.

De todos os tamanhos – sobre a escalabilidade do rock.

Amigos, amigos, redes à parte – tiveram que nos explicar a diferença.

TV did not kill the web stars – as empresas de internet se mandam pra TV.

Television em Porto Alegre – eu fui e tava massa.

Telas – elas sempre chamam nossa atenção.

Diferentes iguais – sobre Diálogons en La Escuridad e Yo También.

The Quitter – anotações sobre esse livrinho do Harvey Pekar.

Documentário como ferramenta de marketing – além dos 30 segundos.

Sobre escrever – um texto que escrevi  sobre… escrever.

Nevermind em 12 faixas – todo mundo falou alguma coisa sobre ele. Eu também quis.

Primal Scream em Porto Alegre – eu fui e tava massa.

Matt Damon, educação e idéias vagas – o pessoal não pensa antes de falar.

Nunca esqueça da torneira – pra não se afogar em informação.

Regras da firma – redes sociais no trabalho.

Balde – chutá-lo ou não chutá-lo?

Clichês – como evitá-los.

Minha impressão sobre o iPad 2 – é isso aí!

Julgamentos – anotações sobre o documentário Judgment Day – Intelligent Design on Trial

Linha da vida – a arrogância da Timeline do Feice.

El Jardin Armado – mais um belo trabalho do David B.

 

 

El Jardin Armado, David B.

O David B. já tinha dado a dica. Na sua já clássica graphic novel autobiográfica, Epilético, as batalhas medievais apareciam como fertilizantes pra imaginação e impulso artístico desde a infância do autor. Tamanha foi essa influência que a história da família Beauchard acabou retratada, de fato, como uma longa cruzada em busca da cura e redenção da epilepsia do irmão de David.

Desta vez, em El Jardim Armado y Otras Historias, as batalhas são o mote principal dos três contos criados e ilustrados pelo cartunista francês. Flutuando com elegância entre história e mito, David B. nos leva a lugares como a Pérsia no século VIII, em pleno califado de Harun Al Rashid (de Mil e Uma Noites) e Praga no século XVI. Em cenários de disputas territoriais, políticas e, sobretudo, religiosas, se desdobram episódios que promovem o encontro de três forças: os governantes e seu poderio militar, o homem comum em busca do paraíso e seres místicos que encaminham ou desencaminham conforme alguma lógica não-aparente.

Não se engane com meu palavreado ou com a minha descrição barroca: as páginas de David B. fluem como uma mãe lendo um conto de fadas na beira da cama à noite. Não há compromisso excessivo com o rigor histórico. A arte é primorosa e agradável. Tudo que temos que fazer é sentar confortavelmente, abrir o livro e deixar símbolos universais fazerem o seu habitual trabalho.

O livro saiu em espanhol pela Editoral Sin Sentido. E tem também em inglês na Amazon.

Ah: quem curtiu Persépolis vai certamente encontrar alguma afinidade com El Jardim Armado. Embora o trabalho do David B. não seja, neste caso, autobiográfico, o sabor do oriente médio está presente. Vai sem medo.