OEsquema

Arquivo: Redes Sociais

Posts + Lidos de Setembro

Em primeiro lugar, meu texto sobre redes sociais que saiu na revista Noize, “Regras da Firma”.

Em segundo, SABE-SE LÁ POR QUÊ, um texto que escrevi sobre a Susana Vieira no fim de 2008.

Em terceiro lugar no pódio, o post comentando o vídeo do francês Marc Augé sobre o conceito de Não Lugares.

Comente

Amigos, amigos, redes à parte

De todos os comentários, dúvidas, desconfianças, elogios, críticas, pés atrás, de tudo que já passou pela minha cabeça e pela mídia (a social e a não social) sobre o Google+ até agora, o que mais me chamou a atenção foi o fato de que O GOOGLE SENTE QUE PRECISA EXPLICAR PRA NÓS O QUE SIGNIFICA A PALAVRA “AMIGOS”.

De novo: o Google (o Google!) quer nos ensinar (ou lembrar) o que significa amizade.

Isso não é pouca coisa. É bastante significativo e só não escrevo mais sobre isso porque meio que já escrevi ano passado no post Meus Amigos do Facebook.

Se estiver a fim, vai lá. Amigo.

***

Update. Meu colega @azeredo temperou um pouco minha ingenuidade com a seguinte observação: não é que o Google quer nos EXPLICAR o que é amizade. O que ele quer é SABER quem são nossos amigos próximos. E família. E etc…

1 Comentário

TV did not kill web stars

Esse comercial da Vostu com a Ivete é o mindfuck definitivo do marketing digital brasileiro. Há anos que artigos em revistas e sites especializados, bem como palestras evangélicas, vem detonando a televisão como um meio válido de publicidade. Anunciar na TV, para fundamentalistas digitais, é símbolo de incompetência. É tiro de canhão, desperdício, furto qualificado, diz-se. Não é preciso verba de mídia nem celebridades, o consumidor é a mídia, o que é bom viraliza-se naturalmente, declama-se.

Mas, tu vê só, o mundo dá voltas. Não defendo este ou aquele meio, vivo e trabalho em cima do muro (é de onde se tem a visão geral das coisas). Mas não deixa de ser engraçado ver empresas ícone do mundo digital experimentando um pouco com o mais (nos últimos tempos) mal falado dos meios. Dito isto, reforço: faz absoluto sentido a Ivete vendendo Megacity na TV (ainda que fechada, não vi na aberta). Ivete, TV e jogos sociais, é tudo mainstream. E brasileiro, pelo que sei, gosta de coisa mainstream. Cauda longa é consequência de mercados estabilizados e economicamente maduros, penso.

Mas o Ivete/Megacity não é a única. Desde o ano passado que a TV fechada vem sendo invadida por comerciais de empresas “da web”. Começamos pela mais recente, do Mercado Livre, que por sinal tem comerciais muito bacanas e um posicionamento espertíssimo:

E a Netshoes? Diz em alto e bom tom que “Você nasceu digital” e ela também.

O comercial do Chrome, sim, passou na Globo ano passado. Nada como um comercial da maior empresa digital do mundo passando no canal (ainda) mais visto do Brasil. Junção de canhões.

(Diga-se de passagem, em outubro de 2010 eu estava nos Estados Unidos e vi o Google anunciando a sua rede de conteúdo, seus banners, em página quádrupla no The New York Times – o autêntico cross-media.)

Um dos meus prediletos é o do Groupon (também do ano passado), porque ele explica o conceito de compras coletivas e define como “a nova febre da internet”:

O do SaveMe também é bem didático:

O do Buscapé vai um pouquinho mais longe:

No setor dos “regionais” e dos comerciais mais baratinhos, tem o Vaquinha Vip:

Esse do Peixe Urbano, por sua vez, é um deleite de subtexto e metalinguagem: a TV usada no fim do comercial é uma bem antiga, ainda por cima chamada pelo peixe de “aquário”.

Por último, um merchandising do Club Penguin no Disney Channel com direito ao apresentador vestido a caráter para uma festa medieval que iria acontecer dentro da rede social infantil da Disney, o popular e incrível Club Penguin.

Conclusão da história 1: se você trabalha com mídia, não precisa mais ter medo. TV está deixando de ser palavrão (como comentei aqui, gostar de TV é/já foi usado em alguns círculos pra ofender alguém).

Conclusão da história 2: em termos de cultura digital, é melhor sentar e ver a bagunça acontecer (e assentar de tempos em tempos) do que ficar bravateando por aí.

Comente

Minimalismo das últimas semanas

Por motivos de correria maior, não tenho postado os links dos programinhas que faço pra Oi FM. Mas tá registrado lá no blog da Oi. Tem um pouco de tudo: eu falo sobre radinho de pilha, pilha de livros não lidos, língua inglesa, crowdsourcing, exagero nos reviews online, SMS, internet no Brasil, coisas de graça, réplicas sociais, energias alternativas, e por aí va.

Se você quer ler ou escutar tudo, é só clicar aqui.

Comente

Numerofilia

Ninguém mais tem dúvida do quanto as redes sociais estão mexendo no jeito como a gente está construindo os nossos laços de amizade ou de contato profissional. O curioso é começar a notar os novos hábitos e as novas perspectivas que surgem com o uso continuado dessas ferramentas.

Por exemplo, é pouco provável que antigamente as pessoas contassem com precisão o número de amigos, ainda mais de conhecidos. Hoje, por outro lado, nós temos à nossa disposição uma contabilidade diária da quantidade de pessoas ligadas a nós, mesmo que virtualmente. Mais do que isso, a gente sabe exatamente quantas fotos temos online, quantas pessoa viram nossos vídeos e ainda podemos conferir no Facebook quantos declararam gostar de um comentário.

No fundo isso é uma reação bastante humana a antigas e profundas questões: quando fica difícil explicar certas relações e sentimentos em palavras, rapidamente nós começamos a apelar para os números.

***

Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Oi FM.
Todos os dias às 9h30 e às 13h45 no seu rádio ou na webradio.

1 Comentário

Simplicidade

Um dos segredos da adoção de uma tecnologia por um grande número de pessoas é um sentimento compartilhado por todos os seres humanos: a preguiça. Talvez o melhor exemplo disso, hoje, sejam os pequenos recursos de redes sociais, em especial os do Facebook. Quando a rede social americana lançou o botão de CURTIR, por exemplo, ela estava apelando pra a nossa dificuldade em encontrar, claro, palavras mas, talvez mais especificamente ENERGIA pra comentar tudo que aparece na nossa lista de amigos. Tanta atividade potencial dá vontade de interagir – mas também dá uma preguiça…

O botão de curtir é o triunfo legítimo da preguiça sobre a interação desmedida. Legítimo porque é assim também fora da internet. Tem horas que é melhor só levantar uma sobrancelha ou fazer legal com o dedo do que ficar falando só por falar.

***

Texto inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Oi FM.

O Minimalismo vai ao ar todos os dias às 9h30 e às 13h45 nas cidades onde tem Oi FM ou na webradio.

2 Comentários

Interatividade?

A empresa de monitoramento de redes sociais Sysomos estudou o efeito das mensagens no Twitter durante dois meses pra descobrir o que acontece com elas. Segundo o estudo, apenas 29% dos twits gera algum tipo de interação, como um reply ou um retwitt. Dos 71% restantes nós não temos como saber quais são ao menos lidos!

Ou seja, que só porque hoje todo mundo pode se expressar, isso não quer dizer que todas as opiniões sejam ouvidas – ou lidas. Pra quem gosta de grandes platéias, a realidade dos números das redes sociais talvez seja um pouco dura. A popularidade no meio digital é uma equação com parâmetros ainda em construção. Vai demorar mais um pouco pra gente saber ao certo como atribuir pesos e valores às diferentes noções de audiência. Enquanto isso, é melhor manter os pés no chão.

O trabalho tem uma série de outros insights, como a influência da rapidez de interação no número de RTs e Replys (o que aparece no gráfico acima). Mas um ponto continua em aberto na maior parte das pesquisas, que é a importância de tweets de tuiteiros altamente influentes em relação a tuiteiros altamente populares. Clareando um pouco mais, quero dizer que sempre existiu – e vai existir – uma camada de influenciadores que fica descoberta por estudos numéricos de popularidade, porque o efeitos dos seus twitts não é quantitativo, mas qualitativo.

Esses, valiosos em alguns segmentos (não pra publicidade, mas pra cultura digital) só com algumas escavações à mão pra descobrir quem são.

***

Texto inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Oi FM.

O Minimalismo vai ao ar todos os dias às 9h30 e às 13h45 nas cidades onde tem Oi FM ou na webradio.

5 Comentários

Sempre elas, as redes sociais

Essa semana o novo caderno Its Mais do Correio do Povo trouxe pedaços de uma entrevista comigo sobre o nosso querido e disputado assunto que está aí no título. Um dos tópicos bacanas da conversa foi o questionamento sobre os profissionais que trabalham com redes sociais – será o analista de redes o novo DJ? Pra ler a reportagem inteira, que inclui também a visão do Leo Prestes e da Rosana Hermann, você precisa ir na edição digital do Correio do Povo do dia 15 de setembro e folhear até a página 32/33. Colei aqui embaixo a íntegra do papo comigo.

Its Mais: Qual o perfil do usuário das redes sociais conhecidas? Por exemplo, o Orkut está mais relacionado com as classes C/D, o Twitter tem média de idade mais alta etc. Como este universo vai se movimentar, quais tuas próximas apostas em termos de sites de relacionamento?

Gustavo Mini: Eu acho que o Orkut vai permanecer durante muito tempo como a grande rede social brasileira. O brasileiro gosta de grandes movimentos mainstream, de ir atrás de um grande bolo. O Facebook vem crescendo, mas não acho que a curto prazo ele tome o lugar do Orkut. Diversos estudos falam sobre a demografia do Facebook, Twitter e Orkut, mas eu acho que isso é muito móvel. Daqui a pouco surge uma nova geração que redefine tudo. Então eu sempre acredito que qualquer regra é passageira. O que eu acredito que vai continuar acontecendo é um aprofundamento do uso de redes sociais, um refinamento de acordo com a necessidade de cada público e não em bloco: algumas pessoas vão se focar nos jogos sociais como Farmville, outras não vão estar nem aí. Fala-se na tendência de Social Commerce, de comprar estando dentro da rede social em vez de ir ao site de uma empresa. Mas o sucesso do Social Commerce é mais complexo do que o sucesso dos jogos sociais, porque exige que as empresas adaptem o seu modelo para o ambiente das redes sociais e falo de modelo de negócios, de modelo mental, modelo de operação, da comprar, estocar, vender e divulgar. Muitas coisas vão começar a acontecer dentro das redes sociais, mas isso depende muito da forma como elas vão facilitar a vida das pessoas. O Facebook ainda tem um funcionamento meio chatinho e complexo. O Orkut é mais basicão e direto. Eles fizeram algumas modificações agora, vamos ver como isso repercute com o tempo.

Its Mais: Qual o futuro do blog? Ele sobrevive ao meios mais instantâneos?
Gustavo Mini: Eu acho que como ferramenta de publicação ele pode se modificar, pode ir até pra dentro de redes sociais. Mas o que me interessa mais é o blog como modelo de reflexão, uma espécie de crônica da era digital, que permite explorar a fundo assuntos verticais, especializados, com uma certa informalidade. Eu acho que esse conceito de blog veio para ficar, seja em ferramentas de blogagem (como WordPress ou Blogger), seja em qualquer outro formato. Agora, o conceito de blog particular, de diário pessoal, esse foi substituído pelas redes sociais. E faz todo o sentido do mundo que isso tenha acontecido.

Its Mais: Quais, na sua opinião, são os atributos necessários para atuar nas redes sociais com sucesso?
Gustavo Mini: Depende muito do objetivo da pessoa ou da marca. Mas, no geral, eu diria que uma marca precisa saber que não é e nunca vai ser uma pessoa, que ela é uma marca, e que é melhor ela ser honesta quanto a ser uma marca e descobrir a sua voz de marca nas redes sociais do que fingir que é uma pessoa. As redes sociais são lugares de trocas, simbólicas ou concretas, e é bom que a marca tenha o que trocar, que ela não finja que seus valores simbólicos são concretos e vice-versa.

Its Mais: O Analista de Redes Sociais é o novo DJ? Qualquer um pode ser, é mais intuitivo ou devem ser seguidas algumas técnicas?
Gustavo Mini:
O problema do cargo de Analista de Redes Sociais é que ele é muito novo pra poder definir exatamente o que ele é. Tem que ter um pouco de intuição, mas definitivamente a pessoa precisa de um bom conhecimento técnico do funcionamento das redes sociais, dos sistemas de mensuração e de como construir diferentes estratégias para diferentes clientes. Só porque o cara fez um perfil muito engraçado que bombou no Facebook não quer dizer que ele saiba como replicar isso em outras situações.

Its Mais: Como você avalia a interação e atuação dos Analistas de Redes Sociais em Porto Alegre? Já é uma profissão consolidada?
Gustavo Mini:
Conheço poucos mas bons profissionais que estão se consolidando. Não é uma profissão consolidada, ainda não teve tempo pra isso. Mas tem pessoas bem bacanas que estão procurando ser mais do que “um jovem que passa bastante tempo no Orkut”. A pessoa tem que ter visão estratégica e conhecimento técnico, além de uma boa rede de relacionamento. Por exemplo, apesar de acompanhar este mundo de perto, eu sei que eu não poderia fazer isso pois não tenho a manha do relacionamento digital como algumas pessoas com quem trabalhamos. Não dá pra achar que qualquer mané com um perfil popular no Orkut pode trabalhar como Analista de Redes Sociais.

Comente

150 amigos e 1.000 desculpas

Esses dias, abri a Zero Hora em casa e dei de cara com um artigo sobre o limite de conexões sociais que uma pessoa pode manter – 150 ligações fracas, dizem alguns estudos, mesmo com a ajuda “gerencial” das redes sociais. Aí cheguei na agência, abri o Twitter e lá estava o Eduf linkando um post seu que aprofunda a questão. Parecia que o assunto estava estava me perseguindo…

Mas não é pra menos. É um tema que rende, que ainda vai render muito mais. Por exemplo. Fiquei com os dois textos na cabeça e me lembrei de um outro viés que talvez a gente possa adicionar à discussão. Um olhar que tem um pouco a ver com os “connectors” do Malcom Gladwell.

No livro O Ponto de Desequilíbrio, já bastante comentado quando o assunto é redes sociais e viralização, Gladwell classifica as pessoas que disseminam conteúdos e costumes em três grupos. Um deles é o dos “connectors”, pessoas que circulam transversalmente na sociedade, convivendo com diferentes grupos de diferentes hábitos e que, o que nos interessa aqui, não tem constrangimento em manter laços sociais mais fracos ou mais superficiais nessa navegação social. Ou seja, são pessoas que não tem o menor problema em ignorar os estudos antropológicos e ultrapassar o número de 150 conexões com amigos e/ou conhecidos, nem nas redes sociais nem no cara-a-cara.

À maior parte de nós, parece um comportamento incomum e insustentável socialmente. Mas existem pessoas que realmente parecem tera essa habilidade de fazer desses laços fracos algo signiticativo, talvez não de forma profunda, mas com certeza de forma… interessante. Pega, por exemplo, a Hebe, o Silvio Santos, o Faustão, o Emilio Surita, o Marcelo Tas, o Edgard, a Mari Moon, qualquer bom locutor de rádio ou animador de rodeio.  O que essas pessoas têm em comum? Eles têm a capacidade dos connectors somada à mídia de massa. Eles conversam com milhares ou milhões de pessoas e ainda assim mantém um tom de intimidade que é respondido pelo público – com atenção, com consideração, às vezes com uma perigosa devoção. Quem nunca ouviu a história de alguma avó ou tia que dava boa noite para o Cid Moreira quando ele se despedia no Jornal Nacional?

Mari antes do Moon

O que é novo nesse momento em que nós estamos vivendo é que esse tipo de comportamento (de connector ou de comunicador de massa) não está mais restrito a connectors e comunicadores de massa. Todo mundo está experimentando um pouco disso. E fazendo algumas bobagens, cometendo alguns excessos, corrigindo ou não, descobrindo que é mais social do que pensava ou não, confundindo tudo – ou não!

As redes sociais na internet estão redefinindo o papel de pessoas que funcionam como hubs sociais e nesse processo de redefinição um monte de confusão está acontecendo. No momento, muita gente que não tem talento, necessidade e habilidade para ser Cid Moreira ou Mari Moon está fazendo suas experiências de Cid Moreira e Mari Moon. O que elas estão descobrindo, às vezes a um custo muito grande, é que não é por causa da televisão que as pessoas davam boa noite ao Cid Moreira e nem por causa do Fotolog que as pessoas se conectavam à Mari Moon. Era por causa, veja só, do Cid Moreira e da Mari Moon.

Pessoas. Elas aprontam, elas fazem das suas, metem os pés pelas mãos, mas continuam sendo o componente social chave das interações. Mil desculpas pelo clichêzão de palestra, mas dessa vez simplesmente não deu pra evitar…

Comente

A arte da conversinha

Pessoal tentando fazer o MSN pegar.

Quando as pessoas se falam ao vivo, existe uma certa ordem natural que coordena a conversa. Enquanto uma pessoa fala, outras escutam e, na medida do possível, a ordem prevalece sobre o caos por uma questão de acontecimento do diálogo.

Quando o assunto é conversar em redes sociais, a dinâmica é muito diferente. Lá, você pode falar ao mesmo tempo que outras pessoas e pode ouvir o que elas dizem quando bem quiser. Assim, os diálogos nas redes sociais têm uma lógica completamente nova e curiosa. A fala simultânea, enriquecida com elementos visuais e desprovida de uma lógica temporal linear parece ser o novo paradigma. Mas é muito cedo pra dizer o que é certo e o que é errado. As regras estão sendo construídas à base de muita tentativa e erro. Talvez o que estejamos vivendo seja uma etapa preliminar e não o modelo definitivo.

De certo, só uma coisa: um dia a gente vai olhar pra trás e vai rir dos nossos sofisticados hábitos trogloditas.

1 Comentário

Meus amigos do Club Penguin

No post anterior, se você não leu, eu estava comentando sobre um certo bug que deu no meu cérebro quando comecei a ter que classificar meus amigos no Facebook. Depois de escrito, segui pensando no assunto e me lembrei de um caso bem interessante que adiciona um pouco de complexidade ao cenário.

Você conhece o Club Penguin? É uma mistura de MMPORG e rede social da Disney onde você cria um avatar de pinguim e sai por ilhas geladas jogando e interagindo com outros pinguins. Tudo dentro do padrão de segurança Disney para os pais não se preocuparem com possíveis pedófilos ou outros malandros do tipo. Interagir com o Club Penguin depois dos, sei lá, 25 anos, é um case study em si. Uma vez lá dentro (e eu tenho meu próprio pinguim, Mr. Walverde, embora não o use com frequência), você passa a fazer parte de um universo de socialização, diversão e compras. Pra comprar, você precisa de moedas. Pra ganhar moedas, você precisa jogar. Pra jogar, você acaba se engajando com outros pinguins-avatares.

Bimestralmente sai um catálogo com novas roupinhas, acessórios ou móveis para iglu, que você compra com as moedas que ganha fazendo pizzas, deslizando montanha abaixo em corridas na neve ou vencendo o Desafio Ninja. Quanto mais você jogar, mais pode comprar. (Não vou entrar aqui na questão do consumismo. No início achei esquisito a história dos catálogos, depois achei um bom gancho pra educar uma criança a não ficar comprando coisa o tempo todo).

O interessante é como a Disney trata a mídia do Club Penguin. Outro dia, estava assistindo TV com a minha enteada de 9 anos e de repente passou (não lembro em que canal infantil) um comercial sobre uma festa que ia acontecer em uma ilha dentro do ambiente do jogo. E em outra ocasião, um sobre a chegada do novo catálogo do Club Penguin. A interação on/off é simples mas interessantíssima e faz todo o sentido do mundo. A maior parte das crianças pula de uma tela pra outra sem quebra-molas.

Mas o mais legal que eu ia contar aqui é do dia que ajudei minha enteada a fazer o pinguim dela. Logo que você cria o seu avatar, o sistema gera um nome automático alfanumérico, que no caso da Stella foi PSTH1. A primeira coisa que eu lembrei quando vi PSTH1 foi o THX1138 do George Lucas e achei bacana. Mas pensei: “ela não vai querer isso, ela vai querer um nome fofo”. Aí, falei: “bom, depois a gente troca esse nome pra Tobi, Fifi ou Picolino”. E ela retrucou na hora: “Não, não, eu quero assim. Todo mundo na aula tem nome assim”.

Fiquei lá, com cara de bobo depois de tropeçar no generation gap. Nomes alfanuméricos só são frios e lembram filmes esquisitos de ficção científica pra quem tem essas referências. Pra quem mora no Club Penguin, PSTH1 é tão querido e fofinho quando Picolino.

Como diz o Frank Jorge: TÓIM.

2 Comentários

Meus amigos do Facebook

No momento em que escrevo esse post, eu tenho exatos mil cento e catorze amigos no Facebook. No meio dessa turma, tem de tudo: gente realmente próxima, gente que eu conheço de vista, gente que eu conheço de email, gente que eu nunca vi na vida e que nunca me viu, gente que me viu (com os Walverdes, em alguma palestra), me leu (no Conector ou em outros sites) ou ouviu (na Oi FM), mas que eu nunca vi, ouvi ou li. Pra quem mexe com música, cultura digital, mídia, essas coisas, é o tipo de configuração normal. Mas acontece que eu ainda não tinha parado pra pensar e olhar com calma o assunto em termos de Facebook, que é onde mantenho alguns canais de comunicação pessoal. Perfil de ferreiro, espeto de pau.

O que pegou pra mim é algo que já é no máximo tangenciado em análises críticas de redes sociais: a nomenclatura de “amigo”. O conceito de amigo é bem debatido, mas a nomenclatura nem tanto. Quem chama essas pessoas de amigo não sou eu, nunca fui eu: é o Facebook, que não me deixa mudar essa configuração (ou eu não achei o botão certo??). Se fosse eu, chamava tudo de contato e deixara a palavra “amigo” pra algumas pessoas especiais.

Uma certa consertada na situação pode rolar com a criação das listas. Pra poder acompanhar o newsfeed dos meus amigos de fato, sentei como quem escolhe feijão e comecei a separar os amigos dos “amigos”. E é aí que a coisa começou a ficar curiosa.

Listar os amigos não é difícil. Ao contrário do Facebook, que chama todo mundo de amigo, eu tenho bem noção de quem são meus amigos. Mas, saindo desse grupo seleto, tive que começar a inventar categorias. Os conhecidos. Os contatos do rock. Os conhecidões (aquelas pessoas de quem você não é amigo, mas seguido encontra e troca uma idéia). Os mais ou menos conhecidos. O pessoal da publicidade. Os totais desconhecidos. Os nadaver. E por aí vai.

Não é que essas classificações não aconteçam, de alguma forma, na minha mente. Sim, elas ocorrem. Mas quando eu preciso criar nomes tão específicos de grupos numa rede social que possa refletir em termos objetivos e quase matemáticos o que sinto por essas pessoas, tudo fica um pouco engraçado. Uma coisa é você entrar numa nova empresa ou fazer parte de uma nova turma e ao longo do tempo ir encontrando seu espaço, suas afinidades, colocando as pessoas em flutuantes prateleiras mentais. Outra, bem diferente, é fazer isso sentado na frente de uma tela, teclando, classificando, encontrando lugares objetivos para cenários totalmente subjetivos em um curto espaço de tempo.

E o mais interessante: não tem saída a curto prazo. Provavelmente vamos fazer isso cada vez mais nos próximos anos, não apenas nas redes sociais, mas em qualquer meio que exija a entrada de nossos dados particulares que tenhamos gerenciar. A lógica de classificação digital ainda é toda baseada em formulários, listas, caixas de diálogos, colunas, tabelas. E esse raciocínio está migrando para nossas interações pessoais. É uma necessidade de protocolos comuns para o bom diálogo entre sistemas que contamina um pouquinho a busca do bom diálogo pelos humanos.

Nada disso é motivo pra coisas como suicídio coletivo. Escrevo mais como um lembrete, uma nota, um post-it, uma passada de marca texto em uma questão que acaba despercebida muitas vezes (a da nomenclatura!). Em outras palavras, é só uma paradinha de dois minutos pra lembrar que é na tentativa de classificar as pessoas que mora a maior parte dos nossos problemas.

4 Comentários

O que aconteceria se desligassem a internet por uma semana?

O trecho acima, de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu 2, além de ser um clássico momento da comédia moderna também oferece um excelente paralelo pra responder à questão proposta no título do post. No filme, a espaçonave que faz o primeiro vôo tripulado à Lua enfrenta sérios problemas técnicos enumerados pela aeromoça: asteróides e problemas no sistema de navegação, que está levando a nave direto pro Sol. Mas o caos se instala mesmo quando um passageiro se revolta e acusa a moça de estar escondendo algo. E ela admite: “Ok… é verdade… também acabou o café.” Aaaaaaaaah!!

Bom.

Digamos, então, que um dia o Al Qaeda puxe a tomada da internet e toda rede fique desativada por uma semana. Honestamente, eu não me apavoro tanto com o provável caos no mercado financeiro ou no sistema de serviços à população, seja público ou privado.

Essa semana, o @maurodorfman comentou que o Twitter é o SAC do universo. Portanto, eu fico imaginando que o verdadeiro problema no caso de um “web blackout” (uéblecáuti) seriam os bilhões de pessoas que reclamam e desabafam no Twitter, no MSN, nos blogs e redes sociais todos os dias. Onde toda essa energia vai ser depositada? O que essas pessoas vão fazer?

Aaaaaahhhh!!!

6 Comentários

Sobre liberdade & edição

O Tiago Dória recentemente comentou que estamos vivendo na era do desmanche do conteúdo. Adorei essa expressão que resume bem um jeito de viver contemporâneo. É aquela coisa: em vez de ouvir discos inteiros, estamos preferindo músicas individuais que coletamos e selecionamos de acordo com a nossa preferência. Ou então, em vez de ler todo o conteúdo de um só portal de notícias, escolhemos matérias específicas de diferentes fontes de informação na internet.

Isso me lembra um assunto freqüente que vi no “Twitter” há alguns meses: pessoas de mau humor reclamando do mau humor do “Twitter”. As aspas são propositais: não faz sentido reclamar do Twitter, mas talvez sim do “Twitter”. O primeiro, sem aspas, é a ferramenta, algo neutro, cujo usuário decide como vai utilizar. O segundo, com aspas, é o consolidado. Aquela telinha com um conteúdo de pessoas que EU decido seguir (e não o programador da rádio), onde EU sou o editor (e não o diretor de programação do SBT), onde EU fiz a escolha (e não o chefe de redação da Folha). Se o MEU “Twitter”, com o grupo de seguidores que EU montei, está chato ou repetitivo ou insosso ou irrelevante, a responsabilidade é toda minha (e não do editor da Veja). É mais ou menos como brigar com o shuffle do mp3 player por ele estar tocando só música ruim.

A questão toda é que o desmanche do conteúdo coloca nas mãos de nós, ouvintes, leitores, espectadores, a responsabilidade de editar obras artísticas e informações. Todos nós – e não apenas os “formadores de opinião” ou os “curadores” – estamos nos tornando de fato editores e cada vez mais temos duas coisas: primeiro, a liberdade de escolha. E em segundo lugar, a responsabilidade. Porque se nós é que estamos escolhendo e selecionando, também não podemos mais botar a culpa em ninguém da má qualidade do que consumimos em termos de informação e entretenimento.

***

Ilustração roubada do blog do Guy Deslile.

Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

12 Comentários

A mente & os protocolos da cultura digital (2)

Se o ser humano se reprograma por repetição e contexto, o acesso diário (repetição) no Twitter ou no Facebook (contexto) sem dúvida deixa marcas na mente. Não vou nem entrar no assunto do cérebro, a neuroplastia e muito menos criar exóticos sub-factóides dizendo que quem acessa o Twitter todos os dias só vai saber se expressar em até 140 caracteres, mas com certeza estamos vivenciando algum tipo de troca entre nossa mente e as interfaces que utilizamos de forma mais intensa.

A construção da identidade do indivíduo pré era digital não se limitava, obviamente, a suas atividades psicológicas e sempre incluiu relação com objetos e aparelhos. Mas quando um número considerável de horas da nossa semana é passada preenchendo pequenos formulários ou tentando condensar nossos dramas e comédias em mensagens rápidas entremeadas de gifs animados dentro de caixinhas flutuantes e piscantes, precisamos admitir que estamos transformando nossas narrativas internas em experiências vivas de transmedia storytelling.

Isso implica na lenta construção de um novo alfabeto psicológico, mais complexo, espalhado, fragmentado e, acima de tudo, ligado a interfaces que nos levam a narrar nossos pensamentos e sentimentos de uma forma ainda não experimentada na história humana. Não é raro, por exemplo, uma discussão entre casal ou uma conversa entre amigos começar ao vivo, continuar por email, atravessar uma tarde no msn (entrecortada por uma série de outras atividades) e se desenvolver em frases cifradas de Fotolog ou mensagens de SMS.

Para fazer o eixo narrativo desse papo ter sentido (se é que algum dia ele fez ou vai fazer), é preciso preciso saber comunicar o que você está sentindo ou pensando em meia dúzia diferente de linguagens (o que acaba configurando uma única linguagem fragmentada e fluída). Nesse contexto, um mísero gif animado condensado em alguns pixels pode comunicar uma montanha de sentimentos complexos – com maior ou menos sucesso, dependendo da conexão entre as duas pessoas. Aquele smile estava sorrindo com alegria genuína ou com o mais puro sarcasmo? Quem decide?

Não tenho dúvida que a maior parte das pessoas está desenvolvendo um novo talento (o MIT chama de New Media Literacies) ao disparar em um único dia uma dúzia de mensagens de SMS para pessoas diferentes com diferentes conteúdos, tons e significados, todos dentro de um frame muito rigoroso formado por um número limitado de caracteres e uma interface gráfica ainda bastante rudimentar. No fundo, estamos aprendendo a tirar leite de pedra e não é pra menos que tanto rolo aconteça devido a mal entendidos em scraps e comments por aí na vida.

Tá, mas e daí? Não sei. Continuo no próximo post.

6 Comentários

A mente & os protocolos da cultura digital (1)

Eu já tangenciei esse assunto duas vezes. Primeiro num post sobre uma entrevista do Contardo Calligaris e depois escrevendo sobre o livro dele também. Me sinto um poquito em dívida com a questão, então vou começar a explorá-lo de leve, mesmo não sabendo muito bem por onde seguir. Vamos partir do começo mais comum: conversas descompromissadas que eu tive com alguns amigos e parceiros de trocar idéia.

Um dos papos que me vem à cabeça rolou no ano passado, quando eu estava acompanhando o William em uma entrevista que ele estava dando para uma colega de mestrado. Não lembro bem o foco da tese dela, mas a entrevista consistia em tentar detectar nele as nuances de comportamento frente ao Facebook. Não apenas a edição mais conhecida que claramente fazemos, como selecionar bem as fotos, músicas, vídeos e os links ao construir e manter nosso perfil assim ou assado, mas também as escolhas que estão implícitas ao decidirmos fazer uma foto, ouvir um som ou ir a um determinado evento bem antes de adicionar isso ao nosso lifestream – por assim dizer.

Aí  brota um dos primeiros aspectos da influêcia da cultura digital em nosso comportamento: a quantidade imensa de material que temos que gerenciar. Seja produzida por nós (fotos de viagem, vídeos caseiros) ou não (mp3, filmes, seriados, games), essa quantidade absurda de produtos digitais vem fazendo do nosso “editor mental” um dos pilares mais marcantes da nossa identidade. Em outras palavras, estamos nos definindo menos pelo que ouvimos e compramos e fazemos, mas cada vez mais pelo “como” escolhemos e classificamos automaticamente nossas interações.

O ponto aqui é perceber, primeiro, como nossas metodologias implícitas de selecionar e organizar nossas interações digitais estão crescendo como parte da nossa personalidade. E, segundo e mais importante, como isso está determinando não somente padrões do nosso comportamento no ambiente digital, mas nosso comportamento como um todo.

Um exemplo bastante simples mas bastante significativo é o fato das pessoas como um todo estarem menos cuidadosas para tirar fotos. Há pouco tempo, as fotos de uma viagem precisavam caber em um determinado número de filmes – nem todo mundo podia arcar com dez filmes e ter 360 fotos de uma viagem de fim de semana e hoje qualquer um com uma câmera digital tosca tem 360 fotos de uma festa. Isso gera um comportamento mental diferente, uma relação de abundância e disponibilidade. No caso, é o device transferindo sua memória expandida (se comparando à câmera analógica) para o nosso jeito de pensar.

Da mesma forma como a memória da câmera expandida se mistura à nossa mente, uma série de outros aparelhos, softwares e suas interfaces estão exercendo uma influência bastante sutil mas muito poderosa sobre nosso olhar e nossas relações conosco, com os outros e com o mundo.

Algo que vou explorar no próximo post um pouco mais.

7 Comentários

Fumando Smarties – a lógica do fiasco 2

Logo que postei o texto abaixo, me apareceu no inbox uma matéria da Advertising Age com um problema que o fabricante dos doces Smarties está enfrentando nos EUA. Não é o chocolate Smarties da Nestlé e sim umas balas feitas por uma empresa familiar.

Mas a parada é a seguinte: coloca “smarties” no Google e tu vai ver que nas primeiras posições surge um vídeo com um moleque mutcholôco ensinando a “fumar” smarties – na verdade, pelo que entendi, você esmaga os doces e aspira o pó deles como se fosse fumaça. A visão é um tanto quanto assustadora.

A empresa, claro, refuta toda e qualquer conexão com os vídeos, mas alguma influência sobre a marca vai ter com essa “mania” tendo destaque em sites de busca e de vídeo. Digital PR do avesso, que vem ganhando espaço espontaneamente e que exige preparo da empresa para se portar num casos desses. No final da matéria, a Advertising Age compila 5 itens de cuidado em caso de FAIL PR. Traduzi de forma bem livre.

1. Não lute contra. Tentar persuadir, alertar, ameaçar ou mesmo processar alguém que está sacaneando ou fazendo uma piada com seu produto só dá em desastre. “Talvez algum Neanderthal pense que pode controlar isso, mas a realidade é que ninguém pode”, diz Pete Blackshaw, exec VP da Nielsen Online Digital Strategic Services. Atitudes antagônicas só vão dar em mais criticismo e sacanagem.

2. Pesquise a extensão do problema. Estamos falando de um pequeno grupo de piadistas que ninguém levará a sério ou são influenciadores respeitáveis? (Nota minha: muitas vezes esses grupos se confundem) O quão prejudicial é o que eles estão dizendo? Eles estão realmente detonando o produto e associando com algo nojento em termos de comportamento? Ou apenas zoando?

3. Coloque em prática seu plano de administração de crises em mídias sociais. Se você ainda não tiver um, desenvolva. (Esse item você pode achar meio histérico, mas enfim… corporações realmente precisam dessas coisas)

4. Seja aberto com os empregados. Eles também usam mídias sociais e muito provavelmente já sabem o que está rolando. Certifique-se de discutir o que está acontecendo e de dar-lhes a informação que você deseja ser transmitida (por exemplo, o que dizer quando um amigo pergunta a um funcionário, “E aê meu, qualé a desses moleques fumando Smarties?”).

5. Responda direito. No mínimo, tenha à mão uma declaração preparada para qualquer mídia que vier fazer perguntas. Verifique se todos os altos executivos que podem ser consultados tem acesso a esse documento. E certifique-se de responder de forma tão rápida e tão transparente quanto possível para qualquer pergunta direta de seus clientes.

Bom, na real são conselhos bastante lógicos. Mas em épocas cafusas, o lógico precisa constantemente ser lembrado e relembrado. Ele é sempre o primeiro a ser esquecido. Fica então aí o conselho do AdAge.

Comente

Nossas Narrativas

O psicanalista Contardo Calligaris esteve aqui em Porto Alegre na segunda pro Fronteiras do Pensamento. Eu não fui, mas minha mulher foi e o que ela me contou me deixou com idéias pipocando por tudo quanto é lado. Calligaris trouxe suas idéias a respeito da “ficção como linha de conduta pra inventar a vida”, um assunto que ele explorou dias antes em uma entrevista pra Zero Hora.

“Nossa subjetividade é fundamentalmente uma história, a história que nós contamos a nós mesmos, a história da nossa vida, digamos assim, e a história que contamos aos outros como sendo a nossa, eventualmente a que os outros nos contam como sendo a nossa e que no fundo é uma história só. E uma história que é construída de maneira sempre dinâmica. (…) É a vida como criação de uma narrativa e, portanto, regrada muito mais por uma necessidade estética do que ética.”

Bom, começa que eu acho linda essa noção da vida como uma história, não pelo aspecto poético, mas pelo aspecto prático de liberdade que esse conceito oferece. Nós somos educados a enxergar o universo dentro de termos objetivos e a reboque vão juntos todas nossas subjetividades. Pra deixar mais claro: vivemos como se existissem fatos concretos acontecendo em uma sequência temporal lógica e que tudo aquilo que cerca essa construção objetiva (nossas percepções, sensações, conceitos mentais, nossas memórias, etc) são uma mera narrativa da trajetória objetiva. E isso é tão pouco, é olhar a vida de forma tão afunilada, fecha muitas portas, tolhe a nossa liberdade de nos reconstruírmos.

A idéia atual é que somos fundamentalmente uma história que vamos compondo a partir do que acontece, mas também a partir das várias histórias com as quais cruzamos ao longo da nossa vida – as contadas por outros, as que lemos ou às quais assistimos e que constituem um imenso patrimônio das histórias possíveis.

A crença na concretitude dos fatos externos leva à criação da necessidade de encontrar concretitude na história interna. E é aí que perdemos nossa maior liberdade, ficando preso nas nossas identidades. O bonito no que o Contardo Calligaris frisa não é podermos nos narrarmos, mas sim lembrar que essas narrativas não estão – e nunca estarão completas. Elas são mais parecidas com um perfil de Orkut do que com um livro: são editadas constantemente à medida em que vamos nos relacionando com outras pessoas e entrecruzando nossos caminhos.

Somos essa história em progresso, uma maneira de traduzir a expressão “in the making”, algo que vai se fazendo. E isso é um traço dito “específico da modernidade”, o que é verdade apenas para os últimos 250 anos, e mesmo assim na cultura ocidental.

Hoje, se quisermos falar de um novo léxico das narrativas internas, vamos obrigatoriamente ter que passar pelas conversas de MSN, pelos SMS, pelos perfis do Orkut e pelos Fotolog. A cada novo scrap, a cada nova edição do perfil, a cada novo diálogo no MSN, vamos transformando nossos “fatos” em “narrativas”. Nesse processo, as peculiaridades de cada ferramenta desempenham um papel fundamental, moldando a forma como nos relacionamos não só com outras pessoas mas especialmente com a nossa própria narrativa interna.

Por exemplo, eu acho fascinante que a forma como os Orkuts, Fotologs e Facebooks da vida estão organizados nos fazem mudar o jeito como pensamos sobre nós mesmos. Preecher um profile, determinar níveis de privacidade, selecionar o que vai e o que não vai para os álbuns de foto, agregar aplicativos, escolher de que forma você vai usar a página de recados são todos diálogos internos que moldam não apenas o perfil que os outros vão ver mas também a forma como cada um de nós se vê. Não é preciso pensar muito para chegar à conclusão que grande parte das fotos digitais tiradas por aí hoje têm seu ângulo e seu conteúdo determinado pelo destino final de upload. E não vejo isso como problema. É um traço da cultura contemporânea.

Os perfis de redes sociais (ou qualquer outro tipo de banco de dados que gerenciamos, como a agenda do celular) estão lentamente transferindo sua arquitetura daquele software para o nosso software – a mente. Estamos internalizando esse tipo de pensamento, tornando-as a nossa forma coletiva de organização de dados.

O ponto aqui não é entrar numa paranóia orwelliana a respeito do Google e afins. Eu não estou nem aí pra isso. O ponto é a liberdade perante as nossas identidades. Seja emulando a estrutura dos folhetins, seja o editar repetido de perfis, o upload regular de fotos, os diálogos constantes no MSN ou as mensagens de SMS, o fato é que a nossa identidade e a nossa história não são estruturas fixas, o que oferece um amplo campo de possibilidades no que diz respeito a viver melhor.

***

Imagens: Heather Horton.

8 Comentários

Um pensamento rápido

Não tenho bem certeza, mas é o seguinte: muito se fala a respeito de como a internet aproxima, conecta as comunidades, redes sociais e tudo mais. Mas raramente alguém sublinha (acho que nunca vi isso escrito) que a conexão digital aliada à distância física facilita muitas parcerias (artísticas/comerciais/pessoais) que talvez não funcionassem no dia-a-dia, na erosão natural do tétiatéti. Nénão?

6 Comentários