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Sobre escrever

 

Escrever é uma atividade que suscita os sentimentos mais extremos. Tanto os aspectos naturais (sua visceralidade intrínseca) quanto os artificiais (as regras da gramática) levam muita gente a colocar o ato de escrever em um pedestal – o que é prejudicial tanto para as pessoas quanto para a escrita.

Por isso, resolvi escrever um pouco sobre as virtudes da escrita. Não as virtudes literárias de escrever bem, mas os predicados do simples escrever – ou do escrever simples.

1) A vida é uma esculhambação. Escrever coloca as coisas em ordem.

As coisas acontecem, em geral, sem muita lógica. Filósofos, religiosos, psicanalistas e cientistas frequentemente batem nessa tecla. Não apenas o tempo é uma construção mental e arbitrária, mas a noção linear da nossa vida, com os acontecimentos se sucedendo um depois do outro, é facilmente traída pela nossa memória – seletiva, orgulhosa e fantasiosa.

Mesmo que possamos confiar em registros históricos e fotos, nossa interpretação deles muda e assim mudam seus significados. Viver, em resumo, é uma bagunça e uma das poucas forças capazes de acomodar o caos é a palavra escrita. Pontos, vírgulas, sentenças, espaços, linhas, parágrafos. Nada disso existe fora do papel. E tudo isso ajuda a colocar de pé um dos empreendimentos humanos mais duros: a construção de sentido.

2) Escrever é alquimia ao alcance de todos.

Ninguém precisa ser escritor e nem mesmo escrever razoavelmente bem. No momento em que você bota a caneta no papel ou os dedos no teclado, pronto: está transformando o intangível em tangível. Pode ser o pior texto do mundo, pode ser o email mais mal escrito de todo o universo, pode ser uma trivial lista de supermercado. Mas você fez: sentimentos, sensações, idéias, conceitos, intenções, tudo agora está ancorado ao mundo material.

Parabenize-se. Não é qualquer um que pode fazer isso. Fantasmas, por mais inteligentes que sejam, não tem condições de realizar este feito. Essa, aliás, é a nossa grande vantagem sobre Shakespeare. Ele pode ter sido brilhante, mas hoje não pode escrever nem um número de celular num papelzinho.

Um a zero para o analfabeto funcional em cima do cânone literário do passado.

3) Escrever é inútil.

Como as melhores brincadeiras, escrever não leva a lugar nenhum. Sim, eu declarei claramente no primeiro item que escrever é organizar a vida e no segundo que escrever é uma forma de magia. Mas é preciso admitir também que a organização e a magia não resolvem questões básicas da vida, embora sejam excelentes ferramentas pra lidar com elas.

É curioso examinar a vida dos maiores escritores que o planeta Terra já produziu e ver que a maior parte deles, por mais genial que fosse ao produzir um texto, esteve metida em encrencas épicas na sua vida pessoal. Isso não tira o brilho e o efeito do que escreviam sobre as pessoas e a maravilhosa construção e troca de riquezas que a escrita deles permitiu. Mas diz algo sobre os limites da escrita como arte.

Por fim, uma última nota: a escrita, por mais cortejada que seja por grandes mestres, tem alma ordinária. Ela vai com qualquer um. O desenho é um pouco mais caprichoso e nunca deixaria – como a escrita deixa – que um cara como eu, sem nenhuma grande realização no âmbito das letras, falasse dela com tanta intimidade, como se a conhecesse e dominasse tão bem.

***

Texto publicado no número mais recente da revista + Soma, da qual voltei a ser colunista depois de uma parada por falta de tempo. Pra ler colunas antigas, vai por aqui: +Soma Colunas

Não deixe de ler toda a revista gratuitamente aqui: +Soma #25.

Ilustração: Guilherme Dable

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Mais Walverdes e MQN

Tá lá no site da Mais Soma: entrevista completa + a discografia completa do MQN comentada pelo Nobre e a discografia completa dos Walverdes comentada por mim.

Se você quiser a entrevista bonitinha layoutada na revista, faz o download dela em PDF aqui.

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A Bandeira Laranja

“É preciso ir fundo.”
“Fundo até onde?”
“Se há onde, ainda não é fundo o suficiente.”

João acordou com esse sonho. As costas duras, o pescoço duro, as opções engessadas. Subiu até o terraço e agitou a bandeira. Ele tem uma bandeira. Um enorme estandarte laranja. Sempre que se pega deprimido, não toma comprimidos, não bebe, não reclama, não chora, não fuma maconha. Sobe em cima do prédio e agita uma bandeira laranja. Uma vez quase caiu, estava ventando e chovendo. Se desequilibrou e foi salvo por uns cabos da NET.

Faz treze dias desde o impacto e a cada noite ele acorda com uma conversa entre pessoas conhecidas sem saber se aquilo foi dito ou não. Antes de despertar totalmente, já está no terraço com a bandeira laranja. Esses dias um cara desceu flutuando do norte e ficou observando a cena: João brandindo o mastro pra lá e pra cá, fazendo tremular o enorme pedaço de tecido com o céu escurecido como pano de fundo.

“Por que você faz isso?”
“É meu antidepressivo.”
“Como assim?”
“Se eu acordo mal, venho aqui pra cima bandeirear e melhoro. Consigo dormir.”
“Como assim acorda mal?”
“Acordo mal. Me sentindo vazio, sem respostas.”
“Sem respostas pra quê?”
“Pra qualquer pergunta.
“Não entendo.”
“Você não precisa entender. Você vem voando do norte. Não tem que entender nada.”
“Agora entendi menos ainda.”
“Toma.”

Entregou a bandeira ao ser. E sentou na caixa d’água.

“E agora?”
“Agora balança de um lado pro outro.”

O cara balançou.

“É isso?”
“É.”

Devolveu a bandeira a João, que voltou a bandeirear enquanto o outro observava sentado.

“Interessante.”
“Gostou?”
“É bom.”
“Pois é. É o que funciona pra mim.”
“Você faz por isso?”
“Por isso o quê?”
“Por essa sensação?”
“É.”
“Só isso?”
“Me basta.”
“Não parece.”
“É? Mas me basta.”
“Empresta de novo.”

O homem que veio do céu pegou a bandeira de João, quebrou o mastro no joelho e jogou tudo lá pra baixo.

“Por que você fez isso?”
“É preciso ir fundo.”
“Fundo até onde?”
“Se há onde, ainda não é fundo o suficiente.”
“Me diz: quem é você pra quebrar minha bandeira?”

Mas o cara já tinha alçado vôo, flutuando com calma de volta para o norte.

“Desgraçado!”

***

A Bandeira Laranja saiu na Mais Soma #13. Tu acha o download da revista inteira em PDF aqui.

Aliás, a história do João está sendo toda contada na Mais Soma. A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos. A terceira é Cosmos.

A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.

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Cosmos

Quando João estava alinhado com o cosmos, haviam lhe dito, tudo funcionava. Se ele não tinha dinheiro, aparecia. Ou desaparecia a preocupação que o perrengue gerava. Por isso, João pegou uns reais e foi até a casa de um amigo comprar o DVD do Cosmos que ele tinha. O pai do cara gravou todos os episódios. A voz do Sérgio Chapelein retumbava nas paredes de ótima acústica das lembranças de infância de João. Ele precisava daquilo.

“Quanto você quer no DVD?”
“Não vendo. Tá louco, João.”
“Então me faz uma cópia.”
“Não posso. Prometi ao meu pai no leito de morte.”

Quem viu muito Cosmos fala coisas como “no leito de morte”.

“Deixa de ser mané. Me faz uma cópia.”
“Não posso, já te disse. Qualé, João.”
“Qualé, nada. Não te custa. Te dou uma cimitarra.”
“Cimitarra o cacete. Fiz uma promessa. Promessa é dívida.”

Já “Promessa é dívida.” não tinha nada a ver com excesso de Cosmos.

“Tá, meu. Sujou na minha. Era isso, tchau.”
“Ô, João, não fica assim. Volta aqui. Deixa eu ver a cimitarra.”
“Deixa quieto.”

E João se foi. Pegou o ônibus circular e sem querer acompanhou a órbita de um satélite na trecosfera, muitos quilômetros acima da sua cabeça. O centro do satélite coincidia com o seu chacra coronário, aquele que fica no topo do crânio. Mas só por sete paradas. Depois disso, João desceu na frente do shopping e o satélite seguiu seu curso. Chinês, o satélite.

Os satélites chineses foram criados no início da década para controlar o tempo. Dezesseis foram lançados e nenhum deles cumpriu direito sua função. Pelo menos era o que diziam os jornais ocidentais. As autoridades de olhos puxados e pele levemente amarelada contavam outra versão. Diziam que os aparelhos funcionavam sim, pô, só que o pensamento ocidental não entendia a lógica deles. Um dia, um satélite chinês caiu sobre setenta vacas no Quênia. Fica difícil entender a lógica oriental desse jeito.

Mas João sacava isso tudo quando estava alinhado com o cosmos. Por isso, queria tanto o DVD.

“Ah, que se desfaça aquele DVD…”

Contornou o shopping e se embrenhou no mato. Lá, em certo ponto, o chacra coronário dele e o centro do satélite voltaram a se encontrar por breves instantes. Nesse ponto da história o bosque cai, derramando a paisagem em um barranco íngreme. Além, só uma cerca, vaquinhas, coxilhas e o sol se pondo. João sentou na ponta do barranco e ficou olhando a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo.

Respirou aquilo tudo, trouxe junto com o ar pra dentro dele. E veio junto a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo, entrando pelo nariz, percorrendo a traquéia, chegando aos pulmões, enolvendo os brônquios e inebriando o cérebro. João vangloriou-se, sentiu-se vivo e feliz por ter a oportunidade de sentar uns minutos ali e apenas estar calmo daquele jeito. Daí expirou e, para sua surpresa, a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo não foram embora de dentro dele. Cabreiro, inspirou novamente e, dessa vez, pareceu vir apenas ar. A cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo continuaram lá, adiante. Mas a sensação boa, cerquícea, vaquícea, coxilhícea e solstícia permanecia dentro dele.

Na falta de algo mais elaborado, só conseguia pensar em palavrões de satisfação. Então levantou, largou a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo e foi viver sua vida. Uma vaquinha mugiu ao
longe. A cimitarra ficou na grama, abandonada.

***

Cosmos saiu na Mais Soma #12. Tu acha o download da revista inteira em PDF aqui.

Aliás, a história do João está sendo toda contada na Mais Soma. A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos.

A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.

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Bloquinhos

Lucas achou uma cimitarra entre os presentes de casamento. Veio sem cartão, então nem ele nem a Carla sabiam a origem.

“Deve ter sido um dos seus amigos da TI.”
“Pode ser. É cool.”

Um amigo programador do Lucas era fã de Prince of Pérsia.

“Quem disse que cimitarra é cool? Eu acho brega.”
“Sei lá. Foi só um comentário.”

Nisso, tocou a campainha. João apareceu na porta.

“Sim?”
“Estou procurando uma cimitarra.”
“…”
“Vocês têm uma cimitarra pra dar?”
“Desculpe?”
“Uma cimitarra… uma daquelas espadas assim e assim.” disse João desenhando no ar o tal formato.

“Só um pouquinho.”

Lucas fechou a porta e voltou pra sala.

“Carlinha, tem um cara querendo uma cimitarra aí fora.”
“Ótimo. Vende pra ele a nossa. Eu não quero isso aqui. Daqui a pouco a gente vai ter filho, não quero saber de arma em casa.”
“Nem pra decoração?”
“Você não vai pendurar essa citarra na parede, Lucas?”
“É cimitarra. Seu pai, não vai querer?”
“Lucas, se livra desse negócio. A gente nem sabe quem deu. Deve até dar azar.”
“E se for de um de nossos chefes?”
“Azar, Lucas. Você vai ter medo do seu chefe o resto da vida?”
“Tá bom. Mas o cara aí não tem dinheiro.”
“Então dá pra ele, faz um leasing, qualquer coisa, só se livra disso.”

Lucas pegou a cimitarra e foi até a porta. Abriu e mostrou a peça para a visita.

“Ah.. é perfeita” disse João examinando o fio.
“Pode ficar para você.”
“Obrigado. Muito obrigado.”
“De nada.”

Lucas fechou a porta e João desceu pela escada, com a cimitarra embaixo do braço, embalada em papel de presente amassado. Pegou o ônibus circular e parou em uma papelaria da zona norte.

“Quanto custam os bloquinhos?”
“50 centavos cada.”
“Posso pagar com uma cimitarra?”
“Uma o quê?”
“Isso.”

João desembrulhou a cimitarra no balcão.

“Ai Jesus!”
“Chama o gerente…”
“É assalto?”
“Não. Quero propor uma troca.”
“Ai, eu sabia, é assalto.”
“Não é… chama o gerente…”
“Ai Jesus…”

A vendedora saiu rezando e voltou com o gerente.

“É um assalto?”
“Não, quero propor uma troca.”
“Manda.”
“Essa cimitarra por 600 bloquinhos.”
“Hmmm…”

O gerente calculou mentalmente, coçando o cabelo com gel. Pegou a cimitarra, examinou o fio.

“Certo. Eu fico com ela e pago pelos bloquinhos. Marta, pega 600 bloquinhos no estoque.”
“600? Ai Jesus…”
“Vai, Marta!”

João saiu com os 600 bloquinhos em duas sacolas. Pegou o ônibus de novo e abriu o primeiro pacote de bloquinhos quando lembrou que não tinha caneta. O sol riu da ironia enquanto se punha atrás dos transformadores da empresa pública de energia elétrica. Assunto clássico para ao menos um bloquinho.

***

Essa história saiu na Mais Soma #11. Download da revista inteira em PDF clicando com o botão direito aqui.

Leia a primeira história da caminhada de João aqui.

A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.

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Tarô & Escaleta

João comprou uma escaleta de brinquedo numa loja podre da Voluntários. Pediu pra moça nem embalar e saiu tocando pela rua, com a cabeça baixa e os olhos virados para cima, não queria esbarrar em ninguém. Soprava e tirava melodias amenas, sem pressa nem euforia, desviando dos camelôs que tentavam lhe vender um monte de coisa.

Só o que João precisava era a escaleta e preencher seu coração vazio. Por isso, deixou que a música conduzisse seus passos e entrou em um shopping de fábrica que oferecia ótima acústica. Tocou um pouco sem dançar, tomou algumas olhadas feias dos lojistas do lugar e acabou entrando na tenda de Tamásia – Tarô e Astrologia Viking. Aceito vale.

“Você quer saber seu futuro? Dez paus. Aceito vale.”
“Eu li na plaquinha.” disse João dando um tempo à escaleta. “Mas não preciso saber do meu futuro. Estou construindo ele a partir de agora.”
“Ih, eu hein! Cada maluco… e esse piainho aí?”
“É uma escaleta. Não é de verdade, mas sai som na boa.”
“Toca alguma coisa aí pra mim.”

João tocou notas aleatórias.

“Bonito isso. É pagode?”
“Não, toquei agora.”
“Inventou?”
“É, não sei… eu simplesmente toco.”
“Bonito mesmo. Por que você não toca um pouco pra mim? É meio chato aqui, ficar ouvindo o bate estaca do box de CDs do Marião. Toca pra mim que eu leio as cartas para você.”
“Combinado.”

João sentou e Tamásia começou a colocar as cartas. O som da escaleta embalava o descortinar místico da vida do rapaz.

“Hmmm… interessante… essa escaleta você arrumou para expressar uma dor no coração…”

João não falava nada. Apenas soprava.

“Curioso… as suas cartas estão vazias… nada faz muito sentido…”

A música da escaleta ficou mais melodiosa.

“Deixa eu ver de novo… é… tem uma mulher aqui…”

A melodia se tornou triste.

“Ela foi embora. Olha, não sei se é uma boa notícia, mas é provável que ela nunca mais apareça.”

E melancólica.

“Bonito isso que você está tocando. Parece que as cartas saem com mais facilidade. Que o futuro desliza pra fora. Você não quer fazer um negócio?”

João balançou os ombros e sequenciou notas indiferentes.

“Eu tiro as cartas, você toca. Cobro 5 a mais pela música. Tamásia e… como é seu nome?”

Finalmente um descanso ao instrumento. O som do box de CDs voltou a bombar dentro da tenda.

“João.”
“Então, João. Cobro 5 a mais pela consulta com música. Tamásia e João. Tarô e… como é o nome do pianinho mesmo?”
Escaleta.”
“Tamásia e João. Tarô e Escaleta. Dez reais o tarô simples, quinze com música. A música acalma as feras. Acho que o pessoal vai curtir. Já tenho meus clientes, conheço eles. Recebo uns 8 por dia. 6 dias por semana, você tira aí seus… mil reais por mês, por baixo. Parte em vale-refeição. Se bem que agora o vale é em cartão magnético, mas bola pra frente.”
“Combinado.”

Foi um sucesso. Tamásia e João, Tarô & Escaleta. Quando as cartas davam notícias boas, João tocava algo alegre. Quando aparecia alguma nuvem negra, tudo ficava mais suportável para o cliente com o sonzinho calmo que saía do brinquedo. Tamásia se impressionava com o talento de João. E elogiava. Agradecia. Mas ele só sacudia os ombros. Dizia que bastava soprar e mexer os dedos. E estava sendo sincero. Mas a coisa tomou outras proporções. O pessoal quis até comprar CD do João tocando escaleta. O músico involuntário começou a se incomodar. E o invitável aconteceu. Caiu fora. Para Tamásia não era novidade. As cartas a tinham avisado e ela aceitava o plano maior. João partiu numa manhã de sábado enquanto chovia. Deixou a escaleta de presente pra falsa cigana de Uruguaiana e foi seguir sua vida. Quando parou de chover, saiu um arco-íris que emoldurou o shopping de fábrica.

***

Essa história saiu na Mais Soma #10. Download da revista inteira em PDF clicando com o botão direito aqui.

A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.

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MaisSoma #9 pra pegar e pra download

Tem, entre outras coisas, entrevista com o MZK (imagem acima), Rodrigo do Grenade e também a minha coluna lá no finzinho. Pra pegar, procura aqui. Pra download em PDF, procura aqui.

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+Soma #8

O PDF da +Soma anda saindo junto com a versão impressa. Barbada. Não tem como não babar na revista. Entre os destaques do mês, páginas e mais páginas com desenhos da Tara McPherson, entrevista com o jornalista americano Michael Azerrad (que escreveu uma biografia do Nirvana e acabou de lançar um disco de entrevista com ícones do cenário independente americano), entrevista com Titi Freak e, no finalzinho, a minha coluna!

Vai lá  e baixa. Ou procura aqui onde você pode encontrar uma de papel. Vale a pena.

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Parques Pessoais

Presta atenção quando você passar de novo por uma esquina com grama: o ângulo de 90 graus formado pela calçada vai estar sempre acompanhado de um atalho cortando o gramado e criando um caminho alternativo que nos permite economizar uns 40 ou 50 centímetros de caminhada. Uma economia sem sentido, que só mostra o quanto quem passa por ali é preguiçoso, apressado ou displicente, ignorando completamente o trabalho que a calçada tem de guiar nossos passos pra que não tenhamos que estragar a grama ou coisa do tipo.

Bom, eu pensava dessa forma tosca até alguém comentar no meu blog, chamando minha atenção para o termo “desire lines”. Sim, essas trilhas supostamente aleatórias têm um nome bonito. E também uma função. Segundo o meu leitor, há paisagistas e planejadores urbanos que utilizam o conceito de desire lines (também chamadas de desire paths ou social trails) para estabelecer os caminhos de parques: primeiro você coloca lá um pedação de grama e deixa as pessoas caminharem à vontade. À medida em que as desire lines vão surgindo, os caminhos são feitos – ou refeitos.

As desire lines são uma forma bonita de poesia urbana. Ninguém combina assim: “Opa, sabadão, vamo ali fazer uma desire line?”. A desire line é simplesmente a expressão de uma inteligência coletiva, da necessidade de encontrar um caminho mais curto, mais inteligente, mais bonito ou simplesmente um outro caminho.

O assunto fica especialmente interessante quando você pára pra pensar que, tirando os parques, também costumamos estabelecer desire lines nas nossas relações. Qualquer olhar mais atento vai revelar entre familares, colegas de trabalho ou amigos uma série de calçadas de cimento (necessárias), mas também uma vasta rede de atalhos feitos da mais pura grama detonada. E é aí onde a ação acontece.

Nossas desire lines pessoais oferecem caminhos alternativos para tudo aquilo que as calçadas não comportam. Um passeio que começa numa calçada e termina numa desire line é como uma conversa que começa com palavras e termina com olhares. Um sistema de irrigação alternativo que não invalida o oficial, mas o deixa muito mais rico e cheio de possibilidades.

Nossa tendência é querer logo pavimentar essas desire lines sentimentais pra que elas se tornem calçadas. Algumas realmente talvez precisem. Mas também é preciso ter cuidado e lembrar que é muito, muito saudável manter um imenso gramado e deixá-lo à disposição das pessoas que você mais gosta pra elas de vez em quando poderem fazer o caminho que elas quiserem.

Preciso anotar isso em algum lugar pra não me esquecer.

***

Isso foi minha coluna da Mais Soma #7.

Fotos daqui.

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+Soma #7

A +Soma #7 já tá disponível pra download em PDF no site dos caras. Lá no fim tem a minha coluna. E o recheio está mais incrível do que nunca (q horro parece frase de comercial de oferta…). Entre outras coisas, tem uma histórica entrevista com o Jaca, quadrinista e ilustrador que é tipo o Velvet na sua época: pouca gente conhecia, mas cada um que viu o show montou uma banda.

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Oi, velocidade

Um dos clichês mais comuns que se ouve em elevadores e restaurantes a quilo é ouvir comentários sobre como “as coisas estão aceleradas”: o ano passa mais rápido, as crianças crescem mais rápido, os carros correm mais rápido, os computadores estão mais rápidos, os celulares ficam descartáveis mais rápido, as bandas surgem e somem mais rápido, as tendências brotam e se dissolvem mais rápido.

Pois é. Estamos correndo tanto que não é preciso nem mesmo correr para estar rápido. Mesmo quem está chapado na cama, vendo televisão e ouvindo vinil com um celular de 2005 que só manda e recebe mensagens, está correndo. Qualquer um que hoje fique parado no seu lugar está indo mais rápido do que seus antepassados recentes. Não tem jeito. Estamos dentro de um trem bala e ninguém ousaria puxar a cordinha do freio de emergência. Isso afetaria de modo irreversível o lançamento do próximo iPhone.

Existe uma série de explicações para esse fenômeno. Elas podem vir com o viés da economia, da tecnologia, da biologia, da física ou da história. Como eu não domino nenhuma dessas disciplinas e nem li Paul Virilio (considerado o filósofo da velocidade), tive que inventar minha própria tese.

A velocidade tonteia, mas também dá barato. Oferece uma sensação maior de suposta solidez dos nossos mundos interno e externo. É a vida feito flip-book: se continuarmos folheando rapidamente, poderemos ver nossa história se desenrolar. Se pararmos, só sobrarão desenhos estáticos em seqüência – uma série de fotogramas pintados à mão que, pausados, surgem com detalhes. Olhar esses detalhes é o ônus de estancar a velocidade. Mas é também o bônus. É possível enxergar os contornos, as pinceladas de cor, a textura do papel – veja você, se percebe até que havia papel envolvido na história.

É difícil tratar do assunto sem resvalar em um moralismo que leve à apologia da lentidão. A velocidade está aí e ponto final. Mas pelo menos, por uma questão de educação, a gente podia parar por um segundo, nem que seja pra olhar na cara dela e fazer o que não fizemos ainda: dar “oi”.

(clique nas imagens para obter os créditos)

***

Isso foi a coluna da +Soma número 6.

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Transfer Espiritual

Programa de família na semana retrasada: almoçar no Mercado Público e fazer uma já há horas prometida visita à Transfer. Aberta desde julho no Santander Cultural, é a primeira mostra de grande porte que coloca nomes marcantes de street art/fanzines pra dentro de um espaço expositivo mais institucional aqui em Porto Alegre (me corrijam se eu estiver errado) com todas as implicações que isso trás – alguns narizes torcidos, questionamentos clichê a respeito do que funciona dentro de museu ou não, etc e tal. A mostra é MASSA, representativa (vai desde gringos como Beautiful Losers até confirmados nacionais como Osgêmeos, MZK, Carlos Dias etc), inspiradora e envolveu um povo de considerável interessância não só nas paredes do Santander mas também na curadoria e na produção (gente da Galeria Adesivo, da Maria Cultura, da Lava, Instituto Tri, entre muitos outros).

Bom, eu faço questão passar ao largo da discussão “street art em museu” e investir mais tempo em outro aspecto que me chamou muito mais a atenção em meio a vários trabalhos legais: a espiritualidade dos artistas brasileiros em relação ao trabalho mais político/contracultural dos gringos. O gancho que me despertou pra isso foi ver em pelo menos quatro ou cinco trabalho nuvens desenhas num estilo praticamente tibetano, derivado da pintura sacra budista. Vamos deixar os desenhos falar.

Olha só esses trabalhos gringos expostos lá:

Chris Johanson – Beautiful Losers

Harmony Korine – Beautiful Losers

Cherry Dunn – Beatiful Losers

***

Uél, não que tenha só esse tipo de trabalho, mas dá pra notar essa veia política/contracultural de americano alternativo, saca? Agora pega o trabalho de alguns brasileiros tipo o…

… Bruno Novelli. Essas mãozinhas aí inspiradas nos mudras… esse panteísmo descarado, esse elefantinho indiano, essa paisagem de pintura tibetana… e tem mais… tipo…

… essa sala escura pintada pelo Herbert Baglione com um sujeito flutuando, coisas saindo da barriga, pequenos homenzinhos voando e percorrendo o corpo do barrigura. “Coisas saindo da barriga” é um claro sinal de uma abordagem espiritual. Homenzinhos voando então nem se fala. Não tem como mostrar a sala toda aqui, não podia fotografar. Vale a visita. Enfim, vamos a outro caso…

… que é o Stephan Doitschinoff. Essa não é uma imagem da exposição (não achei), mas representa bem a pilha do cara. Numa das Mais Soma tem uma matéria bem considerável sobre ele e todos os murais e desenhos que ilustram o texto tem essa inclinação para uma espiritualidade ligada às questões da morte.

***

Enfim. Não estou fechando a questão aqui e nem buscando desenvolver uma tese. É uma impressão que eu queria dividir com vocês porque acho que ela faz sentido e vale a pena prestar atenção. O povo brasileiro é muito conhecido no mundo todo pelo apreço à expressão religiosa – e quando mais ao norte do país mais isso fica extremamente exuberante e muitas vezes ligado a manifestações na rua. Uma hora isso iria parar em algum ponto da street art.

Ah, um PS: agora me lembrei de outra coisa que eu pensei vendo algum trabalho d’Osgêmeos que é a questão da disciplina visual. O desejo de ordem no meio do caos urbano. Muito da street art passeia por esse desejo, me parece. No meio do caos urbano (desculpem o chavão), vocês já prestaram a atenção em como todos os personagens dos trabalhos dos caras são sempre tão alinhados? Arrumadinhos, tudo coordenando, mesmo os que seriam mais mulambentos carregam uma dignidade incrível por intermédio de roupas coordenadas e cuidadosamente vestidas.

Dignidade.

Também é um elemento importante da espiritualidade. De certa forma.

Veremos.

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As desire lines nas agências

Esse lance de desire lines é uma mão na roda pra explicar uma pá de coisas. Minha última coluna da +Soma foi com uma metáfora de desire lines e relações pessoais. E aqui na agência, essa semana, usei o conceito pra explicar o que eu considero a melhor forma de implantar processos relacionados à inovação.

Apesar de nunca ter estudado formalmente o assunto, não ter MBA e não conhecer teorias relacionadas a processos, me coube nos últimos 15 meses ajudar de forma bastante ativa na implantação de uma nova cultura através de um novo departamento aqui na agência. Nesse tempo todo, eu ganhei mais alguns cabelos brancos, perdi algumas noites de sono, tive umas crises gástricas – e isso tudo, vamos deixar bem claro, é uma MERDA, destestaria fazer apologia da loucura que é trabalhar nesse ritmo de agência mais do que seis, digo, oito horas por dia.

Mas enfim, ao menos nesse trajeto eu aprendi muito (sobre o novo momento da publicidade, sobre mim, sobre os outros, sobre pessoas em geral). Tive o privilégio de viver no limbo por esse tempo, sem ter uma função e processos muito bem definidos (pontos para o meu chefe que sacou que o lance é começar beta), flutuando nos mais diversos projetos e transitando por departamentos muito diferentes, tratando com pessoas de diversos backgrounds, construindo (poucos) cases interessantes que foram pra rua, criando (muitas) possibilidades que não deram em nada, angariando (alguma) simpatia e tomando (alguma) porrada.

Bom, a coisa mais valiosa que eu aprendi nisso tudo (entre zilhões) foi que a melhor forma de estabelecer uma nova cultura em uma agência (ou locais semelhantes) é respeitar as desire lines criadas pelas pessoas. Pra quem não sabe, as desire lines são os caminhos alternativos que as pessoas fazem em parques e praças, buscando atalhos ou simplesmente uma caminhada mais agradável que não havia sido detectada pela pessoa que projetou a calçada.

Em toda empresa existem desire lines. Às vezes são caminhos improdutivos mas na maior parte dos casos são atalhos inteligentíssimos ou então vias muito mais interessantes do que aquelas que estão pavimentadas. É pelas desire lines corporativas que circulam as informações mais ricas e por onde de fato acontecem os projetos. É por onde você anda de pé no chão ou enlameando os tênis, sem tantos pudores.

As desire lines corporativas não invalidam a necessidade de calçadas. Isso eu também aprendi: essa coisa de “ame o caos” é muito bonita em palestra de gringo (na verdade tudo uns puta control freak) mas extremamente estressante e contraproducente se mal aplicada em uma estrutura mais formal.

Não é possível uma agência de maior porte querer se comportar como hotshop (pequenos estúdios com práticas mais livres e foco maior em criatividade). É uma idéia absurda e muito frustrante pra todo mundo (embora bastante popular). Quem quer trabalhar (ou liderar) uma hotshop, deveria urgente tentar montar uma (pra ver o que é bom pra tosse) em vez de tentar implantar uma cultura dessas dentro de uma estrutura que não está preparada para tanto.

Então a meu ver o ideal é manter as calçadas e usá-las, mas sem desprezar ou matar o espaço das desire lines. Isso é muito mais fácil falar do que fazer porque as desire lines tem uma natureza anárquica, colaborativa e anti-institucional. Elas são móveis, surgem e se desfazem ao longo dos meses. Algumas que eram muito úteis podem se tornar um estorvo depois de alguns meses, como uma trilha que fica TÃO enlameada que é impossível passar por ela. Mas, diferentes das calçadas erradas, as desire lines erradas morrem por si só porque não precisam ser quebradas a martelo. É só parar de passar por ali e deixar a natureza fazer seu trabalho.

***

Imagens: daqui.

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Mais Soma Ano Um


A revista mais legal do Brasil conseguiu completar um ano de vida na ascendente em termos de qualidade gráfica e de conteúdo. Conector esteve presente desde o primeiro número, começando com essa entrevista do Jonathan Harris e depois estabelecendo uma coluna sem muito estilo ou assunto definido. Eu esqueci de divulgar o lançamento da número 5, então aviso que a 6 está por aí e abaixo vai o texto que saiu na 5.

foto daqui


Oficina de Zen-Shiatsu


Uma pessoa deitada à minha frente no tatame. Uma pessoa: dois braços, duas pernas, uma cabeça, tronco e, destaco, uma mente. Cobrindo uma parte considerável do corpo, há músculos enrijecidos – não por musculação ou exercícios, mas pelo simples andar intenso dos dias. É assim com todos. De diferentes maneiras, todos usamos um pouco nosso corpo como depósito do que nos acontece. Como um armário, as coisas vão se empilhando. Como um armário, existe uma parte mais aparente (que algumas pessoas costumam dar uma ajeitada rápida) e outra mais profunda, cuja limpeza demanda, mais do que atenção, um bom motivo para ser mexida.

Dois polegares, trabalhando juntos, em dupla, são instrumentos eficientes no lidar com esse armário. Eu me curvo o mais atento que é possível naquele dia (às vezes não muito), junto os polegares e deixo que o peso do meu corpo chegue até os polegares. Eles pressionam o músculo endurecido enquanto respiramos: eu, a pessoa no tatame, meus polegares, seus músculos, meus pensamentos, seus ruídos. Todos damos uma boa respirada, caso eu consiga não cruzar a linha que determina quando termina a intenção e quando começa a invasão.

Quando aplico zen-shiatsu em alguém, também recebo. Sem o músculo doente, não haveria a possibilidade de promoção dos meus polegares. O refino da minha atenção (e da minha intenção) é, nesse caso, totalmente dependente do músculo duro empurrando meu dedo de volta. Sua resistência é causa de mudança em mim também. A força contrária viaja pelos meus polegares e toma conta de toda minha pessoa. A inspiração, a expiração, a inclinação e a consciência são convidadas a dançar. Sem precisar ir a uma festa, a dança me faz mais suave, mais alegre e mais ligado.

Não dá para dizer exatamente onde começa e onde termina o zen-shiatsu. E nem qualquer atividade. Com a música é a mesma coisa. Há uma intenção de tocar, cordas sendo manipuladas, som produzido, ouvidos recebendo o som e uma mente processando tudo. Nada disso sozinho constitui um show. O ouvido que bem recebe e o ouvido que mal recebe também são responsáveis pela experiência. Nada é mérito próprio, não há um elo ou uma figura singular que possa apreender o sucesso ou mesmo o fracasso. São todos veículos fluídos.

Da mesma forma, essa é uma compreensão inútil sob a forma de estalo ou epifania. Em outras palavras: é fácil absorvê-la em nossos elaborados esquemas intelectuais. Mas é um pouco mais trabalhoso integrá-la de forma prática ao dia-a-dia. Sem a repetição continuada por anos a fio, não haverá familiaridade com a idéia de que você co-escreve essa coluna comigo a cada palavra que lê. E tudo terminará apenas como um gancho para um final espertinho de texto.

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Conector por aí

Já está por aí a última +Soma, sempre com uma coluna minha quase no fim da revista. A +Soma tem distribuição gratuita (para conseguir, dê uma olhada aqui ou espere que daqui a pouco sai a versão em PDF). A revista está super inspirada, especialmente ao publicar um lindo ensaio fotográfico do artista russo Leonid Tishkov em parceria com o amigo Boris Bendikov (cujo site merece uma visita atenta). É essa lua aí em cima. Vale um café (embora eu não tome café) só pra ficar sentado olhando esse negócio.

No Ouvidoria Updaters, posts sobre:

- o último Júpiter Maçã.
- uma pequena lista de sites que refletem sobre o mercado musical
- a banda acreana Filomedusa
- o release da Brinde

No Walverdes15, também tem post novo (pra quem não viu).

- Mais sobre o 90 Graus

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É isso aí. Boa semana!!!!

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Conector de férias – leia o texto, desfrute dos arquivos e volte no dia 15

Você já experimentou aquela esquisita sensação de que a sua cabeça está parecendo um engarrafamento em São Paulo? Ou um HD com a memória absolutamente cheia, trancando os programas? Ou ainda, um jornal de domingo, obeso, com cadernos inúteis e folhas transbordando?

Não vou fingir que eu sou uma revista semanal e apelar pra números e pesquisas. É desnecessário ser cientista pra perceber que hoje se vende nos camelôs dez álbuns em um único CD-R, que assistir um filme em casa agora inclui junto making of e extras, que a quantidade de canais de televisão vem aumentando a cada ano, que com câmera digital você tira muito mais fotos do que costumava tirar e não vamos nem entrar na internet e no celular.

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Existem diversas saídas possíveis para a mente não se perder nessa nuvem de gafanhotos: você pode se tornar um autista cultural, meio chapadão, que fica fechado no seu mundo e não deixa muita coisa entrar; você pode virar um consumidor ávido, compulsivo e superficial; você pode passar a dormir apenas 2 horas por dia e tentar se aprofundar em tudo; você pode trocar o prazer da absorção de informação pelo da classificação (muito embora “keeping things clean doesn’t change anything, segundo Jeff Tweedy no último álbum do Wilco”); ou você pode deixar cair.

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Deixar cair foi um dos melhores conselhos que eu já recebi. Me lembrou um pouco uma história de anos atrás, contada pelo Lama Padma Samtem, onde ele dizia que levamos nossa vida como aqueles equilibristas de pratos, sempre tentando não deixar as coisas caírem, sempre adicionando mais e mais pratos girando. Não sei se o “deixar cair” que me falaram foi utilizado no contexto dos pratos. Mas me pareceu adequado conectar o conselho à história e me lembrar que, de fato, não é possível segurar dezenas de pratos girando para o resto da vida indefinidamente. A menos que seu objetivo de vida seja ficar equilibrando pratos. O que não me parece uma boa idéia, que me desculpem os equilibristas.

Há dois anos o conceito de “life hacking” vem ganhando popularidade entre pessoas que querem ser mais produtivas nas suas atividades diárias pra girar mais pratos em menos tempo e arrumar intervalos para não fazer nada. O termo vem do jornalista de tecnologia inglês Danny O’Brien, que pescou o conceito dos atalhos de rotina criados por programadores e recontextualizou a parada estabelecendo quase um estilo de vida para aqueles que buscam diligentemente formas mais inteligentes e eficientes de executar suas tarefas do dia-a-dia. Os defensores do “life hacking” destacam que a idéia não tem a ver apenas com produtividade profissional, mas principalmente com liberar a mente e abrir tempo no dia-a-dia para curtir mais a vida.

É um ponto interessante mas, ao mesmo tempo, fácil imaginar que muita gente acaba preenchendo muito da sua agenda com dicas, estudos, técnicas e práticas de… life hacking. Sei disso porque sou meio obcecado por organização e há algumas semanas comecei a pesquisar sites de life hacking em busca de uma ferramenta para organizar minhas atividades. Em poucos dias eu estava totalmente imerso nas técnicas, arrumando MAIS uma coisa para fazer: desenvolver um sistema, conhecer os recursos, as principais obras, etc, etc, etc. E chegou o momento de “deixar cair” a obsessão. Até porque eu meio que me assustei com os gurus de life hacking: se até água demais não faz bem, produtividade demais também deve ter lá seus efeitos colaterais.

“Deixar cair” não é pra qualquer um. Há pessoas com vidas mais equilibradas. Há atividades que precisam ser levadas a cabo e que não se pode “deixar cair” sob pena de atrapalhar a vida de outrém. Há os relapsos que deixam tudo cair e se tornam um estorvo. Na verdade, “Deixar cair”, parafraseando uma entrevista do Gilberto Dimenstein, é como as estrelas: você pode não até não alcançá-las, mas elas servem perfeitamente para navegação.

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Texto publicado no número 3 da revista +Soma.

Tudo de bom, até a volta!

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Quitutes para o finde – ênfase conectorices


Tá rolando aqui em Porto Alegre na Mundo Arte Global uma exposição com trocentas caixas de leite customizadas por gente de música, design, arte, publicidade e tudo mais. Independente das caixinhas, vale uma visita lá porque em cima da galeria tem uma lojinha preza cheia de coisas desenhadas por gente ótima a preços módicos.

A caixinha aí em cima é a minha.

Saiu a INCREÍBLE +Soma número 3 com uma coluna minha, já tradicionalmente fechando a revista. A edição é especial, mais grossinha, perfeita pra levar pra praia, REPLETA de quitutes visuais. Sério, dá gosto de ficar olhar as figurinhas, nem percam tempo com o meu texto. Vou guarda pra olhar com atenção na praia, se tudo der certo.

Outra coisa: a primeira e a segunda edição estão inteiras pra download no site da revista!

Pontos de exclamação!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Tem uma entrevista comigo na edição impressa da revista Noize. Na pauta, música, walverdes, publicitário indie, essas coisas.

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Legal esse clipe:

E legal também os caras tocando ao vivo. Bem escandinava a história:

No MySpace, eles citam Stone Roses como uma das influencias (e se tu prestar atenção vai ver que os arpejos – são arpejos? – iniciais da cançoneta parecem os dedilhados do John Squire, de fato).

O que nos leva aos próprios. Olha essa lindeza:

Ano passado não tinha chongas deles no You Tube, agora é recheado de coisas. A desafinação do Ian Brown é algo incrível. Como alguém conseguiu ser tão cool e influente não sabendo cantar? Em compensação, a química entre os quatro (especialmente entre os 3 instrumentistas) ainda permanece como algo lendário, um dos pilares mais fortes de toda a música pop inglesa feita após – e nem vamos entrar no assunto new rave:

Esse clip aí em cima é todo feito com imagens de um show clássico dos Roses em 89, em Blackpool, um lugar de veraneio próximo a Manchester que reuniu milhares de figuraças em plena explosão da cultura rave/baggy/E e tudo mais.

Bom fim de semana, amigles.

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O mundo é de quem faz ou de quem não faz?

O IG anda bastante saidinho, cheio de comerciais, salamaleques e invencionices pra vender seu conceito, que dá nome ao post. Apesar de não curtir os comerciais (essa coisa manifesto já deu, né) e de admirar o esforço da agência em criar alternativas pra correr atrás da máquina do tal do conteúdo gerado pelo consumidor, eu comecei a sentir uma coceira do tipo “não tá certo esse lance de o mundo é de quem faz”… não é bem assim… o mundo tá cheio de gente interessante que não faz coisas e talvez em muitos casos não fazer seja mais relevante do que propriamente fazer.

Eu não sou, estabeleça-se, a pessoa mais indicada pra levantar qualquer bandeira de que o mundo é de quem não faz porque eu vivo fazendo coisas. Tantas coisas que nos últimos meses comecei a pesquisar alguns sistemas de organização tipo o famoso “Getting Things Done” ou GTD do tal do David Allen.


Navegando por blogs a respeito do assunto, acabei conhecendo por alto toda a cultura do LifeHacking, uma espécie de comunidade mundial de gente que troca informações a respeito de eficiência em tarefas cotidianas de modo que sobre mais tempo pra vida pessoal. O termo lifehacking vem de atalhos que os programadores usam pra facilitar sua vida de escritores de códigos. Mas acabou se tornando uma subcultura própria.

É um assunto que eu achei fascinante e assustador, acabei escrevendo uma coluna pra Mais Soma que deve sair mais pro final do ano. Quando sair eu coloco aqui. Aliás, eu tou pra colocar a coluna da edição impressa atual, mas eu perdi o texto, não sei onde coloquei.

Há pouco rolou uma grande matéria na Wired a respeito do criador do GTD (em inglês). Eu na minha cabecinha oca achava que o Allen era tipo um cara oriundo (adoro essa palavra) do meio corporativo, uma história repleta de sucessos gravados em ouro a ferro e fogo no Power Point. Contudo, entretanto, todavia, ocorre que o cara é o maior gonzo, passou uma parte da vida se detonando, foi parar na heroína e de lá num hospital psiquiátrico. Ou seja, ziguezagueou intensamente antes de se encontrar na vida por intermédio de um guru new age que no meio dos anos 80 estava metido num programa de auto-aprimoramento pra gente corporativa, uma mania na época.

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RESUMO DA ÓPERA.

É como um grande mashup de Um Estranho no Ninho com O Aprendiz.

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No Brasil, um dos sites dedicados a esse lance todo de culto da hiper-eficiência, como chama a Wired, é o Efetividade, de onde eu tirei essa frase ótima: “As coisas estão sempre tramando contra a sua organização doméstica e pessoal.” Sério, eu gostei dessa frase. As coisas não são fáceis!



Tá mas, afinal, o mundo é ou não é de quem faz? Se é pra responder, adorei esse texto, que recebi numa lista de emails e que originalmente saiu num livro do Chogyam Trungpa Rinpoche.

“Podemos realmente sentar numa almofada sem finalidade alguma, sem qualquer objetivo. É ultrajante. É impensável. É terrível — estaríamos desperdiçando nosso tempo. Agora, este é o ponto: desperdiçar nosso tempo. Talvez seja algo a se pensar: desperdiçar nosso tempo. Dar um descanso ao tempo. Deixar que ele se desperdice. Criar tempo virgem, tempo não contaminado, tempo que não foi importunado pela agressão, paixão e velocidade. Que criemos tempo puro. Sentemos e criemos tempo puro.”

Pois é. Por aqui, segue-se tentando.

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ôdje em SP

Tem um texto meu a respeito desse treco, a fita cassete. O texto ficou meio sentimentalóide demais, eu acho… mas enfim… escrevi a respeito da minha dificuldade de jogar fora minhas fitas (no fim acabei jogando) e de como o mp3 player é realmente melhor do que fita cassete no fim das contas – se vc tem um bom fone. Aí esses dias trombei com a notícia (não sei de quem é a dica… num lembro) desse curioso mp3 player que toca em toca-fitas…

Que tal…

A grande questão é que fitas cassete são muito antipráticas e os únicos dois motivos pra continuar com elas são 1) o som magnético, q pouca gente realmente se liga e 2) sentimentalismo.

Deixando o post mais esquizofrênico, dá pra pensar num certo fator freio de mão que coisas como o vinil e o cassete trazem pros nossos tempos: sempre é bom ter por perto alguma coisa que dê uma desacelerada na loucura, seja um braço com uma agulha que exija uma interação analógica – e portanto menos neurótica – pra funcionar, seja a aleatoriedade que o fast forward e o rewind magnético permitem. Entendeu? Nenheu muito bem, mas tenho certeza que é isso aí. Dá um jeito de conseguir uma Mais Soma q eu me extendo no assunto lá.

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Conector Entrevista Jonathan Harris – Apêndice


Recortes de realidade


Grande parte da beleza de We Feel Fine está em colher dados matemáticos e fazê-los brotar na tela sob a forma de uma animação lúdica, formada por pequenos objetos geométricos coloridos dançando no melhor estilo “poderia ser alguma coisa do Flaming Lips”. A colisão de matemática com estética surge no trabalho de Harris como resultado de seus interesses pessoais (que misturam computação, exploração geográfica & humana do mundo, belas artes e contar histórias), mas se alinha com toda uma tendência atual de encontrar beleza na organização de dados.

O blog Infosthetics (http://infosthetics.com) é um dos pontos de conexão mais interessantes para quem costuma retirar mais informação do desenho dos gráficos do que do papo furado que os acompanha. Mantido pelo belga Andre Vande Moere, professor-assistente de Design Computing na Universidade de Sidney, os posts do Infosthetics reúnem periodicamente novidades em visualização de dados com a informalidade que um blog permite. Isso significa textos concisos e muitas vezes bem humorados, além da correlação de assuntos próximos, como videoclips inspirados em infográficos e outras áreas de arte eletrônica. Se você curtiu o assunto da matéria, o Infostethics é um bom ponto de partida para mergulhar nesse curioso mundo.

Outra dica interessante é o projeto The Dumpster, de Golan Levin. Usando recursos parecidos com os do We Feel Fine, The Dumpster rastreia blogs de jovens americanos em busca de posts que revelem um dos pontos de maior concentração de energia na adolescência: tomar um pé na bunda do namorado ou da namorada, “being dumped”. A interface gráfica chega a ser bem humorada: os posts que revelam o pé na bunda são traduzidos em bolinhas que “caem” o tempo todo, uma referência ao “dumped”, que pode ser traduzido por ser “jogado fora”.

Já o tênis Onitsuka Tiger aproveitou a onda e lançou o site madeofjapan.com, no qual mostra seus modelos de tênis construídos com fotos que tenham alguma coisa a ver com o Japão capturadas em sites e blogs.

Na outra ponta do espectro, está o Week In Review (http://www.weekinreview.org/), criado em Los Angeles e que traduz cada semana em uma folha de papel preenchida com impressões trocadas por qualquer que se disponha a aparecer no bar onde os participantes se encontram. O resultado parece mais o desenho de uma criança do ensino fundamental, mas não deixa de trazer um insight poderoso: meia dúzia de canetinhas e uma mesa de bar são a essência da web 2.0.



Alguns projetos de Harris

universe.daylife.com – O projeto mais recente de Harris parte de representações gráficas de constelações astrais para reunir imagens, textos e frases capturadas dos sites de notícias globais. O objetivo de Universe é determinar uma espécie de mitologia relacionando as pessoas e temas mais citados nas notícias com a idéia de mitos sendo contados no céu. Ambicioso e um tanto quanto complexo de navegar, mas faz pensar bastante sobre o peso real das figuras preponderantes na mídia mundial.

tenbyten.org – O mecanismo de busca de 10×10 coleta as 100 imagens mais representativas dos sites de notícias e as transforma em um grid de dez por dez fotos. Forma, assim, um instigante panorama visual diário da situação do planeta Terra vista sob a ótica do jornalismo na web.

wordcount.org – Esse site parte do database do British National Corpus, uma compilação de 100 milhões de palavras em língua inglesa do século XX coletadas das mais diferentes fontes. O Wordcount seleciona as 86.800 mais usadas e as coloca em ordem de uso em uma linha única horizontal. O mais legal é que você pode pesquisar palavras e descobrir sequências que formam frases curiosas como “SEX CLAIMED ORGANIZATION HOLDING” ou “RAP TUMMY MONTREAL DECORATIONS”.

oralfix.com – Não é propriamente uma investigação artística na web, mas uma incursão de Harris e dois amigos no mundo das pastilhas refrescantes. Segundo ele, o objetivo era simplesmente pegar um produto comum do dia-a-dia e torná-lo mais bonito e mais interessante.

number27.org – O site que compila todos os trabalhos de Jonathan Harris. Você pode ficar dias lá. Você vai ficar dias lá.

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Eu tinha me esquecido que a matéria seguia com mais essas info… agora tá tudo aí.

Não fiz hyperlinks de propósito.

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Conector Entrevista Jonathan Harris – parte 1


O da esquerda é o Harris. O da direita é o Kamvar. Os dois são os responsáveis pelo We Feel Fine, um dos projetos mais interessantes em termos de investigação humana da web. Entrevistei o Harris por email há alguns meses e o texto foi pra versão impressa da Mais Soma. Reproduzo-o aqui em forma de remix. Reorganizei a ordem do texto pra facilitar a leitura no blog (vc me conta se funciona ou não…) , mas sugiro que você dê um jeito de arrumar uma Mais Soma, vale conhecer a revista – que é gratuita.

Na conversa, Harris esclareceu a relação entre dados e estética, fala sobre o gap que existe entre mundo online e offline, cita suas inspirações e explica por que se define como um contador de histórias.

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Um prenúncio de tempestade toma conta da cidade no fim do dia. As nuvens estão carregadas e o lixo é jogado de um lado para outro pelo vento que também forma redemoinhos junto ao meio fio. Pó está sendo espirrado nos nossos olhos. Está um pouco mais difícil de enxergar, de respirar, de parar pra pensar. São seis da noite. De vez em quando, um folheto vem voando até as nossas mãos. Na maior parte do tempo, é publicidade barata. Mas num dia mais iluminado, podemos ter a sorte de nos tornarmos o destino do pedaço da vida de alguém na forma de uma folha de agenda rasgada, um naco de bilhete com uma mensagem de amor ou quem sabe uma receita médica de tarja preta. Um fragmento com essa qualidade que consegue abrir caminho no meio dessa bagunça tem a propriedade de nos conectar instantaneamente com uma outra vida, com as angústias, compromissos ou amores de um outro ser.

Na rua, isso acontece de forma inesperada e caótica. Na internet, o que era pra ser um acidente pode se tornar um ato deliberado de conexão humana se você digitar wefeelfine.org. Inicialmente, você será jogado em um ambiente tomado por palavras e imagens aparentemente desconexas. Mas à medida em que sua testa se franze, seus ombros se encolhem e seu corpo se debruça física e mentalmente sobre o conteúdo do site, você começa a enxergar pontinhos coloridos que dançam na tela e reagem ao seu mouse como pequenos organismos unicelulares que carregam vidas concentradas. Você clica e uma frase é destacada.

Conector: O que move você a fazer coisas como We Feel Fine e Ten byTen?

Harris: Há tempos que eu comecei a notar que a web, geralmente vista como um espaço frio e sem humanidade, na verdade reúne uma quantidade absurda de expressão humana. E fiquei interessado em revelar essa humanidade escondida. Desde então, a maior parte do meu trabalho envolve a análise de dados em larga escala para produzir insights a respeito do mundo humano e não do mundo dos dados.

Conector: Qual sua motivação por trás da busca de padrões humanos no meio do caos de informação?

Harris: O mundo está submerso em informação e isso pode ser sufocante. Recursos como padrões, listas e “zeitgeists” permitem que a gente gerencie um pouco melhor o caos. Além disso, padrões também podem oferecer insights a respeito de quem somos, o que nos preocupa, como nos sentimos, como nos comportamos, geralmente revelando aspectos nossos que ainda não percebemos. Isso leva a uma melhor compreensão de nós mesmo e do mundo.

Conector: Então você acha que “Human behaviour is pattern recognition”, como disse William Gibson no romance Pattern Recognition?
Harris: Numa escala maior, sim. Mas numa escala menor, as pessoas são maravilhosamente surpreendentes.

Conector: Seu objetivo é tocar as pessoas ou apenas expressar seu ponto de vista?
Harris: Eu não tento forçar meu ponto de vista. O que faço é criar sistemas que têm limites, ainda que caóticos e abertos dentro desses limites. Dessa forma, cada pessoa que acessa meus sistemas os experimenta do seu próprio jeito.

Conector: O que você está tentando dizer com isso?
Harris: Em vez de apresentar conclusões sobre o mundo, eu estou mais interessado em produzir sistemas que levam as pessoas a desenhar suas próprias conclusões sobre o mundo.

Conector: Como você acha que isso toca as pessoas?
Harris: Eu acho que realidades tocam as pessoas. Então tento fazer com que meu trabalho reflita a realidade. Isso pode ser muito inspirador, porque a realidade é muito inspiradora.

Estamos compartilhando um pouco da visão de mundo de Jonathan Harris. Mas não foi Harris que escreveu a frase acima. Na verdade, junto com o Especialista em Personalização do Google Sep Kamvar, ele criou o site que pinçou esse momento particular. O projeto de Harris e Kamvar parte de um software que rastreia a internet de dez em dez minutos, buscando em blogs frases que contenham as expressões “I feel” ou “I am feeling”. O pequeno espião poético aproveita a viagem e captura também (se houver disponível) alguma imagem e informações básicas do post como local, horário e sexo de quem escreveu. Pra terminar, ainda cruza essas informações com a previsão do tempo local.

Mesmo quando não encontra todos esses dados, We Feel Fine oferece interessantes recortes da realidade. Com uma frase prosaica e uma informação simples, se contróem pontes para momentos do dia de alguém que você nunca viu e nunca verá na vida. Mas que, curiosamente, podem lembrar muito de coisas dentro de você.

Conector: Você tem mania de procurar padrões no seu dia-a-dia? Como uma prática pessoal?
Harris: Sim, eu vejo padrões em tudo.

Conector: Por exemplo…
Harris: Quando eu caminho pela cidade, ou ando de metrô, ou estou sentado no parque, eu sempre fico observando as pessoas, procurando por similaridades nas roupas, nas conversas, na postura, no comportamento. Às vezes isso até me atrapalha porque em vez de aproveitar as situações eu fico analisando, procurando padrões e significados quando geralmente o melhor é simplesmente relaxar e viver a vida. Estou tentando mudar isso.

Conector: Marshall McLuhan diz que “O ambiente é invisível”. A web é seu ambiente?
Harris: Não, não estou interessado na web desse jeito. Eu simplesmente uso a web porque atualmente é o melhor reflexo do mundo que eu posso encontrar.

Conector: Mas esse mapeamento que seu trabalho faz acaba sendo parcial porque muita gente não está conectada ainda, especialmente no terceiro mundo. Os mapas gerados pelo We Feel Fine deixam isso muito claro. Qual a sua preocupação quanto a isso? Você acha que o padrão dos blogs reflete o padrão do mundo offline?
Harris: Não. Eles representam o mundo dos blogs, que de fato não é uma representação exata do mundo offline. Mas, no momento, é a melhor representação da realidade global que existe. Eu acredito que o mundo se torne mais conectado ao longo dos próximos anos e, na medida que isso aconteça, acredito que o mundo online se aproxime mais da realidade offline.

(continua amanhã)

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Tá no ar finalmente o site da Mais Soma, revista do povo da Kultur e mais um bando de agregados interessantes. Ontem mesmo eu tava na Kultur batendo um papo com o Thiago e os planos pro site são massa.

É difícil rotular o recorte que a Mais Soma faz. Talvez eu possa utilizar o termo do Matias, “Novo Mainstream”, pq ao mesmo tempo que tem um viés independente, também reúne gente que trabalha de forma criativa tanto no underground quanto colaborando com grandes marcas.. Tem um pé no skate, um pé no som experimental, um pé no punk, outro pé na fotografia & design, um pé em arte urbana (seja lá o que eu queira dizer com isso), um pé na internet, é uma pá de pé…

Navegalá e vê o que eu tô falando…

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Aproveita e manda email pedindo pro pessoal botar a revista impressa em versão PDF pra baixar no site. Nela tem uma entrevista de várias páginas que eu fiz com o Jonathan Harris. Se bem que depois mais tarde achoqueu colo a entrevista aqui.

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Conector em São Paulo

Flyer: Gustavo Foppa

Pois é, rapaziada. Nesse fim de semana tem show dos Walverdes aí.

E HOJE tem lançamento da revista e site +Soma no Milo. Tem uma matéria/entrevista de 6 páginas que eu fiz com o Jonathan Harris. Eu não vi toda a revista, mas a matéria tá linda. Se tu é de SP, pinta lá. Se não é, fica ligado pra ver como descolar uma revista.

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