Minha coluna da semana na Zé Pereira: Mania de vítima


Ilustração do Fernando de Almeida
Mais uma das colunas que faço para a revista Monet, sempre usando um subertfúgio para ressaltar o nome da seção, Histórias INVENTADAS da Televisão. Abs.
Todos conhecem esses programas que entrevistam ricos e famosos - mesmo que eles não sejam tão ricos ou nem um pouco famosos - em festas pelo Brasil. Mas nem todos ouviram falar de uma atração idêntica, só que tão firme em seus princípios sobre o gabarito dos entrevistados que não durou tempo suficiente para virar nota de rodapé no Livro de Ouro da Alta Sociedade Brasileira.
O esnobismo do programa “Gente Bem”, tão antigo quanto a gíria que o batizou, começava pelo apresentador: Johannes de Castro Von Gripp, o Arquiduque de Consommé, um dos únicos brasileiros (naturalizado, naturalmente) que podia dizer que gozava da intimidade de Jacqueline Kennedy sem ouvir piadas grosseiras de pessoas de baixo nível - até porque não conhecia nenhuma. Ele comandava o show com sua coleção de gravatas-borboleta Hermès e a língua ferina que o transformou em persona non grata em mais de uma roda de bridge.
A primeira edição foi um desastre. Em uma recepção na maison Guinle, o Arquiduque não quis entrevistar uma Matarazzo porque “não falava com novo rico”. A senhora ofendida tentou argumentar que a fortuna da família tinha mais de meio século, o que Von Gripp interpretou como uma piada - muito engraçada, a julgar pela gargalhada que deu na cara da pobre milionária. Levou uma taça de Chandon na cara e uma bola preta preventiva do Country Club, lugar que não pretendia mesmo frequentar (”os toilettes são imundos”, disse).
No segundo programa, perguntou para Danusa Leão se alpinismo social também dava cãimbras (levou um tapa), limpou seus óculos na barra da farda de um general da reserva e chamou o anfitrião de “famoso cafetão” (depois se corrigiu: “cafeicultor, eu sempre confundo”). Conseguiu sair vivo por intervenção de Carmen Mayrink Veiga, que gostava dele apesar do apelido que ganhou do apresentador, Máscara Mortuária.
O programa durou pouco. Suas finas grosserias divertiam o público, mas desagradavam gente poderosa com influência sobre os patrocinadores. Por fim acabou desagradando os patrocinadores ele mesmo, quando comentou que usava o refrigerante que bancava seu show para limpar o escapamento de seu Lamborghini.
O mais anti-social dos colunistas sociais morreu sem amigos, principalmente porque sua misantropia aguda era sintoma de uma síndrome do pânico que acabou por isolá-lo em seu apartamento na Vieira Souto. Recusou a visita de um padre na hora final (”estou prestes a encontrar o proprietário, não preciso falar com o caseiro”)
Personagem novo em Paradox City.

Mundinho Animal.
Minha coluna Mal Necessário da semana: As utopias perdidas da geração do Jabor.

Amanhã, dia 28, quinta, vai rolar esse debate com gigantes da internet na Campus Party. 10:30 da manhã, amigos, dureza. Como é possível palestrar com o mínimo de isenção alcoólica nessa hora? Bem, vamos tentar. Espero vocês.

Mundinho, pessoal.
Minha coluna da semana na Zé Pereira: Trash kosher.

Aquela coisa, não é? Mundinho.
Minha primeira camisa de bloco de carnaval :~

Mais um personagem da minha Paradox City (sempre no Brasil Econômico): o pastor.


Minha coluna Mal Necessário da semana: Falta de ambição

A Pira > Sei que voce é um defensor do humor de texto, das boas tiradas, do diálogo ácido, e etc. Sei até de relatos de que voce é fã de Gilmore Girls. Já eu acho que aquele tradicional close no rosto do Lucio Mauro vale por 50 tiradas do Woody Allen. É o fim do humor da careta? Existe uma hierarquia no humor?
Arnaldo Branco > Não sou defensor ferrenho, só que ainda estamos na pré-história de humor de texto aqui. Queria muito que primeiro fabricássemos nosso Groucho Marx para depois negá-lo, gostaria de viver em um país em que o trash fosse apenas mais um dos subgêneros, ao invés de ser a única opção. E ademais, quem é o novo Lucio Mauro, o novo Costinha?
O Gas me deu uma prensa no blog dele, A Pira.
Mundinho, irmãos.
Minha coluna Mal Necessário da semana: A Esquerda Séria.

Mundinho, pessoal.
Minha coluna Mal Necessário da semana: Eu só estava cumprindo ordens.

Mundinho Animal. Partindo para as comemorações de fim de ano, 2009 foi o melhor ano da minha vida (não foi, Liv?), 2010 vai ter que rebolar. Até o dia 2, amiguinhos.
Coluna Mal Necessário da semana: Minha lista de melhores do ano.
Mundinho Animal.
Minha coluna Mal Necessário da semana: Vai ver que é pelas crianças.

Encomenda para o G1: O que aconteceria se os Simpsons tivessem envelhecido nos últimos 20 anos?



http://www.oseminaristaolivro.com.br/
Mais um livro que mandam pela Frog (alô pessoal) para dizer o que achei. Sou fã do velho Rubem, mas dessa vez não desceu muito bem. Mas é aquilo, leiam e me digam.
Ars longa
Sou do tempo dos vilões sem pretensões intelectuais. Enquanto apertavam o torniquete na cabeça do herói, a única coisa sobre o que falavam era seu plano de dominação mundial. Não sei de quanto tempo para cá começaram a recitar Shakespeare e deixar subentendidos traumas psicológicos que justificam sua vilania.
Rubem Fonseca também é desse tempo, mas seus personagens, heróis ou vilões, sempre tiveram pendores eruditos. Seus delegados, ladrões e psicopatas geralmente têm expertise em alguma área: são enólogos, exadristas, literatos. O ex-seminarista do seu último livro, que também é um assassino profissional arrependido (dos assassinatos, não do seminário), sabe muitas frases de pensadores católicos em latim.
Esse cacoete literário nunca me incomodou. Mesmo seus personagens mais violentos sempre estiveram no limite do cômico, da caricatura, e os diálogos didáticos e sem nenhuma concessão ao coloquial servem para sublinhar o absurdo de cada situação. E ademais suas tramas bem urdidas quase sempre compensam essa minúcia, a verossimilhança (sem ironia aqui). Mas neste livro específico, hum, não sei não.
A história: pistoleiro de aluguel quer se aposentar, mas ainda tem algumas arestas para acertar em um dos últimos contratos que aceitou. Acaba tendo um caso com a filha de seu contratante no mundo do crime, intermediário de empregadores que não conhece, um sujeito que ressuscita sem maiores explicações depois de levar dois tiros na cara. Como numa trama noir clássica, todos começam a morrer ao redor do protagonista, embora hoje existam câmeras de segurança que não atrapalhavam os bandidos do Raymond Chandler; também surge um mcguffin para justificar a jornada do herói: um CD-r com dados que incriminam um empreiteiro.
Talvez porque nada no livro convença como motivação (lembrei do disco de dados com “spy shit” do filme “Queime depois de ler”) ou contexto (o matador, um pobre diabo, parece ter amigos em qualquer meio que seja conveniente para a narrativa), a construção rasteira dos personagens tenha ficado mais evidente. Aqui, ela não serve a nada, nem à trama, nem a uma comicidade que “O Seminarista” não tem.
O estilo econômico de sua escrita também não ajuda. Quando usado nas boas cenas de seus romances e livros de contos mais inspirados, dá um ritmo cinematográfico, de edição precisa, ao texto. Aqui, só deixa o fraco argumento desamparado.
P.S.: A cena de abertura, com o assassinato do Papai Noel, parece tirada de uma continuação ruim de Desejo de Matar.
Abaixo, um trecho do projeto que, para dizer o mínimo, me livrou da vida corporativa. Ano passado fui procurado por um produtor com esse briefing tentador/assustador: “quero que você crie Os Simpsons brasileiros”. Isso mesmo: uma animação semanal que satirizasse o Brasil tal e qual os Simpsons fazem com a sociedade americana. Os roteiros do meu esforço nesse sentido (hehe) ainda estão com ele e quem sabe um dia. Por enquanto colo aqui o início de um episódio com um dos personagens (bolei mais de trinta), o roqueiro oitentista decadente Bob Fossil (depois soube que já usaram esse nome em outro seriado, depois eu corrijo isso).
Taí.
(Imagem como se gravada em VHS de um programa de TV dos anos 80, com um pouco de chuvisco e de vez em quando uma faixa de fita mastigada correndo pela tela . É o programa do Chacrinha começando. Aparecem aquelas imagens idiotas de zoom indo e vindo na bunda das chacretes, com o letreiro por cima: “Cassino do Chacrinha”. Chacrinha entra com seus berros de “Aêêêêê!!!” e jogando comida crua para a platéia, como de hábito, a câmera histérica mostra a reação das mulheres)
Chacrinha (jogando um pedaço de carne-seca para as arquibancadas) - Quem quer Jabáááááá???? (ele pisca cúmplice para o lado e a câmera frenética habitual do programa sai dele e vai até um homem com uma valise no colo, sentado na arquibancada com as macacas de auditório, que pisca de volta e faz o sinal de OK para o Velho Guerreiro)
Chacrinha - E atenção! Vai cantar agora o mais novo sucesso da Lobby Records! Com vocês, o internacionaaallll Bob Fossil!
(Entra Bob Fossil bem novo, ainda magro, pelo túnel de acesso aos camarins, muita fumaça em torno, com sua guitarra. O playback começa antes dele chegar até o microfone, ele começa a fazer a mímica com os lábios quando chega lá da música megaoitentista - teclados, guitarra com eco - “Amor Neon”)
Bob Fossil (cantando empolgado, jogando o cabelo, estilo brega 80’s) - “Cinza de cigarro / Marca de baton / Motel barato / Amor Neon”
(É um sonho. Bob Fossil acorda nos dias de hoje, bem mais gordo, no seu apartamento em Brazzaville, ao som do despertador. É um rádio relógio em forma do brinquedo Genius, que toca “Amor neon”, em sincronia com a imagem do programa do Chacrinha que acabamos de ver. Bob Fossil grunhe, se levanta com dificuldade. Vai escovar os dentes: seu espelho tem decalques do logotipo da revista Rolling Stone e de manchetes sobre música - todas elas dos anos oitenta, tipo “interview: Boy George”, “hottest new band: The Smiths” - com um espaço para a cara refletida de Bob Fossil - para ele se sentir capa da publicação. Vai até o armário para se vestir, uma das portas tem um velho poster seu, marcante a diferença de silhueta entre o Bob Fossil jovem e o velho. Bob vai até a sua secretária eletrônica, que está piscando com duas mensagens. Ele aperta o botão)
Bob Fossil (Voz na secretária eletrônica, cheio de charme datado, tipo tio Sukita) - Deixe o seu recado… após o Beep Bop. (tempo, toca uma frase de trumpete Be Bop. Toca o primeiro recado)
Michel (voz na secretária) - Oi, Bob, aqui é o Michel, seu empresário. Seguinte, seu show do dia 21 foi cancelado, parece que a casa passou por um reposicionamento de público e agora a clientela é da faixa dos 14 aos 17 anos. Entraram no seu lugar os Garotos da Platéia, uma banda jovem que imita as bandas que você imitava nos anos 80. Sei que parece injusto, mas você sabe como cabelo e abdômen são importantes na música hoje em dia. Mas a data do dia 25 continua de pé (barulho de telefone desligando).
(Som da frase de be bop, começa o outro recado)
Michel (voz na secretária) - Michel de novo. Ahn… esquece também dia 25 (desliga).
(Bob Fossil suspira. Confere um calendário na parede, vai folheando e vendo poucos círculos vermelhos em torno de algumas datas - todas elas com um risco e escrito ao lado “cancelado”, até que acha um círculo virgem, um compromisso não cancelado. Quando olha mais de perto, vê que está assinalado “exame de próstata”. De repente, entra uma conta por debaixo da porta. Ele pega o envelope e vê escrito “Condomínio Brazzaville - taxa mensal”. Olha o valor. Vai até seu quarto e mexe em um dos criados-mudos, que é na verdade um cofre. Dentro, vários vidros de remédios suspeitos, uma pistola, algumas moedas e um maço de notas. Ele pega o maço e examina. Vemos em close que as notas são de guaranires, moeda oficial do Paraguai - são notas de um milhão cada. Bob pensa, rola um flashback dos anos 80: Em um estádio de futebol, acontece um festival chamado Rock in Assunción. Um apresentador entra no palco, com um som de microfonia da banda anterior ainda no ar - o bumbo da bateria dela tem uma foto do ditador Alfredo Stroessner com várias medalhas acima do texto “Partido Colorado” - para anunciar Bob Fossil)
Apresentador - Estes fueram Los Hijos de Stroessner y la Lei de Segurança Nacional. Agora, com usteds, de Brasil, Bob Fossil!
(No túnel um sujeito com o crachá do staff do festival e uniforme militar está dando as últimas instruções para um jovem Bob Fossil)
Cara do staff - E lembre-se, las palabras proibidas son “revolución”, “democracia”, “eleiciones”, “ditadura”, “golpe” e “libertad”.
Bob Fossil - Pode deixar, as minhas músicas são todas sobre gatinhas e desilusão amorosa.
Cara do staff (fazendo cara de desconfiado) - Hum, lo se… essa era la desculpa de Chico Buarque. Toma su cachê (põe o maço de notas na mão de Bob) e (batendo continência) viva el rock’n'roll.
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