quarta-feira, 1 de julho, 2009

Abuso

Dois cartuns velhos, de antes da canonização, achei aqui.

Por Arnaldo Branco às 9:09 | 3 Comentários | Permalink

terça-feira, 30 de junho, 2009

Papagaios

Mundinho, vai lá.

Por Arnaldo Branco às 21:33 | 1 Comentário | Permalink

Bound for glory

Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: Não me inveje, trabalhe

Por Arnaldo Branco às 20:45 | Sem comentários | Permalink

sábado, 27 de junho, 2009

Jornalismo subliterário, parte 2

Republicando a matéria dos Raimundos pra Bizz (dezembro 2006) a pedidos. Tirei duas mudanças que o corpo editorial fez no texto, para conservar a crueza - foi a primeira vez que usei meu diploma de jornalista à vera na vida. Mas tirei uns erros de português que espero que não tenham passado pela revisão; sem coragem de pegar a revista agora pra me certificar.

Andar na Pedra

João Gordo em 1999 sobre os Raimundos: “Tudo aconteceu muito rápido pros caras, não passaram pelo esgana-gato que toda banda tem que enfrentar”.

Ah, se ele visse os caras agora.

17 de novembro, 23 horas: os Raimundos estão embarcando em um ônibus na capital paulista para tocar  em Pirangi, uma cidade de 10.000 habitantes 380 km (5 horas de viagem) para o interior do estado - como atração de uma festa à fantasia, 10 paus a entrada.

Com a banda - hoje em dia carece apresentar: Digão, guitarra e voz; Marquinhos, guitarra; Alf, baixo; Fred, bateria - dois roadies, um técnico de som e o Pisca, figuraça barbaridade, o empresário gaúcho que é a encarnação trintona do espírito adolescente que a banda sempre usou para escrever suas músicas. Também no busão: a dupla de reportagem (Arnaldo Branco, gravador; Matias Maxx, máquina fotográfica).

Mas antes, um exercício de contextualização:

Quando João Gordo disse a frase acima, os Raimundos eram a banda número um do país - tinham alcançado, em quatro discos de estúdio, o status que outras às vezes levam décadas para conseguir: o de poder fazer um show inteiro, com bis e tudo, só de hits. O que levou, evidente, ao DVD e CD duplo ao vivo de 2000. Mas no começo do ano seguinte, a Intervenção Divina.

Foi a separação mais traumática desde a de Cazuza e Barão Vermelho que, se entendi o filme da Sandra Werneck, terminaram a relação por incompatibilidade sexual. Com os Raimundos as divergências foram de fundo religioso, embora Digão não descarte o fator sexo: “Rodolfo se converteu evangélico para curar um chifre!”

Com chifre ou sem chifre, a verdade é que em 2001, o vocalista Rodolfo (Abrantes, como assina hoje) teve uma Revelação: encontrou Jesus, que o ajudou a se libertar do vício em drogas pesadas. Fred também teve uma Revelação: descobriu que o ex-colega usava drogas pesadas: “Nunca soube de nada do Rodolfo, só que fumava maconha - e eu parei de fumar bem antes dele!” Digão também parou: “Nunca acompanhei mesmo os caras, era tipo uns 8 baseados por dia, e eu só dois”.

Estamos de volta à novembro de 2006, no loungezinho do ônibus (um double deck responsa). A inversão de valores é tanta que a banda é quem pergunta o que nós estamos fazendo ali: “O que a Bizz quer com a gente? Estamos fora da mídia há tanto tempo…” comenta Digão. O fim da cerveja decreta o toque de recolher, e todos vão para o andar de cima, menos Fred. Do baterista: “o Digão quer fazer um disco ao vivo com as músicas antigas, mas a gente tem um de inéditas pronto”. Era o começo de um telefone sem fio que continuaria no dia seguinte, quando foi a vez do guitarrista-vocalista falar.

Chegamos ao hotel cinco da manhã, e quatro horas depois encontramos o técnico de som Demétrio, Pisca e Digão já de pé. Aproveitamos a carona dos três para o clube onde a banda vai tocar mais tarde. Breve reconhecimento de terreno pela janela da van: Pirangi é uma daquelas cidades que só existem nos quadrinhos da Turma da Mônica: apenas cercas, casas e árvores. O Grande Hotel Pirangi, onde nos hospedamos com a banda, deve ser a maior construção do pedaço.

Na Associação Recreativa de Pirangi (essas cidades pequenas são mais auto-referentes que o Marcelo D2) rápida checagem do palco e Digão comanda a expedição até a piscina. Lá, volta à carga contra Rodolfo: “ele diz que Raimundos foi a pior coisa da vida dele, mas vive dos direitos autorais”. Fala do fim da banda do ex-amigo renascido com empolgação: “você não está ligado, véio? O Rodox acabou em cima do palco! Na quarta música o batera chutou o bumbo e disse um monte do Rodolfo, que ficou só olhando”.

Mas deve-se relevar a bronca, a perplexidade pela atitude do ex-colega é bastante sincera. A verdade é que Digão não parece um Raimundo, e sim um fã da banda; inclusive fala sobre si na terceira pessoa: “O Digão no palco é com a guitarra, véio”. Sobre seu projeto acústico solo (toca Sublime, Chili Peppers, R.E.M. e, claro, Raimundos, em casamentos e formaturas): “O Digão pegou na viola, juntou um povo”. O nome do projeto é Digantes e, sim, ele canta todos os palavrões das músicas da sua banda, não importa quão classudo o casamento, ou a formatura.

Sobre o tal disco pronto que Fred quer lançar: “cara, só tem uma pré, captação de riffs, não chega a ser um disco”. Também está escaldado: “se lanço algo autoral, a crítica vai meter o pau de qualquer jeito, então o lance é fazer um disco ao vivo para mostrar como nossos shows estão fodas - e olha quanta gente está estreando direto com ao vivo, tipo o Armandinho”. Em relação ao EP que deixaram disponível para baixar na internet (”Ponto Qualquer Coisa”, 2005) dá para ver que foi voto vencido: “não entendi o sentido daquilo. Nego diz que a internet é o canal, não é para agora”.

Quando falava sobre a relação complicada entre Fred e Canisso (Digão relevou a saída do baixista original para tocar com o Rodox, mas o baterista tinha algumas divergências antes mesmo da saída de Rodolfo e hoje não se dão mais), chega o resto da banda, com a exceção do guitarrista Marquinhos. O Raimundo que entrou na vaga de Rodolfo não falou nada durante toda a viagem, ficando ou no hotel ou no ônibus, com a cara enfiada em um laptop - na real só ouvi a voz do sujeito porque faz backing vocals no show. “Ele é normal”, diz Fred, “só que às vezes fica assim”.

É hora de observar Pisca em ação, tentando cantar Fred para a idéia do disco ao vivo: “vou perturbar vocês, véio, pelo carinho que tenho pela banda. É que nem diz a letra de ‘Marujo’: ‘…é por isso que Raimundos nunca vai se acabar’…”, batuca na mesa. Fred dá de ombros e Pisca sugere um churrasco. Enfim, a unanimidade.

Pisca acumula a função de figura titular do grupo: canta a dona do hotel pelo celular, arruma uma briga de galo na piscina com um nativo, delega tarefas o tempo todo - vai, durante o show, me encarregar da chave do camarim. É sem sombra de dúvida um piadista, só não decidi ainda se um engraçado. Nessa, o churrasco segue rumo à impressionante marca de dois engradados e meio de cerveja - embora alguns locais tenham ajudado a banda e a reportagem a dar números finais à carnificina, cheios de intimidade. Pra quê…

Ah, o senso de humor dos interioranos. Sou acordado de um breve sono à beira da piscina por um copo de cerveja na cara - rosno qualquer coisa até perceber que o autor da brincadeira são na real cinco, e que o mentor intelectual (não é bem o termo) parece ser o Pisca. Matias tem menos sorte: é atirado na água com celular (perda total) e tudo. OK, a passagem de som vai começar, excelente desculpa para botar o galho dentro, o que se mostrou uma atitude sábia: um eletricista que ajudava a montar o palco foi esfaqueado pouco depois. Alguma treta local, resolvida agroboy style.

O problema é que quando a banda e o repórter viram o rastro de sangue, nosso fotógrafo tinha sumido - o que, claro, levou à conclusão de que todos aqueles glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas no chão pertenciam ao Matias. O alívio veio quando o reencontramos roncando no hotel. Em minutos todos seguiam seu exemplo, aguardando a convocação para o show.

A van passa no hotel meia-noite, a banda atravessa um corredor de fãs fantasiados (Chaves, super-herói, puta) e chega ao regado camarim. Cada um, cada um: Digão faz flexões e os outros bebem. Pisca faz a maior introdução de palco que ouvi na vida e os Raimundos entram, com “Mulher de Fases”. Na platéia o mais empolgado é um Jesus Cristo de punho cerrado e com todas as letras na ponta da língua. Mas Digão tem razão, a banda desempenha. Alf e Marquinhos ajudam bastante na tarefa de manter o povo cantando.

Para resumir: o show é excelente e termina com o consagrador bis “Puteiro em João Pessoa”. Rápida passagem pelo camarim, rolê pela festa com Digão, que deve ter padrões superfaturados no que diz respeito à beleza feminina: apesar do local bastante florido, acha as minas “fracas”. Isso, ou o cara parou com mais do que fumar. Nesse meio tempo, tiro fotos e dou autógrafo como se fosse um Raimundo, uma hora e meia de show parece pouco pra esse pessoal assimilar duas caras novas.

Rápida passada no hotel, e pé na estrada. De novo esquecemos de reabastecer o frigobar com cerveja, portanto todo mundo pra poltrona mais cedo. Somos deixados em Congonhas para pegar o primeiro avião para o Rio, e é aí que me ocorre fazer para Fred, que volta conosco, a pergunta que foi o ponto de partida da matéria quando a pauta me foi soprada pelos editores: “por que vocês continuam?”. O cara me devolve outra pergunta: “foi bom o show, não foi?”.

Nessa hora lembrei do que o Matias falou assim que o show terminou: “me senti de novo com 15 anos!”. Já era bem mais velho do que isso quando eles estouraram, e estava achando graça da frase, quando chegou Alf: “Onde você estava quando a gente tocou ‘Puteiro’? Ia te chamar para fazer backing vocal!”. Traído na hora por um sentimento de frustração, percebi que sonho de adolescente não tem idade, e que provavelmente, como os Raimundos remanescentes, não abriria mão fácil de alguma coisa que conquistei só porque tem gente em torno que decidiu que a festa acabou.

Por Arnaldo Branco às 13:20 | 18 Comentários | Permalink

quinta-feira, 25 de junho, 2009

Eufemismos e falsas premissas

Toda vez que alguém pergunta “como deu certo para mim” (vamos partir dessa premissa falsa mesmo), penso no Tommy, o da ópera-rock do Who, pregando para os seus discípulos que pra ele o que funcionou foi jogar pinball sendo cego, surdo e mudo. E na revolta deles quando tentam repetir o tal método e - claro - não dá certo.

Mas enfim, vou coordenar um curso (”Arte sequencial, humor gráfico e outros eufemismos“) no Laboratório Estação, com aulas do Allan Sieber (animação), Leonardo (cartum), André Dahmer (tira diária) e Hiroshi Maeda e Leandro Assis (graphic novel e literatura adaptada para quadrinhos). Aos alunos em potencial, prometo respeitar as limitações de cada um assim como desrespeitei as minhas.

Como conheço meu gado e sei que vão chiar sobre o preço - já disse, não consigo entender a vantagem moral de alardear a própria penúria - adianto que garanto a seriedade da bagaça. Me comprometo a fazer esses professores suarem para explicar o que, como e onde fazem essa difícil arte que os tornou ricos, famosos e bonitos.

La garantia soy yo. Serviço:

De 13 a 16 de julho
Das 19h30 às 22h
Carga horária: 4 aulas

www.grupoestacao.com.br
Reservas por email
laboratorioestacao@grupoestacao.com.br
Valor para pagamento à vista: R$ 300,00 ou 2x de R$175.
Rua Voluntários da Pátria 53/ 4o andar . Botafogo . Tel +(21) 2266-9900

Por Arnaldo Branco às 11:49 | 21 Comentários | Permalink

quarta-feira, 24 de junho, 2009

Old school

Por Arnaldo Branco às 16:07 | 5 Comentários | Permalink

terça-feira, 23 de junho, 2009

“‘A Banda’ é insuportável!’ - Jaguar

http://www.osomdopasquim.com.br/

O Mini propôs meu nome para escrever sobre um livro, em uma ação de marketing misturada com meme, e indicou “O Som do Pasquim”, que já saiu tem um tempinho. Sei que vou levar chamada de uns e outros que não curtem esse tipo de ingerência neste espaço, mas bicho, é livro. Livro é que nem pizza, quando é ruim é bom - no mínimo vai te ajudar a fixar pontos de ortografia, se o escritor mandar mal mas o revisor for craque. Portanto, eis minhas impressões sobre esse relançamento (a primeira edição é dos anos 70, da editora do próprio Pasquim, a Codecri - Comitê de Defesa do Crioléu).

O tempo da indelicadeza

Nos anos 60 e 70 a cana era dura, mas temos a impressão que a vida era  mais leve. Hoje se pode falar de tudo mais abertamente - e o pessoal do funk proibidão (maneira de dizer) aproveitou a deixa - mas naquele tempo o compositor popular tinha que se virar com uma sutileza compulsória que deixava o cidadão bolado: aquela letra elíptica seria uma crítica social ou alusão ao ato sexual? Os decodificadores do duplo sentido devem ter ficado maluquinhos com a entrada em cena do Djavan - menos mal que hoje em dia estamos ligados que ele não queria dizer porra nenhuma mesmo.

Mas na hora das entrevistas, que diferença. Se agora todo mundo é amiguinho e cada uma das aspas arrancadas de um artista contemporâneo equivale a um ritual de beija-mão, naquele tempo, mermão, o couro comia. Depois de ler “O Som do Pasquim”, coletânea de conversas entre os jornalistas daquele hebdomadário e uma carrada de músicos de várias procedências, você vai entender o uso da expressão Anos de Chumbo.

Não se pode dizer aquela frase clássica sobre o remake de “O Som do Pasquim”, que esta é uma edição revista e ampliada - antes é uma edição revista e reduzida: limaram as entrevistas da Maria Bethânia, Ângela Maria e Roberto Carlos. Elas e ele não quiseram assumir o que disseram sob efeito do álcool (passivo que seja, o povo do Pasquim bebia paca) e da inconsequência da juventude - quer dizer, a Ângela Maria (1928) não tinha essa desculpa. A proibição do Roberto só faz sentido por conta de sua personalidade paranóide, porque sua entrevista é a mais inócua da edição original, mas Bethânia sabe onde está pisando: gasta quase duas páginas da sua descrevendo um briga (física inclusive) com o empresário Guilherme Araújo.

Mesmo assim a nova edição é um festival de, como dizia Nelson Rodrigues, rútilas patadas. Waldick Soriano: “Não gosto da música do Gil, nem do Caetano, nem da Gal, nem da Bethânia, nem de ninguém”. Moreira da Silva: “Paulinho da Viola é sofrível e Caetano é uma porcaria, um chato”. Agnaldo Timóteo foi (paradoxo) macho de deixar a entrevista como a concedeu, mas pela lista de pessoas para quem escreveu uma nota se desculpando, dá pra ter idéia de quantas ofendeu: Caetano Veloso, Maria Alcina, Chico Buarque, Milton Nascimento, Tom Jobim - curiosamente, não pediu desculpas a João Gilberto, de quem também falou mal.

Mas também se falou bem, duplo sentido aqui: o Ivan Lessa chega a citar o poema Kubla Khan, de Coleridge, para comentar uma resposta do Chico Buarque. Muito bom ver o Lupicínio Rodrigues se declarando não artista, mas boêmio - e reclamar, para acabar com a dúvida dos entrevistadores relapsos, que era sim o autor de “Felicidade” e que escrevera o hino do Grêmio, não o do Internacional. E Tom Jobim, respondendo porque voltou para o Brasil depois de sua temporada americana: “Voltei para me aporrinhar. Para responder a esse tipo de pergunta. Para ser um dos 5% dos brasileiros que pagam imposto de renda. Voltei porque nunca saí daqui”.

A teoria do homem cordial de Sérgio Buarque de Hollanda, pai do entrevistado Chico, não ganha exatamente uma base de sustentação com esse livro. Mas o leitor ganha muito.

Por Arnaldo Branco às 12:22 | 5 Comentários | Permalink

segunda-feira, 22 de junho, 2009

Tudo junto e misturado

Seja na Terra, Seja no Mar. Cadê o povo da teoria da conspiração da semana passada?

Mundinho Animal. Nessa devia ter acumulado todo aquele texto no primeiro quadrinho em vez de usar reticências para terminar no segundo. Não sei o que me deu #autocritica

E minha coluna pra Zé Pereira da semana: Unidos lamentaremos.

Por Arnaldo Branco às 22:58 | 1 Comentário | Permalink

Terça, Pasquim, Jaguar; Quarta, Dahmer

Dois eventos imperdíveis: amanhã, terça, tem o lançamento do livro em homenagem aos 40 anos da maior idéia de jerico já perpetrada nesse país: a criação de um jornal para (entre outras coisas) falar mal da ditadura seis meses depois do decreto do AI-5 - além do terceiro volume da coletânea do maior hebdomadário do mundo. Também entra na roda o livro de um dos malucos que tiveram essa idéia: Jaguar, “Ninguém é perfeito”. Devo tanto aos dois que estou escrevendo esse post de pé.

E quarta, o novo livro do Dahmer, “A cabeça é a Ilha”, pra quem fiz o prefácio (trecho abaixo). Muito orgulho de ser amigo do cara.

Ele sempre fala em lançar um livro apenas com suas poesias, e esse é uma espécie de livro de poesia em quadrinhos: você vai achar graça, mas também sentir o desconforto de quem suspeita que no fundo, o autor da gag está falando sério. Bem a propósito - pra rir deste mundo, só com muita licença poética.

Estejam lá, para seu próprio bem.

Por Arnaldo Branco às 17:01 | 3 Comentários | Permalink

sábado, 20 de junho, 2009

Jornalismo subliterário

Em meu curto período como jornalista freelance consegui desagradar entrevistados, furar deadlines e me embriagar no processo (vide foto da matéria com os Raimundos, a que me valeu mais retorno e o desprezo do carinha com o dedo apontado aí embaixo). Mas o meu maior, embora pequeno, orgulho jornalístico foi esse texto sobre o programa Ídolos, tema um pouco indigesto, mas que acho que cerquei bem. É arqueologia, mas enfim.

O pesadelo do pop

Vivemos em um tempo em que o ídolo do povão é o Lula, o do Flamengo é o Obina e o da molecada é o Chorão. Triste é o país que precisa de heróis, ainda mais com essa safra.

Mas o panorama desalentador não parece intimidar os realizadores de “Ídolos”.  O programa do SBT escolhe entre 20.000 vítimas da moda um sujeito para gravar um CD e encarar o mercado musical, que constantemente dá lições a vencedores de reality shows sobre a verdadeira realidade. Que o digam os ganhadores do programa correlato da Globo, “Fama” - puxando pela memória só me lembro daquela mina gorda, alguma coisa Jackson.

Ano passado, “Ídolos” consagrou Leandro (”Pica-pau” por causa do cabelo vermelho) Lopes, de Santíssimo, zona oeste do Rio de Janeiro. Entrevistei o cara em Belo Horizonte, vestido e penteado como um personagem de animação japonesa. Lançou em setembro passado um CD (”Por você”, basicamente baladas e rock light FM) e segue em turnê. Deve ser complicado para os novos aspirantes ao título se guiarem pelos gostos do vencedor do ano passado: os ídolos do Ídolo são Zé Ramalho, Iron Maiden e Mamonas Assassinas (”pra mim a maior banda brasileira; misturavam Rush, Belchior e Raça Negra e dava certo”). Se achou bem representado pelo disco (”sou um cara do pop rock, e a Sony me deu carta branca para escolher o repertório”), apesar de, para um dos jurados do programa, Arnaldo Saccomani, ter um problema de posicionamento:  “não é chique para tocar na Jovem Pan e não é brega para tocar na Nativa”. Apesar disso, Arnaldo gostou de “Por você”: “só acho que esse caminho de Sandy & Júnior, da Wanessa Camargo, do KLB, isso já era, cara”.

A primeira fase de “Ídolos” serve para reduzir a 150 os vinte mil candidatos inscritos em etapas em cinco cidades (Salvador, Belém, Belo Horizonte, Campinas, Florianópolis). Como faz parte da dinâmica dos reality shows satisfazer o sadismo da audiência, esta fase é uma das mais populares. Nela, concorrentes com graus variados de desamor pela própria imagem são esculachados por um júri na verdade mais paciente do que exatamente sádico.

Escalado para cobrir duas etapas em Salvador e BH, recebi uma série de instruções da assessoria de imprensa do SBT sobre quem poderia entrevistar e a que locais de gravação teria acesso. Alguns dias depois de voltar da antepenúltima etapa em Minas Gerais, Silvio Santos, fiel a seu estilo zagueiro-zagueiro de chutar para onde o nariz aponta, desativou a assessoria sem maiores explicações - o que, em tese, me liberaria para incrementar a matéria com detalhes dos bastidores secretos do programa, mas na real a coisa toda é até bem desinteressante.

Basicamente: as audições se dão em hotéis de luxo, e no primeiro dia a fila (em média 4000 candidatos) é só para confirmar inscrição, ninguém canta. No segundo, os concorrentes cantam para a produção, que aprova todo mundo que tenha alguma afinação ou potencial para ser zoado - o que dá em quase a fila inteira. No dia seguinte, ainda sendo apenas avaliados pelo pessoal da produção, começam as filmagens e a carnificina, que reduz a mais ou menos trezentos os coitados que enfrentarão - em uma maratona de dois dias - os jurados Carlos Eduardo Miranda, Cynthia Zamorano, Arnaldo Saccomi e Thomas Roth. Daí, é com eles - o número de candidatos aprovados em cada etapa varia, de acordo que 150 sobrevivam para as finais em São Paulo.

O desgaste do processo

Em Salvador acompanhei o processo até o último dia antes da entrada em cena dos jurados. O mais impressionante nessa etapa é o segundo dia, o tal em que a produção manda para casa os que não tem a habilidade musical nem o talento humorístico involuntário que justifiquem desperdício de tempo de gravação. Nem tanto pelo número de eliminações (são muitos os aprovados; supõe-se que os responsáveis pelo programa acreditam bastante na máxima “todo mundo tem potencial”), mas pelo sistema em si. Em um galpão com 10 barracas de camping perfiladas, os candidatos tem muito pouco tempo para mostrar a que vieram, e o som vazando deixa no ar uma cacofonia de trinados, dós de peito e - me pareceu - gemidos de desaprovação. Mas o que mais se ouve são os constantes pedidos de “mais um! Mais dois!” do pessoal que organiza a fila que leva ao abatedouro.

Embora em tese não devesse estar ali - o galpão era um dos lugares vetados -, a produção dá uma força: trazem até mim um sujeito que, explicam, tem grandes chances de emplacar como figura, “para a sua matéria ficar legal”. O cara se apresenta como Filé da Bahia, e pergunto por que se chama assim: “não me chamo não, são as meninas na ladeira que me chamam…”. Vai precisar de muito carisma se continuar apelando para piadas velhas… também falo com Cláudia Rizo, clone falhado da Beyoncé (gravou uma vinheta como se fosse a própria, cercada pelos seguranças do hotel): “uso cabelo assim tem 4 anos, ela é que me imita”.

Sabemos, pelas transmissões do carnaval em Salvador, que baiano é imune à insolação, mas a resistência do pessoal da fila me deixou pasmo. Espantavam o tédio da espera dançando a última manifestação musical da sexualidade tatibitati baiana, uma tal de “A Rocha” (”arrocha”, entenderam?). O refrão dizia algo como “piriripompom” e o pessoal se esfregava com vontade - deu vontade de sugerir que descolassem logo um quarto, de preferência com isolamento acústico.

Baiano não nasce, estréia, diz o ditado. Esqueceram de dizer para vários candidatos que esperaram horas pela audição. Nem de gente que veio para concorrer, nem de malucos que querem aparecer na TV: a maior parte da fila é constituída de desavisados. Paula Tarsila, 27 anos, nenhuma caracterização excêntrica além do aparelho nos dentes, esperançosa: “comecei a fazer aula de canto tem dois meses…”. Leo Souza, 27, visual black, tipo de som preferido? “Black music!”. E vai cantar o que? “Roupa Nova”.

No dia seguinte o bicho pega. Perto do hotel vejo logo vários crachás de participante rasgados no chão - e, sem acesso a essa etapa, fico do lado de fora esperando os eliminados, que estão bem a fim de falar. “Não me deixaram nem começar, só falei que ia cantar Ivete Sangalo e me cortaram”, disse Gisele da Silva Oliveira, 18. “Mataram o meu sonho”. “Uma menina cantou parabéns para você e foi aprovada pela produção”, reclama o roqueiro Nino Rezende, que foi só dar uma força para a prima e a irmã que concorreram em Salvador. “Queriam me chamar porque me visto assim todo dark, pegaram um cara que estava vendendo mungunzá na fila e nem sabia da inscrição…”. Nino também estava dando uma força para amigos de Recife acampados em frente ao hotel e que chegaram à capital baiana num fusca megadetonado com a logo de ” Ídolos” que apelidei de “Anonimóvel”. Todos foram eliminados.

Ainda em Salvador, de carona com a produção, vi os apresentadores gravarem chamadas em pontos turísticos e aproveitei para conversar com eles. Uma é Lígia Mendes, loirinha de beleza padrão-apresentadora e que diz para a câmera textos decorados para vinhetas do programa, quase todos do naipe deste: “Salvador! Terra musical! Terra de João Gilberto, Caymmi, Caetano, Gilberto Gil…” O que Lígia curte em matéria de som? “Herbie Hancock, Dave Brubeck, Keith Jarret, Satie!”. Ela, que ganhou o nome por causa da canção de Tom Jobim, fala com bastante autoridade sobre mercado, preconceito da crítica e sobre o trabalho em TV - tinha um programa próprio em Minas Gerais. Tive que usar a minha mão livre - a outra estava com o gravador, Sherlock - para segurar o queixo. “Mas tenho um repertório brega maior do que qualquer um dessa fila!”, disse como se para tentar consolar o entrevistador que não poderá mais usar seus preconceitos na matéria.

O outro é Beto Marder, que mantém um sorriso lambaeróbico ao dividir com Lígia a responsabilidade de dizer as vinhetas e animar os candidatos e também está ligado: fala sobre como o rhythm and blues é o referencial do programa gringo que inspirou ” Ídolos” e como aqui vários gêneros podem reclamar o rótulo “popular”. É dessa palavra - de uso indevido em alguns partidos políticos e em um certo estilo de música universitária - que deriva a silabazinha mágica “pop”, a que precisei desenvolver uma tolerância de barata durante as entrevistas para este artigo. Alguns depoimentos para ilustrar:

“Faço pop sertanejo romântico”, manda Fabio Soares, 26, bem colocado na fila do primeiro dia da etapa em Salvador. Tarso, dreadlocks, na bica de enfrentar os jurados em Belo Horizonte: “Um lance Rappa, tipo pop rock, sacou?” Leandro, carioca, também em BH: “vou cantar uma música country, uma sertaneja e uma pop”. Além de ser evidentemente um expert que sabe distinguir country e sertanejo, achei inspirador seu otimismo em achar que conseguiria chegar à terceira música…

Mas de volta à cronologia. Encerrados os trabalhos em Salvador, era hora de partir para Minas.

Noção, artigo em falta

Em BH cheguei depois da fase da fila, já com os concorrentes reduzidos aos que iriam encarar os jurados. Confinados em uma sala do hotel e só podendo sair para ir ao banheiro em turnos similares aos de banhos de sol em presídios, os candidatos exultavam toda vez que alguém da produção abria a porta para anunciar mais um nome aprovado. Esperava não encontrar muita gente interessante, porque se em Salvador o povo notoriamente expansivo ficou um tanto retraído nas entrevistas, temia que em BH o povo notoriamente retraído fosse definitivamente lacônico. Estava errado.

Às vezes me identifico com o programa: também sou o maior pára-raio de maluco. Um cara ao meu lado levanta e começa a tocar flauta; percebo que está sem crachá de concorrente. Antes que consiga me dar conta, o sujeito estende a ponta de uma faixa, que seguro por reflexo, e se afasta para abrí-la: tem algo escrito sobre o apocalipse  - e um número de 0800. Trechinho do discurso dele que gravei enquanto ajudava a mostrar a faixa para o auditório: “…nós como seres divinos, e o planeta como um todo, está crescendo. O sol não está atendendo os nossos pedidos e então o câncer está fazendo uma limpeza em nosso planeta, isso é um conceito da física quântica…”. O 0800 deve ficar ocupado direto.

A produção destaca da fila um candidato para gravar depoimento, sinto que é alguém importante. Não estou (?) enganado: é Mike, ex-cantor e dançarino do Dominó. Ele não é da formação, se o termo se aplica, clássica: de 2002 a 2004, teve o privilégio de levar adiante a chama do grupo que já contou com os talentos e os mullets de Alfonso e Nill. Marombado “sou coreógrafo de hip hop, faço roda-moinho, dou mortal” e cheio de tatuagens, diz a que veio: “Apesar do meu background pop rock, eu vim da igreja, vou agarrar com unhas e dentes essa oportunidade que Ele está me dando, tenho muita fé no Senhor”. Senhor ou Senor (Abravanel)? Não me escapa a ironia do Deus evangélico oferecer a tal oportunidade através de um empresário judeu… repertório? “Mais soul, Ed Motta, Djavan, Boyz II Men, Brian McKnight”. Talvez o Senhor ouça melhor quanto mais o cantor se estenda nas sílabas, creio que essa é a idéia…

Também na sala de espera em BH, Claudiney, um rapaz delicado e de voz melíflua escolhido pela produção para dançar e cantar (em embromês)  “I’m A Slave 4 U”, de Britney Spears (o que lhe rendeu de pronto o apelido Brit-Ney): “Vou cantar uma música de uma dupla regional da minha terra, que é meio country, meio pop”. Uma tatuagem de Peter Pan (”me identifico muito com ele, adoro crianças, quero apresentar um programa de TV para elas”) toma toda extensão de suas costas. Com essas credenciais, nem precisaria perguntar quem inspira a coreografia que fez ao dublar Britney: “Michael Jackson, lógico”.

Outro concorrente é uma ex-semi-celebridade, participante do Big Brother Brasil 4, Cristiano, sósia do Vinny (sinto que minhas referências não estão ajudando a refrescar a memória do leitor). Falei com ele logo após sua eliminação, a que reagiu com serena humildade: “além de estar gripado, rouco, na área de música ainda tenho muito a aprender”. Mas não deixou de reclamar do modo como é tratado pela imprensa: “antes do BBB já tinha apresentado um programa e fiz alguns musicais, sou ator formado - e mesmo assim a mídia sempre coloca: ‘Cristiano vira ator’”.  Perdi essa polêmica, Cristiano, mas bola pra frente.

A calma de Cristiano é exceção - a eliminação faz com que os candidatos cuspam no prato em que queriam comer: “Isso aqui é um produto da mídia!” reclama Sérgio Coelho (que cantou “Popstar” para os jurados em Belo Horizonte), com discurso mais para o punk do que para o pop rock. A bronca vai principalmente para os critérios de julgamento, tanto do pessoal da produção quanto do júri. “Tem muita gente com potencial que foi eliminada porque não tinha o cabelo engraçado”, motivo que Sérgio, estranhamente oxigenado, não poderia alegar.

Tribunal de exceção

Em Belo Horizonte também entrevistei os jurados, que são, como na versão gringa da franquia, a alma do programa. Não temos um Simon Cowell, o bad motherfucker de “American Idol”, sujeito com uma sinceridade e uma marra de fazer inveja ao Romário, mas há um pouco dele diluído na bancada de avaliadores. Mesmo em Cyntia Zamorano, Cyz para os íntimos e Florzinha (por sua atitude simpática até com os candidatos mais freaks) para os íntimos do programa: “Parece que todo mundo no Brasil ouve a mesma rádio!”. E se você acha que os candidatos que vão fantasiados - na etapa de BH um marmanjo vestido de bebê teve que ser retirado da sala de espera por estar cheirando como se tivesse feito uso das fraldas - são casos terminais de carência, ouça Cyz: “tem gente que vem para pedir autógrafo! Tipo ‘não sei cantar não, vim só dizer que sou seu fã, dizer oi’”. Em um país em que as pessoas levam cartazes de “Filma eu, Galvão!” a eventos que a Globo nem está transmitindo, o chavão “população carente” ganha novo sentido.

Já Miranda não é nenhuma flor. “É uma praga! Jorge Vercilo, Djavan, Ana Carolina, sabe aquele pesadelo recorrente em que você corre, corre, corre e não sai do lugar? Então! Parece que eles (os candidatos) combinam lá fora só para me sacanear!”. Talvez o sotaque gaúcho, talvez a figura bonachona, mas essas considerações de funcionário insatisfeito só provocam o riso de todo mundo em torno. “Tem candidato que viro de costas”, falando dos figuras que querem aparecer. A falta de paciência dele com esses tipos é mesmo uma das coisas mais engraçadas da primeira etapa.

Usando um figurino que provavelmente seria gongado por Miranda, Thomas Roth (produtor, compositor, cantor, instrumentista) é o policial bonzinho do interrogatório. “É preciso que o cansaço do esforço repetitivo de ter que ouvir as mesmas coisas não afete o julgamento”, mas admite que é difícil. “As pessoas estão sem referências”. Thomas acusa, em maior escala, a massificação da mídia - mas sobra também para os aparentemente inocentes karaokês e bares de música ao vivo, ambientes propícios à monocultura das músicas de elevador.

Arnaldo Sacomani (breve currículo, só como produtor: Rita Lee, Tim Maia, Mamonas, Jeito Moleque) é um vilão - o terror da fila, segundo pesquisa informal conduzida pelo repórter - a contragosto: “a gente não curte esculhambar, só que tem uns caras que parece que entraram em uma porta errada”. Como os outros, tem críticas sobre as escolhas das músicas pelos candidatos, mas garante que é assim também com cantores consagrados. “Trabalho há mais de 40 anos, já produzi grandes ídolos, e se fosse deixar que escolhessem o repertório sozinhos, estariam ferrados - a primeira atitude de uma gravadora que se desinteressa de um artista é dizer para ele: ‘faça o que você quiser’”.

Miranda e Cyz são um júri dentro do júri, e não perdoam os colegas. Miranda, rindo e apontando para Arnaldo e Thomas: “sabe que música esses dois escreveram juntos? Aquela “o nosso amor é lindo / tão lindo / nada pode ser mais lindo / do que o nosso amor”! (”Fica comigo” sucesso com o grupo Placa Luminosa). “Imagina, cara, os dois cada um com um violão, compondo de frente um pro outro, se olhando…”. Cyz, florzinha de cactus: “com uma lareira no fundo…”

Sobrou para a imprensa também, que não estaria fazendo a ponte entre artistas interessantes e o público bitolado pelo que toca na rádio. Miranda: “a imprensa musical está muito sucateada, porque hoje o referencial do moleque que ouve música é o amigo do moleque”. Cyz aparta: “Artista e jornalista tinham que andar em parceria, crítico tem que conhecer o músico bem, a cabeça dele, para poder escrever” Quando digo que essa proximidade pode ser perigosa também, porque pode levar à distorções como a do jornalista que faz a resenha do disco da namorada, Miranda diz: “Ele está falando do ________, um cara lá do Rio”. Me sinto em um show de mágica no qual descobrissem a carta do baralho em que estou pensando…

Depois dessa, percebi que não é preciso ser candidato para ouvir reprimendas dos jurados. Antes que me mandassem mais cedo para casa, recolhi o gravador e tomei a iniciativa, com cinco fitas de entrevistas gravadas cheias de clichês de jogador de futebol, como “estou preparado para o que der e vier”, “confio na minha vitória” (antes das audições) e “agora é levantar a cabeça” e “bola pra frente” (depois). E ainda com alergia aguda à tal maldita sílaba.

Por Arnaldo Branco às 10:10 | 24 Comentários | Permalink

sexta-feira, 19 de junho, 2009

Sábado, amanhã

Festa do Bruno. Bora? É ali na praça do Russel, bem no cabeção do Getúlio.

Por Arnaldo Branco às 13:24 | 1 Comentário | Permalink

quarta-feira, 17 de junho, 2009

Sic transit gloria

Minha coluna Histórias (Inventadas) da Televisão para a revista MONET de abril. A ilustração é do Fernando de Almeida.

Todo mundo sabe que Pelé marcou seu milésimo gol no dia 19 de novembro de 1969 e que, por uma feliz coincidência, o evento histórico se deu no Maracanã, então maior estádio do mundo e palco favorito do Rei do Futebol. O que ninguém sabe é que não foi exatamente uma coincidência.

A verdade é que as redes que detinham os direitos sobre a transmissão de jogos estavam determinadas a garantir que o gol do artilheiro do Santos saísse no Rio de Janeiro, não só porque os índices de audiência seriam maiores, mas porque os operadores de câmera concordavam que só a iluminação do Estádio Mário Filho iluminaria com propriedade a dimensão épica do momento.

Pelé marcou o gol número 998 no Recife, contra o Santa Cruz, pela Taça Brasil. Ainda faltavam dois jogos até a próxima partida no Maracanã, contra o Vasco, e tudo indicava que o Botafogo da Paraíba e o Bahia iriam afrouxar a marcação em cima do Rei para disputar o privilégio de sofrer o milésimo tento. O que demonstra o quanto o futebol era mais romântico naqueles tempos - ou que a tal Taça Brasil não valia absolutamente nada.

Uma estratégia de guerra foi montada no jogo contra o Botafogo-PR. Repórteres de campo receberam uma lista de apelidos que Pelé odiava para tentar irritá-lo durante suas investidas ao ataque. Não adiantou: Pelé marcou o gol 999 logo no primeiro tempo. Por sorte, o time adversário estava tão disposto a deixar o Rei fazer outro (em uma saída de bola o goleiro chegou a cobrar um tiro de meta em cima dele pra ver se a rebatida entrava) que o craque decidiu não manchar o gol mil com a suspeita de fraude. No segundo tempo, o goleiro santista simulou uma contusão e Pelé foi defender a meta em seu lugar. (Sério. Pode procurar no Google).

No jogo contra o Bahia, tudo de novo. Estrategicamente posicionados na arquibancada, funcionários da TV Soteropolitana usaram espelhos para refletir o sol no rosto de Pelé. Fotógrafos disparavam flashs toda vez que o camisa 10 do Santos se aproximava da linha de fundo - recurso ainda mais enervante porque a partida foi disputada de dia. De qualquer maneira, as câmeras não tinham filme.

Mesmo assim, não foi possível parar o Atleta do Século em um lance. Aos 26 minutos do segundo tempo, Pelé recebeu a bola, driblou o goleiro e chutou contra o gol aberto. A bandinha contratada pela diretoria do Bahia chegou a erguer o naipe de metais para tocar “A copa do mundo é nossa”, mas o zagueiro Nildo tirou em cima da linha, proeza que foi premiada com uma tremenda vaia de sua própria torcida e a demissão do jogador no dia seguinte. (De novo, sério. Google.com).

E assim Pelé pôde fazer o gol mil diante de 70.000 pagantes. E aquele pênalti, não sei não.

Por Arnaldo Branco às 11:30 | 13 Comentários | Permalink

terça-feira, 16 de junho, 2009

A porra toda

Mundinho, Seja na terra seja  no mar e a minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira.

Aqui,

Aqui,

e aqui: As agruras do fracasso.

Por Arnaldo Branco às 9:46 | 12 Comentários | Permalink

quarta-feira, 10 de junho, 2009

D.O.A.

Dois projetos mortos no berço: uma tira para a revista Autoesporte, que chegou a ser aprovada, mas que não foi em frente por… na verdade não sei. Mas deu um certo alívio porque não entendo absolutamente nada de carros e, mal de cartunista (rápida lista: Jaguar, Angeli, Dahmer, Allan, Leonardo), não sei dirigir. Se bem que era pra desenhar temas sugeridos - a tira se chamaria Autoesperto (duh) e os leitores da revista pautariam meu quadrinho com as manias que acham mais irritantes no motorista médio brasileiro (estacionar em fila dupla, ultrapassar pelo acostamento, avançar no amarelo, não dar seta and such). De qualquer forma, o protótipo:

O outro seria inspirado naquele Look at this fucking hipster, sobre mais um assunto que não domino, moda, mas pelo viés do ridículo, de que entendo alguma coisa. Mas fiquei sem tempo, aí apareceu o Você não é hipster, e minha homenagem a esse povo que diz qual acessório ridículo você está provisoriamente liberado para usar - até perder o status de consumo irônico - ficou obsoleta. Eis o que seria o header do blog:

Por Arnaldo Branco às 15:57 | 9 Comentários | Permalink

Frilas ahoy

Andei doente e uns dias sem internet, mas cumpri as obrigações.

1) Mundinho Animal

2) Seja na Terra Seja no Mar

3) Minha coluna para a Zé Pereira: Informação Privilegiada.

Por Arnaldo Branco às 13:39 | 3 Comentários | Permalink

quinta-feira, 4 de junho, 2009

Sometimes I feel like I don’t have a partner

Bem, lá vai. Tenho esse roteiro de HQ (já foi um argumento para cinema, mas seguindo meu próprio conselho, baixei as expectativas) sobre o esquadrão da morte (se passa nos anos setenta) chamado “Invernada de Olaria”. Já esteve nos planos de uma editora - se eu conseguisse o desenhista que tentei convocar (o cara está ocupado até 2017).

O negócio é o seguinte, se alguém quiser se aventurar a desenhar, posso procurar de novo quem se interessou em publicar antes - sem garantir nada, claro. Só gostaria que fosse alguém muito bom; deixa eu chutar o estilo de alguns desenhistas de que gosto: Mazzuchelli, Jordi Bernet, Barry Windsor-Smith, Marcelo Quintanilha, Gabriel Góes, Rafael Grampá, Rafael Coutinho - sei que um não tem muito a ver com o outro, mas estou falando mais do nível de excelência.

Se você, desenhista sagaz, acha que chega perto desses caras na habilidade e gosta do tema, pode se candidatar mandando seu trabalho - e se quiser tentar fazer um trecho da história para testar, taí abaixo - para invernadadeolaria@gmail.com.

Se não rolar, paciência. Abs.

Bem, contexto: Mattos e Américo são dois policiais que estão investigando a morte de um colega, Flávio, e o assassinato de um industrial, o presidente da Aliança Fabril, Claudio Soares. A morte de Flávio parece ter algo a ver com problemas dele com policiais envolvidos com o esquadrão da morte e Claudio pode ter sido morto por seu sócio, de quem vinha roubando dinheiro e por quem vinha sendo chifrado. Os dois vão interrogar a viúva de Flávio sobre os últimos movimentos de seu marido antes do crime.

q103: Mattos e Américo no apartamento de Márcia, viúva de Flávio. Américo está tirando documentos de uma gaveta (retirada do gaveteiro, em cima dele) e Mattos sentado ao lado de Márcia, no sofá.

Márcia (olhando para baixo) - Não posso ajudar.

q104: Mattos e Márcia

Mattos - Qualquer coisa ajuda, Márcia. Algum telefonema, mudança de rotina.

q105: Márcia

Márcia - Nada.

q106: Américo, com papéis na mão.

Américo - No dia que saiu para a diligência. Não era o turno dele. Ele comentou alguma coisa?

Márcia - Eu não estava em casa.

q107: Márcia tirando um papel de dentro de um livro na mesa de centro

Márcia - Ele só deixou um bilhete.

q108: Márcia mostra o bilhete para Mattos. Escrito a mão: “NÃO ME ESPERE”.

q109: Close no olhar de Mattos.

q110: Close em um detalhe do recado: foi escrito em uma lauda timbrada da Aliança Fabril, o logo em destaque.

Por Arnaldo Branco às 10:40 | 12 Comentários | Permalink

Um abraço no Adão

Esse post é só para mostrar pro Adão que a gente esteve lá - mal aí, mestre, devíamos saber que a Patagônia é uma das milhões de regiões do mundo que não operam pelo horário carioca. Volte sempre.

Fotos da Liv.

Allan e Dahmer

Leo, Tiago Lacerda e João

Daniel Lafayette

Eu, Leo

Geral

Por Arnaldo Branco às 7:59 | 16 Comentários | Permalink

terça-feira, 2 de junho, 2009

Dose tripla

Duas tiras do Seja na Terra, Seja no Mar lá no Arthur, adivinhe o tema.

E uma curiosidade, acho que nunca postei. Essa abaixo adiantei ano passado quando o Seja na Terra saía diariamente no jornal Vencer, para o caso de um futuro vice-campeonato no Estadual 2008. Mas graças ao Mengão, segue imprestável até hoje…

Por Arnaldo Branco às 21:33 | 4 Comentários | Permalink

Plotting against

Quatro roteiros possíveis (I mean it, registrados na Biblioteca Nacional e tudo) para blockbusters de Hollywood - e da Projaquelândia mesmo. Enjoy.

- Guerra nas estrelas contra Chantagem Atômica

Um filme sobre a Guerra nas Estrelas, não aquela famosa franquia com ursos de pelúcia espaciais e terapia familiar, mas uma comédia sobre projeto militar dos EUA durante a corrida armamentista nos anos 80, e que muitos consideram o melhor blefe jamais orquestrado por uma grande potência, uma tacada de mestre que ajudou a quebrar a economia soviética. Uma espécie de Dr. Fantástico encontra Jogos de Guerra. Imagine Clint Eastwood como Ronald Reagan e Philip Seymour Hoffman (+ efeitos especiais e maquiagem) de Brejnev, Andropov, Chernenko e Gorbachov.

- There are places I remember

Um estudante de ciências de uma pequena cidade do Leste Europeu é obcecado por Beatles e inventa uma máquina do tempo para transportar sua bandinha de covers no tempo para 1960, antes dos quatro rapazes de Liverpool estourarem, para ganhar o crédito pela autoria das músicas, e em consequência, o sucesso mundial e o lugar na História. Problema: a banda se materializa exatamente na mesma cidadezinha distante, e com os recursos da época - é um longo caminho para o topo se você quer viver do rock’n'roll, principalmente para uma banda do Leste Europeu sem myspace. E enquanto isso, em Liverpool…

- Garbagemen

No futuro, uma epidemia vai contaminar toda a humanidade, matando bilhões - só alguns bilionários sobreviverão em bunkers. Quando voltarem, vão descobrir que os lixeiros, com sua famosa resistência a todo tipo de bactéria e substância tóxica, passaram incólumes pelo período de disseminação da doença. Agora eles é quem mandam, e lembram muito bem do tempo em que serviam os ricos sem ouvir um obrigado. Uma distopia em que você vai torcer para os opressores.

- Not Another Favela Movie

Uma comédia sobre o tráfico na linha de Todo Mundo em Pânico e semelhantes, com paródias de todos os traficantes e policiais que já apareceram na tela nas produções crimexploitation que caracterizam o que os jornais chamam, como se fosse um movimento vanguardista, de Retomada. Claro que vai ter a mesma tonelada de sangue, funk carioca e elenco desconhecido e barato descolado nos grupos de teatro da comunidade mesmo. Atividade!

Por Arnaldo Branco às 11:02 | 9 Comentários | Permalink

Lost degeneration

Por Arnaldo Branco às 5:41 | 1 Comentário | Permalink

Pacto de silêncio

Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: A pureza da resposta das crianças.

Por Arnaldo Branco às 5:33 | Sem comentários | Permalink

sexta-feira, 29 de maio, 2009

Investimento sólido

Seja na Terra, seja no mar.

Por Arnaldo Branco às 11:59 | 2 Comentários | Permalink

terça-feira, 26 de maio, 2009

Gigantes do ringue

O melhor cartunista da região da Patagônia, o predador natural da sutileza, o inimitável Adão Iturrusgarai estará amanhã (dia 27/05) lançando dois livros na Travessa do Leblon (Av. Afrânio de Mello Franco, 290 - 2º piso) a partir das 19:30. Vamos lá prestar o devido tributo.

Por Arnaldo Branco às 20:41 | 1 Comentário | Permalink

Vaidade autoral

Mundinho Animal.

Por Arnaldo Branco às 16:11 | 1 Comentário | Permalink

Nazi hipsters fuck off

Minha coluna Mal Necessário, para a Zé Pereira: comento o nazifashionismo e a Cultura do carão.

Falando em gatos, na falta do Instant Tema dos Trapalhões (como há o Instant Beto Carrero e Instant Silvio), o Keyboard Cat comenta a competência da produção da festa Adidas:

Por Arnaldo Branco às 8:35 | 1 Comentário | Permalink







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