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Mais fictício que a ficção

Minha segunda coluna para a MONET. Como falei, o Ricardo bolou a idéia (histórias inventadas da televisão), e todo mês mando uma ficção sobre a telinha na última página da revista.

Muitos lembram de Roque Santeiro, a novela da Globo que em 1985 teve piques de 99% de audiência. Ficou famosa pelo triângulo amoroso entre o personagem-título (José Wilker), a viúva Porcina (Regina Duarte) e Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e por todo seu elenco ter saído na Playboy, com exceção do Ewerton de Castro.

Mas poucos lembram de sua concorrente, detentora de 0,00001% da audiência (a maior parte dos 1% restantes ficava com o SBT, reprisando Chaves), a novela “Ventos da Mudança”, que passava na Bandeirantes ou na Record, os pesquisadores ainda não descobriram. Foi escrita pelo dramaturgo de esquerda Adelmo Pederneiras e seu fracasso pode ser explicado não só pela quase unanimidade de Roque Santeiro, mas também por estranhezas de sua própria trama.

Para começar, não havia um núcleo pobre e outro rico porque Adelmo não acreditava em uma sociedade de classes e porque a emissora poderia economizar em locação se não precisasse filmar em favelas ou em mansões cenográficas. “Ventos da Mudança” comentava a vida política nacional. O vilão da história, um verdureiro bigodudo, impotente e metido a poeta que herdou a quitanda depois da morte do sócio, um velhinho narigudo amado por todos, era uma alusão depreciativa e pouco sutil ao presidente José Sarney, que só não tomou nenhuma providência legal por desconhecer a existência da novela assim como 99,99999 % da população.

O elenco era um compêndio de erros de escalação. O galã era Lúcio Mauro, conservado para a idade, mas não do ridículo, e Gretchen fazia uma bailarina clássica. O assassinato costumeiramente usado em novelas para movimentar a história também não conseguiria interessar ninguém: o morto era um posseiro, personagem secundário que aparentemente só serviu para justificar os discursos pela reforma agrária na cena do enterro, que durou um capítulo inteiro. O assassino, para de surpresa de ninguém, era o verdureiro (Elias Gleizer), que confessou seu ato torpe retorcendo o bigode para enfatizar a natureza vil de seu personagem e por extensão, da Nova República.

A novela não teve problemas com a censura, e não só porque ninguém no governo tomou conhecimento de sua transmissão, mas também porque Adelmo, como muitos dos seus colegas revolucionários, era tremendamente conservador, sexualmente falando. Os beijos em cena eram cronometrados e o personagem de Gretchen era virgem – o dramaturgo teve que interromper várias cenas porque a atriz insistia em dizer as falas com um dedo na boca, “um truque de interpretação” como declarou na época à revista Fon-Fon.

“Ventos da mudança” seguiu sua rotina de trezentos capítulos sem muitos sobressaltos, porque nessa época todas as emissoras concorrentes da Globo se conformaram com o traço de audiência no horário. Consta que durante o período houve mesmo um telejornal das oito horas que deu as notícias verdadeiras, e com imparcialidade.

5 Comentários
por: Arnaldo Branco postado em: Coluna, Jornalismo tags:

5 Comentários

Comentário por Finório
23 de junho de 2008 às 15h21

E o kiko?

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Comentário por Arnaldo
23 de junho de 2008 às 16h34

Comeu seu cu.

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Comentário por Norrin Kurama
24 de junho de 2008 às 14h44

Isso existiu mesmo? Co esse elenco? Ou e piada?

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Comentário por Kath
25 de junho de 2008 às 15h54

Poxa, talvez essa tenha sido a primeira novela que eu me daria ao trabalho de assistir. Mas olha, se a Gretchen interpretou uma virgem, já foi um show de atuação!

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Comentário por Elton
26 de junho de 2008 às 22h02

“O galã era Lúcio Mauro, conservado para a idade, mas não do ridículo, e Gretchen fazia uma bailarina clássica.”

hahahahaha

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