9 de setembro de 2008 às 9h01
O Mito de Fausto
Update: o Portal Literal publicou nossa entrevista com o Fausto.
Minha história favorita do Fausto Wolff era a o do marinheiro sueco que ele derrubou em um demorado duelo de birita, para depois virar para a platéia: “agora vamos beber socialmente”.
Lembro de quando li uma coluna do Verissimo – há quase (ou mais de?) duas décadas – sobre um encontro particularmente festivo de cartunistas e escritores em um bar na Cobal do Leblon. Nem guardei lembrança se o FW estava presente (tinha Millôr, Jaguar, acho que Rubem Braga), mas recordo o que pensei: “azar da grana, minha ambição profissional é poder sentar nessa mesa”. Nunca obtive o gabarito, e mesmo que me deixassem puxar uma cadeira por caridade, a reunião hoje estaria desfalcada, por morte ou desavença. Ficou a idéia dessa mesa ideal (a minha nem teria exatamente a escalação do Verissimo) em que não saberia que conversa paralela acompanhar, por total admiração. Mas eventualmente consegui ter alguma idéia de como seria beber com o panteão. Com o Fausto foi uma delas.
Encontrei o velho algumas vezes com o Allan e o Leo, geralmente em missão de entregar a revista F. da vez – virou uma espécie de ritual a cada edição. Além da chinfra de beber com o Pelé do uísque, ouvíamos idéias sensacionais, como a do programa de televisão com o Fausto de âncora, envolvendo verdades indizíveis e uma garrafa de scotch cenográfica com um rótulo enorme escrito “chá”. Até que finalmente fomos entrevistá-lo, levando o Dahmer e o João para filmar.
Fiquei com o trabalho de corno de transcrever as fitas, e é lindo ver no fast foward a imagem de três garrafas de uísque sendo consumidas em três horas de conversa – com cada vez menos gelo, porque o congelador não deu conta do ritmo. Lembro do Dahmer impressionado com o tamanho das mãos do gigante (1,92 m, parecendo mais por causa da largura) e mesmo assim arriscando provocar a homofobia gaúcha dele: “por que você nunca deu o cu, Fausto?” – maior silêncio significativo que já testemunhei, temi mesmo pelo nariz do meu amigo. Lembro do nosso entrevistado repetir várias vezes “não vou pedir pra ler essa entrevista!”, uma das várias mentiras sensacionais (comeu a Brigitte Bardot e a Dóris Giesse etc) que nos contou: pediu pra ler sim, e reescreveu tudo, mudando inclusive as falas dos entrevistadores para levantar a bola para suas novas respostas, fazendo o Allan abrir perguntas com coisas como “segundo estatísticas do IBGE, o Brasil é um país que…”. Impensável.
É claro que não aceitamos a nova versão, e publicamos uma edição bastante reduzida da nossa conversa – por questões de espaço e, em alguns casos, temor de processo. Ficamos na expectativa, achando que termos desrespeitado sua vontade poderia provocar a ira do Lobo, mas depois de alguns meses relaxamos, já que não soubemos de nenhuma reação adversa. Até que recebemos um telefonema quando estávamos indo para sua festa de aniversário: era melhor não comparecer, porque o Fausto finalmente tinha decidido ler a bruta – de uma maneira bem dele, em forma de discurso para os convidados – e queria nos matar.
Depois que começou a ouvir elogios pela entrevista corajosa, perdoou os moleques. Era assim: tinha rompantes de raiva e ternura, queria o crédito por tudo, era mitômano e ególatra e principalmente genial. Quem conhece a obra sabe que ela reflete o autor.
13 Comentários








9 de setembro de 2008 às 9h37
e essas gravações, hein?
eu também fiz minha hoemnagem: http://www.umbigoblogs.com/noteu/2008/09/06/meu-tio-fausto-morreu/
bjs
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9 de setembro de 2008 às 9h46
Só pra consumo ;) interno, Mau.
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9 de setembro de 2008 às 9h51
Aquele a milésima segunda noite contém várias boas sacadas do velho. Sem falar que fiquei uma vez horas na biblioteca só para ler um livro de reportagens que ele fazia para o Pasquim, O dia em que comeram o presidente(era esse o nome? Não lembro)
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9 de setembro de 2008 às 9h54
Não é o ministro?
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9 de setembro de 2008 às 12h14
nhé.
um dia ainda terei acesso aos arquivos secretos.
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9 de setembro de 2008 às 12h23
Burn after reading, Mauritcha. Mas resta a tradição oral.
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9 de setembro de 2008 às 13h20
nunca tinha ouvido falar neste cara!!
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9 de setembro de 2008 às 15h12
Grande homem (em vários sentidos) e um belo texto, Arnaldo.
RIP Homem que queimou dinheiro…
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9 de setembro de 2008 às 16h58
quanta besteira! ou melhor quanta viadagem. vai estudar vagabundo.
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9 de setembro de 2008 às 17h02
Pra que, cuzão? Já ganho bem pra caralho.
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10 de setembro de 2008 às 8h27
E qual seria a escalação da tua mesa ideal?
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10 de setembro de 2008 às 8h29
Ainda preciso pensar nisso, mas a dele tinha acho que o Chico Caruso e o Zuenir Ventura, que na minha não entram não ;)
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10 de setembro de 2008 às 13h31
[...] …e continua aqui. [...]