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Let me stand next to your fire

Mais um Histórias (Inventadas) da Televisão, para a Revista MONET.

Muitos sabem dos incêndios que destruíram prédios das TVs Globo, Record e Tupi nos anos 60 e 70. Ou deveriam saber, já que o Video Show fala deles periodicamente, talvez para aliviar a barra do pessoal do Arquivo, que até hoje deve receber pedidos de velhinhos ansiosos por rever imagens das novelas da Gloria Magadan. Alguns também sabem que os sinistros estiveram sob suspeita – desconfiava-se que teriam sido provocados pelo dinheiro do seguro. Mas ninguém conhece a verdade: os incêndios foram criminosos sim, mas o único responsável por todos eles era apenas um romântico cineasta alternativo.

Kleber Lang (nome artístico que denunciava suas inclinações estéticas e enorme pretensão) achava a concorrência da TV nociva ao cinema, especialmente ao seu, que, como escreveu na revista de “polemização cinemática” O Lanterninha, “obriga as pessoas a pensar”. A frase pode ser tomada em seu sentido literal se lembrarmos que em 1965 Kleber coagiu o público (3 pessoas) que havia terminado de assistir seu “Varapaus dos Confins” a permanecer na sala de exibição para debater o filme, com um revólver. Dois dos membros da platéia tiveram um colapso nervoso: eram apenas moradores de rua que entraram no cinema para dormir durante a sessão e não sabiam responder as perguntas de Kleber sobre suas intenções artísticas em determinadas cenas.

Embora a TV já estivesse no Brasil desde os anos 50, Kleber desconfiava que o aumento do números de aparelhos televisores vendidos fosse obra do governo militar para enfraquecer o movimento cinematográfico da época. Afinal, achava que os cineastas ofereciam maior resistência a ditadura do que, por exemplo, a MPB, só que o governo seria muito burro para perceber – e às vezes, o público também. Chegou a afirmar em uma entrevista que fez consigo mesmo e ofereceu para o Pasquim (recusada): “Sou muito mais oposição que o Chico Buarque. “A Banda” é uma música militar!”

Kleber chegou a planejar um ataque simultâneo às três emissoras, mas temia chamar mais alguém para a empreitada e comprometer o sigilo necessário – tinha medo de ser preso e torturado, mormente porque era alérgico. Primeiro pôs fogo nos estúdios da Record, em 1968, depois de se infiltrar através de um estágio no setor de jornalismo. Antes do ato de sabotagem chegou a propor uma pauta (recusada) sobre a confraria de cineastas em que militava, os Ladrões de Bicicleta. Nem todos entendiam a referência ao filme de Vittorio De Sica, e às vezes o grupo ia parar nas páginas policiais.

O fogo na TV Record foi um relativo sucesso. A rede já vinha mal das pernas e o incêndio começou uma crise que resultou em posições inferiores nos rankings de audiência, mas ela continuou no ar. Outra vez o medo da prisão e consequentemente dos fungos e bactérias falou mais alto e sua segunda incursão como incendiário só se deu em 1975, quando achava certo que uma ação não seria ligada à outra. Desastre total: a Globo se fortaleceu depois do incêndio – precisava mesmo se livrar de equipamentos obsoletos e renovar a decoração do prédio. Sua última tentativa foi em 1978, com o atentado aos estúdios da TV Tupi. Desta vez deu certo: em dois anos a cambaleante emissora estava fechada.

Mas o ímpeto de Kleber já não era o mesmo. Os Ladrões de Bicicleta tinham se dispersado e ele estava desiludido com a recepção da crítica a “Elas gostam por cima”, uma pornochanchada feminista. Consta que tinha mesmo acompanhado uma novela inteira, Gabriela, “apenas pelo viés sociológico”, explicou para sua mulher que desconfiava mais do viés das calcinhas da Sônia Braga. Por fim se rendeu e arrumou um emprego na TV Globo. Está lá até hoje, usando outro nome artístico.

3 Comentários
por: Arnaldo Branco postado em: Cinema, Coluna, Televisão tags:

3 Comentários

Comentário por Hemeterio
29 de setembro de 2008 às 17h26

Os comparsas de K. Lang (Calango, uma referência velada aos filmes de cangaço?) também poderiam ter tacado fogo no Andraus. Só se no térreo funcionasse o primeiro vídeo-clube do Brasil.

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Comentário por Arnaldo Branco
29 de setembro de 2008 às 17h28

Nem! Fritz Lang + Clubber Lang, de Rocky 3 :D

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Comentário por Thiago
17 de outubro de 2008 às 20h10

Atualmente K. Lang é mais conhecido pela alcunha de Manoel Carlos. Não se pode negar a semelhança de seus passados de ativismo e o sucesso deste último em retratar as mazelas da vida real, fruto de seu passado pirumaníaco sob a égide de Lang e seu aprendizado nos tempos de obs-cu-ridade.

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