1 de novembro de 2008 às 21h44
A última fronteira
Mais uma coluna Histórias (Inventadas) da Televisão para a revista Monet.
Todo mundo já viu as imagens do Homem na Lua, e muitos sabem das pessoas que não acreditam até hoje que elas são de verdade – teriam sido forjadas pela a) CIA b) Ditadura Militar c) Rede Globo. Mas o que ninguém sabe é que a alternativa c) é quase correta.
A transmissão via satélite era uma novidade recente (o primeiro evento testemunhado simultaneamente pelo planeta tinha sido uma apresentação dos Beatles antes da ação deletéria da Yoko Ono) e sujeita a falhas. Havia um delay entre as imagens recebidas do espaço pela Nasa (e por países com sistemas de captação de sinal mais avançados) e localidades com tecnologia incipiente na área. A transmissão chegava com um pouco de atraso para, por exemplo, a América Latina.
O sinal caiu logo depois que os telespectadores do hemisfério norte viram Neil Armstrong, primeiro homem a chegar a superfície da Lua, fazer uma embaixadinha com um rochedo e chamar os comerciais. As emissoras que não receberam o vídeo da alunissagem entraram em pânico: havia o risco da transmissão só ser reestabelecida depois que os astronautas estivessem de malas prontas, voltando para a Terra. O problema chegou até o principal responsável pelo marketing do programa espacial americano, o coronel Thomas T. Disturbing, que fazia questão que a vitória dos EUA sobre a União Soviética repercutisse o máximo possível.
O coronel Disturbing convocou em caráter extraordinário uma comissão de diretores de emissoras que não receberam o sinal, e deixou claro que seria fundamental que exibissem alguma espécie de transmissão falsa, até que o videotape com a filmagem do sucesso da missão chegasse. Não importa que a farsa destoasse muito da coisa real – contava com a falta de videocassetes e do Youtube para que o público esquecesse que testemunhou ao vivo um evento completamente diferente do que o Cid Moreira iria apresentar mais tarde, no Jornal Nacional.
Os diretores reunidos chegaram a pensar em simplesmente filmar a imagem estática de um cartaz promocional do filme “As areias de Iwo Jima”, com a reprodução da famosa foto de soldados americanos fincando sua bandeira no atol japonês, mas as pessoas estranhariam a falta de trajes especiais e a presença do John Wayne. A solução encontrada pela força-tarefa foi reencenar a descida dos tripulantes da Apolo 11 nos estúdios da Rede Globo, mais bem aparelhada para o trabalho.
O cenário usado foi o set abandonado de “Areias Escaldantes”, novela de Janete Clair sobre touradas. Só precisaram livrar a falsa Plaza de Toros da arquibancada cenográfica e da rede de vôlei que os funcionários do estúdio deixaram ali para relaxar entre as gravações. O módulo lunar (a cápsula em que viajavam os astronautas) foi improvisado a partir de uma câmera de TV desativada – as da época tinham o mesmo tamanho. Já a bandeira americana que seria cravada no novo território conquistado foi emprestada por um manifestante da UNE que a estava guardando para queimar depois.
E ninguém sabe, mas o homem que fez o papel de Neil Armstrong foi o comediante Tutuca. O diretor de elenco Malvino Worthsales deu graças a Deus pelo visor em vidro fumê do capacete espacial – o uniforme foi reaproveitado do episódio “Invasão alienígena”, da série do Capitão Asa. Famoso pelo bordão “Ah, se ela me desse bola!”, o irreverente Tutuca ameaçou várias vezes tirar o capacete durante as filmagens e fazer uma de suas habituais caretas.
Foi um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a Cultura de Massas. Da próxima vez, dê mais crédito para teorias da conspiração.
6 Comentários








2 de novembro de 2008 às 6h53
Li sua frasezinha sobre profissionalismo ser muito popular entre os mediocres no blog da Morgana. Vcs metidos a artista se acham o máximo da transgressão e ainda acham em pleno sec XXI que aparecer bebado para dar plaestra é muito cool. Cão de guarda do amiguinho Dahmer, a menina (linda por sinal) não pode dar a opinião dela (pertinente) em paz?
Responder
2 de novembro de 2008 às 7h22
A opinião dela começa com uma calúnia, encontrei o Dahmer depois da palestra e ele estava sóbrio, portanto toda elocubração da mina e dos outros carinhas sobre o lance dele se achar malvadão por dar palestra bêbado não procede.
E segundo, ela pode alimentar que expectativas quiser em relação a um palestrante, menos que a de que ele não diga o que efetivamente pensa.
Gosto de falar sobre o meu trabalho e sempre concordo em participar de palestras, mas já me colocaram em mesas completamente nada a ver, a organização dos eventos também peca por desconhecimento de causa.
Fugi da pauta nessas ocasiões, mas acredito que falei coisas mais interessantes do que se tivesse discorrido sobre o futuro dos quadrinhos na internet. E se frustrei as expectativas de alguém que preferia mais objetividade: tomara.
Sobre a frase, não é contra o profissionalismo, coisa que espero de operadoras de telefone e engenheiros da construção civil, mas todos sabem que cumprir horários e aparecer sóbrio em debates não é suficiente pra formar o corpo da obra de um artista como o Dahmer.
Sobre ser cão de guarda, é o contrário. Todos esses carinhas que aparecem pra contestar réplica dizendo que o criticado não sabe aceitar críticas se acham os guardiões da democracia, embora estejam efetivamente cassando a palavra de quem quer defender um ponto de vista, seu próprio ou do criticado que seja.
E esse lance de neguinho aproveitar pra dar cantada em blogueira sob ataque parece estratégia de canalha que vai dar ombro amigo pra viúva nesse grande momento de dor…
Responder
3 de novembro de 2008 às 5h01
“Alunissagem” foi muito bom.
Fora de série o cara querendo passar a blogueira na cara às suas custas…
Responder
3 de novembro de 2008 às 6h45
Mas é o correto, ué.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alunissagem
Responder
3 de novembro de 2008 às 14h52
Duas coisas em comum entre a Monet e a Veja – começo do final, que é onde fica o conteúdo que me interessa!
Parabéns!
Responder
6 de novembro de 2008 às 20h34
Sem querer ser puxa saco, mas a resposta ao cara foi muito boa, digna de um advogado.
Só espero q ñ fique babaca como eles!
Responder