3 de fevereiro de 2009 às 12h28
Festival da canção
Minha coluna para a Monet, municipalmente conhecida como Histórias (Inventadas) da Televisão.

Ilustração de Fernando de Almeida, visitem o site dele JÁ.
Todos sabem que a primeira transmissão via satélite da TV mundial mostrou os Beatles tocando All you need is love. Mas poucos lembram qual foi a primeira transmissão via satélite a partir do Brasil: uma tentativa de repetir a façanha dos rapazes de Liverpool com um time de ídolos da música nacional. Marx disse que a História se repete como farsa, mas o cara não conheceu o star system brasileiro: aqui a História se repetiu como drama e pastelão.
Primeiro, houve conflito quanto a escolha do nome dos envolvidos no projeto. O ano era 1969, uma época de polarização e piadinhas de duplo sentido, e não era possível convidar para a mesma mesa de mixagem determinadas figurinhas da MPB. Por exemplo, Tom Zé tinha acabado de publicar na revista de polêmica e discórdia Digressão o artigo “NaziTropicalismo”, em que rompia com o grupo baiano e pedia dinheiro emprestado para João Gilberto.
Curiosamente Caetano Veloso, o porta-voz do Estado-Maior baiano, não vetou Tom Zé na gravação (“Tom transcende, Tom procede”), mas Geraldo Vandré, que estava mesmo no exílio e nem soube do projeto. O grupo formou com Caetano, Gil, Tom Zé, Chico Buarque, Elis Regina, Juca Chaves, Jararaca e Ratinho. A dupla caipira foi chamada para evitar acusações de elitismo e do projeto não respeitar as raízes da música brasileira, mas os dois só tocaram chocalho na transmissão.
Aliás, esse foi um dos problemas enfrentados pela produção: a oposição dos tradicionalistas, que achavam um absurdo que uma banda de primeiro time do Brasil se sujeitasse a tocar um rock inglês, ainda mais um com tão poucos acordes (praticamente Sol, lá com sétima, ré com sétima). A solução foi a versão em português que Caetano compôs, intitulada “Tudo que você precisa é de amor” e subintitulada “…e um pouco de compreensão humana, peixe com coco, fitinha do Bonfim, cuca legal e pelo menos um disco do Caymmi, aquele que tem um pescador de chapeuzinho na capa”.
Mas a versão na língua pátria acabou causando transtornos também. Na véspera da transmissão, no programa Flávio Cavalcanti, o infame apresentador tocou a música ao contrário durante o quadro “Qual é a mensagem satânica?”, em que chamava especialistas para descobrir recados do demo escondidos nos discos. Um filólogo disse que o som embaralhado que saiu das caixas de som se assemelhava a “Entrem para a luta armada” em úmbrio arcaico, mas foi questionado por um advogado convidado sobre a utilidade de se usar uma língua morta para passar ordens do capeta.
A transmissão em si decorreu sem maiores transtornos, apesar de Tom Zé ter tocado nu, com um funil nas partes pudendas, em protesto contra o fato de Caetano ter sido paternal com ele.
5 Comentários








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3 de fevereiro de 2009 às 14h02
[...] – Cheio de história: Arnaldo revela bastidores do antigo Festival da Canção. [...]
3 de fevereiro de 2009 às 15h00
Melhor coluna! Parabéns.
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3 de fevereiro de 2009 às 19h45
não duvido que se o caetano blogueiro ler esse título vá compor a música.
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4 de fevereiro de 2009 às 4h32
“funil nas partes pudendas” foi genial.
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26 de julho de 2009 às 21h02
É um absurdo Jararaca e Ratinho ótimos artistas e músicos terem sido usados assim. E também citados desse modo. ´Seriam mesmo chocalhos? Onde isso está registrado? quero saber, pois sou sua biógrafa.
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