OEsquema

Festival da canção

Minha coluna para a Monet, municipalmente conhecida como Histórias (Inventadas) da Televisão.

Ilustração de Fernando de Almeida, visitem o site dele JÁ.

Todos sabem que a primeira transmissão via satélite da TV mundial mostrou os Beatles tocando All you need is love. Mas poucos lembram qual foi a primeira transmissão via satélite a partir do Brasil:  uma tentativa de repetir a façanha dos rapazes de Liverpool com um time de ídolos da música nacional. Marx disse que a História se repete como farsa, mas o cara não conheceu o star system brasileiro: aqui a História se repetiu como drama e pastelão.

Primeiro, houve conflito quanto a escolha do nome dos envolvidos no projeto. O ano era 1969, uma época de polarização e piadinhas de duplo sentido, e não era possível convidar para a mesma mesa de mixagem determinadas figurinhas da MPB. Por exemplo, Tom Zé tinha acabado de publicar na revista de polêmica e discórdia Digressão o artigo “NaziTropicalismo”, em que rompia com o grupo baiano e pedia dinheiro emprestado para João Gilberto.

Curiosamente Caetano Veloso, o porta-voz do Estado-Maior baiano, não vetou Tom Zé na gravação (“Tom transcende, Tom procede”), mas Geraldo Vandré, que estava mesmo no exílio e nem soube do projeto. O grupo formou com Caetano, Gil, Tom Zé, Chico Buarque, Elis Regina, Juca Chaves, Jararaca e Ratinho. A dupla caipira foi chamada para evitar acusações de elitismo e do projeto não respeitar as raízes da música brasileira, mas os dois só tocaram chocalho na transmissão.

Aliás, esse foi um dos problemas enfrentados pela produção: a oposição dos tradicionalistas, que achavam um absurdo que uma banda de primeiro time do Brasil se sujeitasse a tocar um rock inglês, ainda mais um com tão poucos acordes (praticamente Sol, lá com sétima, ré com sétima). A solução foi a versão em português que Caetano compôs, intitulada “Tudo que você precisa é de amor” e subintitulada “…e um pouco de compreensão humana, peixe com coco, fitinha do Bonfim, cuca legal e pelo menos um disco do Caymmi, aquele que tem um pescador de chapeuzinho na capa”.

Mas a versão na língua pátria acabou causando transtornos também. Na véspera da transmissão, no programa Flávio Cavalcanti, o infame apresentador tocou a música ao contrário durante o quadro “Qual é a mensagem satânica?”, em que chamava especialistas para descobrir recados do demo escondidos nos discos. Um filólogo disse que o som embaralhado que saiu das caixas de som se assemelhava a “Entrem para a luta armada” em úmbrio arcaico, mas foi questionado por um advogado convidado sobre a utilidade de se usar uma língua morta para passar ordens do capeta.

A transmissão em si decorreu sem maiores transtornos, apesar de Tom Zé ter tocado nu, com um funil nas partes pudendas, em protesto contra o fato de Caetano ter sido paternal com ele.

5 Comentários
por: Arnaldo Branco postado em: Coluna, Televisão tags:

5 Comentários

Pingback por URBe » Arquivo » OEsquema - OESQUEMA
3 de fevereiro de 2009 às 14h02

[...] – Cheio de história: Arnaldo revela bastidores do antigo Festival da Canção. [...]

Comentário por Lucas
3 de fevereiro de 2009 às 15h00

Melhor coluna! Parabéns.

Responder

Comentário por marcos
3 de fevereiro de 2009 às 19h45

não duvido que se o caetano blogueiro ler esse título vá compor a música.

Responder

Comentário por Simone
4 de fevereiro de 2009 às 4h32

“funil nas partes pudendas” foi genial.

Responder

Comentário por Sonia calazans
26 de julho de 2009 às 21h02

É um absurdo Jararaca e Ratinho ótimos artistas e músicos terem sido usados assim. E também citados desse modo. ´Seriam mesmo chocalhos? Onde isso está registrado? quero saber, pois sou sua biógrafa.

Responder

Deixe um comentário