OEsquema

Saindo do armário

Desde que comecei na MONET faço anonimanente uma minicoluna chamada, duh, O Colunista. É uma encomenda do Ricardo Alexandre, que editava a revista quando comecei a escrever lá – o personagem é um velho que já viu dias mais gloriosos na TV brasileira e fica comparando sua época com a atual. Todas as colunas têm sempre a mesma abertura: “Estou nesse ramo desde que…”. Achei que o sigilo só faz sentido por lá, e o Luís Alberto, o novo editor, concordou. Portanto aí estão todos os textos que saíram.

Quem pediu sua opinião?

Estou nesse ramo desde que a Hebe Camargo apresentava programa infantil e posso afirmar de cátedra que televisão não era essa moleza de hoje em dia, em que qualquer salta-pocinhas com uma câmera se acha diretor e qualquer coisa filmada é digna de entrar na grade. E, principalmente: naquela época botavam os telespectadores em seu devido lugar.

Antigamente o público não se criava não. Tinha 5 horas de programa do Amaral Netto sobre a pororoca da Amazônia e se você, telespectador mimado, quisesse assistir outra coisa, que mudasse de canal – que eram só mais dois e um deles transmitia 24 horas diárias de Santa Missa em seu Lar. Hoje perguntam que filme a audiência quer assistir, deixam escolher quem vai morrer na novela, e pior: qual vagabunda de reality show vai sair pelada. Pesquisa de opinião, vê se na época da UDN tinha isso.

E agora a audiência também filma! E nem com câmeras de verdade, daquelas que pesavam algumas toneladas e eram multifuncionais, podiam servir de guindaste ou disparar pequenos mísseis, mas com telefone celular, que nem precisa de treinamento militar para manusear. Daqui a pouco vão faltar pessoas para efetivamente assistir os programas, já que vai estar todo mundo empregado pelas emissoras – que não demoram muito estão sorteando cadeiras nas reuniões da diretoria. Interatividade, bah: nos bons tempos, isso era senha pra pouca-vergonha.

Mais entediante que a ficção

Estou nesse ramo desde antes do primeiro divórcio do Chico Anysio e posso dizer que antigamente o critério era mais rigoroso no que diz respeito a pessoas que podem aparecer na TV. Vejam o nome dos programas do passado: Almoço com as estrelas! Café da manhã com os astros! Se fosse para filmar alguma atividade trivial, que fosse com alguma personalidade de destaque. Hoje o café da manhã é com os zés-ninguém.

Dizem que os reality shows são uma experiência antropológica válida. Concordo, se você tem uma curiosidade científica em saber como se sente um porteiro de prédio olhando o circuito interno. Parece que agora existe um interesse geral por gente com subemprego: mecânicos, tatuadores, babás, roqueiros velhos… também fazem sucesso pessoas com mau-gosto que precisam de ajuda para redecorar a casa, escolher vinho e se vestir.

E tem o supra-sumo dos documentários sobre pessoas com vocação para o anonimato: o Big Brother. Observar a interação dos seres humanos não é muito mais cativante do que acompanhar o ciclo reprodutivo dos lepidópteros no Animal Channel. E na verdade a diferença entre os Big Brothers e os ratos de laboratório é que os últimos são úteis para a sociedade. Nunca entendi muito bem todo esse envolvimento dos telespectadores e a mobilização para votar no analfabeto menos irritante. Se ao menos tivesse também um prêmio em dinheiro para quem assiste…

Palpite, palpite / nasceu no crânio de quem teve meningite*

Estou nesse ramo desde quando a Fernanda Montenegro não tinha idade nem para ser Daminha de Honra do Teatro e posso dizer que, embora programas de debates sempre tenham existido, hoje em dia parece não haver outra coisa na grade além de livre-pensadores (ênfase no “livre”) batendo concurso para saber quem é mais espertinho. Chega, a atmosfera precisa de mais gases poluentes do que de opiniões.

Talvez quando as mesas eram compostas por gente como Otto Lara Resende, Nelson Rodrigues e outros que infelizmente já viraram verbetes da Encyclopaedia Britannica, valesse a espera por alguma frase de efeito ou mesmo uma citação em latim, então língua corrente. Mas vamos convir que no presente falta material humano, e peças de reposição. Os assuntos também não são lá essa Segunda Guerra Mundial toda. Carla Bruni? Saudades da Eleonora Roosevelt.

É verdade que houve progressos: no meu tempo só se ouvia opinião feminina no programa “A cozinha maravilhosa de Ofélia” e se limitava a “está tostado” ou “muito sal”, mas agora parece que qualquer estagiária de jornalismo ganha automaticamente status de formadora de opinião. E o pior são os programas de aconselhamento, que sugerem coisas óbvias para uma platéia que a) subestimam ou b) conhecem muito bem. De qualquer forma, se conselho fosse bom ninguém dava de graça, como rezava um velho ditado e a lei da oferta e da procura.

* – daquele menino Noel Rosa

A alma do negócio

Estou nesse ramo desde que o Washington Olivetto era apenas uma encomenda no departamento de criação da mãe dele, e posso afirmar que, em comparação com os reclames ao vivo da TV antiga, esses canais modernos de televendas são coisa de amador. Hoje a os comerciais são desprovidos do drama, do suspense e até do terror dos tempos em que uma batedeira pesava como uma bomba de fragmentação e um curto-circuito em sua fiação podia causar um estrago ainda maior.

Antes do videotape tudo era impreterivelmente ao vivo, e os apresentadores tinham que ter sangue-frio para fazer demonstrações de eletrodomésticos que ainda estavam em fase de testes, como o descascador de jaca e o aspirador de pó, recém-criado a partir de um protótipo de dimensões um pouco menores e com um pouco menos potência que uma turbina de avião. Isso sem contar com a degustação de produtos alimentícios antes da invenção da assepsia e das técnicas modernas de lavagem estomacal. Aquele japonês do Shoptime nem deve desconfiar que seus antecessores tinham que ter o mesmo espírito kamikaze dos seus antepassados.

Hoje os produtos continuam letais (carros, celulares, vibradores) e fazendo vítimas fatais entre os clientes, mas pelo menos os apresentadores não correm risco de aparecer ao vivo sofrendo as consequências do consumismo desenfreado – é só editar a cena e substituir o sujeito. E celulares podem até causar câncer e justificar espancamentos no cinema, mas pelo menos são leves e cabem no bolso, reduzindo os riscos para a saúde do usuário à impotência sexual tão somente.

Futebol arte-moderna

Estou nesse ramo desde antes do Milton Neves escolher seu time e posso afirmar que não é apenas a safra de jogadores de futebol de hoje em dia que é ruim, mas também a de comentaristas esportivos. Talvez panoramas desoladores no que diz respeito ao talento necessitem do estudo de gente com conhecimento de causa, mas de qualquer forma o quadro inspira cuidados.

Apesar do auxílio da transmissão em tempo real, do videotape e do tira-teima, os repórteres de esporte preferem se ater apenas à sua especialidade, que é o óbvio. Os comentários durante as partidas atuais lembram a narração em filmes da época da invenção do cinema sonoro, em que se comentava em off o que efetivamente já estávamos vendo na tela. Onde estão os profetas do futebol? Falta a visão de jogo de um João Saldanha, que se arriscava em previsões que nem sempre davam certo, mas mesmo nesses casos o jornalista emergia das cinzas do seu palpite furado com uma aura de coragem maluca, praticamente suicida.

Nelson Rodrigues disse certa vez que o Fla X Flu começou 45 minutos antes do nada, e é exatamente essa impressão que me passam as mesas redondas de hoje – intermináveis e com o nada cumprindo importante função, no centro do debate. Antigamente, pela precariedade das imagens, não havia muito o que comentar, então a mentira tinha papel importante para colorir inclusive peladas para cumprir tabela terminadas em zero a zero. Hoje, falta imaginação e sobram imagens de arquivo – de gente como Jaílton, Vágner Love e Finazzi. Garrincha deve estar dando cambalhotas no túmulo.

Aleluia, Gretchen

Estou nesse ramo desde que a TV transmitia o Dom Hélder rezando missas em latim, então língua corrente, e posso afirmar que esses programas religiosos de hoje em dia matam todo o mistério necessário para manter o charme das religiões em si. A missa em latim mesmo era uma prova de que não é necessário nem entender os sermões para temer a Ira Divina, ou amar o próximo como Ele (ou algum Outro, em caso de seita exótica) nos amou.

É verdade que no passado só havia um programa do gênero, “Santa Missa em seu lar”, ainda é exibido na TV aberta em versão reduzida. Mas naquela época sua transmissão diária era obrigatória em todos os canais e a coisa durava o tempo de um programa de auditório médio. Hoje, a audiência é pulverizada pela necessidade da segmentação, e além de mais opções de programas de cunho religioso, efetivamente existem mais religiões para justificar cada um deles – o que pode satisfazer o telespectador como consumidor, mas confundí-lo como devoto.

Antes os televangelistas só contavam com a oratória, e os padrecos diziam no gogó. Agora há o auxílio de dramatizações, gráficos, ajudantes de palco de biquíni. Os intervalos comerciais entre os discursos ameaçando os fiéis também reduziu o impacto da mensagem, e o desenvolvimento de novas tecnologias também eclipsou o trabalho dos pregadores – ficou mais difícil de dizer o que é milagre e o que é efeito especial.

Parada de relativo sucesso

Estou nesse ramo desde antes do Roberto Carlos ter licença para dirigir O Calhembeque e posso afirmar que os programas de parada de sucesso de antigamente é que eram bons. Para começar, não tinha essa segmentação de mercado de hoje, em que um artista pode ser famoso para um determinado público consumidor e um completo desconhecido para outro. Naqueles tempos não existia a expressão “sucesso relativo” – ou você estava toda semana no Almoço com as Estrelas ou você estava tocando música de strip-tease em algum inferninho imundo.

Quando surgia um cantor que você não reconhecesse imediatamente na TV, sabia que era um novato em ascensão ou o Cauby Peixoto com uma nova plástica. Agora não se reconhece mais ninguém e quando você finalmente decora um nome, o sujeito já está recebendo a aposentadoria.

Hoje os músicos fazem mais discos do que escovam os dentes, até porque alguns relaxam na assepsia bucal, e é difícil escalar uma parada maiores sucessos. Existe uma teoria que defende a idéia de que se inventarem mais uma subcategoria para o Grammy a barreira do espaço-tempo será quebrada e o mundo mergulhará no caos cronológico. Talvez isso já tenha inclusive acontecido e o revival dos anos 80 seja uma prova.

Comentários infelizes

Estou nesse ramo desde antes de o Jânio Quadros ter idade para beber – o que não era de maneira alguma fator de impedimento – e posso dizer que os comentaristas políticos de hoje não teriam permissão para dar palpite nem em uma reunião de condomínio nos anos de Pinheiro Machado, Getúlio, JK e outros políticos mortos por causas não-naturais. Sim, é verdade que os políticos de hoje também não merecem coisa melhor, mas isso não é desculpa para o corte de cabelo da Míriam Leitão.

Hoje, com o interesse exagerado em aspectos periféricos da vida política é difícil distinguir o que pode servir de pauta para quem cobre Brasília e o que devia ser aproveitado pela produção da Ana Maria Braga. É só lembrar que uma mulher sambando no plenário durante a crise ética do governo Lula causou mais comoção do que a absolvição injusta que ela estava comemorando. O que serve para ilustrar como o brasileiro perdeu suas referências morais e uma verdade universal: gorda não pode fazer nada.

É claro que o contexto hoje é bem mais desinteressante, sem uma ditadura, conspiração golpista em curso ou um mísero estadinho de sítio. Estou esperando o dia em que os telejornais juntarão na grade a previsão do tempo com a resenha política, para que os comentaristas tenham algum assunto que valha a pena debater.

Miss Evasão Escolar 2009

Estou neste ramo desde que a Marta Rocha fazia anúncio de fraldas (como modelo) e posso afirmar que os concursos de beleza na televisão de hoje perdem em todos os quesitos para os de antigamente – inclusive em sensualidade, apesar de naquela época o desfile em trajes de banho subentender o uso obrigatório de escafandro.

Nas novas eleições de mulher mais bonita o critério de desempate continua sendo a habilidade para caminhar na passarela de salto alto, mas no passado era mais difícil: não se contava com o auxílio das mãos. Quem passa dificuldade atualmente são os jurados que precisam escolher a garota com o melhor figurino – para distinguir algum…

Hoje admiramos mais o trabalho dos cirurgiões plásticos do que a beleza natural que sobra no corpo das concorrentes. E pelo resultado dos testes de conhecimento geral ainda aplicados nos concursos de Miss, parece que a única parte original de fábrica nas meninas é o cérebro, infelizmente.

Se vira nos 00

Estou nesse ramo desde que o Silvio Santos apresentava sarau de colégio e posso afirmar com convicção que os programas de calouros das TVs de antigamente eram bem mais interessantes que os de hoje. Tanto é que muitos deles tinham nomes como “Novos Talentos”, “Nasce uma estrela” ou similares, e hoje um dos mais populares se chama “Se vira nos trinta”, como se a produção não quisesse se comprometer.

Apesar das notas musicais serem as mesmas há séculos (pelo menos nos que testemunhei), os parâmetros que definem o quanto o ser humano pode aguentar de desafinação parecem ter mudado. Atualmente é difícil saber quem é calouro e quem é profissional no ramo da música, ea melhor maneira para se distinguir os novatos dos consagrados é checar o sobrenome – se tiver pai famoso, é provavelmente consagrado.

É mesmo complicado esperar que concorrentes de programas de calouros do presente consigam acertar o tom das canções de Dolores Duran e Cole Porter como nos concursos do passado, mas seria de bom tom que fossem impedidos de defender músicas com menos de três frases. Outro dia assisti a performance de uma certa Mulher-Cupuaçu em que nem ao menos deram um microfone para a pobre menina – que de tão tímida, se apresentou de costas. Assim fica impossível o trabalho dos jurados.

17 Comentários
por: Arnaldo Branco postado em: Coluna, Televisão tags: ,

17 Comentários

Comentário por Nunes
4 de fevereiro de 2009 às 19h56

Caralho, tou me deliciando aqui. Quando terminar comento mais.

Responder

Comentário por OFF
4 de fevereiro de 2009 às 22h46

Alex te citando como “inteligência notável” na Bizz.

Pelo contexto em que ele diz isso, acho que ele não viu um comment teu aqui, dizendo algo como “ganho bem pra caralho”. =P

Responder

Comentário por Vitor
4 de fevereiro de 2009 às 23h06

“Existe uma teoria que defende a idéia de que se inventarem mais uma subcategoria para o Grammy a barreira do espaço-tempo será quebrada e o mundo mergulhará no caos cronológico. Talvez isso já tenha inclusive acontecido e o revival dos anos 80 seja uma prova.”

Guia do Mochileiro das Galáxias??

Responder

Comentário por Vitor
4 de fevereiro de 2009 às 23h06

“Existe uma teoria que defende a idéia de que se inventarem mais uma subcategoria para o Grammy a barreira do espaço-tempo será quebrada e o mundo mergulhará no caos cronológico. Talvez isso já tenha inclusive acontecido e o revival dos anos 80 seja uma prova.”

Guia do Mochileiro das Galáxias?

Responder

Comentário por Simone
4 de fevereiro de 2009 às 23h31

Tem uma mesa-redonda num canal de parabólica chamado TV Diário que é qualquer coisa de fenomenal. Acho que passa sábado. Mas todo o canal é uma pérola do humor involuntário. Minha amiga de Fortaleza assistia lá e, por algum motivo, o canal aparece taméem no meu sítio.

Responder

Comentário por Arnaldo Branco
5 de fevereiro de 2009 às 6h57

Se eu disse que ganho bem pra caralho foi evidentemente pra responder a um comentarista anônimo… mas tenho certeza que o Alex não atrela integridade artística à inadimplência.

Não li Guia do Mochileiro, Vitor, me diz vc.

Oi, Simone! Acho que já vi esse programa (youtube?), mas na TV aberta só tem programa humorístico involuntário…

Responder

Comentário por Ian
5 de fevereiro de 2009 às 12h06

“Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável.

Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.”

-guia do mochileiro da galaxia

Responder

Comentário por marcos
5 de fevereiro de 2009 às 17h10

em todos tem ao menos uma linha que demonstra meus pensamentos vendo tv, principalmente o do corte da miriam leitão. o cabelo dela tá em crise faz tempo.

lendo o tv diário, ali em cima, um programa que consegue ser bom de tão ruim é o comando 22, na mesma, crimes no interior do brasil comentados por uma equipe, que acredita estar cheia de coronéis, é impagável.

Responder

Comentário por Vitor
5 de fevereiro de 2009 às 20h37

Valeu Ian, eh isso ae mesmo. Li a frase e lembrei na hora.

Responder

Comentário por Vitor
5 de fevereiro de 2009 às 20h38

Isso não é uma acusação de plágio. Apenas achei que vc tivesse lido.

Responder

Comentário por renata
6 de fevereiro de 2009 às 2h46

MUITO BONS os textos!

Responder

Comentário por ronaldo derly rodrigues
7 de fevereiro de 2009 às 17h09

muito bom o texto,valeu,abraço,ronaldo.

Responder

Comentário por Pablo
13 de fevereiro de 2009 às 12h47

Caguei aqui de rir.

Responder

Comentário por Norrin Kurama
15 de fevereiro de 2009 às 8h35

Muito bom, não tinha lido.

Responder

Comentário por Manoel Leonam
7 de setembro de 2009 às 10h19

Simplesmente genial. Uma aula de como se faz humor escrito. Nunca tinha sequer ouvido falar dessa revista Monet (azar meu…) e que bom que você compartilhou essa sua coluna. Me esbaldei de tanto rir.

Responder

Comentário por Renan
7 de setembro de 2009 às 11h21

Bicho, essa coluna É o meu professor de tecnologia em Rádio e TV. abs

Responder

Comentário por Manoel Leonam
7 de setembro de 2009 às 11h29

Minha internet deu pau, não sei se meu comentário anterior foi enviado… então, um resumo dele:
Genial! Uma aula de texto humorístico.

Responder

Deixe um comentário