18 de março de 2009 às 16h14
Horrorshow
Roteiro de uma história de terror que bolei pro Tiago Lacerda desenhar – abaixo, uns rascunhos dele pro Hórus, o Magnífico, personagem principal. Mas como o garoto está ocupado demais, vou tirar o peso das costas dele publicando aqui.

QUADRO 1
[Close em um olho]
QUADRO 2
[A cena abre: o olho é na verdade a letra "O" da palavra "OLHOS" (o segundo "O" também é um olho) do título da história: "O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM..."]
QUADRO 3
[A cena abre mais: o título na verdade é o letreiro atrás do protagonista da história, Hórus O Magnífico, espécie de Zé do Caixão mais magro, de grandes bigodes, um tipo de dono de circo, algo entre charlatão e figura realmente sinistra. Ele começa a recitar um poema. Não se tem muita idéia de onde ele está, talvez o ideal fosse fechar em closes nos próximos quadrinhos. Ele olha para nós, leitores]
Hórus – Sem olhos vi o mal…
QUADRO 4
[Segue recitando]
Hórus – … claro que dos olhos se seguiu / Pois cara sem olhos viu / Olhos que lhe custam caro / De olhos não faço menção…
QUADRO 5
[Ainda recitando]
Hórus – …Pois querem que olhos não sejam / Vendo os olhos sobejam / Não os vendo…
QUADRO 6
[Terminando]
Hórus – … olhos não são.
QUADRO 7
[Hórus didático, teatral]
Hórus – Camões escreveu esses versos para uma mulher que o zombou por ser caolho. Se chama mesmo “A uma dama que lhe chamou Cara sem Olhos”. Espero que a poesia a tenha ajudado enxergar a beleza que seus olhos não captaram no poeta…
QUADRO 8
Hórus – A visão, amigos, é o sentido supremo. Mas eu pergunto: você está preparado para sentir o que os olhos não vêem?
QUADRO 9
[A cena abre, e aqui há uma surpresa. Hórus é apresentador de um programa de auditório de TV, o letreiro "O que os olhos não vêem..." é na verdade o letreiro no fundo do cenário do seu programa (abaixo do letreiro, a assinatura "com Hórus, o Magnífico). Uma câmera de TV aponta para uma mulher bem simples sentada em uma cadeira com os pés em uma espécie de caixa com os olhos vendados. Uma ajudante de palco (a mulher de Hórus, a sra. Fortuna) de maiô está ao lado dela]
Hórus – Você está, Lucicreide?
Lucicreide – Estou sim, Seu Hórus
QUADRO 10
[Um close nas mãos da ajudante despejando vários caracóis de uma jarra na caixa aos pés da mulher, para ela descobrir do que se trata, como nos programas tipo Gugu. Fora do quadro, Hórus fala]
Hórus – Então… vamos começar.
QUADRO 11
[close dos pés enfiados na caixa cheia de caracóis, alguns subindo nas pernas um tanto enviesadas para demonstrar o nojo da mulher]
QUADRO 12
[Close no rosto vendado de Lucicreide, que morde os lábios em angústia com a sensação dos bichos em seu pé]
QUADRO 13
[Geral do palco, Lucicreide vendada, Hórus e a sra. Fortuna]
Lucicreide (vacilante) – Minhoca?
Hórus – Não, Lucicreide. Vou lhe dar uma dica…
QUADRO 14
[Close em Hórus, dedo em riste]
Hórus – O que é o que é que anda por toda a casa sem sair do lugar?
QUADRO 15
[Close em Lucicreide]
- C-caracol?
QUADRO 16
[Close de novo nos pés enfiados na caixa, mais caracóis escalam as pernas de Lucicreide. Fora do quadro, fala Hórus]
Hórus – Certo, Lucicreide, certo…
QUADRO 17
[Close em dois pés, dessa vez enfiados em uma bacia de água quente, como em uma fusão de imagens. São os pés de Saulo Silva, dono da TV Interlagos, patrão de Hórus. Hórus está falando, fora do quadro]
Hórus – Não é certo.
Saulo – Não?
QUADRO 18
[Abre a cena. Saulo está sendo atendido por uma manicure em sua sala - em sua mesa, a plaqueta com o nome "Saulo Silva". De pé a seu lado, Hórus, contrariado]
Saulo – Porque não? Seu programa de horror barato não está dando audiência.
QUADRO 19
[Close em Hórus, expressão de raiva]
Hórus – Mais do que seu programa de entrevistas.
QUADRO 20
Saulo – É uma audiência selecionada, tem uma função estratégica. Além do mais…
QUADRO 21
[Close em Saulo]
Saulo – … eu sou o dono da Rede. Inclusive do passe da “sra. Fortuna”, sua mulher…
QUADRO 22
[Close em Hórus]
Hórus – Você pretende mantê-la?
QUADRO 23
Saulo (mau, sacana) – Em mais de um sentido.
QUADRO 24
[Close em Hórus, em silêncio, entre o espanto e o ódio]
QUADRO 25
Saulo – Ela está na sala ao lado, assinando a renovação do contrato.
QUADRO 26
[Saulo em sua mesa, olhando para a frente como se estivéssemos no ponto de vista de Hórus - talvez aparecendo ao lado a bunda da manicure, curvada sobre seus pés para fazer seu trabalho, mas dando uma impressão de estar pagando um boquete em Saulo]
Saulo – E me pediu para dizer que não quer te ver mais.
QUADRO 27
[Mesmo quadro anterior de Saulo em sua mesa, mas parecendo estar mais distante - só que o balão com o que acabou de dizer está em superclose, estourando na palavra "VER", que ocupa boa parte do quadrinho]
QUADRO 28
[A palavra VER ganha traços mais grossos - na verdade o close cortando parte de um calendário na folha que diz "FEVEREIRO"]
QUADRO 29
[Caindo a folha de fevereiro aparecendo a folha março]
QUADRO 30
[Caindo a folha de julho e aparecendo em um close mais próximo a folha de AGOSTO, ênfase no pedaço "AGO"]
QUADRO 31
[Agora abre a cena para a fachada do prédio da TV Interlagos, a logo da empresa com a mesma tipologia do superclose "AGO" do quadro anterior. Chove.]
QUADRO 32
[Debaixo da fachada na porta do prédio da TV Interlagos, Saulo beija a sra. Fortuna. Um funcionário segura a porta do carro de Saulo e um guarda-chuva para o casal, esperando que terminem o beijo para Saulo embarcar]
QUADRO 33
[O carro visto de frente, Saulo já ao volante, sra. Fortuna dá adeus do lado de fora, Saulo acena de volta, o funcionário segurando o guarda-chiva para ela]
QUADRO 34
[Mesmo enquadramento, o carro visto de frente mas em ângulo enviesado, saindo do quadro, como se saindo da vaga. sra. Fortuna e funcionário já fora do quadro. A nova disposição do carro de Saulo revelva um carro estacionado atrás, Hórus ao volante]
QUADRO 35
[Visto de frente, o carro de Saulo para em um sinal. Mais atrás, o de Hórus]
QUADRO 36
[Mesmo enquadramento, o carro de Hórus emparelhado com o de Saulo no sinal. Hórus está saindo pelo banco do carona, Saulo não percebe, olha para cima, para o sinal]
QUADRO 37
[Enquadramento mais próximo de Saulo, quase close dele atrás do pára-brisa. Atrás do carro dele, embaçado pela chuva no pára-brisa traseiro, o vulto de Hórus contornando seu carro por trás]
QUADRO 38
[Mesmo enquadramento do quadrinho anterior, a mão de Hórus com um tecido (clorofórmio, etc) atacando o rosto de Saulo]
QUADRO 39
[TREVAS]
QUADRO 40
[Quadro escuro, mas quase dando para discernir um vulto. A partir desse quadro vemos (ou não vemos) tudo na perspectiva de Saulo. Na parte de cima do quadro, a voz de Hórus, em legenda]
Hórus – Abra os olhos.
QUADRO 41
[Mais claro o quadro. Hórus está em seu "escritório", uma espécie de depósito de materiais de mágica - ali um esqueleto, aqui uma caixa de número de desaparecimento, desenhos de pentagramas, etc]
Hórus – Não se preocupe, você está anestesiado.
Saulo (tentando falar, grogue) ggllll…
QUADRO 42
[Nítido agora. Hórus está com luvas, um bisturi em uma mão e uma espécie de colher na outra]
Hórus – Vou tirar seu olho esquerdo. Não se preocupe.
Saulo – Nãouum…?
QUADRO 43
[Aqui o quadro toma a forma de um olho, com trevas em volta - É como se enxergássemos com o olho direito Hórus se curvando sobre o esquerdo para fazer a "operação". Legenda com o protesto de Saulo em legenda, abaixo no quadro, na parte escura]
Saulo – NÃOO.
QUADRO 44
[Ainda pelo "visor" do olho direito de Saulo, Hórus está mostrando (ele está longe o suficiente para vermos exatamente o que, é uma pequena bolinha) algo para Saulo em sua mão enluvada, roupa (um jaleco?) manchado de sangue]
Hórus – Está vendo isso? É um pequeno explosivo.
QUADRO 45
[De novo pelo olho direito vemos Hórus se curvando na direção onde estaria o olho esquerdo de Saulo]
Hórus – Vou colocar aqui na cavidade ocular.
Saulo (legenda abaixo, tentando articular uma súplica0 – PUUR FAVVOR.
QUADRO 46
[Pela perspectiva do olho direito, vemos Hórus de novo empunhar os instrumentos cirúrgicos]
Hórus – Agora o outro olho.
QUADRO 47
[TREVAS. Agora vamos assim até quase toda a história. Na parte superior dos quadrinhos pretos, as falas de Hórus, na inferior, as de Saulo]
Hórus – Estou colocando agora o outro explosivo.
Saulo – PUURR FFF…
QUADRO 48
[TREVAS. Hórus fala]
Hórus – Não se preocupe. Posso reimplantar seus olhos. Posso devolver sua visão.
QUADRO 49
[TREVAS]
Hórus – Mas você vai ter que ganhar um jogo. Você conhece as regras. Se chama “O que os olhos não vêem…”
QUADRO 50
[TREVAS]
Hórus – Se você acertar que coisas estou colocando em contato com a sua pele, você vive.
QUADRO 51
[TREVAS]
Hórus – Mas se errar… os explosivos.
Saulo – PPPUUR.
QUADRO 52
[TREVAS]
Hórus – Uma injeção para acordar.
SAULO (saindo do torpor) – POR FAVOR!!
QUADRO 53
[TREVAS]
Hórus – Não perca tempo com “por favor”. Estou colocando uma gaiola em torno de sua cabeça. O que há nela?
Saulo – PORFAVORPORFAVORPORFAVORPORFAVOR
QUADRO 54
[TREVAS]
Saulo – POR FAVOR…
QUADRO 55
[TREVAS]
Hórus – Está sentindo como espetam? O zumbido?
Saulo – …
QUADRO 56
[TREVAS]
Hórus – Como entram na sua boca? Nos ouvidos? Como mordem?
Saulo … uma…
QUADRO 57
[TREVAS]
Hórus – Uma? Uma o que?
Saulo – … uma chance…
QUADRO 58
[TREVAS]
Hórus – Claro. Como no programa. Vou dar uma dica.
QUADRO 59
[TREVAS]
Hórus – “Seus dentes são de leão, tem os queixais de uma leoa, fez de minha vide uma assolação, destroçou minha videira”
QUADRO 60
[TREVAS]
QUADRO 61
[TREVAS]
Saulo – Isso… isso é da Bíblia…
QUADRO 62
[TREVAS]
Saulo – … do Livro de Joel… Ga…ga…
QUADRO 63
[TREVAS]
Saulo – … gafanhotos.
QUADRO 64
[Vemos um close do rosto de Saulo, do nariz para baixo, coberto de gafanhotos, com feridas provocadas pelos bichos - do alto, das cavidades oculares que não aparecem, sai um rastro de sangue]
Hórus (fora do quadro) – Muito bem.
QUADRO 65
[TREVAS]
Hórus – Agora me dê suas mãos.
QUADRO 66
[TREVAS]
Hórus – Sinta esse objeto. O que é? Percebe como é serrilhado, duro?
Saulo – Pare, por favor…
QUADRO 67
[TREVAS]
Hórus – VOU DETONAR OS EXPLOSIVOS NO PRÓXIMO “POR FAVOR”!!! O QUE É??
QUADRO 68
[TREVAS]
QUADRO 69
[TREVAS]
Saulo – …uma dica…
QUADRO 70
[TREVAS]
Hórus – Sua dica, muito fácil: “Tarde de Maio”
Saulo – Tarde… de Maio?
QUADRO 71
[TREVAS]
Hórus – Não sabe? Vou acionar o cronômetro.
Saulo – …
QUADRO 72
[TREVAS]
QUADRO 73
[TREVAS]
Saulo – … o poema?
QUADRO 74
[TREVAS]
Saulo – “Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de Maio…”
QUADRO 75
[TREVAS]
Saulo – … um maxilar?
QUADRO 76
[As mãos de Saulo seguram um maxilar]
QUADRO 77
[TREVAS]
Hórus – Um maxilar. Última prova.
QUADRO 78
[TREVAS]
Hórus – Sente na sola dos pés? O aspecto gelatinoso? A estrutra macia?
QUADRO 79
[TREVAS]
QUADRO 80
[TREVAS]
Hórus – Vamos, esprema, sinta a consistência…
QUADRO 81
[TREVAS]
QUADRO 82
[TREVAS]
Saulo – A minha dica?
QUADRO 83
[TREVAS]
Saulo – …
QUADRO 84
[TREVAS]
Saulo – Uma estourou!
QUADRO 85
[TREVAS]
Saulo – Qual é a minha dica? Qual é??
QUADRO 86
[TREVAS]
Saulo – …
QUADRO 87
[TREVAS]
Saulo – … uvas?
QUADRO 88
[TREVAS]
Saulo – Eu errei?? ERREI???
QUADRO 89
[TREVAS]
Saulo – ONDE VOCÊ ESTÁ???
QUADRO 90
[TREVAS]
QUADRO 91
[TREVAS]
QUADRO 92
[TREVAS]
Saulo (tipos enormes aqui) – MEUS OLHOS!!!!!
QUADRO 93
[TREVAS]
Saulo (tipos enormes aqui) – MEUS OLHOS…
QUADRO 94
[Plano americano de Saulo, com as mãos cobrindo os olhos (vê-se os rastros de sangue nas bochechas), em desespero]
Saulo – Meus olhos…
QUADRO 95
[Mesmo plano, Saulo com as mãos em pinças, como se estivesse tirando os explosivos de suas cavidades oculares]
Saulo – Esses explosivos…
QUADRO 96
[TREVAS]
QUADRO 97
[As mãos de Saulo, semifechadas, como se tateassem os dois explosivos]
QUADRO 98
[As mãos de Saulo, no mesmo enquadramento do quadro anterior, mas abertas cada uma com uma pequena bola]
Saulo – Bolas de gude.
QUADRO 99
[As mãos de Saulo, abertas, deixando as bolas cair]
QUADRO 100
[Mesmo plano americano de Saulo, no quadro 94]
QUADRO 100
[Abre a cena. Saulo na mesma posição, mas o quadro agora mostra seus pés enfiados em uma caixa, duas bolas de gude no chão, um maxilar tb no chão, perto, e ao lado de Saulo, em uma cadeira próxima, o cadáver de sra. Fortuna - sem o maxilar inferior, uma grande trilha de sangue correndo pelo peito]
FIM.
7 Comentários








18 de março de 2009 às 16h56
Nada a ver, mas lembrei de outro poema. Esse é do Quintino Cunha, figura popular da Fortaleza dos anos 30. E cita o Camões. É assim:
Camões, grande vate português.
Via mais por um só olho,
Que nós com os três.
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18 de março de 2009 às 17h12
Ei, Arnaldo! Acabei de te adicionar no twitter e vi o link pra esse post lá. Li o roteiro… ficou bacana. Gostei do jogo com as palavras… ver…fevereiro… Gosto quando enquadramentos nos quadrinhos me lembram do enquadramento no cinema. Pude assistir ao seu roteiro agora. Bem bacana!
Enfim. Deixa eu ir direto ao ponto… hehehe
Eu estou interessada em ler os seus quadrinhos da adaptação da Vida como ela é. Vou escrever a minha monografia sobre o Nelson Rodrigues e estou coletando referências e material bibliográfico.
Se puder me ajudar (até indicando outros livros, quem sabe…), ficarei eternamente grata!
Grande abraço, sucesso e boa sorte com o roteiro!
Responder
18 de março de 2009 às 17h30
Caralho, cê faz roteiro completo das histórias, que louco… Vou ler assim que puder (trabalhando) e digo o que achei
Responder
18 de março de 2009 às 18h40
Arnie, cê devia pedir pra galera linkar seu blog por aí. No google as primeiras ocorrências com seu nome vão todas pro Gadernal ainda. Até O De Sempre Nunca aparece antes.
Responder
19 de março de 2009 às 2h22
Maldito, aposto como ele nao vai mais desenhar.
Puta roteiro, puta seja lah o nome disso tudo que ce fez dessa vez.
Uh!
Responder
25 de março de 2009 às 0h41
PQP, horripilante esse roteiro. Essa ia ser maneira de ver desenhada, ainda tá de pe a parceria com o Lacerda? Escreve mais algumas e lança uma graphic Novel, Arnaldo. Se mantivesse o padrão desse conto ia ficar foda
Responder
26 de março de 2009 às 10h00
Ficou tipo um “jogos mortais” tupiniquim… legal, mas podia envolver o Gugu Liberato.
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