23 de junho de 2009 às 12h22
“‘A Banda’ é insuportável!’ – Jaguar

http://www.osomdopasquim.com.br/
O Mini propôs meu nome para escrever sobre um livro, em uma ação de marketing misturada com meme, e indicou “O Som do Pasquim”, que já saiu tem um tempinho. Sei que vou levar chamada de uns e outros que não curtem esse tipo de ingerência neste espaço, mas bicho, é livro. Livro é que nem pizza, quando é ruim é bom – no mínimo vai te ajudar a fixar pontos de ortografia, se o escritor mandar mal mas o revisor for craque. Portanto, eis minhas impressões sobre esse relançamento (a primeira edição é dos anos 70, da editora do próprio Pasquim, a Codecri – Comitê de Defesa do Crioléu).
O tempo da indelicadeza
Nos anos 60 e 70 a cana era dura, mas temos a impressão que a vida era mais leve. Hoje se pode falar de tudo mais abertamente – e o pessoal do funk proibidão (maneira de dizer) aproveitou a deixa – mas naquele tempo o compositor popular tinha que se virar com uma sutileza compulsória que deixava o cidadão bolado: aquela letra elíptica seria uma crítica social ou alusão ao ato sexual? Os decodificadores do duplo sentido devem ter ficado maluquinhos com a entrada em cena do Djavan – menos mal que hoje em dia estamos ligados que ele não queria dizer porra nenhuma mesmo.
Mas na hora das entrevistas, que diferença. Se agora todo mundo é amiguinho e cada uma das aspas arrancadas de um artista contemporâneo equivale a um ritual de beija-mão, naquele tempo, mermão, o couro comia. Depois de ler “O Som do Pasquim”, coletânea de conversas entre os jornalistas daquele hebdomadário e uma carrada de músicos de várias procedências, você vai entender o uso da expressão Anos de Chumbo.
Não se pode dizer aquela frase clássica sobre o remake de “O Som do Pasquim”, que esta é uma edição revista e ampliada – antes é uma edição revista e reduzida: limaram as entrevistas da Maria Bethânia, Ângela Maria e Roberto Carlos. Elas e ele não quiseram assumir o que disseram sob efeito do álcool (passivo que seja, o povo do Pasquim bebia paca) e da inconsequência da juventude – quer dizer, a Ângela Maria (1928) não tinha essa desculpa. A proibição do Roberto só faz sentido por conta de sua personalidade paranóide, porque sua entrevista é a mais inócua da edição original, mas Bethânia sabe onde está pisando: gasta quase duas páginas da sua descrevendo um briga (física inclusive) com o empresário Guilherme Araújo.
Mesmo assim a nova edição é um festival de, como dizia Nelson Rodrigues, rútilas patadas. Waldick Soriano: “Não gosto da música do Gil, nem do Caetano, nem da Gal, nem da Bethânia, nem de ninguém”. Moreira da Silva: “Paulinho da Viola é sofrível e Caetano é uma porcaria, um chato”. Agnaldo Timóteo foi (paradoxo) macho de deixar a entrevista como a concedeu, mas pela lista de pessoas para quem escreveu uma nota se desculpando, dá pra ter idéia de quantas ofendeu: Caetano Veloso, Maria Alcina, Chico Buarque, Milton Nascimento, Tom Jobim – curiosamente, não pediu desculpas a João Gilberto, de quem também falou mal.
Mas também se falou bem, duplo sentido aqui: o Ivan Lessa chega a citar o poema Kubla Khan, de Coleridge, para comentar uma resposta do Chico Buarque. Muito bom ver o Lupicínio Rodrigues se declarando não artista, mas boêmio – e reclamar, para acabar com a dúvida dos entrevistadores relapsos, que era sim o autor de “Felicidade” e que escrevera o hino do Grêmio, não o do Internacional. E Tom Jobim, respondendo porque voltou para o Brasil depois de sua temporada americana: “Voltei para me aporrinhar. Para responder a esse tipo de pergunta. Para ser um dos 5% dos brasileiros que pagam imposto de renda. Voltei porque nunca saí daqui”.
A teoria do homem cordial de Sérgio Buarque de Hollanda, pai do entrevistado Chico, não ganha exatamente uma base de sustentação com esse livro. Mas o leitor ganha muito.
5 Comentários








23 de junho de 2009 às 15h12
Um tempo de machos, porra.
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23 de junho de 2009 às 17h49
nao entendo porque eles nao publicam um livro so de cartuns e com o humor do Pasquim. As cartas enigmaticas, o “Aprenda Ingles com as traducoes de titulos de filmes”. Isso sim era o melhor.
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23 de junho de 2009 às 18h49
A teoria do homem cordial ganha uns pontos sim. Cordial, no sentido que ele quis dizer, não é gentil, e sim o que age de acordo com o coração, com suas simpatias, sem racionalidade. Nesse caso, o tiroteio verbal é a cara da “cordialidade” brasileira. O livro deve ser excelente!
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23 de junho de 2009 às 18h53
Bah, nunca li, sempre cito errado, esqueço que fiz isso e cito errado tudo de novo. Mas vou deixar aí pra apanhar, que eu mereço.
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24 de junho de 2009 às 15h14
Errado nada, bicho. A versão derruba o fato. Depois que escreveu e publicou, fudeu.
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