Republicando a matéria dos Raimundos pra Bizz (dezembro 2006) a pedidos. Tirei duas mudanças que o corpo editorial fez no texto, para conservar a crueza - foi a primeira vez que usei meu diploma de jornalista à vera na vida. Mas tirei uns erros de português que espero que não tenham passado pela revisão; sem coragem de pegar a revista agora pra me certificar.

Andar na Pedra
João Gordo em 1999 sobre os Raimundos: “Tudo aconteceu muito rápido pros caras, não passaram pelo esgana-gato que toda banda tem que enfrentar”.
Ah, se ele visse os caras agora.
17 de novembro, 23 horas: os Raimundos estão embarcando em um ônibus na capital paulista para tocar em Pirangi, uma cidade de 10.000 habitantes 380 km (5 horas de viagem) para o interior do estado - como atração de uma festa à fantasia, 10 paus a entrada.
Com a banda - hoje em dia carece apresentar: Digão, guitarra e voz; Marquinhos, guitarra; Alf, baixo; Fred, bateria - dois roadies, um técnico de som e o Pisca, figuraça barbaridade, o empresário gaúcho que é a encarnação trintona do espírito adolescente que a banda sempre usou para escrever suas músicas. Também no busão: a dupla de reportagem (Arnaldo Branco, gravador; Matias Maxx, máquina fotográfica).
Mas antes, um exercício de contextualização:
Quando João Gordo disse a frase acima, os Raimundos eram a banda número um do país - tinham alcançado, em quatro discos de estúdio, o status que outras às vezes levam décadas para conseguir: o de poder fazer um show inteiro, com bis e tudo, só de hits. O que levou, evidente, ao DVD e CD duplo ao vivo de 2000. Mas no começo do ano seguinte, a Intervenção Divina.
Foi a separação mais traumática desde a de Cazuza e Barão Vermelho que, se entendi o filme da Sandra Werneck, terminaram a relação por incompatibilidade sexual. Com os Raimundos as divergências foram de fundo religioso, embora Digão não descarte o fator sexo: “Rodolfo se converteu evangélico para curar um chifre!”
Com chifre ou sem chifre, a verdade é que em 2001, o vocalista Rodolfo (Abrantes, como assina hoje) teve uma Revelação: encontrou Jesus, que o ajudou a se libertar do vício em drogas pesadas. Fred também teve uma Revelação: descobriu que o ex-colega usava drogas pesadas: “Nunca soube de nada do Rodolfo, só que fumava maconha - e eu parei de fumar bem antes dele!” Digão também parou: “Nunca acompanhei mesmo os caras, era tipo uns 8 baseados por dia, e eu só dois”.
Estamos de volta à novembro de 2006, no loungezinho do ônibus (um double deck responsa). A inversão de valores é tanta que a banda é quem pergunta o que nós estamos fazendo ali: “O que a Bizz quer com a gente? Estamos fora da mídia há tanto tempo…” comenta Digão. O fim da cerveja decreta o toque de recolher, e todos vão para o andar de cima, menos Fred. Do baterista: “o Digão quer fazer um disco ao vivo com as músicas antigas, mas a gente tem um de inéditas pronto”. Era o começo de um telefone sem fio que continuaria no dia seguinte, quando foi a vez do guitarrista-vocalista falar.
Chegamos ao hotel cinco da manhã, e quatro horas depois encontramos o técnico de som Demétrio, Pisca e Digão já de pé. Aproveitamos a carona dos três para o clube onde a banda vai tocar mais tarde. Breve reconhecimento de terreno pela janela da van: Pirangi é uma daquelas cidades que só existem nos quadrinhos da Turma da Mônica: apenas cercas, casas e árvores. O Grande Hotel Pirangi, onde nos hospedamos com a banda, deve ser a maior construção do pedaço.
Na Associação Recreativa de Pirangi (essas cidades pequenas são mais auto-referentes que o Marcelo D2) rápida checagem do palco e Digão comanda a expedição até a piscina. Lá, volta à carga contra Rodolfo: “ele diz que Raimundos foi a pior coisa da vida dele, mas vive dos direitos autorais”. Fala do fim da banda do ex-amigo renascido com empolgação: “você não está ligado, véio? O Rodox acabou em cima do palco! Na quarta música o batera chutou o bumbo e disse um monte do Rodolfo, que ficou só olhando”.
Mas deve-se relevar a bronca, a perplexidade pela atitude do ex-colega é bastante sincera. A verdade é que Digão não parece um Raimundo, e sim um fã da banda; inclusive fala sobre si na terceira pessoa: “O Digão no palco é com a guitarra, véio”. Sobre seu projeto acústico solo (toca Sublime, Chili Peppers, R.E.M. e, claro, Raimundos, em casamentos e formaturas): “O Digão pegou na viola, juntou um povo”. O nome do projeto é Digantes e, sim, ele canta todos os palavrões das músicas da sua banda, não importa quão classudo o casamento, ou a formatura.
Sobre o tal disco pronto que Fred quer lançar: “cara, só tem uma pré, captação de riffs, não chega a ser um disco”. Também está escaldado: “se lanço algo autoral, a crítica vai meter o pau de qualquer jeito, então o lance é fazer um disco ao vivo para mostrar como nossos shows estão fodas - e olha quanta gente está estreando direto com ao vivo, tipo o Armandinho”. Em relação ao EP que deixaram disponível para baixar na internet (”Ponto Qualquer Coisa”, 2005) dá para ver que foi voto vencido: “não entendi o sentido daquilo. Nego diz que a internet é o canal, não é para agora”.
Quando falava sobre a relação complicada entre Fred e Canisso (Digão relevou a saída do baixista original para tocar com o Rodox, mas o baterista tinha algumas divergências antes mesmo da saída de Rodolfo e hoje não se dão mais), chega o resto da banda, com a exceção do guitarrista Marquinhos. O Raimundo que entrou na vaga de Rodolfo não falou nada durante toda a viagem, ficando ou no hotel ou no ônibus, com a cara enfiada em um laptop - na real só ouvi a voz do sujeito porque faz backing vocals no show. “Ele é normal”, diz Fred, “só que às vezes fica assim”.
É hora de observar Pisca em ação, tentando cantar Fred para a idéia do disco ao vivo: “vou perturbar vocês, véio, pelo carinho que tenho pela banda. É que nem diz a letra de ‘Marujo’: ‘…é por isso que Raimundos nunca vai se acabar’…”, batuca na mesa. Fred dá de ombros e Pisca sugere um churrasco. Enfim, a unanimidade.
Pisca acumula a função de figura titular do grupo: canta a dona do hotel pelo celular, arruma uma briga de galo na piscina com um nativo, delega tarefas o tempo todo - vai, durante o show, me encarregar da chave do camarim. É sem sombra de dúvida um piadista, só não decidi ainda se um engraçado. Nessa, o churrasco segue rumo à impressionante marca de dois engradados e meio de cerveja - embora alguns locais tenham ajudado a banda e a reportagem a dar números finais à carnificina, cheios de intimidade. Pra quê…
Ah, o senso de humor dos interioranos. Sou acordado de um breve sono à beira da piscina por um copo de cerveja na cara - rosno qualquer coisa até perceber que o autor da brincadeira são na real cinco, e que o mentor intelectual (não é bem o termo) parece ser o Pisca. Matias tem menos sorte: é atirado na água com celular (perda total) e tudo. OK, a passagem de som vai começar, excelente desculpa para botar o galho dentro, o que se mostrou uma atitude sábia: um eletricista que ajudava a montar o palco foi esfaqueado pouco depois. Alguma treta local, resolvida agroboy style.
O problema é que quando a banda e o repórter viram o rastro de sangue, nosso fotógrafo tinha sumido - o que, claro, levou à conclusão de que todos aqueles glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas no chão pertenciam ao Matias. O alívio veio quando o reencontramos roncando no hotel. Em minutos todos seguiam seu exemplo, aguardando a convocação para o show.
A van passa no hotel meia-noite, a banda atravessa um corredor de fãs fantasiados (Chaves, super-herói, puta) e chega ao regado camarim. Cada um, cada um: Digão faz flexões e os outros bebem. Pisca faz a maior introdução de palco que ouvi na vida e os Raimundos entram, com “Mulher de Fases”. Na platéia o mais empolgado é um Jesus Cristo de punho cerrado e com todas as letras na ponta da língua. Mas Digão tem razão, a banda desempenha. Alf e Marquinhos ajudam bastante na tarefa de manter o povo cantando.
Para resumir: o show é excelente e termina com o consagrador bis “Puteiro em João Pessoa”. Rápida passagem pelo camarim, rolê pela festa com Digão, que deve ter padrões superfaturados no que diz respeito à beleza feminina: apesar do local bastante florido, acha as minas “fracas”. Isso, ou o cara parou com mais do que fumar. Nesse meio tempo, tiro fotos e dou autógrafo como se fosse um Raimundo, uma hora e meia de show parece pouco pra esse pessoal assimilar duas caras novas.
Rápida passada no hotel, e pé na estrada. De novo esquecemos de reabastecer o frigobar com cerveja, portanto todo mundo pra poltrona mais cedo. Somos deixados em Congonhas para pegar o primeiro avião para o Rio, e é aí que me ocorre fazer para Fred, que volta conosco, a pergunta que foi o ponto de partida da matéria quando a pauta me foi soprada pelos editores: “por que vocês continuam?”. O cara me devolve outra pergunta: “foi bom o show, não foi?”.
Nessa hora lembrei do que o Matias falou assim que o show terminou: “me senti de novo com 15 anos!”. Já era bem mais velho do que isso quando eles estouraram, e estava achando graça da frase, quando chegou Alf: “Onde você estava quando a gente tocou ‘Puteiro’? Ia te chamar para fazer backing vocal!”. Traído na hora por um sentimento de frustração, percebi que sonho de adolescente não tem idade, e que provavelmente, como os Raimundos remanescentes, não abriria mão fácil de alguma coisa que conquistei só porque tem gente em torno que decidiu que a festa acabou.
Guto em 27 de junho, 2009 às
2:34 pm
Puta que pariu, não sou muito de comentar (apesar de ler todos os posts), mas essa matéria é sensacional. Parabéns, cara.
guilherme atencio em 27 de junho, 2009 às
2:37 pm
Me deu até uma tristeza ler isso. É uma pena quando bandas que a gente gostam acabam assim, mas talvez seja melhor isso do que virar cópia de si mesmo.
semosso em 27 de junho, 2009 às
3:54 pm
“… não abriria mão fácil de alguma coisa que conquistei só porque tem gente em torno que decidiu que a festa acabou.”
Caralho Arnaldo, que frase… Fechou muito bem a bela entrevista.
Arnaldo Branco em 27 de junho, 2009 às
3:57 pm
O final foi uma das coisas que rodaram na edição da matéria. Mantive aqui, também gostei dela fechando assim.
João Caldeira em 27 de junho, 2009 às
5:16 pm
A matéria é boa mesmo, fora a identificação pessoal que eu tive: 17 de novembro é meu aniversário e Pirangi é a cidade da minha madrinha. O engraçado é que a descrição é bem fiel à realidade, e mais engraçado ainda é imaginar que você já tenha ido lá…
eumesmo em 27 de junho, 2009 às
7:12 pm
Adolescência curtindo Ramones e Raimundos… Poderia ter sido mais divertido?
LC em 27 de junho, 2009 às
7:15 pm
Arnaldo no melhor estilo Hunter S. Thompson.
E pensar que rodaram com o final da matéria.
Arnaldo Branco em 27 de junho, 2009 às
7:28 pm
Na verdade o final rodou por um bom motivo. A matéria meio que fala só da decadência da banda, e esse final aliviava, parecia uma concessão. Talvez fosse, mas era uma concessão que eu - agora eu sei - queria fazer.
Bruno em 28 de junho, 2009 às
1:52 am
Muito foda essa matéria, cara. E que merda terem cortado esse final.
“Legal” também é clicar na tag Raimundos, e ler o Digão dando piti nos comentários do outro post.
André Costa em 28 de junho, 2009 às
2:58 am
Texto foda, era o único dos teus publicados na Bizz que eu ainda não tinha lido, e possivelmente o melhor deles.
Todas as tuas reportagens na revista ficaram ótimas, não consigo entender pq não rolou um convite pra repetir a dose na Rolling Stone…
Edu/ Cabron em 28 de junho, 2009 às
5:47 pm
Agora entendo menos ainda o piti do Digão..
Miller Ramos em 29 de junho, 2009 às
2:18 am
Parabens pelo texto. Muito bom mesmo. Como diz o amigo ali em cima, mesmo sem o habito de comentar me sentir na obrigacao de te elogiar. :)
Felipe Astolfi em 29 de junho, 2009 às
7:02 am
Esses dois últimos posts são foram sensacionais! Também acho que ficou irado o final… você entende o porque eles continuam com a banda. De um modo geral parece que os caras não tem amigos pra dizer: “Pára maluco, voce está ridiculo”
Bruno em 29 de junho, 2009 às
8:06 am
Jornalismo Subliterário 3 = Aquela matéria do show da Ivete Sangalo. Lembro que a revista que veio após a da matéria citada ( Evanessence na capa) tinha a sessão de cartas com o seguinte: “Indignação com Arnaldo Branco”. Coloca essa matéria no blog também.
Arnaldo Branco em 29 de junho, 2009 às
10:49 am
Essa é a próxima mesmo, Bruno.
Me dei conta que só homem comentou nesse tópico, Raimundos é uma experiência mais testosterônica mesmo ou é impressão?
Liv em 29 de junho, 2009 às
12:47 pm
Eu comentei em casa e já tive minha cota de revival dos hits Raimundicos esse fim de semana. Um brinde ao YouTube e à memória afetiva :)
Bruno Allemand em 29 de junho, 2009 às
2:38 pm
arnaldo, parabéns pela matéria! não acho q o fundo do poço chegou por causa da saída do vocalista rodolfo, mas sim pq depois dos dois primeiros álbuns a qualidade da banda decaiu a níveis alarmantes, ao ponto de fazer músicas melosas e totalmente apelativas ao lado comercial. bandas que se vendem (como o caso dos raimundos) merecem um fim como esse!
eu acredito tranquilamente que a banda acabou faz tempo, só q os integrantes remanescentes (digão e fred) não aceitaram a ideia! aliás, ainda cabe a pergunta: será q não seria mais negócio acabar de vez com os raimundos e montar uma nova banda ao invés de pagar micos para festas à fantasia em cidades do interior e aniversarios de 15 anos? pô, os caras vivem à sombra daquela banda que agitou a minha adolescência e a de outros milhões!
thiago em 30 de junho, 2009 às
8:52 pm
gostei não, não sei se é pq não gosto desse estilo, mas pra mim pareceu “meu final de semana com os Raimundos”.
só tem umas 4 ou 5 palavras da banda, das quais metade não já era sabido, e o resto é só “meu final de semana com os Raimundos” mesmo. o texto é bom de ler e tal, mas como reportagem mesmo, não achei boa não.
flw
Thomas em 1 de julho, 2009 às
11:44 am
PQP! Sem comentários! Até hoje ainda fantasio eu sendo um integrante da banda!! Excelente texto!!
Dpaz em 4 de julho, 2009 às
10:57 am
Muito foda cara, sempre leio os teus posts nunca comentei e nem mas essa foi demais, aqui tem como publicar entrevistas da revista F.? eu só tenho a do Fausto Wolf que foi a que consegui comprar aqui em BH, e na Conrad não consegui catar nada, só o Capitão Presença
Flw
Pedro O. Obliziner em 9 de julho, 2009 às
1:54 am
caramba, a matéria podia ser sobre a decadência e tal, mas foi uma pena o final ter rodado, ele ficou bom mesmo
André em 14 de julho, 2009 às
2:59 am
Porra, matéria do caralho mesmo! A resposta em forma de pergunta do Fred… ótima. Espero que o Digão saque um dia a beleza que é essa matéria, apesar dela mostrar uma fase não muito boa da banda (eufemismo para “decadente” [sem faltar com respeito, se for possível isto]).
Augusto em 18 de julho, 2009 às
5:14 pm
Obrigado por escrever a matéria, a leitura foi um presente pra mim. Não sabia que o Raimundos ainda existia tão bom quanto Raimundos. Agora eu me sinto com 15 anos, assim como todos os que comentaram acima.
Um texto: Raimundos sem Rodolfo « Parte Boa em 17 de dezembro, 2009 às
9:23 am
[...] Tá tudo aqui. [...]
Thiago em 4 de março, 2010 às
11:42 pm
Eu lembro dessa matéria na Bizz. E nem só por recordação remota. Achei um texto incrível ainda mais por mostrar esse lado desconhecido da banda.
Muito bom ler a reportagem na íntegra. Demais.
Passamani em 5 de março, 2010 às
12:21 am
Porra! Materia muito foda mesmo.
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