27 de junho de 2009 às 13h20
Jornalismo subliterário, parte 2
Republicando a matéria dos Raimundos pra Bizz (dezembro 2006) a pedidos. Tirei duas mudanças que o corpo editorial fez no texto, para conservar a crueza – foi a primeira vez que usei meu diploma de jornalista à vera na vida. Mas tirei uns erros de português que espero que não tenham passado pela revisão; sem coragem de pegar a revista agora pra me certificar.

Andar na Pedra
João Gordo em 1999 sobre os Raimundos: “Tudo aconteceu muito rápido pros caras, não passaram pelo esgana-gato que toda banda tem que enfrentar”.
Ah, se ele visse os caras agora.
17 de novembro, 23 horas: os Raimundos estão embarcando em um ônibus na capital paulista para tocar em Pirangi, uma cidade de 10.000 habitantes 380 km (5 horas de viagem) para o interior do estado – como atração de uma festa à fantasia, 10 paus a entrada.
Com a banda – hoje em dia carece apresentar: Digão, guitarra e voz; Marquinhos, guitarra; Alf, baixo; Fred, bateria – dois roadies, um técnico de som e o Pisca, figuraça barbaridade, o empresário gaúcho que é a encarnação trintona do espírito adolescente que a banda sempre usou para escrever suas músicas. Também no busão: a dupla de reportagem (Arnaldo Branco, gravador; Matias Maxx, máquina fotográfica).
Mas antes, um exercício de contextualização:
Quando João Gordo disse a frase acima, os Raimundos eram a banda número um do país – tinham alcançado, em quatro discos de estúdio, o status que outras às vezes levam décadas para conseguir: o de poder fazer um show inteiro, com bis e tudo, só de hits. O que levou, evidente, ao DVD e CD duplo ao vivo de 2000. Mas no começo do ano seguinte, a Intervenção Divina.
Foi a separação mais traumática desde a de Cazuza e Barão Vermelho que, se entendi o filme da Sandra Werneck, terminaram a relação por incompatibilidade sexual. Com os Raimundos as divergências foram de fundo religioso, embora Digão não descarte o fator sexo: “Rodolfo se converteu evangélico para curar um chifre!”
Com chifre ou sem chifre, a verdade é que em 2001, o vocalista Rodolfo (Abrantes, como assina hoje) teve uma Revelação: encontrou Jesus, que o ajudou a se libertar do vício em drogas pesadas. Fred também teve uma Revelação: descobriu que o ex-colega usava drogas pesadas: “Nunca soube de nada do Rodolfo, só que fumava maconha – e eu parei de fumar bem antes dele!” Digão também parou: “Nunca acompanhei mesmo os caras, era tipo uns 8 baseados por dia, e eu só dois”.
Estamos de volta à novembro de 2006, no loungezinho do ônibus (um double deck responsa). A inversão de valores é tanta que a banda é quem pergunta o que nós estamos fazendo ali: “O que a Bizz quer com a gente? Estamos fora da mídia há tanto tempo…” comenta Digão. O fim da cerveja decreta o toque de recolher, e todos vão para o andar de cima, menos Fred. Do baterista: “o Digão quer fazer um disco ao vivo com as músicas antigas, mas a gente tem um de inéditas pronto”. Era o começo de um telefone sem fio que continuaria no dia seguinte, quando foi a vez do guitarrista-vocalista falar.
Chegamos ao hotel cinco da manhã, e quatro horas depois encontramos o técnico de som Demétrio, Pisca e Digão já de pé. Aproveitamos a carona dos três para o clube onde a banda vai tocar mais tarde. Breve reconhecimento de terreno pela janela da van: Pirangi é uma daquelas cidades que só existem nos quadrinhos da Turma da Mônica: apenas cercas, casas e árvores. O Grande Hotel Pirangi, onde nos hospedamos com a banda, deve ser a maior construção do pedaço.
Na Associação Recreativa de Pirangi (essas cidades pequenas são mais auto-referentes que o Marcelo D2) rápida checagem do palco e Digão comanda a expedição até a piscina. Lá, volta à carga contra Rodolfo: “ele diz que Raimundos foi a pior coisa da vida dele, mas vive dos direitos autorais”. Fala do fim da banda do ex-amigo renascido com empolgação: “você não está ligado, véio? O Rodox acabou em cima do palco! Na quarta música o batera chutou o bumbo e disse um monte do Rodolfo, que ficou só olhando”.
Mas deve-se relevar a bronca, a perplexidade pela atitude do ex-colega é bastante sincera. A verdade é que Digão não parece um Raimundo, e sim um fã da banda; inclusive fala sobre si na terceira pessoa: “O Digão no palco é com a guitarra, véio”. Sobre seu projeto acústico solo (toca Sublime, Chili Peppers, R.E.M. e, claro, Raimundos, em casamentos e formaturas): “O Digão pegou na viola, juntou um povo”. O nome do projeto é Digantes e, sim, ele canta todos os palavrões das músicas da sua banda, não importa quão classudo o casamento, ou a formatura.
Sobre o tal disco pronto que Fred quer lançar: “cara, só tem uma pré, captação de riffs, não chega a ser um disco”. Também está escaldado: “se lanço algo autoral, a crítica vai meter o pau de qualquer jeito, então o lance é fazer um disco ao vivo para mostrar como nossos shows estão fodas – e olha quanta gente está estreando direto com ao vivo, tipo o Armandinho”. Em relação ao EP que deixaram disponível para baixar na internet (“Ponto Qualquer Coisa”, 2005) dá para ver que foi voto vencido: “não entendi o sentido daquilo. Nego diz que a internet é o canal, não é para agora”.
Quando falava sobre a relação complicada entre Fred e Canisso (Digão relevou a saída do baixista original para tocar com o Rodox, mas o baterista tinha algumas divergências antes mesmo da saída de Rodolfo e hoje não se dão mais), chega o resto da banda, com a exceção do guitarrista Marquinhos. O Raimundo que entrou na vaga de Rodolfo não falou nada durante toda a viagem, ficando ou no hotel ou no ônibus, com a cara enfiada em um laptop – na real só ouvi a voz do sujeito porque faz backing vocals no show. “Ele é normal”, diz Fred, “só que às vezes fica assim”.
É hora de observar Pisca em ação, tentando cantar Fred para a idéia do disco ao vivo: “vou perturbar vocês, véio, pelo carinho que tenho pela banda. É que nem diz a letra de ‘Marujo’: ‘…é por isso que Raimundos nunca vai se acabar’…”, batuca na mesa. Fred dá de ombros e Pisca sugere um churrasco. Enfim, a unanimidade.
Pisca acumula a função de figura titular do grupo: canta a dona do hotel pelo celular, arruma uma briga de galo na piscina com um nativo, delega tarefas o tempo todo – vai, durante o show, me encarregar da chave do camarim. É sem sombra de dúvida um piadista, só não decidi ainda se um engraçado. Nessa, o churrasco segue rumo à impressionante marca de dois engradados e meio de cerveja – embora alguns locais tenham ajudado a banda e a reportagem a dar números finais à carnificina, cheios de intimidade. Pra quê…
Ah, o senso de humor dos interioranos. Sou acordado de um breve sono à beira da piscina por um copo de cerveja na cara – rosno qualquer coisa até perceber que o autor da brincadeira são na real cinco, e que o mentor intelectual (não é bem o termo) parece ser o Pisca. Matias tem menos sorte: é atirado na água com celular (perda total) e tudo. OK, a passagem de som vai começar, excelente desculpa para botar o galho dentro, o que se mostrou uma atitude sábia: um eletricista que ajudava a montar o palco foi esfaqueado pouco depois. Alguma treta local, resolvida agroboy style.
O problema é que quando a banda e o repórter viram o rastro de sangue, nosso fotógrafo tinha sumido – o que, claro, levou à conclusão de que todos aqueles glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas no chão pertenciam ao Matias. O alívio veio quando o reencontramos roncando no hotel. Em minutos todos seguiam seu exemplo, aguardando a convocação para o show.
A van passa no hotel meia-noite, a banda atravessa um corredor de fãs fantasiados (Chaves, super-herói, puta) e chega ao regado camarim. Cada um, cada um: Digão faz flexões e os outros bebem. Pisca faz a maior introdução de palco que ouvi na vida e os Raimundos entram, com “Mulher de Fases”. Na platéia o mais empolgado é um Jesus Cristo de punho cerrado e com todas as letras na ponta da língua. Mas Digão tem razão, a banda desempenha. Alf e Marquinhos ajudam bastante na tarefa de manter o povo cantando.
Para resumir: o show é excelente e termina com o consagrador bis “Puteiro em João Pessoa”. Rápida passagem pelo camarim, rolê pela festa com Digão, que deve ter padrões superfaturados no que diz respeito à beleza feminina: apesar do local bastante florido, acha as minas “fracas”. Isso, ou o cara parou com mais do que fumar. Nesse meio tempo, tiro fotos e dou autógrafo como se fosse um Raimundo, uma hora e meia de show parece pouco pra esse pessoal assimilar duas caras novas.
Rápida passada no hotel, e pé na estrada. De novo esquecemos de reabastecer o frigobar com cerveja, portanto todo mundo pra poltrona mais cedo. Somos deixados em Congonhas para pegar o primeiro avião para o Rio, e é aí que me ocorre fazer para Fred, que volta conosco, a pergunta que foi o ponto de partida da matéria quando a pauta me foi soprada pelos editores: “por que vocês continuam?”. O cara me devolve outra pergunta: “foi bom o show, não foi?”.
Nessa hora lembrei do que o Matias falou assim que o show terminou: “me senti de novo com 15 anos!”. Já era bem mais velho do que isso quando eles estouraram, e estava achando graça da frase, quando chegou Alf: “Onde você estava quando a gente tocou ‘Puteiro’? Ia te chamar para fazer backing vocal!”. Traído na hora por um sentimento de frustração, percebi que sonho de adolescente não tem idade, e que provavelmente, como os Raimundos remanescentes, não abriria mão fácil de alguma coisa que conquistei só porque tem gente em torno que decidiu que a festa acabou.
29 Comentários








27 de junho de 2009 às 14h34
Puta que pariu, não sou muito de comentar (apesar de ler todos os posts), mas essa matéria é sensacional. Parabéns, cara.
Responder
27 de junho de 2009 às 14h37
Me deu até uma tristeza ler isso. É uma pena quando bandas que a gente gostam acabam assim, mas talvez seja melhor isso do que virar cópia de si mesmo.
Responder
27 de junho de 2009 às 15h54
“… não abriria mão fácil de alguma coisa que conquistei só porque tem gente em torno que decidiu que a festa acabou.”
Caralho Arnaldo, que frase… Fechou muito bem a bela entrevista.
Responder
27 de junho de 2009 às 15h57
O final foi uma das coisas que rodaram na edição da matéria. Mantive aqui, também gostei dela fechando assim.
Responder
27 de junho de 2009 às 17h16
A matéria é boa mesmo, fora a identificação pessoal que eu tive: 17 de novembro é meu aniversário e Pirangi é a cidade da minha madrinha. O engraçado é que a descrição é bem fiel à realidade, e mais engraçado ainda é imaginar que você já tenha ido lá…
Responder
27 de junho de 2009 às 19h12
Adolescência curtindo Ramones e Raimundos… Poderia ter sido mais divertido?
Responder
27 de junho de 2009 às 19h15
Arnaldo no melhor estilo Hunter S. Thompson.
E pensar que rodaram com o final da matéria.
Responder
27 de junho de 2009 às 19h28
Na verdade o final rodou por um bom motivo. A matéria meio que fala só da decadência da banda, e esse final aliviava, parecia uma concessão. Talvez fosse, mas era uma concessão que eu – agora eu sei – queria fazer.
Responder
28 de junho de 2009 às 1h52
Muito foda essa matéria, cara. E que merda terem cortado esse final.
“Legal” também é clicar na tag Raimundos, e ler o Digão dando piti nos comentários do outro post.
Responder
28 de junho de 2009 às 2h58
Texto foda, era o único dos teus publicados na Bizz que eu ainda não tinha lido, e possivelmente o melhor deles.
Todas as tuas reportagens na revista ficaram ótimas, não consigo entender pq não rolou um convite pra repetir a dose na Rolling Stone…
Responder
28 de junho de 2009 às 17h47
Agora entendo menos ainda o piti do Digão..
Responder
29 de junho de 2009 às 2h18
Parabens pelo texto. Muito bom mesmo. Como diz o amigo ali em cima, mesmo sem o habito de comentar me sentir na obrigacao de te elogiar. :)
Responder
29 de junho de 2009 às 7h02
Esses dois últimos posts são foram sensacionais! Também acho que ficou irado o final… você entende o porque eles continuam com a banda. De um modo geral parece que os caras não tem amigos pra dizer: “Pára maluco, voce está ridiculo”
Responder
29 de junho de 2009 às 8h06
Jornalismo Subliterário 3 = Aquela matéria do show da Ivete Sangalo. Lembro que a revista que veio após a da matéria citada ( Evanessence na capa) tinha a sessão de cartas com o seguinte: “Indignação com Arnaldo Branco”. Coloca essa matéria no blog também.
Responder
29 de junho de 2009 às 10h49
Essa é a próxima mesmo, Bruno.
Me dei conta que só homem comentou nesse tópico, Raimundos é uma experiência mais testosterônica mesmo ou é impressão?
Responder
29 de junho de 2009 às 12h47
Eu comentei em casa e já tive minha cota de revival dos hits Raimundicos esse fim de semana. Um brinde ao YouTube e à memória afetiva :)
Responder
29 de junho de 2009 às 14h38
arnaldo, parabéns pela matéria! não acho q o fundo do poço chegou por causa da saída do vocalista rodolfo, mas sim pq depois dos dois primeiros álbuns a qualidade da banda decaiu a níveis alarmantes, ao ponto de fazer músicas melosas e totalmente apelativas ao lado comercial. bandas que se vendem (como o caso dos raimundos) merecem um fim como esse!
eu acredito tranquilamente que a banda acabou faz tempo, só q os integrantes remanescentes (digão e fred) não aceitaram a ideia! aliás, ainda cabe a pergunta: será q não seria mais negócio acabar de vez com os raimundos e montar uma nova banda ao invés de pagar micos para festas à fantasia em cidades do interior e aniversarios de 15 anos? pô, os caras vivem à sombra daquela banda que agitou a minha adolescência e a de outros milhões!
Responder
30 de junho de 2009 às 20h52
gostei não, não sei se é pq não gosto desse estilo, mas pra mim pareceu “meu final de semana com os Raimundos”.
só tem umas 4 ou 5 palavras da banda, das quais metade não já era sabido, e o resto é só “meu final de semana com os Raimundos” mesmo. o texto é bom de ler e tal, mas como reportagem mesmo, não achei boa não.
flw
Responder
1 de julho de 2009 às 11h44
PQP! Sem comentários! Até hoje ainda fantasio eu sendo um integrante da banda!! Excelente texto!!
Responder
4 de julho de 2009 às 10h57
Muito foda cara, sempre leio os teus posts nunca comentei e nem mas essa foi demais, aqui tem como publicar entrevistas da revista F.? eu só tenho a do Fausto Wolf que foi a que consegui comprar aqui em BH, e na Conrad não consegui catar nada, só o Capitão Presença
Flw
Responder
9 de julho de 2009 às 1h54
caramba, a matéria podia ser sobre a decadência e tal, mas foi uma pena o final ter rodado, ele ficou bom mesmo
Responder
14 de julho de 2009 às 2h59
Porra, matéria do caralho mesmo! A resposta em forma de pergunta do Fred… ótima. Espero que o Digão saque um dia a beleza que é essa matéria, apesar dela mostrar uma fase não muito boa da banda (eufemismo para “decadente” [sem faltar com respeito, se for possível isto]).
Responder
18 de julho de 2009 às 17h14
Obrigado por escrever a matéria, a leitura foi um presente pra mim. Não sabia que o Raimundos ainda existia tão bom quanto Raimundos. Agora eu me sinto com 15 anos, assim como todos os que comentaram acima.
Responder
Pingback por Um texto: Raimundos sem Rodolfo « Parte Boa
17 de dezembro de 2009 às 9h23
[...] Tá tudo aqui. [...]
4 de março de 2010 às 23h42
Eu lembro dessa matéria na Bizz. E nem só por recordação remota. Achei um texto incrível ainda mais por mostrar esse lado desconhecido da banda.
Muito bom ler a reportagem na íntegra. Demais.
Responder
5 de março de 2010 às 0h21
Porra! Materia muito foda mesmo.
Responder
Pingback por Virada Cultural 2010 « Balada do Louco
20 de maio de 2010 às 14h17
[...] E, bem, durante a hora inteira da apresentação eu não conseguia tirar o último parágrafo da matéria do Arnaldo Branco para a Bizz (reproduzido abaixo) da [...]
13 de maio de 2011 às 15h05
Pô, véio, quase chorei.
Responder
13 de maio de 2011 às 15h06
Irônico foi que o cara que mais vibrou no show ser o mesmo que tirou o Rodolfo da banda.
Responder