Resenha para show de Ivete Sangalo. O mais engraçado foi encontrar um produtor no Abril Pro Rock que, quando soube que eu era de Bizz, contou que o Clemente (Inocentes), na época cumprindo pena como membro da Plebe Rude, leu essa matéria para o vocalista Phillipe achando a maior graça, por causa do trecho em que falo do sujeito e tal. Taí.

COITUS INTERRUPTUS
ou
MACUMBA PARA NATIVO
“Eu sou muito apaixonada por vocês!” - Ivete Sangalo, dezembro de 2006, Maracanã.
“O nosso amor é tão bonito / ela finge que me ama / e eu finjo que acredito” - Nelson Sargento, 1979, morro da Mangueira.
Ela é a última representante da era de ouro (em valores movimentados) das gravadoras - de quando, apostando no axé, gênero de que Ivete Sangalo é rainha, emplacavam vendagens similares com cantoras sem um décimo do seu carisma. Natural que ganhasse essa festa de aniversário tardia (fez 34 anos em maio) digna de uma filha predileta. E que o palco fosse o estádio até pouco conhecido como “Maior do Mundo”.
O Maracanã, onde times cariocas simulam um campeonato de futebol, foi o lugar perfeito para Ivete fingir fazer um show ao vivo. Porque não era bem um show - era, como lembrou várias vezes o sujeito escalado para ensaiar com a “galera” uma música inédita (”sha lá lá lá lá”, dizia o primeiro de uma série de refrões em sílabas da noite), “a gravação de um DVD”. Ao que o público respondeu: “Arerê-ê, estou na gravação do DVD, ê-ê”.
Mais: mandou que todos erguessem os braços para a foto da capa sem nem ao menos um playback para dar um clima. E fez várias recomendações para garantir que quando Ivete subisse ao palco não houvesse nenhum defeito na empolgação - exemplo, pediu que as pessoas reagissem com o mesmo “oh!” de surpresa se algum artista convidado tivesse que voltar para cantar a música de novo. Meu sangue gelou, Alejandro Sanz estava na lista…
Isso mesmo, as músicas seriam repetidas - como em um filme pornô, as cenas poderiam ser interrompidas para que a ação ficasse mais fotogênica na sala de edição. Além disso, para que o tempo quente e o suor não prejudicassem a beleza natural da cantora, maquiador e cabelereiro tinham acesso livre ao palco. Torci bastante pela entrada do depilador.
Já fui em um show fake desses antes, da Plebe Rude, onde duzentos convidados - fui de penetra - tinham que pagar de multidão para os microfones da EMI. Apesar disso o vocalista-guitarrista Phillipe Seabra foi profissional às raias do patético, trocando de roupa quatro vezes e solando ajoelhado e de olhos fechados. Mas um embuste na frente de tanta gente assim, só vi em comícios.
A apresentação atrasou mais de uma hora para que Xuxa, amiga querida, chegasse ao camarote (a rainha dos baixinhos cumpriu tabela e saiu bem antes de Ivete lhe dedicar o show), um agrado que não se estendeu aos fãs: ainda havia gente fora do Maracanã às 21h30m. Quando a dona da festa fez sua entrada, não economizou: a bordo de uma moto e com uma roupa de látex que, parece, era uma referência à Mulher-Gato, abriu os trabalhos com “Abalou”, perfeita: o precário camarote VIP tremia como se para acrescentar emoção à coisa toda.
No camarote, desfilava uma típica raça carioca, a dos deslumbrados blasés: são aquelas pessoas que passam a semana agilizando uma camiseta de acesso à área VIP para depois fingir que não estão nem aí para as celebridades circulantes. Passam pelo Thiago Lacerda parecendo nem olhar para só comentar a uma distância segura, fazendo considerações sobre roupas e silhueta com a segurança de quem poderia desenhar um retrato falado. Eu mesmo fingi indiferença, apesar da tentação em sugerir à Karina Bacchi uma nova ação de marketing para aquela marca de cerveja: substituir seu piercing de argola por um daqueles anéis de abrir latinha.
E o - vá lá - show seguiu com “Vai rolar a festa”, “Sorte grande” (do refrão “levantou poeira” que já cantei no Maracanã junto com a torcida do Flamengo) e “Pererê” (”Pererê não gosta de fumar cigarro / Pererê não faz amor sem camisinha”, que otário o Pererê). E começaram a entrar os convidados para os duetos: Samuel Rosa (”Não vou ficar”, de Tim Maia), Alejandro Sanz (como eu temia, teve que repetir “Corazón Partío”) Saulo (ex-colega de Banda Eva), Durval Lélis (Asa de Águia) e Buchecha (cantou “Poder”). O funkeiro foi coadjvante do bizarro mico pago pela produção: um apagão de 20 minutos no som.
Da abertura dos portões até o encerramento, foram sete horas de meia de espera entremeadas por alguma música, à qual o público reagiu com a submissão combinada. Alejandro Sanz foi ainda melhor recebido em sua segunda aparição, deve ser este o take que vão escolher.
Ivete ditou a manchete dos jornais populares para o dia seguinte: “estou gostosa, não estou?”. Ela sabe que está, ela sabe que é - quem mais torturaria seus fãs desse jeito com a certeza da impunidade? E com pedidos de bis, embora o show tenha sido quase todo bisado no decorrer mesmo da apresentação? O figurino dominatrix estava justificado. O “Furacão Ivete”, com esse apelido de boxeador, ganhou uma luta arranjada.
Toguro em 6 de julho, 2009 às
3:45 am
O horror, o horror…
Leonardo Ítalo Lindolfo em 6 de julho, 2009 às
10:25 am
Oras, achei que esse figurino já havia esgotado nas lojas, tamanho foi o furor para comprá-lo, desde o último DVD dela ela usa o mesmo modelo de roupa.
:|
Edu/ Cabron em 6 de julho, 2009 às
11:54 am
Pelo menos ela é gostosa bagarai mesmo.
Todo carioca é um deslumbrado blasé, btw. Uma vez aquele Joaquim Ferreira dos Santos (cusp!!!!) gastou um pedaço inteiro de árvore morta para discorrer sobre como a Malu Mader pegou carona com um entregador de farmácia pra ir na farmácia ou algo assim, e ninguém ligou pra quem ela era… e arrematou com “isso, só no Rio mesmo”.
Arnaldo Branco em 6 de julho, 2009 às
12:00 pm
Hahaha, sensacional essa história. É verdade, vivo lendo esse tipo de coisa, de como carioca cria intimidade rápido, tipo “Lá vem a chata da Madonna de novo” - isso, claro, sempre como uma notinha bem humorada na cobertura massiva da passagem da Madonna pelo Rio.
Ricardo Queiroz Pinheiro em 8 de julho, 2009 às
1:12 pm
Ivete Sangalo é uma boa lembrança de um passado que já fede.
GONGO em 8 de julho, 2009 às
1:33 pm
Esses delírios de grandeza do Phillipe são realmente muito divertidos. Ha alguns anos, um amigo meu que trabalhava no JB em Brasilia disse que atendeu - atônito - a um telefonema do Sir Phillip (Como é conhecido pela Rainha da Inglaterra) no qual ele PEDIA PARA DAR UMA ENTREVISTA, tipo “Oi, dá pra chamar um reporter aí? É que sou o Phillipe Seabra e queria conceder uma entrevista…”
No mais, continue publicando aqui as suas resenhas e matérias da finada BIZZ, Arnaldo…muita gente não leu!
Pedro O. Obliziner em 9 de julho, 2009 às
1:57 am
Cara, continua colocando essas matérias, tou curtindo. Eu sou um dos que veio te conhecer há pouco tempo e não conhecia nenhuma delas
Soldado em 9 de julho, 2009 às
1:01 pm
a ivete é um travesti!!!!!!
Verukers em 15 de julho, 2009 às
12:43 pm
Texto fantástico… Ivete tosca!
P.S. o Clemente é um bobo alegre… rí de tudo mesmo!
Adoro essas matérias da falecida Bizz
Liana em 15 de julho, 2009 às
9:06 pm
Edu/ Cabron, era a Maitê Proença, não Malu Mader!
Adorei tanto “coitus interruptus” quanto “Macumba pra nativo”. rsrs
euzinha em 20 de julho, 2009 às
3:43 pm
n gostei n…………………
ivetepode amore
ela eh MARA…………………………………..
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