15 de julho de 2009 às 8h42
Suicidal tendencies
Minha coluna para a revista Monet: Histórias (Inventadas) da Televisão.

Ilustração: Fernando de Almeida
Todos sabem que Jovem Guarda era um programa musical comandado por Roberto Carlos. Muitos também devem saber que Roberto tentou a sorte como cantor de bossa-nova antes de se decidir pelo rock romântico que o consagrou. Mas provavelmente ninguém sabe que o Rei teve uma fase intermediária dedicada a outro ritmo musical, e que a primeira versão do programa que dividia com Erasmo e Wanderléa seguiu essa onda.
No início dos anos sessenta, o gosto dos jovens era uma incógnita. Os Beatles estavam dominando as paradas internacionais, mas as novidades chegavam aqui com muito atraso e passavam por uma fase demorada de estranhamento – convenhamos, aqueles cortes de cabelo não ajudavam. Roberto Carlos tinha acabado de fracassar com seu primeiro disco e precisava encontrar um novo estilo que cativasse a juventude. Sua nova aposta: o bolero.
Parecia fazer sentido: depois de uma fase solar e ingênua com os barquinhos da Bossa Nova e as lambretas do rock ingênuo de Toni e Celly Campello, era natural um ciclo mais introspectivo, dark. Pelo menos nos Estados Unidos houve uma entressafra entre a primeira e segunda geração do rock’n'roll em que predominou a música folclórica, mais engajada e sombria e definitivamente menos hormonal. O Bolero pareceu a resposta latina a essa tendência de mercado.
Carlos Imperial, seu empresário, comprou a idéia e decidiu que deviam ter o respaldo de um programa de TV para lançar a tendência. Como não havia nenhum dessa espécie, resolveu inventá-lo. Batizou a atração de “Fossa Nova” e juntou os parceiros Roberto e Erasmo e mais a cantora adolescente Wanderléa para entoar canções de fracasso e desespero que, tinha certeza, iriam emplacar com a moçada. Para isso, pediu aos jovens compositores que fizessem uma música que fosse uma espécie de cartão de visitas do show.
Roberto e Erasmo puseram mãos à obra e escreveram uma canção de amor e suicídio chamada “O Calhambeque”. Era uma versão rudimentar do grande sucesso que fizeram mais tarde, só que com andamento mais deprimente e, bem, com um suicídio no final. Contava a história de um rapaz que pegava um calhambeque na oficina e ia encontrar sua amada, que, em um gesto tresloucado, se atirava debaixo das rodas do veículo. A música terminava com o narrador achando que o carro estava com um problema de alinhamento, sublinhando a pungência da narrativa.
O primeiro programa foi ao ar em 1963 e durou exatos dois minutos: quando Roberto Carlos terminou de apresentar a orquestra e pendurou o acordeão para tocar o primeiro acorde, a transmissão foi interrompida para anunciar o assassinato do presidente Kennedy. Como a cobertura jornalística continuou pelo resto do dia, remarcaram para a semana seguinte a estréia do musical.
Mas nunca houve outra edição. A emissora entendeu que a realidade mundial, com a guerra fria, mísseis em Cuba e assassinatos de presidentes já estava mórbida demais. Em seu lugar estreou o programa de variedades “Belezuras de biquini”, e a direção do canal sugeriu que Roberto Carlos e sua trupe voltassem quando tivessem alguma idéia para um programa mais animadinho.
5 Comentários








17 de julho de 2009 às 13h19
interessantíssima essa história….achei bacana demais que alguem conte essas histórias que jamais sabemos pela mídia babaca tadicional….
fico imaginando as historinhas sinistras do Roberot, com as mulheres, drogas nos anos 70, sem ocntar as de outros músicos, como o Tim Maia e também Raul seixas…
Parabéns ao Arnaldo, trabalho bom demais desse cara…
Responder
17 de julho de 2009 às 15h39
Deus, diga que isso é ironia.
Por favor, Deus.
Responder
17 de julho de 2009 às 15h41
Tb estou procurando a câmera escondida.
Responder
17 de julho de 2009 às 16h20
Por um segundo achei que você curtia hardcore… :(
Mas o texto, pra variar, é foda.
Responder
17 de julho de 2009 às 16h24
Mas eu curto, ué.
Responder