OEsquema

Tentativa e erro

Abaixo, um trecho do projeto que, para dizer o mínimo, me livrou da vida corporativa. Ano passado fui procurado por um produtor com esse briefing tentador/assustador: “quero que você crie Os Simpsons brasileiros”. Isso mesmo: uma animação semanal que satirizasse o Brasil tal e qual os Simpsons fazem com a sociedade americana. Os roteiros do meu esforço nesse sentido (hehe) ainda estão com ele e quem sabe um dia. Por enquanto colo aqui o início de um episódio com um dos personagens (bolei mais de trinta), o roqueiro oitentista decadente Bob Fossil (depois soube que já usaram esse nome em outro seriado, depois eu corrijo isso).

Taí.

(Imagem como se gravada em VHS de um programa de TV dos anos 80, com um pouco de chuvisco e de vez em quando uma faixa de fita mastigada correndo pela tela . É o programa do Chacrinha começando. Aparecem aquelas imagens idiotas de zoom indo e vindo na bunda das chacretes, com o letreiro por cima: “Cassino do Chacrinha”. Chacrinha entra com seus berros de “Aêêêêê!!!” e jogando comida crua para a platéia, como de hábito, a câmera histérica mostra a reação das mulheres)

Chacrinha (jogando um pedaço de carne-seca para as arquibancadas)  – Quem quer Jabáááááá???? (ele pisca cúmplice para o lado e a câmera frenética habitual do programa sai dele e vai até um homem com uma valise no colo, sentado na arquibancada com as macacas de auditório, que pisca de volta e faz o sinal de OK para o Velho Guerreiro)

Chacrinha – E atenção! Vai cantar agora o mais novo sucesso da Lobby Records! Com vocês, o internacionaaallll Bob Fossil!

(Entra Bob Fossil bem novo, ainda magro, pelo túnel de acesso aos camarins, muita fumaça em torno, com sua guitarra. O playback começa antes dele chegar até o microfone, ele começa a fazer a mímica com os lábios quando chega lá da música megaoitentista – teclados, guitarra com eco – “Amor Neon”)

Bob Fossil (cantando empolgado, jogando o cabelo, estilo brega 80′s) – “Cinza de cigarro / Marca de baton / Motel barato / Amor Neon”

(É um sonho. Bob Fossil acorda nos dias de hoje, bem mais gordo, no seu apartamento em Brazzaville, ao som do despertador. É um rádio relógio em forma do brinquedo Genius, que toca “Amor neon”, em sincronia com a imagem do programa do Chacrinha que acabamos de ver. Bob Fossil grunhe, se levanta com dificuldade. Vai escovar os dentes: seu espelho tem decalques do logotipo da revista Rolling Stone e de manchetes sobre música – todas elas dos anos oitenta, tipo “interview: Boy George”, “hottest new band: The Smiths” – com um espaço para a cara refletida de Bob Fossil – para ele se sentir capa da publicação. Vai até o armário para se vestir, uma das portas tem um velho poster seu, marcante a diferença de silhueta entre o Bob Fossil jovem e o velho. Bob vai até a sua secretária eletrônica, que está piscando com duas mensagens. Ele aperta o botão)

Bob Fossil (Voz na secretária eletrônica, cheio de charme datado, tipo tio Sukita) – Deixe o seu recado… após o Beep Bop. (tempo, toca uma frase de trumpete Be Bop. Toca o primeiro recado)

Michel (voz na secretária) – Oi, Bob, aqui é o Michel, seu empresário. Seguinte, seu show do dia 21 foi cancelado, parece que a casa passou por um reposicionamento de público e agora a clientela é da faixa dos 14 aos 17 anos. Entraram no seu lugar os Garotos da Platéia, uma banda jovem que imita as bandas que você imitava nos anos 80. Sei que parece injusto, mas você sabe como cabelo e abdômen são importantes na música hoje em dia. Mas a data do dia 25 continua de pé (barulho de telefone desligando).

(Som da frase de be bop, começa o outro recado)

Michel (voz na secretária) – Michel de novo. Ahn… esquece também dia 25 (desliga).

(Bob Fossil suspira. Confere um calendário na parede, vai folheando e vendo poucos círculos vermelhos em torno de algumas datas – todas elas com um risco e escrito ao lado “cancelado”, até que acha um círculo virgem, um compromisso não cancelado. Quando olha mais de perto, vê que está assinalado “exame de próstata”. De repente, entra uma conta por debaixo da porta. Ele pega o envelope e vê escrito “Condomínio Brazzaville – taxa mensal”. Olha o valor. Vai até seu quarto e mexe em um dos criados-mudos, que é na verdade um cofre. Dentro, vários vidros de remédios suspeitos, uma pistola, algumas moedas e um maço de notas. Ele pega o maço e examina. Vemos em close que as notas são de guaranires, moeda oficial do Paraguai – são notas de um milhão cada. Bob pensa, rola um flashback dos anos 80: Em um estádio de futebol, acontece um festival chamado Rock in Assunción. Um apresentador entra no palco, com um som de microfonia da banda anterior ainda no ar – o bumbo da bateria dela tem uma foto do ditador Alfredo Stroessner com várias medalhas acima do texto “Partido Colorado” – para anunciar Bob Fossil)

Apresentador – Estes fueram Los Hijos de Stroessner y la Lei de Segurança Nacional. Agora, com usteds, de Brasil, Bob Fossil!

(No túnel um sujeito com o crachá do staff do festival e uniforme militar está dando as últimas instruções para um jovem Bob Fossil)

Cara do staff – E lembre-se, las palabras proibidas son “revolución”, “democracia”, “eleiciones”, “ditadura”, “golpe” e “libertad”.

Bob Fossil – Pode deixar, as minhas músicas são todas sobre gatinhas e desilusão amorosa.

Cara do staff (fazendo cara de desconfiado) – Hum, lo se… essa era la desculpa de Chico Buarque. Toma su cachê (põe o maço de notas na mão de Bob) e (batendo continência) viva el rock’n'roll.

14 Comentários
por: Arnaldo Branco postado em: Televisão tags: ,

14 Comentários

Comentário por Eduardo
16 de dezembro de 2009 às 10h43

É a versão Mundinho Animal dos Simpsons.

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Comentário por Arnaldo Branco
16 de dezembro de 2009 às 10h44

É só um trecho. Tinha personagem jogador de futebol, político, pastor evangélico etc.

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Comentário por Marcus Alves
16 de dezembro de 2009 às 11h13

Meu caro, ficou massa. Por que não coloca com no Casseta? Tentei visualizar aqui e deu certo.

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Comentário por Guilherme
16 de dezembro de 2009 às 13h29

Pô cara! e pq nao rolou????
sem dúvida ir ser muito foda! sme duvida mesmo!
tem q ter o publicitario malandrao tb!

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Comentário por Toguro
16 de dezembro de 2009 às 13h31

Muito bom! Daria pra escrever um livro com a história de Bob Fóssil, envolvente e engraçada. heahaehea

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Comentário por João Henrique
16 de dezembro de 2009 às 13h39

Eu gostei do início, bem legal mesmo.
Mas acho que o que eles queriam é uma família mesmo, tipo aquela versão que fizeram na Bandeirantes à uns anos atrás daquele seriado estadunidense do cara porco, sua mulher e filhos adolescentes (esqueci o nome :)

Abraço!

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Comentário por Raul
16 de dezembro de 2009 às 13h40

Casseta não… iriam encrustar a história com piadas de peido e bordões.

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Comentário por Arnaldo Branco
16 de dezembro de 2009 às 13h44

O produtor curtiu, amiguinhos. Só que um projeto desses é caro demais.

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Comentário por Marcus Alves
16 de dezembro de 2009 às 14h05

Então vai postando no site mesmo. Já serve para gente, pelo menos.

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Comentário por Carlos
16 de dezembro de 2009 às 17h42

Ué, passa pro Dahmer então. =]

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Comentário por Arnaldo Branco
16 de dezembro de 2009 às 18h00

Acho que o Dahmer se daria tão bem escrevendo esse tipo de coisa quanto eu tentando fazer poesia…

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Comentário por Anderson Moraes
16 de dezembro de 2009 às 19h53

Muito bom.
Pena que animação feita no Brasil não tem espaço, na tv ‘brasileira’

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Comentário por Iazbeck
17 de dezembro de 2009 às 10h16

O roteiro ficou legal. Mas como você citou os simpsons fiquei sugestionado quanto ao visual.

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Comentário por João C. Mello
23 de dezembro de 2009 às 10h54

O engraçado é que, um tempinho atrás, pensei numa versão brasileira do family guy… e não é que aparentemente tem demanda?

De qualquer modo, apesar de caro, torço pra que dê certo e que vc encha o rabo de dinheiro. e que não esqueça os leitores dos tempos difíceis…

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