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Right Here, Right Now

Vou reproduzir aqui o texto desta semana no blog da Bizz, muita gente reclama que não comenta lá porque não tem paciência para se cadastrar e tal. Nem sei se cabe muito aqui no Mau Humor, mas enfim.

“Bob Dylan acaba de lançar mais um disco. A imprensa britânica ficou de joelhos. ‘Esplendoroso’ e ‘genial’ foram alguns dos adjetivos nas páginas e páginas dedicadas a analisar ‘Modern Times’. Se Osama Bin Laden aparecesse dançando ula-ula em um barco no Tâmisa, não ganharia tanto e tão nobres espaços no ‘Guardian’ e no ‘Independent’. Ok, Bob Dylan é lenda, e ‘Modern Times’ está longe de ser ruim, mas… Será que o mundo precisa tanto assim de um novo disco do Bob Dylan? (se fosse o New Order, tudo bem, claro). O que eu sei é que sempre precisamos de bandas como Automatic e Be Your Own Pet. Bandas jovens que fazem música para jovens.” – Thiago Ney, crítico da Folha de São Paulo

Clint Eastwood olha para a entrada de um Saloon em uma noite chuvosa. O caixão com o corpo de Morgan Freeman está ali em exibição, com um cartaz: “isso é o que acontece com assassinos por aqui”. Ele entra no bar e pergunta: “who’s the fella that owns this shithole”? O barman se apresenta e Clint atira com uma espingarda de dois canos. Gene Hackman, o xerife que também vai ser morto pelo forasteiro, diz: “você é um covarde que acabou de matar um homem desarmado”. Clint: “Ele deveria ter se armado se queria decorar o bar dele com o cadáver do meu amigo”.

Pequena introdução cinematográfica para justificar minha volta ao assunto música, que prometi não visitar muito por ser um diletante em uma revista de aficcionados. Mas esse Thiago Ney tentou enterrar meu ídolo, e devia estar preparado para a vingança. Não que meu ídolo se importe ou não possa responder sozinho (“Idiot wind, blowing every time you move your teeth / You’re an idiot, babe / It’s a wonder that you still know how to breathe”), mas vamos nessa.

Vou me eximir de ridicularizar a comparação da chegada do disco do Dylan à aparição de Bin Laden fazendo uma dancinha porque sei que humor é sempre uma tentação para quem definitivamente não é do ramo. Também vou levar em consideração que Thiago concede ao disco um “está longe de ser ruim”, evidentemente uma tentativa de atingir algum recorde mundial de análise rasteira. E que, a despeito da validade de sua argumentação sobre a premência de uma música jovem, é necessário dizer que batizar uma banda de Be your own pet é, para dizer o mínimo, uma má decisão profissional.

E também vou deixar passar o evidente desleixo com que escreveu esse texto, uma vez que fica óbvio que lembrou, um pouco tarde para se arrepender do preâmbulo, de uma banda velha que julga relevante, e fez a ressalva. Mas é meio esquisito que dentre todos os dinossauros em circulação, só o New Order ganhe salvo-conduto. Não tem uma vaguinha no cânon do Thiago Ney pro Kraftwerk também? Ouvi falar que o NO deve muito a esses carinhas…

Mais que revoltado com a insistência em Bob Dylan por jornalistas decerto contemporâneos de Guttemberg, Thiago parece especialmente chateado por se tratar da imprensa inglesa, famosa em prosa, verso e piadas por lançar hypes em uma velocidade que vai além da capacidade do resto da humanidade de assimilá-los. Parece se sentir traído por uma mídia que julgava livre de artistas velhos, como alguém que se aborrece com o resto da família que se recusa a meter no asilo um incômodo parente idoso.

Thiago Ney é só mais um jornalista que sofre com a necessidade de ser, como naquele slogan antigo de jornal, “o primeiro a dar as últimas”. A febre do novo pelo novo é uma pandemia, agravada pelo despreparo de críticos que são na verdade fãs com um amor muito descalibrado por sua própria coleção de discos. Caras que não sabem identificar bom-gosto em uma mesinha de centro ou a dose certa de sal em uma salada brincam de aferir “autenticidade” a essa ou aquela banda e chamam a isso crítica.

Necessidade de renovação é sempre uma boa tese, mas aplicada à Seleção Brasileira já justificou a entrada de Oséas no lugar de Romário. Acredito que é realmente importante manter a mente aberta para novos sons, e nunca recusei ouvir um CD por não ter “passado no teste do tempo” ou whatever. Mas nunca fiz o contrário, me empolgar porque está todo mundo dizendo que tenho que ouvir algum “novo som”. Talvez com a idade tenha desenvolvido uma defesa natural à idéia de seguir algum messias 15 anos mais novo que eu – e demore mais a me render. Mas se houver talento na jogada, me rendo.

E o que é um jovem? Bob Dylan nunca se sentiu à vontade com nenhuma idade. Aos 23 anos escreveu uma música em que transforma as recordações de sua curta vida em épico: “I was so much older then / I’m younger than that now”. Thiago Ney, como Dylan, talvez fique mais jovem com o tempo também.

Epílogo, uma breve parábola:

Lembram daquela banda, Jesus Jones? Era formada por uns carinhas de cabelo escovado pra frente que tocavam uma música chamada “Right here, right now” (acho que em 1990) sobre a queda do muro de Berlim, com este verso de uma exultante imodéstia: “Bob Dylan não tinha um assunto como esse para cantar a respeito”. Repito a pergunta: lembram daquela banda, Jesus Jones?

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Franquia

Agora esse blog tem uma filialzinha no site da Bizz. Não só para falar de música, assunto já de todo muito superestimado em blogs…

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Twist a pig´s ear, watch him squeal

“Forget it Jake, it´s Chinatown”. É a frase final de, oras, Chinatown (Polanski), quando o oficial Walsh diz a um Jake Gittes (Jack Nicholson) puto e sendo arrastado para fora da cena do crime que não há nada que ele possa fazer: o mundo é corrupto e tudo o que aconteceu (veja o filme, ou reveja) não tem remissão porque é isso mesmo, isto é Chinatown.

Tem coisas que a gente sabe há muito tempo, mas que precisam de um episódio bizarro demais para marcar: “OK, você já sabia que a fronteira tinha sido ultrapassada, mas agora é a hora de você saber quanto”. Em 1992 eu sabia que a tal rebeldia do rock´n´roll estava há décadas do seu falecimento, mas mesmo assim não estava preparado para o que vi: a MTV anunciando a promoção “quebre o camarim com o Pantera”. Foi um marco para mim. Fiz até um cartum pra Bizz com o episódio, talvez saia daqui a umas edições.

Agora tem essa da greve de fome do Garotinho. Por mais que esteja acostumado a comemorar os aniversários da falência do Rio, eu não estava preparado para isso. Forget it Jake, it´s Rio de Janeiro.

Em outras notícias bizarras, o caflito entre Brasil e Bolívia.

Bem, acho que finalmente encontramos um adversário no nosso nível. E, no caso de uma guerra e a perdermos, vamos sempre poder botar a culpa na altitude.

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