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“Aproveite cada dia como se fosse o último, um dia você acerta” – LFV

Esqueci de dizer: colaborei na edição de outubro da GQ, capa Mariana Ximenes (1mmmm). O tema proposto: 20 coisas que um homem não precisa fazer antes de morrer, na contramão dessas matérias de auto-ajuda sobre aproveitar a vida enquanto é tempo etc. Alguns exemplos abaixo.

Comprar um barco

Das coisas que se pode fazer quando se consegue acumular dinheiro o suficiente para fazer coisas como comprar um barco, comprar um barco deve ser a mais idiota. É um impulso inspirado por velhas histórias de piratas e vagas noções de liberdade, mas o único risco que o corsário moderno corre é de ser multado pela capitania dos portos por direção perigosa e a sensação de liberdade só dura o tempo de um fim de semana.

Aprender um instrumento

Existem milhões de músicos no mundo, portanto não há necessidade de mais um, especialmente um motivado apenas pelo desejo de preencher o vazio de sua vida e não por amor genuíno à arte. É claro que existem pessoas que descobrem vocações insuspeitas tardiamente, mas ninguém quer ser o vizinho delas enquanto praticam. E talvez você esteja velho demais pra começar a freqüentar rodas de violão.

Correr uma maratona

Reproduzir o trajeto em quilômetros de um mensageiro grego de490 a.c. para sentir uma conexão profunda com a História é uma bobagem, além de historicamente impreciso – pra começar naquela época não havia asfalto, isotônico e tênis de alto impacto. É um caso de esforço físico pelo esforço físico – não sei se há meio de comparar, mas deve dar o mesmo gasto de calorias de construir uma casa ou qualquer outro empreendimento mais útil. E é meio difícil se sentir um exemplo de superação ao lado de mais cinco mil pessoas que realizaram a mesma proeza.

Em tempo: eu compraria um barco, já tentei aprender um instrumento (não deu) e já corri uma maratona, meia maratona, mas enfim.

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Atualidades Atlântida

Esse personagem era de uma série que saía no Brasil Econômico, achei atual (clique nas imagens).



 

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Redação e estilo

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Who loves the sun

Matéria que fiz pra Billboard de março sobre o Weezer Cruise, evento marítimo com 16 bandas (Weezer entre elas, claro).

Foto Liv Brandão

De19 a23 de janeiro aconteceu o Weezer Cruise, evento em que a banda anfitriã se juntou a mais quinze atrações musicais no transatlântico Carnival Destiny para fazer um cruzeiro entre Miami e Cozumel. Com shows quase emendados e atividades a bordo típicas dessa modalidade de passeio (bingo, karaokê, pegação), todas capitaneadas pelos músicos convidados, a viagem foi um grande sonho molhado para os apreciadores do rock indie.

A idéia de fazer shows em um cruzeiro tem um certo ranço de Las Vegas, de fim de carreira, mas os promotores contornaram essa noção enchendo o elenco de bandas novas (Wavves, Free Energy, Sleeper Agent) e arrumando um excelente pretexto: o Weezer tocaria na íntegra seus dois primeiros discos, aqueles que colocaram o quarteto de Los Angeles no mapa e tornaram possíveis para Rivers Cuomo, Brian Bell, Patrick Wilson e Scott Shriner coisas como lotar um transatlântico.

Foi uma jornada até bastante comportada para um lugar onde se serve muito álcool e o pessoal circula de roupão – e praticamente sem a válvula de escape da internet, muito cara e compreensivelmente instável. Acompanhe os pontos altos em nosso diário de bordo.

Dia 1

17:30 – Os passageiros receberam as boas-vindas a bordo e apavorantes instruções de segurança para depois correr ate o deck principal para o primeiro show do Weezer. Depois de uma sessão de embaixadinhas do líder Rivers Cuomo, um viciado em futebol que repetiu o ritual antes de todos os shows, a banda abriu os trabalhos tocando sucessos como “Photograph” e “Pork and Beans”, fazendo um breve intervalo para executar na ordem e na íntegra seu disco de estréia, o “Blue Album”. Muita gente chorou, o belo pôr do sol deve ter ajudado.

22:45 – Foi muito bonito ver o Dinosaur Jr. em ação com Lou Barlow e J Mascis, protagonistas de um divórcio litigioso em 1989, só sanado em 2005 com uma turnê de reunião. Lou, aliás, seria o recordista de shows a bordo: além de tocar com o seu velho companheiro e com sua banda Sebadoh, fez um set acústico solo cheio de músicas tocantes, como a que fez para um gatinho adotado e piadas, boa parte delas sobre as dificuldades de pais com filhos pequenos terem algo parecido com uma vida sexual. Falando nisso, circulou a história de que um casal, arrebatado pelo poder da música, o alimento da alma, tentou resolver as necessidades da carne ali mesmo no Palladium Lounge, sendo contido pelos seguranças – o que é um tremendo elogio ao poder de concentração do rapaz, já que o Dinosaur Jr. toca alto pra cacete.

O show dos dinossauros foi prestigiado pelo baterista do Weezer, Patrick Wilson, que posava com muito boa vontade para fotos (parecia ser a empolgação do primeiro dia, mas o sujeito manteve o padrão até o fim da viagem) e garantiu que a banda quer conhecer o que o Brasil tem para oferecer além de Curitiba, único lugar onde tocaram no país, em 2004.

24:00 – O dia foi encerrado com uma noite do pijama com cinema (no programa, “Jovem Frankenstein”, de Mel Brooks) comandada pelo guitarrista Brian Bell, garboso com seu robe de chambre e chapéu de comandante de navio (o adereço mais usado na viagem, vinte dólares na lojinha do Carnival Destiny). Impossível não lembrar de Roberto Carlos  no videoclipe de “Baleias”.

Dia 2

12:00 – As passagens para o cruzeiro davam direito a uma sessão de fotos com o Weezer, oportunidade que deve ter gerado fantasias de intimidade entre os fãs mais delirantes, mas que a dura realidade tratou de estraçalhar: cada grupo tinha poucos segundos com os integrantes da banda, que permaneciam sentados em fila enquanto os fãs se esgueiravam alguns palmos atrás para caber no enquadramento. Com certeza os participantes do cruzeiro tiveram mais tempo para ensaiar a pose quando tiraram retrato para o passaporte.

13:00 – No deck da popa, os caras do duo eletrônico The Knocks coordenaram um concurso de flip cup, um drinking game parecido com os que brasileiros fazem usando bolachas de chopp nos botecos: consiste em beber cerveja em um copo de plástico, pousá-lo na mesa e tentar girar o tal no ar de modo que caia de cabeça para baixo. Sim, é bem desse jeito, sem graça como na descrição acima.

13:30 – No deck principal, show do Yacht Rock Revue, banda tributo de músicas estilo prazer culpado, como “What a fool believes” e “Africa”. Com roupas retrô e bigodes lamentáveis, fizeram um bom fundo musical para quem queria brincar no tobogã ou jogar minigolfe – um feito e tanto, diga-se de passagem, com o vento forte constante típico de um rolé em alto mar.

15:00 – Rivers aproveitou o cruzeiro para lançar “The Pinkerton Diaries” uma espécie de livro de rascunho com recordações (manuscritos, polaróides) das sessões de gravação de Pinkerton, o segundo disco do Weezer que sobreviveu ao fracasso de crítica e a rejeição inicial do público para entrar gloriosamente  nas listas de álbuns obrigatórios dos anos noventa. Apenas alguns passageiros do Weezer Cruise tiveram acesso ao evento, nenhum deles integrante da equipe da Billboard :(

15:00 – Para quem não pôde assistir Rivers tentando ler seus próprios garranchos, o lance era acompanhar o quiz show com o resto do quarteto, com todo aparato de uma atração desse tipo, como as clássicas bancadas munidas de campainha e placar para marcar os pontos dos concorrentes – Pat, Brian e Scott acompanhados de alguns fãs em êxtase selecionados na platéia. Durante a brincadeira o público pôde aprender que os dois únicos animais que não desenvolvem câncer são o tubarão e a arraia e que a primeira mulher a ter uma canção no primeiro lugar da parada americana (dica do apresentador: “ela teve um ligeiro problema com drogas”) foi Whitney Houston. Uma das escolhidas para participar do quiz estava em avançado estado de embriaguez e tentou seguir Brian Bell até os camarins enganchada em seu braço; a segurança quase precisou de uma espátula para separar o casal.

17:30 – Destoando do clima geral de energia positiva, o Wavves representou o espírito punk no cruzeiro. O guitarrista e vocalista Nathan Williams desceu do palco para apertar a mão de um fã que havia ajudado a carregá-lo de volta para seu quarto na noite anterior (algumas meninas suspiraram de inveja) e perguntou para o público se era verdade o rumor de que haviam prostitutas embarcadas – um jornalista da concorrência jurou ter apurado a questão a fundo e registrado a ação em fotos, aguardemos.

22:00 – O primeiro dos shows fechados do Weezer (os dois no Palladium Lounge), com lados B (como “Mykel and Carli”) e o Pinkerton inteiro. Outra apresentação emocionante, embora Rivers parecesse bastante mareado com o balanço do navio, bem forte nesse ponto da travessia.

24:00 – Mais gente compareceu ao karaokê organizado pelos integrantes do Keepaway do que aos shows da banda. Teve patricinha fazendo gestual rapper para cantar “Gin and juice” (Snoop Dogg) e brasileiro zoando “Do ya think I`m sexy”, de Rod Stewart, talvez em vingança pelo plágio descarado de “Taj Mahal”, de Jorge Benjor. Mas nem tudo foi celebração: o baterista do Wavves, Jacob Cooper, foi retirado do palco sob protestos – do próprio Jacob, que tentou voltar algumas vezes, bêbado como um velho lobo do mar. E assim caiu a noite.

Dia 3

7:00 – O Carnival Destiny parou em Cozumel e os participantes do cruzeiro se dispersaram em vários grupos para aproveitar atividades (snorkel, trilhas) pela praia mexicana. No passeio de barco, um guia fanfarrão explica que no México não se diz “bebado”, e sim “confuso”, para em seguida liberar um open bar de cerveja e margaritas e largar todo mundo um pouco confuso e se achando rico em um centro comercial especializado em sombreros e maracas, uma espécie de parque temático cujo tema é “armadilha para turista”. Impressionante como alguns setores da economia mexicana se ajudam.

18:00 – A parada em Cozumel foi uma maldade com as bandas que se apresentaram em seguida, quase se podia ouvir o ronco em uníssono vindo das cabines. Devem ter sido os shows com menor quorum, mas foi impossível encontrar uma testemunha que estivesse acordada para confirmar.

22:00 – O Weezer pegou o pessoal levantando da cama e tocou mais lados B, destaque para a performance a la Freddie Mercury de Rivers em “The greatest man that ever lived”, com socos no ar e camisa regata do Kiss. E, claro, o Pinkerton outra vez.

24:00 – O dia fechou com a prom night, um típico baile de formatura com temática anos oitenta. Apesar dos figurinos baseados na década em que Cindy Lauper era um referencial para a indústria da moda serem facilmente reconhecíveis em qualquer continente, os brasileiros a bordo (trinta ao todo) se sentiram presos em uma grande piada interna americana. Por algum motivo os DJs (os caras do Yacht Rock Revue) decidiram que tocar oito músicas do Michael Jackson em menos de uma hora era o suficiente para mostrar serviço. O Karaokê com os integrantes do Ozma estava bem mais divertido, mas acabou cedo.

Dia 4

11:30 – O evento mais simpático: Scott Shriner deu uma de pastor e comandou uma renovação coletiva o de votos dos casais do cruzeiro. E aquele único casal gay a comparecer era mesmo formado por integrantes do Yuck?

13:00 – Falando na banda inglesa, ela foi uma das únicas a quebrar o dress code tropical do deck principal, todos seus membros se apresentaram de calças compridas e camisas quentes mesmo sob um sol de derreter transatlânticos. Menção honrosa também para The Nervous Wreckwords, que não so não abriu mão da indumentária rock como todo mundo tocou de preto.

24:00 – Uma festa do bigode (verdadeiros e fajutos) deu números finais ao evento.

O cruzeiro teve saldo positivo para algumas bandas, como o Free Energy, que ganhou público (era só comparar a minguada platéia do show que fez no primeiro dia com a pequena multidão que cantou junto no último) e o Ozma, que encerrou o festival com um show arrasador e levou o público a sugerir: “Ozma Cruise!”. O baixista e vocalista Daniel Brummel agradeceu e ressaltou o clima de confraternização no Carnival Destiny: “não ouvi ninguém falar uma palavra negativa nesses dias”. Melvin Ribeiro, baixista multitarefa de bandas como Carbona e Lafayette e os Tremendões, arriscou um palpite: “é porque não tinha internet”.

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Talking funny

Entrevista para matéria sobre humor da revista d’O Globo, para Mariana Filgueiras. Pra tentar mais uma vez retomar esse abandonado sítio virtual :P

Qual é o seu limite? Você tem um, ou acha que o humor deva ter? Quais temas você não faz piada sobre?

- Meus limites são a graça e o bom senso, duas noções subjetivas, admito, mas você pode verificar facilmente quando a primeira não foi alcançada ou a segunda foi ultrapassada: 1) se ninguém ri 2) se algum grupo de defesa das minorias te processa. Não tenho tema proibido, apenas tomo alguns cuidados na abordagem.

Como o humor incorreto pode ser engraçado?

- Sendo mais engraçado do que incorreto. Dá para o humorista sair impune com uma boa sacada – a Sarah Silverman tem várias piadas sobre estupro que fazem a platéia gargalhar de prazer culpado.

Há um limite entre piadas politicamente incorretas e ofensa?

- Há. Humor é elaboração, ofensa é instinto. Ofensa pura e simples aproxima seu trabalho do senso comum, do inconsciente coletivo. Por exemplo, a frase sobre estupro do Rafinha nem pode ser chamada de piada, é uma associação de idéias que qualquer sujeito sem noção pode fazer (a mulher feia é sexualmente frustrada; sexo a força é melhor que sexo nenhum etc). Não precisa de um humorista para formular.

A internet (twitter, principalmente) infla(ma) mais os ânimos neste debate?

- A internet acelera o debate. Antigamente tínhamos que esperar sair o Segundo Caderno pra acompanhar a polêmica da vez. Mas a internet serve pra diluir também: todo dia tem uma polêmica nova, rapidamente a indignação do povo já está ocupada com outro tema.

O público está mais mal-humorado?  Encaretou e agora se ofende à toa? Qual sua avaliação sobre a recepção do humor atualmente?

- Não acredito que o público se ofenda a toa: acho que nossos humoristas é que gostam de culpar o público quando seu humor não é eficaz – eles não são diferentes dos políticos que, quando são acusados de alguma coisa, reclamam de perseguição política. Tem muito piadista ruim botando culpa no politicamente correto.

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Notícia fresca

Mundinho.

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Highway to hell

Cartum publicado no caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo em 26/09.

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News on the march

Mundinho.

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Relevância

Mundinho, irmãos.

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Dramaexploitation

Minha coluna Mal Necessário da semana: Eu só estava cumprindo ordens.

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Convergência de mídias

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Cover boy

Cobertura do show do Faith No More no Rio, em quadrinhos. Enjoy.

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O futuro do jornalismo

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Jornalismo subliterário, parte 5

Materinha que saiu no especial de verão da Bizz em 2007, uma pauta bem bizarra e perfeita para mim e para o Matias Maxx. Tinha esquecido de meter a tal na série de stronzo journalism que rolou aqui faz um tempo. Bela foto do Daryan Dornelles.

É um calor fudido

Missão: chegar na praia artificial favorita da Baixada Fluminense (o Piscinão de Ramos) estilo Romário, botando músicas estranhas bem alto para captar a reação da galera. Detalhe: o local é dominado pela facção criminosa Terceiro Comando, que estabelece regras como a proibição do uso da cor vermelha em represália ao grupo rival Comando Vermelho. Tem dúvida que o editor é paulista? Arnaldo Branco e Matias Maxx botaram os banhistas para ouvir:

1 – “A Love Supreme pt. 2 – Resolution”, John Coltrane – “Isso é blues?”, pergunta uma ninfeta com a camiseta Pan 2007 e calça da Gang. “Jazz”, corrige Madu do Piscinão, que aluga barracas na área. “Mas é som ambiente, não serve pra praia. Aqui cada lugar tem seu estilo: no calçadão é pagode romântico para a azaração e aqui na areia é funk para botar uma pilha”…

2 – “Isolation”, Joy Division – “Tira! Tira! Tira!” Não era um show de strip-tease, foi essa a reação da geral à entrada do tecladinho depois do baixo maleta do Peter Hook. “Eu não curto rock”, diz Luana Rocha de Almeida, fã de Ja Rule. “E Charlie Brown Jr.?” “Ah, sim”. Alguém fala: “rock é bom para relaxar”. Um dos garotos da roda, Paulo César Costa Alves: “relaxar é diferente de dormir”.

3 – “Tupi Guarani” – Pelvs – Recorde mundial de pedido de substituição. “TIRA ISSO!!”, aos 5 segs de execução. Um comentário solto inspirado pelo coralzinho no início: “Isso é pra igreja”, “É! Num funeralzinho…”

4 – “Caô Fudido” – De Leve – “Agradou, agradou!” “Mandou, mandou!”. Pergunta geral: “é o D2?” – a paródia de samba-rap parece familiar. Não: é o De Leve, zoando o D2: “Esse negócio de rap ainda não me deixou rico / Igual ao D2 / Mas se a mídia quiser um dia eu fico…”. Comentário de Marcos do Bacalhau, habitué: “Esse faz samba de breque, igual o Moreira da Silva”. Enquanto isso, “À procura da batida perfeita” tocou quase inteiro no som do bar mais próximo…

5 – “Essa ternura” – Daniela Mercury – A melodia é de “A Certain Softness”, de Paul McCartney, mas a audiência é de Ramos: “Bota o ZECA!!!” Ninguém mais tinha paciência para experiências. E ficamos sem saber qual seria o real impacto ambiental quando a música baiana encontra o backbeat…

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Celebs pics

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Violência!

Matéria que saiu na Rolling Stone de dezembro de 2008, acho…

Coração Selvagem

Infelizmente Jaime Gil da Costa, o Gil Brother, não tem GPS. “O cara grava aqui em São Paulo, volta para Petrópolis e sempre perde o celular. Sinto muito, não tenho como dar o contato dele” diz por telefone Fausto Fanti, titular absoluto do humorístico da MTV “Hermes e Renato” sobre seu contratado mais exótico. Resta pegar o ônibus rumo à cidade serrana do Rio de Janeiro, terra da Família Real e de Santos Dumont, e tentar a sorte.

Gil é um case de sucesso bizarro – e relativo: não é tão fácil quanto se imagina achar o ex-lavador de carros que virou comediante na pequena Petrópolis. Nenhum taxista na rodoviária sabe do que se trata (“Herpes e Renato”?), e quem consegue o endereço da figura (em Espártaco Banal, fora dos limites da cidade) é um rapaz no Centro de Informações Turísticas – só porque sua tia é vizinha.

Quando finalmente encontro o Brother em sua modestíssima casa (três cômodos, nenhum móvel intacto), ele explica: “Porra! Poucos me conhecem aqui porque negozinho tem que pagar duzentos conto pra ter MTV. Aqui é tudo assalariado, mas se você pergunta do Gil Brother pros bacanas eles sabem tudo”. E o que há pra saber sobre o Brother? Ele foi descoberto pelos caras do “Hermes e Renato” lavando carros e imitando James Brown – é egresso do movimento Black Rio nos anos 70, um excelente dançarino – e aproveitado no esquete “Mataram meu passarinho”, onde lançou o bordão “Away!” que lhe valeu o segundo nome artístico: Away (escreve “Auê” nos autógrafos) de Petrópolis. O ano, 2003.

A partir daí, mais bordões viriam: “tua cara tá derretendo”, “seu pinto tá um cotoco”, “vou rasgar a sua boca”, todos consagrados no quadro “Drops Away News”, em que comentava tópicos como o uso de anabolizantes e pedofilia, sempre com uma faca na mão, prometendo vingar as mazelas da sociedade. Hit instantâneo, campeão de buscas na internet, Away se gaba: “Porra, eu não posso nem andar a pé em São Paulo, morou? É igual ao Michael (Jackson, presumido), uma correria do caralho, dou autógrafo, tiro foto, o personagem está bombando!”

Que personagem? Fica evidente que o maior trabalho da direção do programa com o Away é ligar a câmera. Aos 51 anos, fala e se comporta como o doidão da tela, com a desvantagem, para o repórter, da chuva de perdigotos na experiência ao vivo: “Eu que escrevo os roteiros, eu atôo (sic), eu apresento! O artista aqui é bom!”. Gil fica satisfeitíssimo com a entrevista para a Rolling Stone: “É um passo para a fama internacional (gargalhada sinistra)!” e prova adorar o reconhecimento – apesar de ter sido surpreendido pela chegada sem aviso da reportagem, tira do bolso (!) uma edição já amarelada do Jornal do Brasil com um artigo sobre seu sucesso.

E esse sucesso dá dinheiro? “As pessoas que tão fora acham que é mar de rosa, só na festividade, comendo as mulher por hora, gramour (sic)… mas você sabe que artista não ganha muito”, manda o Brother, que investe seu dinheiro na casa – nenhuma evidência aparente – e guarda algum “na caixinha lá”. Tem uma grande bronca da concorrência, a quem acusa de imitar seu novo programa na MTV, “A cozinha do Away”, onde ensina a fazer pratos como o Docinho de Talco e o Estrombelete de Cabeça de Sardinha. “Outro dia na Bandeirantes tinha uma mulher fazendo igualzinho! Faz a tua idéia, morou?!”. Gil acha que se outros programas humorísticos – citou nominalmente Casseta & Planeta – passassem no horário da “Cozinha”, iam levar um traço de audiência na testa.

O que o Away acha de ser colega de profissão do Chico Anysio? “Eu estive batendo um papo com o empresário dele quando o Chico veio fazer um show em Petrópolis e o cara queria puxar assuntozinho de eu ir pra Globo”. O Brother se exalta como se estivesse no esquete em que diz que vai dar soco no coração dos pedófilos: “Maluco, só se a Globo me pagar caro, morou? Pra ficar nisso mesmo eu fico lá onde eu estou. A Globo é uma parada de peidão! Televisão de velho, porra, como é que pode a gente já no ano 3000 e eles fazendo uma televisão dos anos sessenta? A juventude quer ação! O jovem quer pular, o jovem quer ver porrada, o jovem não quer amorzinho, o jovem quer violência!”

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Imprensa amarela

Minha coluna Mal Necessário para a Zé Pereira: Retroceder nunca, render-se jamais.

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Jornalismo subliterário, parte 4

Matéria sobre o travelling show do High School Musical, percebam que eu era o enviado especial para roubadas da Bizz.

High School Musical, o telefilme da Disney que virou fenômeno mundial para a criançada, trouxe ao Brasil seu elenco (desfalcado do protagonista Zac Efron) no que pode ser chamada “turnê trailer de High School Musical parte 2″. Sério, o show no Morumbi terminou com o telão anunciando a esperada (pelas crianças e por pais ansiosos por mais um produto com a qualidade Disney de hipnose) sequência.

Para quem desconhece (maiores de 15 anos e adultos sem filhos) a história: em uma high school sem greve de professores, evasão escolar e outras mazelas de terceiro mundo, o multiétnico elenco não faz nada além de cuidar da vida do casal principal, Troy (Zac, caucasiano) e Gabriella (Vanessa Anne Hudgens, latina).

Os dois não querem nada além de cantar no show musical da escola, mas sofrem pressão dos grupinhos a que pertencem (time de basquete e clube de ciências) para não diversificar suas funções, em um número musical (“Stick to the Status Quo”) que pode ser o paraíso do subtexto gay para um observador mais maldoso, uma apologia do “segurar a onda” como estratégia de sobrevivência na selva da maledicência adolescente.

Depois de algumas agruras, os colegas percebem que não há nada de mal em cantar com coreografias e passam a apoiar Troy e Gabriella contra o casal rival de dançarinos/cantores (Ashley Tisdale e Lucas Grabeel) até a última música “We’re All In This Together” – uma mensagem não muito diferente da dos “Saltimbancos” e outros teatrinhos de auto-ajuda a que fomos empurrados quando crianças.

Era essa história de redenção e tesão recolhido (Troy e Gabriella só trocam um beijinho na bochecha no final do filme) que pais e filhos esperavam com ansiedade no Morumbi. No setor em que enfiaram a imprensa (a milhas do palco, revés que a produção tentou compensar dando de brinde um binóculo de papelão que não funcionava), a segurança agia com rigor contra crianças que teimavam em subir nas cadeiras de plástico. Mas só até o começo do show, quando os homens de preto fugiram em terror diante do espetáculo de desobediência perpetrado pela família brasileira.

No palco, o lorinho Lucas Grabeel, o vilão da trama com status de mestre de cerimônias, desfilava modelitos que iam do estilo coordenador de ala em escola de samba à farda militar tipo paquita – numa exibição pública do que deve ser um sério problema pessoal com o figurinista. Esbanjando carisma com a garotada, apresentava cada próxima canção com gritos em falsete linha vocalista de metal (are you reeeaaaaadyyyy???).

Em um cenário com os típicos escaninhos dos corredores de uma escola americana, os números musicais não eram apresentados em função de sua ordem no filme, mas de acordo com a entrada em cena dos atores principais, todos com carreiras solo já em curso. Sugestão para as estrelinhas em ascensão (especialmente para o afrodescendente Corbin Bleu): procurar um fonoaudiólogo para resolver um pequeno problema da fala, a dessincronia entre o movimento dos lábios e a emissão do som – mera tecnicalidade que em nada compromete os números de dança, ufa.

O cast reduzido (senti falta da gorda cdf que curte hip hop, papel chave em HSM) prejudicou o preenchimento de espaços. O filme já chamava a atenção pelo número exagerado de cortes nas cenas de dança, truque que costuma pôr sob suspeita movimentos coreografados – o elenco nem precisa executar todos os passos, só os trechos colados posteriormente na sala de edição. Sem esse recurso, a garotada teve que suar, e nesse quesito fez bonito a loirinha Ashley e suas sempre nuas e reluzentes pernas – Vanessa, presa no papel de namoradinha recatada com saias idem, perdeu nessa competição particular.

O show seguiu com os hits de HSM (e os semi-hits das empreitadas solo), e cada trinado de Lucas apresentando a próxima atração era recebido com a empolgação de um público que aplaudiu freneticamente até os testes de funcionamento do telão antes do início do espetáculo. No final apoteótico, a tal promessa no telão de alta definição de um segundo High School Musical – e nenhum bis.

É interessante observar que o filme que está dando origem à série estreou no Brasil há menos de um ano – impressionante a velocidade da blitzkrieg global que capturou o interesse de crianças de culturas tão diversas. É mesmo um mundo pequenino, todo feito pra você.

Não fosse o frio de outono com seu risco de doenças respiratórias, poderíamos dizer que foi uma diversão saudável para toda a família.

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Hein?

Minha coluna para a Zé Pereira: Inimigos da internet.

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Necrofilia, drogas e rock’n'roll

Materinha que não saiu – a Bizz acabou antes – sobre os 30 anos da morte do Rei, em 2007. A premissa: levar a sério a teoria de que Elvis não morreu.

Matéria encomendada por Elvis

CURTINDO A MORTE ADOIDADO

30 anos de quê? Elvis Presley está vivo, e não apenas em nossos corações. Desde que se encheu das pressões do sucesso e resolveu simular sua morte em 16 de agosto de 1977, é um observador privilegiado do crescimento de seu Mito – participando de um jogo de esconde-esconde em que só perde na habilidade para o verdadeiro assassino de JFK. Deve ser uma piada interessante para o Rei do Rock´n´Roll acompanhar na imprensa musical a reabilitação de sua carreira – inclusive a fase de crooner gordo em Las Vegas. Dá mesmo para imaginar que tenha participado de concursos de sósias ao longo desses anos só pela ironia da coisa.

Aos 72 anos, tendo visto de tudo na vida, inclusive sua filha casar com o Michael Jackson, Elvis enfrenta o tédio de morar em uma ilha tropical (as apostas apontam as Bahamas) ou, segundo alguns (suspeita-se, agentes de turismo), em bibocas inabitáveis no interior dos Estados Unidos. É tarde para voltar atrás em sua decisão e, em uma ação legal inédita, tirar Lisa Marie Presley de seu testamento – mas bem que poderia, como Mark Twain e o sósia do Paul McCartney que substituiu o original falecido, vir a público declarar que as notícias sobre a sua morte têm sido um tanto exageradas.

Um morto muito louco

O timing seria perfeito. As comemorações da data redonda prometem, e é possível que a farsa seja descoberta, de qualquer maneira: há dois anos O cineasta Adam Muskiewicz vem oferecendo uma recompensa de três milhões de dólares por uma pista sólida que o leve até o paradeiro de Elvis. O material que recebeu e julgou aproveitável, usou no documentário “The truth about Elvis” um trabalho alegadamente sério – embora realizado pelo “produtor de American Pie” – e supostamente imparcial. Nele, Adam juntou as declarações de gente como o funcionário do Burger King em Kalamazoo, Michigan, que jura ter servido um Whopper com queijo e sem cebolas para o cantor foragido, a depoimentos do legista que fez a autópsia e do guarda-costas que viu o rockstar morto no banheiro de Graceland.

O que tem feito nesse seu período de recolhimento é tema para especulação, mas em favor do anonimato deve ter abandonado seu hobby de atirar em televisores (sorte não ter conhecido a programação da nossa TV aberta), ou adotado um silenciador. Mas se são férias remuneradas, e alguém estiver lhe repassando os direitos sobre a venda de seus discos, Elvis está vivendo uma vida de acordo com seu título de nobreza: de 1977 até hoje, vendeu mais de um bilhão e meio de unidades. Sua Lenda ainda é uma das maiores Unidades de Negócios na área musical.

Elvis faz parte da constelação de artistas que resolveram sair de cena para o anonimato, como Jim Morrison e Glenn Miller (hoje na flor dos 103 anos de idade e com 63 de desaparecimento), e que não conseguem ficar em paz nem sendo considerados oficialmente mortos – deve doer especialmente em Jim ver a bagunça no seu túmulo em Père Lachaise, em oposição à manutenção sempre alerta no cemitério de Forest Hill.

Eis o mistério da fé

Quem é vivo sempre aparece, Elvis só é a exceção que confirma a regra. Ou não: ver Elvis na rua é um esporte tipicamente americano, como o baseball ou a prática de tiro em universidades. Quando sondei alguns fã-clubes brasileiros sobre a incidência de observadores de Elvis em suas fileiras, a reação foi de revolta: “com certeza você vai receber respostas de muita gente que quer se promover, mas com todo respeito, acho ridícula a razão da matéria” alertou Léovis, do We Want Elvis. “Esta lenda sobre a qual o sr. pretende galgar (sic) sua matéria está morta e enterrada assim como o próprio Elvis” respondeu Marcelo Costa, cidadão Honorário de Tupelo, Mississipi, cidade natal do Rei.

Algumas explicações para sua aposentadoria, vá lá, precoce, desafiam a fé dos Elvistas mais crédulos. A que diz respeito a escolha da data através da numerologia bate recordes de forçação de barra. Ei-la: 16 de agosto (oitavo mês) de 1977 = 16 + 8 + 1977= 2001. Bem, “2001″ era o filme favorito de Elvis que, segundo a teoria reproduzida na Wikipedia, “é um filme sobre um cara que planeja sua imortalidade no banheiro” (sinopse controversa), notoriamente o lounge favorito do Rei, onde construiu uma privada reclinável para maior conforto.

Verdades e mentiras

Uma das teorias furadas explica o sumiço de Elvis porque “ele não queria que os fãs testemunhassem sua decadência”, o que deixaria sem explicação algumas escolhas de repertório, locais de apresentação e figurino nos anos 70. E nem vou entrar no mérito da tese do caixão com ar-condicionado para preservar a réplica de cera em seu interior, embora muitos jurem que o ar em torno do corpo estivesse frio e o ataúde pesasse 400 quilos, demais até para as célebres sobras de Sua Majestade.

Aliás, peso é um dos fatores que fazem a balança da verdade pender para o postulado do falso óbito. O atestado registra que Elvis morreu com apenas 75 quilos, o que constituiria no único caso no mundo de viciado que definhou pelo uso de barbitúricos – e em tempo recorde, em sua última aparição pesava algo em torno de 110 kg. Outra evidência: o nome do cantor está gravado errado no túmulo: “Elvis Aaron Presley” ao invés do correto “Elvis Aron Presley” – o que pode ser só uma tentativa tardia de consertar a barbeiragem de um tabelião, mas mesmo assim, estranho.

Estranho também foi seu comportamento nos dias que precederam sua “morte”. Mandou mensagens cifradas para namoradas e se despediu no último show com um inédito “Adíos” – justo o performer que tornou famosa a frase “Elvis has left the building” (“Elvis já deixou o recinto”), que dispersava as platéias ansiosas pelo bis. Se não fosse sua rotina diária mais bizarra, seria de se estranhar também suas ativdades algumas horas antes da morte anunciada – voltou para Graceland à meia-noite do dentista (!), encomendou analgésicos às duas e meia da madrugada e acordou seu primo Billy às quatro para uma partida de  racquetball, uma espécie de squash.

Elvis has left the grave

Muitos não se conformam apenas em acreditar que Elvis imitou Jesus; querem, como o apóstolo São Tomé, ver para crer. Em 29 de agosto do ano da Desgraça, 1977, três homens foram capturados tentando entrar em Forest Hill. Carregavam pistolas, granadas e usavam coletes – entre eles,  Ronnie Lee Adkins, entrevistado por Adam Muskiewicz em seu documentário. Os invasores foram acusados de tentar sequestrar o cadáver de Elvis para exigir um milhão de dólares de resgate, mas ganhou a tese de que estavam apenas querendo descobrir a verdade. Para ajudar a corroborar aquilo que injustamente se acredita ser uma Lenda Urbana, Ronnie era informante da polícia e até recentemente estava sob o serviço de proteção à testemunha.

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Quando as comemorações pela data terminarem, e se o Rei ainda estiver preferindo o anonimato, fique atento. Embora o Brasil não seja cotado como destino final de nosso viajante (o ET de Varginha tem mais aparições registradas), talvez o país que é famoso por ser o fim da linha das principais rotas de fuga tenha abrigado o visitante ilustre. Tomaso Buschetta, Mengele e Ronald Biggs (esse nem tão famoso pela discrição) que o digam.

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Jornalismo subliterário, 3

Resenha para show de Ivete Sangalo. O mais engraçado foi encontrar um produtor no Abril Pro Rock que, quando soube que eu era de Bizz, contou que o Clemente (Inocentes), na época cumprindo pena como membro da Plebe Rude, leu essa matéria para o vocalista Phillipe achando a maior graça, por causa do trecho em que falo do sujeito e  tal. Taí.

COITUS INTERRUPTUS

ou

MACUMBA PARA NATIVO

ou

GOSTOSONA MAS ORDINÁRIA


“Eu sou muito apaixonada por vocês!” – Ivete Sangalo, dezembro de 2006, Maracanã.

“O nosso amor é tão bonito / ela finge que me ama / e eu finjo que acredito” – Nelson Sargento, 1979, morro da Mangueira.

Ela é a última representante da era de ouro (em valores movimentados) das gravadoras – de quando, apostando no axé, gênero de que Ivete Sangalo é rainha, emplacavam vendagens similares com cantoras sem um décimo do seu carisma. Natural que ganhasse essa festa de aniversário tardia (fez 34 anos em maio) digna de uma filha predileta. E que o palco fosse o estádio até pouco conhecido como “Maior do Mundo”.

O Maracanã, onde times cariocas simulam um campeonato de futebol, foi o lugar perfeito para Ivete fingir fazer um show ao vivo. Porque não era bem um show – era, como lembrou várias vezes o sujeito escalado para ensaiar com a “galera” uma música inédita (“sha lá lá lá lá”, dizia o primeiro de uma série de refrões em sílabas da noite), “a gravação de um DVD”. Ao que o público respondeu: “Arerê-ê, estou na gravação do DVD, ê-ê”.

Mais: mandou que todos erguessem os braços para a foto da capa sem nem ao menos um playback para dar um clima. E fez várias recomendações para garantir que quando Ivete subisse ao palco não houvesse nenhum defeito na empolgação – exemplo, pediu que as pessoas reagissem com o mesmo “oh!” de surpresa se algum artista convidado tivesse que voltar para cantar a música de novo. Meu sangue gelou, Alejandro Sanz estava na lista…

Isso mesmo, as músicas seriam repetidas – como em um filme pornô, as cenas poderiam ser interrompidas para que a ação ficasse mais fotogênica na sala de edição. Além disso, para que o tempo quente e o suor não prejudicassem a beleza natural da cantora, maquiador e cabelereiro tinham acesso livre ao palco. Torci bastante pela entrada do depilador.

Já fui em um show fake desses antes, da Plebe Rude, onde duzentos convidados – fui de penetra – tinham que pagar de multidão para os microfones da EMI. Apesar disso o vocalista-guitarrista Phillipe Seabra foi profissional às raias do patético, trocando de roupa quatro vezes e solando ajoelhado e de olhos fechados. Mas um embuste na frente de tanta gente assim, só vi em comícios.

A apresentação atrasou mais de uma hora para que Xuxa, amiga querida, chegasse ao camarote (a rainha dos baixinhos cumpriu tabela e saiu bem antes de Ivete lhe dedicar o show), um agrado que não se estendeu aos fãs: ainda havia gente fora do Maracanã às 21h30m. Quando a dona da festa fez sua entrada, não economizou: a bordo de uma moto e com uma roupa de látex que, parece, era uma referência à Mulher-Gato, abriu os trabalhos com “Abalou”, perfeita: o precário camarote VIP tremia como se para acrescentar emoção à coisa toda.

No camarote, desfilava uma típica raça carioca, a dos deslumbrados blasés: são aquelas pessoas que passam a semana agilizando uma camiseta de acesso à área VIP para depois fingir que não estão nem aí para as celebridades circulantes. Passam pelo Thiago Lacerda parecendo nem olhar para só comentar a uma distância segura, fazendo considerações sobre roupas e silhueta com a segurança de quem poderia desenhar um retrato falado. Eu mesmo fingi indiferença, apesar da tentação em sugerir à Karina Bacchi uma nova ação de marketing para aquela marca de cerveja: substituir seu piercing de argola por um daqueles anéis de abrir latinha.

E o – vá lá – show seguiu com “Vai rolar a festa”, “Sorte grande” (do refrão “levantou poeira” que já cantei no Maracanã junto com a torcida do Flamengo) e “Pererê” (“Pererê não gosta de fumar cigarro / Pererê não faz amor sem camisinha”, que otário o Pererê). E começaram a entrar os convidados para os duetos: Samuel Rosa (“Não vou ficar”, de Tim Maia), Alejandro Sanz (como eu temia, teve que repetir “Corazón Partío”) Saulo (ex-colega de Banda Eva), Durval Lélis (Asa de Águia) e Buchecha (cantou “Poder”). O funkeiro foi coadjvante do bizarro mico pago pela produção: um apagão de 20 minutos no som.

Da abertura dos portões até o encerramento, foram sete horas de meia de espera entremeadas por alguma música, à qual o público reagiu com a submissão combinada. Alejandro Sanz foi ainda melhor recebido em sua segunda aparição, deve ser este o take que vão escolher.

Ivete ditou a manchete dos jornais populares para o dia seguinte: “estou gostosa, não estou?”. Ela sabe que está, ela sabe que é – quem mais torturaria seus fãs desse jeito com a certeza da impunidade? E com pedidos de bis, embora o show tenha sido quase todo bisado no decorrer mesmo da apresentação? O figurino dominatrix estava justificado. O “Furacão Ivete”, com esse apelido de boxeador, ganhou uma luta arranjada.

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Jornalismo subliterário, parte 2

Republicando a matéria dos Raimundos pra Bizz (dezembro 2006) a pedidos. Tirei duas mudanças que o corpo editorial fez no texto, para conservar a crueza – foi a primeira vez que usei meu diploma de jornalista à vera na vida. Mas tirei uns erros de português que espero que não tenham passado pela revisão; sem coragem de pegar a revista agora pra me certificar.

Andar na Pedra

João Gordo em 1999 sobre os Raimundos: “Tudo aconteceu muito rápido pros caras, não passaram pelo esgana-gato que toda banda tem que enfrentar”.

Ah, se ele visse os caras agora.

17 de novembro, 23 horas: os Raimundos estão embarcando em um ônibus na capital paulista para tocar  em Pirangi, uma cidade de 10.000 habitantes 380 km (5 horas de viagem) para o interior do estado – como atração de uma festa à fantasia, 10 paus a entrada.

Com a banda – hoje em dia carece apresentar: Digão, guitarra e voz; Marquinhos, guitarra; Alf, baixo; Fred, bateria – dois roadies, um técnico de som e o Pisca, figuraça barbaridade, o empresário gaúcho que é a encarnação trintona do espírito adolescente que a banda sempre usou para escrever suas músicas. Também no busão: a dupla de reportagem (Arnaldo Branco, gravador; Matias Maxx, máquina fotográfica).

Mas antes, um exercício de contextualização:

Quando João Gordo disse a frase acima, os Raimundos eram a banda número um do país – tinham alcançado, em quatro discos de estúdio, o status que outras às vezes levam décadas para conseguir: o de poder fazer um show inteiro, com bis e tudo, só de hits. O que levou, evidente, ao DVD e CD duplo ao vivo de 2000. Mas no começo do ano seguinte, a Intervenção Divina.

Foi a separação mais traumática desde a de Cazuza e Barão Vermelho que, se entendi o filme da Sandra Werneck, terminaram a relação por incompatibilidade sexual. Com os Raimundos as divergências foram de fundo religioso, embora Digão não descarte o fator sexo: “Rodolfo se converteu evangélico para curar um chifre!”

Com chifre ou sem chifre, a verdade é que em 2001, o vocalista Rodolfo (Abrantes, como assina hoje) teve uma Revelação: encontrou Jesus, que o ajudou a se libertar do vício em drogas pesadas. Fred também teve uma Revelação: descobriu que o ex-colega usava drogas pesadas: “Nunca soube de nada do Rodolfo, só que fumava maconha – e eu parei de fumar bem antes dele!” Digão também parou: “Nunca acompanhei mesmo os caras, era tipo uns 8 baseados por dia, e eu só dois”.

Estamos de volta à novembro de 2006, no loungezinho do ônibus (um double deck responsa). A inversão de valores é tanta que a banda é quem pergunta o que nós estamos fazendo ali: “O que a Bizz quer com a gente? Estamos fora da mídia há tanto tempo…” comenta Digão. O fim da cerveja decreta o toque de recolher, e todos vão para o andar de cima, menos Fred. Do baterista: “o Digão quer fazer um disco ao vivo com as músicas antigas, mas a gente tem um de inéditas pronto”. Era o começo de um telefone sem fio que continuaria no dia seguinte, quando foi a vez do guitarrista-vocalista falar.

Chegamos ao hotel cinco da manhã, e quatro horas depois encontramos o técnico de som Demétrio, Pisca e Digão já de pé. Aproveitamos a carona dos três para o clube onde a banda vai tocar mais tarde. Breve reconhecimento de terreno pela janela da van: Pirangi é uma daquelas cidades que só existem nos quadrinhos da Turma da Mônica: apenas cercas, casas e árvores. O Grande Hotel Pirangi, onde nos hospedamos com a banda, deve ser a maior construção do pedaço.

Na Associação Recreativa de Pirangi (essas cidades pequenas são mais auto-referentes que o Marcelo D2) rápida checagem do palco e Digão comanda a expedição até a piscina. Lá, volta à carga contra Rodolfo: “ele diz que Raimundos foi a pior coisa da vida dele, mas vive dos direitos autorais”. Fala do fim da banda do ex-amigo renascido com empolgação: “você não está ligado, véio? O Rodox acabou em cima do palco! Na quarta música o batera chutou o bumbo e disse um monte do Rodolfo, que ficou só olhando”.

Mas deve-se relevar a bronca, a perplexidade pela atitude do ex-colega é bastante sincera. A verdade é que Digão não parece um Raimundo, e sim um fã da banda; inclusive fala sobre si na terceira pessoa: “O Digão no palco é com a guitarra, véio”. Sobre seu projeto acústico solo (toca Sublime, Chili Peppers, R.E.M. e, claro, Raimundos, em casamentos e formaturas): “O Digão pegou na viola, juntou um povo”. O nome do projeto é Digantes e, sim, ele canta todos os palavrões das músicas da sua banda, não importa quão classudo o casamento, ou a formatura.

Sobre o tal disco pronto que Fred quer lançar: “cara, só tem uma pré, captação de riffs, não chega a ser um disco”. Também está escaldado: “se lanço algo autoral, a crítica vai meter o pau de qualquer jeito, então o lance é fazer um disco ao vivo para mostrar como nossos shows estão fodas – e olha quanta gente está estreando direto com ao vivo, tipo o Armandinho”. Em relação ao EP que deixaram disponível para baixar na internet (“Ponto Qualquer Coisa”, 2005) dá para ver que foi voto vencido: “não entendi o sentido daquilo. Nego diz que a internet é o canal, não é para agora”.

Quando falava sobre a relação complicada entre Fred e Canisso (Digão relevou a saída do baixista original para tocar com o Rodox, mas o baterista tinha algumas divergências antes mesmo da saída de Rodolfo e hoje não se dão mais), chega o resto da banda, com a exceção do guitarrista Marquinhos. O Raimundo que entrou na vaga de Rodolfo não falou nada durante toda a viagem, ficando ou no hotel ou no ônibus, com a cara enfiada em um laptop – na real só ouvi a voz do sujeito porque faz backing vocals no show. “Ele é normal”, diz Fred, “só que às vezes fica assim”.

É hora de observar Pisca em ação, tentando cantar Fred para a idéia do disco ao vivo: “vou perturbar vocês, véio, pelo carinho que tenho pela banda. É que nem diz a letra de ‘Marujo’: ‘…é por isso que Raimundos nunca vai se acabar’…”, batuca na mesa. Fred dá de ombros e Pisca sugere um churrasco. Enfim, a unanimidade.

Pisca acumula a função de figura titular do grupo: canta a dona do hotel pelo celular, arruma uma briga de galo na piscina com um nativo, delega tarefas o tempo todo – vai, durante o show, me encarregar da chave do camarim. É sem sombra de dúvida um piadista, só não decidi ainda se um engraçado. Nessa, o churrasco segue rumo à impressionante marca de dois engradados e meio de cerveja – embora alguns locais tenham ajudado a banda e a reportagem a dar números finais à carnificina, cheios de intimidade. Pra quê…

Ah, o senso de humor dos interioranos. Sou acordado de um breve sono à beira da piscina por um copo de cerveja na cara – rosno qualquer coisa até perceber que o autor da brincadeira são na real cinco, e que o mentor intelectual (não é bem o termo) parece ser o Pisca. Matias tem menos sorte: é atirado na água com celular (perda total) e tudo. OK, a passagem de som vai começar, excelente desculpa para botar o galho dentro, o que se mostrou uma atitude sábia: um eletricista que ajudava a montar o palco foi esfaqueado pouco depois. Alguma treta local, resolvida agroboy style.

O problema é que quando a banda e o repórter viram o rastro de sangue, nosso fotógrafo tinha sumido – o que, claro, levou à conclusão de que todos aqueles glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas no chão pertenciam ao Matias. O alívio veio quando o reencontramos roncando no hotel. Em minutos todos seguiam seu exemplo, aguardando a convocação para o show.

A van passa no hotel meia-noite, a banda atravessa um corredor de fãs fantasiados (Chaves, super-herói, puta) e chega ao regado camarim. Cada um, cada um: Digão faz flexões e os outros bebem. Pisca faz a maior introdução de palco que ouvi na vida e os Raimundos entram, com “Mulher de Fases”. Na platéia o mais empolgado é um Jesus Cristo de punho cerrado e com todas as letras na ponta da língua. Mas Digão tem razão, a banda desempenha. Alf e Marquinhos ajudam bastante na tarefa de manter o povo cantando.

Para resumir: o show é excelente e termina com o consagrador bis “Puteiro em João Pessoa”. Rápida passagem pelo camarim, rolê pela festa com Digão, que deve ter padrões superfaturados no que diz respeito à beleza feminina: apesar do local bastante florido, acha as minas “fracas”. Isso, ou o cara parou com mais do que fumar. Nesse meio tempo, tiro fotos e dou autógrafo como se fosse um Raimundo, uma hora e meia de show parece pouco pra esse pessoal assimilar duas caras novas.

Rápida passada no hotel, e pé na estrada. De novo esquecemos de reabastecer o frigobar com cerveja, portanto todo mundo pra poltrona mais cedo. Somos deixados em Congonhas para pegar o primeiro avião para o Rio, e é aí que me ocorre fazer para Fred, que volta conosco, a pergunta que foi o ponto de partida da matéria quando a pauta me foi soprada pelos editores: “por que vocês continuam?”. O cara me devolve outra pergunta: “foi bom o show, não foi?”.

Nessa hora lembrei do que o Matias falou assim que o show terminou: “me senti de novo com 15 anos!”. Já era bem mais velho do que isso quando eles estouraram, e estava achando graça da frase, quando chegou Alf: “Onde você estava quando a gente tocou ‘Puteiro’? Ia te chamar para fazer backing vocal!”. Traído na hora por um sentimento de frustração, percebi que sonho de adolescente não tem idade, e que provavelmente, como os Raimundos remanescentes, não abriria mão fácil de alguma coisa que conquistei só porque tem gente em torno que decidiu que a festa acabou.

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“‘A Banda’ é insuportável!’ – Jaguar

http://www.osomdopasquim.com.br/

O Mini propôs meu nome para escrever sobre um livro, em uma ação de marketing misturada com meme, e indicou “O Som do Pasquim”, que já saiu tem um tempinho. Sei que vou levar chamada de uns e outros que não curtem esse tipo de ingerência neste espaço, mas bicho, é livro. Livro é que nem pizza, quando é ruim é bom – no mínimo vai te ajudar a fixar pontos de ortografia, se o escritor mandar mal mas o revisor for craque. Portanto, eis minhas impressões sobre esse relançamento (a primeira edição é dos anos 70, da editora do próprio Pasquim, a Codecri – Comitê de Defesa do Crioléu).

O tempo da indelicadeza

Nos anos 60 e 70 a cana era dura, mas temos a impressão que a vida era  mais leve. Hoje se pode falar de tudo mais abertamente – e o pessoal do funk proibidão (maneira de dizer) aproveitou a deixa – mas naquele tempo o compositor popular tinha que se virar com uma sutileza compulsória que deixava o cidadão bolado: aquela letra elíptica seria uma crítica social ou alusão ao ato sexual? Os decodificadores do duplo sentido devem ter ficado maluquinhos com a entrada em cena do Djavan – menos mal que hoje em dia estamos ligados que ele não queria dizer porra nenhuma mesmo.

Mas na hora das entrevistas, que diferença. Se agora todo mundo é amiguinho e cada uma das aspas arrancadas de um artista contemporâneo equivale a um ritual de beija-mão, naquele tempo, mermão, o couro comia. Depois de ler “O Som do Pasquim”, coletânea de conversas entre os jornalistas daquele hebdomadário e uma carrada de músicos de várias procedências, você vai entender o uso da expressão Anos de Chumbo.

Não se pode dizer aquela frase clássica sobre o remake de “O Som do Pasquim”, que esta é uma edição revista e ampliada – antes é uma edição revista e reduzida: limaram as entrevistas da Maria Bethânia, Ângela Maria e Roberto Carlos. Elas e ele não quiseram assumir o que disseram sob efeito do álcool (passivo que seja, o povo do Pasquim bebia paca) e da inconsequência da juventude – quer dizer, a Ângela Maria (1928) não tinha essa desculpa. A proibição do Roberto só faz sentido por conta de sua personalidade paranóide, porque sua entrevista é a mais inócua da edição original, mas Bethânia sabe onde está pisando: gasta quase duas páginas da sua descrevendo um briga (física inclusive) com o empresário Guilherme Araújo.

Mesmo assim a nova edição é um festival de, como dizia Nelson Rodrigues, rútilas patadas. Waldick Soriano: “Não gosto da música do Gil, nem do Caetano, nem da Gal, nem da Bethânia, nem de ninguém”. Moreira da Silva: “Paulinho da Viola é sofrível e Caetano é uma porcaria, um chato”. Agnaldo Timóteo foi (paradoxo) macho de deixar a entrevista como a concedeu, mas pela lista de pessoas para quem escreveu uma nota se desculpando, dá pra ter idéia de quantas ofendeu: Caetano Veloso, Maria Alcina, Chico Buarque, Milton Nascimento, Tom Jobim – curiosamente, não pediu desculpas a João Gilberto, de quem também falou mal.

Mas também se falou bem, duplo sentido aqui: o Ivan Lessa chega a citar o poema Kubla Khan, de Coleridge, para comentar uma resposta do Chico Buarque. Muito bom ver o Lupicínio Rodrigues se declarando não artista, mas boêmio – e reclamar, para acabar com a dúvida dos entrevistadores relapsos, que era sim o autor de “Felicidade” e que escrevera o hino do Grêmio, não o do Internacional. E Tom Jobim, respondendo porque voltou para o Brasil depois de sua temporada americana: “Voltei para me aporrinhar. Para responder a esse tipo de pergunta. Para ser um dos 5% dos brasileiros que pagam imposto de renda. Voltei porque nunca saí daqui”.

A teoria do homem cordial de Sérgio Buarque de Hollanda, pai do entrevistado Chico, não ganha exatamente uma base de sustentação com esse livro. Mas o leitor ganha muito.

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Jornalismo subliterário

Em meu curto período como jornalista freelance consegui desagradar entrevistados, furar deadlines e me embriagar no processo (vide foto da matéria com os Raimundos, a que me valeu mais retorno e o desprezo do carinha com o dedo apontado aí embaixo). Mas o meu maior, embora pequeno, orgulho jornalístico foi esse texto sobre o programa Ídolos, tema um pouco indigesto, mas que acho que cerquei bem. É arqueologia, mas enfim.

O pesadelo do pop

Vivemos em um tempo em que o ídolo do povão é o Lula, o do Flamengo é o Obina e o da molecada é o Chorão. Triste é o país que precisa de heróis, ainda mais com essa safra.

Mas o panorama desalentador não parece intimidar os realizadores de “Ídolos”.  O programa do SBT escolhe entre 20.000 vítimas da moda um sujeito para gravar um CD e encarar o mercado musical, que constantemente dá lições a vencedores de reality shows sobre a verdadeira realidade. Que o digam os ganhadores do programa correlato da Globo, “Fama” – puxando pela memória só me lembro daquela mina gorda, alguma coisa Jackson.

Ano passado, “Ídolos” consagrou Leandro (“Pica-pau” por causa do cabelo vermelho) Lopes, de Santíssimo, zona oeste do Rio de Janeiro. Entrevistei o cara em Belo Horizonte, vestido e penteado como um personagem de animação japonesa. Lançou em setembro passado um CD (“Por você”, basicamente baladas e rock light FM) e segue em turnê. Deve ser complicado para os novos aspirantes ao título se guiarem pelos gostos do vencedor do ano passado: os ídolos do Ídolo são Zé Ramalho, Iron Maiden e Mamonas Assassinas (“pra mim a maior banda brasileira; misturavam Rush, Belchior e Raça Negra e dava certo”). Se achou bem representado pelo disco (“sou um cara do pop rock, e a Sony me deu carta branca para escolher o repertório”), apesar de, para um dos jurados do programa, Arnaldo Saccomani, ter um problema de posicionamento:  “não é chique para tocar na Jovem Pan e não é brega para tocar na Nativa”. Apesar disso, Arnaldo gostou de “Por você”: “só acho que esse caminho de Sandy & Júnior, da Wanessa Camargo, do KLB, isso já era, cara”.

A primeira fase de “Ídolos” serve para reduzir a 150 os vinte mil candidatos inscritos em etapas em cinco cidades (Salvador, Belém, Belo Horizonte, Campinas, Florianópolis). Como faz parte da dinâmica dos reality shows satisfazer o sadismo da audiência, esta fase é uma das mais populares. Nela, concorrentes com graus variados de desamor pela própria imagem são esculachados por um júri na verdade mais paciente do que exatamente sádico.

Escalado para cobrir duas etapas em Salvador e BH, recebi uma série de instruções da assessoria de imprensa do SBT sobre quem poderia entrevistar e a que locais de gravação teria acesso. Alguns dias depois de voltar da antepenúltima etapa em Minas Gerais, Silvio Santos, fiel a seu estilo zagueiro-zagueiro de chutar para onde o nariz aponta, desativou a assessoria sem maiores explicações – o que, em tese, me liberaria para incrementar a matéria com detalhes dos bastidores secretos do programa, mas na real a coisa toda é até bem desinteressante.

Basicamente: as audições se dão em hotéis de luxo, e no primeiro dia a fila (em média 4000 candidatos) é só para confirmar inscrição, ninguém canta. No segundo, os concorrentes cantam para a produção, que aprova todo mundo que tenha alguma afinação ou potencial para ser zoado – o que dá em quase a fila inteira. No dia seguinte, ainda sendo apenas avaliados pelo pessoal da produção, começam as filmagens e a carnificina, que reduz a mais ou menos trezentos os coitados que enfrentarão – em uma maratona de dois dias – os jurados Carlos Eduardo Miranda, Cynthia Zamorano, Arnaldo Saccomi e Thomas Roth. Daí, é com eles – o número de candidatos aprovados em cada etapa varia, de acordo que 150 sobrevivam para as finais em São Paulo.

O desgaste do processo

Em Salvador acompanhei o processo até o último dia antes da entrada em cena dos jurados. O mais impressionante nessa etapa é o segundo dia, o tal em que a produção manda para casa os que não tem a habilidade musical nem o talento humorístico involuntário que justifiquem desperdício de tempo de gravação. Nem tanto pelo número de eliminações (são muitos os aprovados; supõe-se que os responsáveis pelo programa acreditam bastante na máxima “todo mundo tem potencial”), mas pelo sistema em si. Em um galpão com 10 barracas de camping perfiladas, os candidatos tem muito pouco tempo para mostrar a que vieram, e o som vazando deixa no ar uma cacofonia de trinados, dós de peito e – me pareceu – gemidos de desaprovação. Mas o que mais se ouve são os constantes pedidos de “mais um! Mais dois!” do pessoal que organiza a fila que leva ao abatedouro.

Embora em tese não devesse estar ali – o galpão era um dos lugares vetados -, a produção dá uma força: trazem até mim um sujeito que, explicam, tem grandes chances de emplacar como figura, “para a sua matéria ficar legal”. O cara se apresenta como Filé da Bahia, e pergunto por que se chama assim: “não me chamo não, são as meninas na ladeira que me chamam…”. Vai precisar de muito carisma se continuar apelando para piadas velhas… também falo com Cláudia Rizo, clone falhado da Beyoncé (gravou uma vinheta como se fosse a própria, cercada pelos seguranças do hotel): “uso cabelo assim tem 4 anos, ela é que me imita”.

Sabemos, pelas transmissões do carnaval em Salvador, que baiano é imune à insolação, mas a resistência do pessoal da fila me deixou pasmo. Espantavam o tédio da espera dançando a última manifestação musical da sexualidade tatibitati baiana, uma tal de “A Rocha” (“arrocha”, entenderam?). O refrão dizia algo como “piriripompom” e o pessoal se esfregava com vontade – deu vontade de sugerir que descolassem logo um quarto, de preferência com isolamento acústico.

Baiano não nasce, estréia, diz o ditado. Esqueceram de dizer para vários candidatos que esperaram horas pela audição. Nem de gente que veio para concorrer, nem de malucos que querem aparecer na TV: a maior parte da fila é constituída de desavisados. Paula Tarsila, 27 anos, nenhuma caracterização excêntrica além do aparelho nos dentes, esperançosa: “comecei a fazer aula de canto tem dois meses…”. Leo Souza, 27, visual black, tipo de som preferido? “Black music!”. E vai cantar o que? “Roupa Nova”.

No dia seguinte o bicho pega. Perto do hotel vejo logo vários crachás de participante rasgados no chão – e, sem acesso a essa etapa, fico do lado de fora esperando os eliminados, que estão bem a fim de falar. “Não me deixaram nem começar, só falei que ia cantar Ivete Sangalo e me cortaram”, disse Gisele da Silva Oliveira, 18. “Mataram o meu sonho”. “Uma menina cantou parabéns para você e foi aprovada pela produção”, reclama o roqueiro Nino Rezende, que foi só dar uma força para a prima e a irmã que concorreram em Salvador. “Queriam me chamar porque me visto assim todo dark, pegaram um cara que estava vendendo mungunzá na fila e nem sabia da inscrição…”. Nino também estava dando uma força para amigos de Recife acampados em frente ao hotel e que chegaram à capital baiana num fusca megadetonado com a logo de ” Ídolos” que apelidei de “Anonimóvel”. Todos foram eliminados.

Ainda em Salvador, de carona com a produção, vi os apresentadores gravarem chamadas em pontos turísticos e aproveitei para conversar com eles. Uma é Lígia Mendes, loirinha de beleza padrão-apresentadora e que diz para a câmera textos decorados para vinhetas do programa, quase todos do naipe deste: “Salvador! Terra musical! Terra de João Gilberto, Caymmi, Caetano, Gilberto Gil…” O que Lígia curte em matéria de som? “Herbie Hancock, Dave Brubeck, Keith Jarret, Satie!”. Ela, que ganhou o nome por causa da canção de Tom Jobim, fala com bastante autoridade sobre mercado, preconceito da crítica e sobre o trabalho em TV – tinha um programa próprio em Minas Gerais. Tive que usar a minha mão livre – a outra estava com o gravador, Sherlock – para segurar o queixo. “Mas tenho um repertório brega maior do que qualquer um dessa fila!”, disse como se para tentar consolar o entrevistador que não poderá mais usar seus preconceitos na matéria.

O outro é Beto Marder, que mantém um sorriso lambaeróbico ao dividir com Lígia a responsabilidade de dizer as vinhetas e animar os candidatos e também está ligado: fala sobre como o rhythm and blues é o referencial do programa gringo que inspirou ” Ídolos” e como aqui vários gêneros podem reclamar o rótulo “popular”. É dessa palavra – de uso indevido em alguns partidos políticos e em um certo estilo de música universitária – que deriva a silabazinha mágica “pop”, a que precisei desenvolver uma tolerância de barata durante as entrevistas para este artigo. Alguns depoimentos para ilustrar:

“Faço pop sertanejo romântico”, manda Fabio Soares, 26, bem colocado na fila do primeiro dia da etapa em Salvador. Tarso, dreadlocks, na bica de enfrentar os jurados em Belo Horizonte: “Um lance Rappa, tipo pop rock, sacou?” Leandro, carioca, também em BH: “vou cantar uma música country, uma sertaneja e uma pop”. Além de ser evidentemente um expert que sabe distinguir country e sertanejo, achei inspirador seu otimismo em achar que conseguiria chegar à terceira música…

Mas de volta à cronologia. Encerrados os trabalhos em Salvador, era hora de partir para Minas.

Noção, artigo em falta

Em BH cheguei depois da fase da fila, já com os concorrentes reduzidos aos que iriam encarar os jurados. Confinados em uma sala do hotel e só podendo sair para ir ao banheiro em turnos similares aos de banhos de sol em presídios, os candidatos exultavam toda vez que alguém da produção abria a porta para anunciar mais um nome aprovado. Esperava não encontrar muita gente interessante, porque se em Salvador o povo notoriamente expansivo ficou um tanto retraído nas entrevistas, temia que em BH o povo notoriamente retraído fosse definitivamente lacônico. Estava errado.

Às vezes me identifico com o programa: também sou o maior pára-raio de maluco. Um cara ao meu lado levanta e começa a tocar flauta; percebo que está sem crachá de concorrente. Antes que consiga me dar conta, o sujeito estende a ponta de uma faixa, que seguro por reflexo, e se afasta para abrí-la: tem algo escrito sobre o apocalipse  – e um número de 0800. Trechinho do discurso dele que gravei enquanto ajudava a mostrar a faixa para o auditório: “…nós como seres divinos, e o planeta como um todo, está crescendo. O sol não está atendendo os nossos pedidos e então o câncer está fazendo uma limpeza em nosso planeta, isso é um conceito da física quântica…”. O 0800 deve ficar ocupado direto.

A produção destaca da fila um candidato para gravar depoimento, sinto que é alguém importante. Não estou (?) enganado: é Mike, ex-cantor e dançarino do Dominó. Ele não é da formação, se o termo se aplica, clássica: de 2002 a 2004, teve o privilégio de levar adiante a chama do grupo que já contou com os talentos e os mullets de Alfonso e Nill. Marombado “sou coreógrafo de hip hop, faço roda-moinho, dou mortal” e cheio de tatuagens, diz a que veio: “Apesar do meu background pop rock, eu vim da igreja, vou agarrar com unhas e dentes essa oportunidade que Ele está me dando, tenho muita fé no Senhor”. Senhor ou Senor (Abravanel)? Não me escapa a ironia do Deus evangélico oferecer a tal oportunidade através de um empresário judeu… repertório? “Mais soul, Ed Motta, Djavan, Boyz II Men, Brian McKnight”. Talvez o Senhor ouça melhor quanto mais o cantor se estenda nas sílabas, creio que essa é a idéia…

Também na sala de espera em BH, Claudiney, um rapaz delicado e de voz melíflua escolhido pela produção para dançar e cantar (em embromês)  “I’m A Slave 4 U”, de Britney Spears (o que lhe rendeu de pronto o apelido Brit-Ney): “Vou cantar uma música de uma dupla regional da minha terra, que é meio country, meio pop”. Uma tatuagem de Peter Pan (“me identifico muito com ele, adoro crianças, quero apresentar um programa de TV para elas”) toma toda extensão de suas costas. Com essas credenciais, nem precisaria perguntar quem inspira a coreografia que fez ao dublar Britney: “Michael Jackson, lógico”.

Outro concorrente é uma ex-semi-celebridade, participante do Big Brother Brasil 4, Cristiano, sósia do Vinny (sinto que minhas referências não estão ajudando a refrescar a memória do leitor). Falei com ele logo após sua eliminação, a que reagiu com serena humildade: “além de estar gripado, rouco, na área de música ainda tenho muito a aprender”. Mas não deixou de reclamar do modo como é tratado pela imprensa: “antes do BBB já tinha apresentado um programa e fiz alguns musicais, sou ator formado – e mesmo assim a mídia sempre coloca: ‘Cristiano vira ator’”.  Perdi essa polêmica, Cristiano, mas bola pra frente.

A calma de Cristiano é exceção – a eliminação faz com que os candidatos cuspam no prato em que queriam comer: “Isso aqui é um produto da mídia!” reclama Sérgio Coelho (que cantou “Popstar” para os jurados em Belo Horizonte), com discurso mais para o punk do que para o pop rock. A bronca vai principalmente para os critérios de julgamento, tanto do pessoal da produção quanto do júri. “Tem muita gente com potencial que foi eliminada porque não tinha o cabelo engraçado”, motivo que Sérgio, estranhamente oxigenado, não poderia alegar.

Tribunal de exceção

Em Belo Horizonte também entrevistei os jurados, que são, como na versão gringa da franquia, a alma do programa. Não temos um Simon Cowell, o bad motherfucker de “American Idol”, sujeito com uma sinceridade e uma marra de fazer inveja ao Romário, mas há um pouco dele diluído na bancada de avaliadores. Mesmo em Cyntia Zamorano, Cyz para os íntimos e Florzinha (por sua atitude simpática até com os candidatos mais freaks) para os íntimos do programa: “Parece que todo mundo no Brasil ouve a mesma rádio!”. E se você acha que os candidatos que vão fantasiados – na etapa de BH um marmanjo vestido de bebê teve que ser retirado da sala de espera por estar cheirando como se tivesse feito uso das fraldas – são casos terminais de carência, ouça Cyz: “tem gente que vem para pedir autógrafo! Tipo ‘não sei cantar não, vim só dizer que sou seu fã, dizer oi’”. Em um país em que as pessoas levam cartazes de “Filma eu, Galvão!” a eventos que a Globo nem está transmitindo, o chavão “população carente” ganha novo sentido.

Já Miranda não é nenhuma flor. “É uma praga! Jorge Vercilo, Djavan, Ana Carolina, sabe aquele pesadelo recorrente em que você corre, corre, corre e não sai do lugar? Então! Parece que eles (os candidatos) combinam lá fora só para me sacanear!”. Talvez o sotaque gaúcho, talvez a figura bonachona, mas essas considerações de funcionário insatisfeito só provocam o riso de todo mundo em torno. “Tem candidato que viro de costas”, falando dos figuras que querem aparecer. A falta de paciência dele com esses tipos é mesmo uma das coisas mais engraçadas da primeira etapa.

Usando um figurino que provavelmente seria gongado por Miranda, Thomas Roth (produtor, compositor, cantor, instrumentista) é o policial bonzinho do interrogatório. “É preciso que o cansaço do esforço repetitivo de ter que ouvir as mesmas coisas não afete o julgamento”, mas admite que é difícil. “As pessoas estão sem referências”. Thomas acusa, em maior escala, a massificação da mídia – mas sobra também para os aparentemente inocentes karaokês e bares de música ao vivo, ambientes propícios à monocultura das músicas de elevador.

Arnaldo Sacomani (breve currículo, só como produtor: Rita Lee, Tim Maia, Mamonas, Jeito Moleque) é um vilão – o terror da fila, segundo pesquisa informal conduzida pelo repórter – a contragosto: “a gente não curte esculhambar, só que tem uns caras que parece que entraram em uma porta errada”. Como os outros, tem críticas sobre as escolhas das músicas pelos candidatos, mas garante que é assim também com cantores consagrados. “Trabalho há mais de 40 anos, já produzi grandes ídolos, e se fosse deixar que escolhessem o repertório sozinhos, estariam ferrados – a primeira atitude de uma gravadora que se desinteressa de um artista é dizer para ele: ‘faça o que você quiser’”.

Miranda e Cyz são um júri dentro do júri, e não perdoam os colegas. Miranda, rindo e apontando para Arnaldo e Thomas: “sabe que música esses dois escreveram juntos? Aquela “o nosso amor é lindo / tão lindo / nada pode ser mais lindo / do que o nosso amor”! (“Fica comigo” sucesso com o grupo Placa Luminosa). “Imagina, cara, os dois cada um com um violão, compondo de frente um pro outro, se olhando…”. Cyz, florzinha de cactus: “com uma lareira no fundo…”

Sobrou para a imprensa também, que não estaria fazendo a ponte entre artistas interessantes e o público bitolado pelo que toca na rádio. Miranda: “a imprensa musical está muito sucateada, porque hoje o referencial do moleque que ouve música é o amigo do moleque”. Cyz aparta: “Artista e jornalista tinham que andar em parceria, crítico tem que conhecer o músico bem, a cabeça dele, para poder escrever” Quando digo que essa proximidade pode ser perigosa também, porque pode levar à distorções como a do jornalista que faz a resenha do disco da namorada, Miranda diz: “Ele está falando do ________, um cara lá do Rio”. Me sinto em um show de mágica no qual descobrissem a carta do baralho em que estou pensando…

Depois dessa, percebi que não é preciso ser candidato para ouvir reprimendas dos jurados. Antes que me mandassem mais cedo para casa, recolhi o gravador e tomei a iniciativa, com cinco fitas de entrevistas gravadas cheias de clichês de jogador de futebol, como “estou preparado para o que der e vier”, “confio na minha vitória” (antes das audições) e “agora é levantar a cabeça” e “bola pra frente” (depois). E ainda com alergia aguda à tal maldita sílaba.

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