Transmitindo direto da fase 2. Pedi demissão do meu emprego de 8 anos para trabalhar em casa, num projeto que se der certo me dará o melhor cargo do país, e se der errado me manda para a sarjeta sem escalas. Enfim, torçam. E acabo de começar uma nova era - passei a ter um caderno de anotações ao invés de escrever idéias em folhas soltas que perdia por aí; presente e incentivo da namorada. Abaixo anotações no avião, antes de uma das reuniões do tal projeto.
Ontem, no Barbas. Mal aí, maluco, esqueci seu nome…

Geralmente poupo vocês de problemas desse naipe, mas vou abrir uma exceção para receber um pouco de solidariedade induzida. Esse mês está foda, quem faz aniversário é Jesus Cristo, mas quem ganha o inferno astral sou eu. Não bastasse estar esperando pagamento de vários empregadores para quem já enviei notas fiscais e paguei impostos relacionados há mais de mês, ainda fui arrumar um problema de coluna que vai me mandar para duas semanas de fisioterapia - a dois dias das minhas férias, que já tinham sido adiadas por causa de um projeto pendente aqui do trampo. Portanto, esperem menos posts, ou mais de reclamação como este.

Fuck christmas I got the blues
Pensata enquanto aguardava a liberação do meu dinheiro em uma agência do HSBC em São Paulo para poder voltar para o Rio:
Uma das vantagens do assaltante de banco em relação ao cliente é a rapidez no atendimento.
Vou bater o recorde do FHC: esqueçam o que escrevi - na semana passada.
1) Agora você pode acompanhar o epistolário dos casos de internação mais charmosos da internet: Allan Sieber, André Dahmer, Mr. Manson e minha pessoa em embates para a eternidade. Estamos poupando esse trabalho a nossos futuros netos inescrupulosos que fatalmente quererão compilar qualquer besteira que escrevermos para resgatar a memória deste país tão sem museus. Gênios trabalhando ou retardados matando serviço? Não responda agora.
2) Numa regra de três bem simples, o emo é o pagode do rock. Cabelos bizarros, roupas jacus e uma inebriante cornice romântica. Se a F. tivesse resenha de discos, Chico Barney era o cara para o serviço…
3) Quarta postei no blog da Bizz, mas nem avisei.
4) Falando nisso, cartum da penúltima:

Como dizia o Milan Kundera, quando morremos somos transformados em kitsch (aliás, essa frase se transformou na “tu te tornas responsável por aquilo que cativas” dele, e o próprio Kundera se transformou em uma espécie de clássico infantil para uma crítica arrependida pelo hype nos anos 80).
Chamada do GlobOn: “sucesso de Bussunda começou com mistura de humor e crítica política”. Porra, o cara que foi um dos fundadores do AntiPasquim está sendo enterrado como um colega do Chico Caruso. Putaqueopariu.
xxx
Quando o Bento XVI disse “Onde estava Deus?” em um passeio por Auschwitz fiquei esperando que alguém mandasse o evidente cartum em que Deus responderia: “Onde estava a Igreja?”, mas ninguém fez. Você vê como futebol muda o foco das atenções rapidinho…
xxx
E falando em futebol: o mundo é um enorme Casagrande. Como o comentarista que se especializou em falar para o espectador, com palavras demais, exatamente o que o espectador acabou de ver, assim são as pessoas. O Brasil joga mal, não vamos ganhar essa Copa. Joga bem a Argentina, favoritíssima. Ronaldo joga mal, a culpa é dele, lima o cara.
Todo mundo se arriscando a morder a língua na próxima rodada. A capa do caderno de esportes do Globo hoje, sobre os argentinos, era algo como “eles têm futebol - e não têm bolhas, estresse, febre, favoritismo”. Cara, esta parece ser uma das seleções mais tranquilas jamais concentrada: não tem problemas de dinheiro; não tem bad boys (o que acho uma pena); um diz que prefere ser reserva do craque na berlinda; outro que devia ser titular sem causar chilique no tal titular - essa histeria com favoritismo e bolhas é total coisa do Casagrandismo da torcida e da imprensa. Sobre esta: Lula estava errado, Ronaldo tem razão.

Passei em Ipanema hoje (estou mudando pra lá, rua Jangadeiros, olha a diferença que faz sair por uma editora) e vi um display giga da F. em uma banca em frente a General Osório. Depois fui até a loja do Matias Maxx, que fica na rua seguinte - Teixeira de Melo 31-H - e joguei dentro do estabelecimento fechado um desenho do Capitão Presença dizendo “abre essa porra!”. Aí lembrei que o cara está vendendo a F. com desconto (5,90 na banca, 5,00 na mão do Matias) e resolvi fazer esse reclame.

Além de vender a F. a La Cucaracha tem livros, quadros, bongs, sedas, roupas (a camiseta do Darth Vader com a legenda 100% negro é genial, grande Vanessonic). Impressionante o número de mulheres lindas rondando o pedaço. E achei os preços absurdamente módicos para as ambições cúpidas do nosso revolucionário guerrilheiro urbano radical capitalista. Cheguei a pensar em comprar o presente do dia dos namorados lá, mas o efeito do crack passou e lembrei que estou solteiro. Confira já.
O lançamento da F. No Rio vai ser no local, quinta que vem - depois dou melhor o serviço. Abaixo, o release.
REVISTA F.: O ÓPIO DO POVO
A revista F. chega ao quarto número em grande estilo, agora publicada pela editora Conrad. Grande resposta para aqueles que não acreditavam no sucesso da melhor revista de humor do Brasil - aí incluídos os editores (Leonardo, Arnaldo Branco, Allan Sieber), que prontamente esfregaram exemplares da F. em suas próprias caras incrédulas.
A capa deste número pega carona na Copa do Mundo, uma espécie de surto quadrienal em que se prefere 352 caras correndo atrás de uma bola do que mulher. Alguns objetam que se mulher fosse de quatro em quatro anos… mas enfim.
Os quadrinhos do time titular - o corpo editorial, naturalmente - continuam dando o tom: temos as tiras amestradas de Arnaldo Branco (Capitão Presença, Joe Pimp, Futebol-Força Futebol Clube, Entrevistas em Quadrinhos), o sensacional Vandik, o Panssexual de Leonardo, As Bactérias Evangélicas e as Memórias Alheias de Allan Sieber.
Mas este número conta com reforços de peso: a sensacional Chiquinha, quadrinista gaúcha com talento equivalente ao Ronaldinho idem - a garota é o vértice que faltava em nosso quadrado mágico. E mais: craques que estão sempre colaborando com a beleza do espetáculo na F.: Schiavon, Jaca (que fez um poster sensacional para esta edição), Fabio Zimbres, Rafael Sica, Langer. Todos cartunistas da primeira divisão.
Ainda: os trabalhos vencedores do I Salão de Humor Engraçado (tiras, quadrinhos, charges, cartuns, textos), evento promovido pela F. para dar oportunidade a humoristas das divisões de base.
E a entrevista é com Fausto Wolff, o escritor genial que é o Pelé da birita nas horas vagas (nas ocupadas também). De quebra, Fausto colabora com pérolas de seu alter-ego, o colunista Nataniel Jebão. Show de bola.
Assim termina esse poema do Bukowski. Leiam, crianças, tem a ver com o tema da redação de hoje.
Que é o seguinte.
Um carinha lá nos comments do Talk to himself escreveu que a “Conrad se precipitou” em lançar o meu livro porque “tem muita gente boa por aí que não teve a chance que o Arnaldo está tendo”. Ouço isso o tempo todo. Mentira, não ouço, não tenho todo esse ibope pra ter todo esse índice de rejeição, mas tem sempre alguém dizendo isso sobre o trabalho de alguém, como se o espaço ocupado por um fosse necessariamente roubado a outrem.
Como o Júnior Baiano em 98, não tenho culpa de me terem escalado, ya know? Eu só montei um blog, nunca fiz currículo (não, não quero uma medalha por isso, aliás desaconselho o método) e essas coisas pintaram. Nem é tanta coisa assim, lançar um livro, Bruna Surfistinha e Clarah Averbuck que o digam.
Eu realmente achava que esse tipo de reclamação ia acabar com a internet, que te possibilita chegar a lugares sem os canais de hábito - imagina, fazer carreira em quadrinhos sem ter nunca que apertar a mão do Ziraldo, coisa impensável há 10 anos. Mas claro, sempre você ouve falar de um tal fulano que “merece” mais do que você.
Então pra esses caras, a dica do Clint Eastwood (em “Imperdoáveis”) antes de atirar na cara de um Gene Hackman que diz que não merece morrer desse jeito: “merecer não tem nada a ver com isto”.
E o voice-over de abertura de Blood Simple (1984, irmãos Cohen), se você não viu o filme imagine o sotaque caipira americano mais carregado possível:
The world is full of complainers.
But the fact is, nothing comes with
a guarantee. I don’t care if you’re
the Pope of Rome, President of the
United States, or even Man of the
Year–something can always go wrong.
And go ahead, complain, tell your
problems to your neighbor, ask for
help–watch him fly. Now in Russia,
they got it mapped out so that
everyone pulls for everyone else–
that’s the theory, anyway. But what
I know about is Texas…
And down here… you’re on your own.
Vão em paz, e não pequem mais.
“Forget it Jake, it´s Chinatown”. É a frase final de, oras, Chinatown (Polanski), quando o oficial Walsh diz a um Jake Gittes (Jack Nicholson) puto e sendo arrastado para fora da cena do crime que não há nada que ele possa fazer: o mundo é corrupto e tudo o que aconteceu (veja o filme, ou reveja) não tem remissão porque é isso mesmo, isto é Chinatown.
Tem coisas que a gente sabe há muito tempo, mas que precisam de um episódio bizarro demais para marcar: “OK, você já sabia que a fronteira tinha sido ultrapassada, mas agora é a hora de você saber quanto”. Em 1992 eu sabia que a tal rebeldia do rock´n´roll estava há décadas do seu falecimento, mas mesmo assim não estava preparado para o que vi: a MTV anunciando a promoção “quebre o camarim com o Pantera”. Foi um marco para mim. Fiz até um cartum pra Bizz com o episódio, talvez saia daqui a umas edições.
Agora tem essa da greve de fome do Garotinho. Por mais que esteja acostumado a comemorar os aniversários da falência do Rio, eu não estava preparado para isso. Forget it Jake, it´s Rio de Janeiro.
Em outras notícias bizarras, o caflito entre Brasil e Bolívia.
Bem, acho que finalmente encontramos um adversário no nosso nível. E, no caso de uma guerra e a perdermos, vamos sempre poder botar a culpa na altitude.
Respostas a uma entrevista do Diego Assis para a revista da Volkswagen. A matéria é sobre humor na internet e ficou excelente. As perguntas estavam em um e-mail separado e fiquei com preguiça de copiar, mas dá pra sacar do que estou falando.
34 anos, Rio de Janeiro, sou formado em jornalismo mas só trabalhei com internet (webmaster, hoje inclusive trabalho dentro de uma redação) e em vários subempregos: balconista, vendedor, estagiário - que é um escravo com status de boy).
Publico o Mau Humor desde o final de 2002. A de audiência é de 700 visitantes por dia, média que acho baixa se comparada com a do Dahmer ou a do Allan, for instance.
Mais de um cara já comentou que eu sou tipo o “humorista dos humoristas”, pq outros quadrin(h?)istas estão sempre falando de mim mas meio que continuo um segredo bem guardado. O que me lembra o que o Larry David disse uma vez sobre quando fazia stand up comedy e tinha essa fama, de só ter outros cômicos na platéia: “isso quer dizer que eu era uma merda”.
Eu só gosto de humor com algum grau de inteligência, um dos motivos porque nunca gostei de palhaços é que quando moleque pensava: “cair de bunda no chão… essa merda eu também sei fazer”. É, eu era um moleque chato assim.
Dito isso, acho Hermes e Renato, South Park, irmãos Farrelly - caras que a princípio parecem só apelativos - sagazes pra caralho. E, claro, Allan Sieber, Leonardo (meus parceiros de F.), André Dahmer, Bennett, Chiquinha, Rafael Sica - só ficando com a nem tão nova geração de quadrin(h?)istas.
O Capitão Presença foi meio como descobrir plutônio por acaso. Em uma conversa com o Allan Sieber ele chamou um amigo nosso, a mítica figura de Matias Maxx, de Capitão Ganja - porque o cara parece estar abastecido mesmo em situações que nem os falcões ousariam, if you know what i mean. Na hora bolei o personagem, com a cara do Matias e o poder de ter sempre uma presença em cima, “salvando” o povo despossuído desse meu Brasil.
E, como sou uma péssima Mãe Dinah, fiz duas tiras e disse: “Ok, esse personagem já cumpriu o seu ciclo - é IMPOSSÍVEL fazer mais piadas sobre um sujeito com um uniforme verde e uma capa que leva bagulho para gente pra quem o produto está em falta”. Botei essas tiras no meu site www.gardenal.org/mauhumor e saí de férias. Quando voltei, vários cartunistas tinham desenhado histórias com o Capitão e me enviado por e-mail. Foi aí que percebi que carisma não se compra em farmácia e que o personagem ia render muito ainda.
Vai sair um álbum pela Conrad, está na boca (no bom sentido) de sair. Tem tiras inéditas, textos, jogos e passatempos.
Joe Pimp foi apelação total. Eu queria fazer um personagem que fosse total na contramão desses personagens que foram criados para gigolar a crise da mulher de trinta anos, da Radical Chic à Maitena. Queria um monstro machista que batesse (literalmente) de frente com esse tipo de humor a favor que a Maitena faz em causa própria e o Miguel Paiva provavelmente pra ganhar minas na base da bajulação. Aí foi só me inspirar nos clips cheios de mulheres gostosas de rappers dessa geração bling-bling pra quem a revolução sexual e o feminismo vingaram tanto quanto o comunismo ou a escova de dente elétrica. Fiz o cara como cafetão pra deixar claro que sexo é o nome do jogo.
Não sei desenhar, claro que gostaria, mas para parecer que estou acima dessas questões mundanas, digo que pincel, ecoline, gramatura, essas porras, são coisa de metrossexual. Ademais, sempre gostei mais do texto do que da arte. Você não gasta muito tempo apreciando o desenho do Wolinski (cartunista francês tosco - na real subproduz seu traço, porque sabe desenhar bem), por exemplo, mas guarda as piadas pra sempre.
Estou publicando na Tarja (Capitão Presença e Tarja Preta, os remédios do mal), editando a F. (Futebol-Força Futebol Clube, Entrevistas em Quadrinhos, Joe Pimp e Presença também), fazendo uma tira pro Diário da Manhã de Goiânia (de nome “Mau Humor”, com todas essas séries que citei + Mundinho Animal, que sai também no site www.tonto.com.br), publicando uma coluna na Bizz (”O mau humor de Arnaldo Branco”) e fazendo a série “A Ilha de Sexy” - paródia para a revista Sexy da “Ilha de Caras” - dividindo os pincéis (no meu caso a caneta Futura) com o Allan Sieber e o Leonardo, meus parceiros de F.
* - Pra homenagear o Guilherme de Brito, vai nessa véinho.
Roteiro que escrevi, já tinha posto no blog, mas vai de novo pro ar porque os arquivos de 2005 pra baixo ainda flutuam no limbo. Repare que usei meu nome, o do Allan, etc. - ia alterar assim que descobrisse o que fazer com o cartapácio abaixo, mas me falta vontade política e uma secretária de futuro para inscrever essa porra onde quer que seja. Então fica entendido, não odeio o Léo e nem o Matias é tão picareta quanto está retratado. Ainda.
(Feira de quadrinhos, mesa de debate)
Mediador - Próxima pergunta.
Cara - Para o Arnaldo. Seu tabalho mudou com o tempo, ficou mais (gesticula) suave, menos incisivo. Você se vendeu?
Arnaldo - Ahn… eu… bem, no que você trabalha?
Cara - Sou gerente de engenharia de dados.
Arnaldo (tapando o microfone, para Allan) - ah, esses são incorruptíveis…
ENTRA O TÍTULO: “SE VENDENDO”. CRÉDITOS.
(Arnaldo e Allan andando pelos stands da feira de quadrinhos)
Arnaldo (pegando uma revista) - Ei, olha só isso aqui: o número 1 da Liga dos Invencíveis.
Allan (lendo) - “Homem Invulnerável versus Capitão Indestrutível”. Um impasse se apresenta… (abre na última página, o último quadrinho mostra dois homens de uniforme de super-herói se cumprimentando, Allan lê os balões) “Então concedo um empate honroso, Homem Invulnerável”, “que da próxima vez vença o melhor, Capitão Indestrutível”.
Arnaldo - Pois é, cancelaram a série no primeiro número, isso aqui deve custar uns 5 mil reais.
Allan - Nunca me liguei em quadrinho de super-herói, não entendia como os caras tinham todo o poder do mundo e acabavam indo trabalhar com jornalismo.
Arnaldo - Super-herói está dando o maior dinheiro, a Marvel paga tipo uns 200 mil dólares por ano pros caras que desenham isso.
Allan - Fala sério que você faria uma coisa dessas.
Arnaldo - Não, estou só comentando.
(Arnaldo no quarto do hotel escrevendo em seu bloco de anotações, na cama - com vários gibis de super-herói em torno, pensando)
Arnaldo - Deixa eu ver, que tal… O Super-Homem da Renascença. “Mais vigoroso que um afresco de Michelangelo!” “Mais forte que um verso de Petrarca!”. O seu inimigo poderia ser “O Crítico”, a mente mais criminosa da Folha de São Paulo… não dá, tudo que sei fazer é cartum.
(entra a mulher de Arnaldo, Patricia)
Patricia - Ei, liga a tv, está passando aquele filme que vc gosta no circuito interno, aquele com o Belushi engraçado.
Arnaldo - Qual, “Clube dos Cafajestes”?
Patricia - Não, “1941″.
Arnaldo - Eu não gosto de “1941″. Spielberg não sabe fazer comédia. (olhando para o seu bloco de notas com os rascunhos de idéias para a história de super-herói). Acho que cada um tem que fazer o que sabe fazer e…
Patricia - E “Goonies”?
Arnaldo (meio grosso) - “Goonies” ele só produziu. Olha, estou tentando
bolar aquele negócio de super-herói.
Patricia (chateada com o corte) - Que tal “Super Indiferente”? O super-herói
convencido e egoísta que anda pro resto da humanidade?
Arnaldo (tendo idéias) - Ei…
(Allan em um stand, esperando gente para autografar sua revista. Chega uma
menina de uns 9 anos)
Menina - Ei, essas tatuagens saem com água?
Allan - Onde estão seus pais?
Menina - Minha mãe está na fila do Maurício de Souza, ele vai autografar minhas revistas! (aponta pra fila, vários pais com os filhos. Imagem do sósia do Maurício de Souza de costas dando autógrafos)
Sósia do Maurício de Souza (pensando) - Pra que que eu tenho que vir pra essas feiras ridículas? Mais uma idéia imbecil do pessoal do marketing. Demissões, demissões, parece que eles GOSTAM disso…
Menina - Cadê a SUA fila?
Allan - Ei, gatinha, você por acaso teria uma irmã mais velha?
Menina (ofendida, tirando onda) - EU sou a mais velha lá em casa.
Allan (esperançoso) - Então sua mãe deve ter o quê, uns… trinta e cinco?
Menina - Olha lá ela. Tchau, idiota.
Allan - Se você cansar de Mônica e Cebolinha, tente uma dessas aqui (aponta para a capa da sua revista, com o personagem Urso Ernie - na capa, uma chamada para a história “Senta no colinho do titio”.
Menina - A menina lê: “Quadrinhos adultos”. Se é de adulto, eu não posso ler, idiota (sai).
(Chega um cara de terno com uma pasta de elástico)
Cara - Sieber? Allan Sieber?
Allan - Quem quer saber?
Cara - Meu nome é Dionísio Bentes. Vou direto ao assunto. Sou representante de uma distribuidora de quadrinhos (mostra a pasta, que tem um logotipo impresso). Estamos interessados em licenciar um dos seus personagens, o urso Ernie.
Allan - Licenciar?
Dionísio - É, comercializar o personagem. Usar a imagem dele em produtos. Sabe, camisetas, lancheiras, chaveiros, estojos…
Allan - O sr… hã… está familiarizado com o personagem?
Dionísio - Sim, estou, o departamento de pesquisa me deixou a par. Achamos que ele tem bastante potencial.
Allan - Então você está ligado que o Ernie é pedófilo?
Dionísio - É umas das formas de se olhar para a sua complexa personalidade, sim. Mas da maneira como nós vemos, sr. Sieber… (tirando um cartão do bolso)
Allan - Você não está entendendo, essa é IDÉIA CENTRAL dos quadrinhos do Ernie.
Dionísio (entregando o cartão) - Estou falando de muito dinheiro. Qualquer coisa, ligue pra gente.
(Arnaldo explicando seu herói para a Patricia)
Arnaldo - Você vê, com o fim das utopias, o mundo ficou individualista e cínico. Por isso é que hoje eles tem que refazer a imagem do Super-Homem ou do Batman, botar os caras pra afundar maxilar e povocar fratura exposta ao invés de só dar uns tapas e levar os caras pra cadeia. A molecada hoje quer porrada e não lição de moral. Então vou fazer esse personagem realmente egoísta, que não está nem aí para o Oriente Médio ou para a coleta seletiva do lixo.
Patricia - Ele não está nem ao menos decepcionado com o Governo Lula, com a eleição do Bush?
Arnaldo - Não, esse cara nem tirou título de eleitor. Estou pensando em chamá-lo “Ele”. O que você acha?
Patricia - Mas ele não age, não faz nada?
Arnaldo - Não, ele agiria de acordo com as conveniências. Ele vai fazer coisas heróicas se, sei lá, for interessante para ele fazer média com a Comunidade, ou se tiver uma gatinha olhando. Mas às vezes vai agir de acordo com uma moral duvidosa.
Patricia - Tipo, estacionar o Elemóvel em fila dupla.
Arnaldo - É.
Patricia - Mas já não existem personagens assim?
Arnaldo - Até existem, mas neles o cinismo e o individualismo são só características de personalidade. Nesse cara vão ser tipo o super-poder dele.
Patricia - Linha Romário.
Arnaldo - Minha garota.
(Allan, Arnaldo e Patricia conversando na casa do Allan)
Arnaldo - Bem, sei que os caras vão transformar o Ernie no Ursinho Puff, mas quem sabe não seja melhor? Você parava de desenhar as histórias dele, cedia o personagem, ficava com a grana e continuava com a sua linha de trabalho “me internem”.
Allan - Sacrificar o Ernie? Para que os outros possam viver?
Arnaldo - Você faz tudo parecer um drama…
(Toca a campainha)
Allan - Deve ser o Matias. (vai na direção da porta)
Arnaldo - Agora você recebe fanzineiros em casa? Isso aqui já foi melhor freqüentado…
Allan (irônico) - Claro, por agiotas chiquérrimos. (abre a porta)
Matias - Coé? Aí, maneira a piada na capa da tua revista (apontando) “Quadrinhos adultos”. “Quadrinhos adultos”, ha, muito engraçado…
Allan - Sou obrigado por lei, se eu não botar isso aí eu sou multado, Matias…
Matias (ficando sério) Ah.
Analdo - Fala, cara, tá sabendo que o Allan vai ficar milionário?
Matias (irônico) - Sei, que nem daquela vez que ele apostou no bicho errado…
Arnaldo (para o Allan) - Você joga no bicho?
Matias - Não, ele tinha uma dica pra um páreo na Gávea mas confundiu e apostou em uma corrida de cachorro…
Patricia - Tem um cara de uma mega-empresa interessado em transformar o urso Ernie em boneco, lancheira, chaveiro…
Matias - Sério? Será que vai dar galho com as camisetas que eu estou fazendo?
Allan - Matias, QUE camisetas?!
Matias (evitando o assunto) Cara, que demais! Tu vai poder, tipo, combater o sistema de dentro!
Allan (irônico) - É, sei, que nem o Keanu Reeves em “Matrix”. Nah, o lance é pra se vender mesmo. Os caras querem mudar totalmente o persongem, transformar o Ernie numa coisa meio Maurício de Souza.
Matias - Pô, maluco, mas você vai queimar seu filme assim? Você é tipo um baluarte dos quadrinhos underground…
Allan - Pro gerente do meu banco, é justo isso que queima o meu filme…
(Arnaldo com Leo, o desenhista que vai fazer “Ele”)
Arnaldo - Tira esse topete. Topete é coisa de herói tradicional, (ficando sério e didático) para balançar com o vento que bate no alto do prédio de onde ele observa o mundo corrupto que precisa da sua prote…
Leo - Eu entendi, sem topete.
Arnaldo - E nada de uniforme colante. Nunca entendi, material sintético e nenhum deles sua. Põe algo na linha entre rapper e Soldado Universal.
Leo - Pra quem você vai tentar vender isso?
Arnaldo (resoluto) - Marvel Comics, Nova York U.S.A.
Leo - Se eles toparem, como é que a gente vai dividir? Meio a meio? Eu devia ficar com uma parte maior, vai dar o maior trabalho desenhar tudo isso, só a apresentação do “Ele” são 20 páginas.
Arnaldo - Justo por isso é que eu devo ganhar mais. Desenhista de história de super-herói eles têm quinhentos, mas o que estamos oferecendo é um novo conceito. O super-anti-herói.
Leo - Meio a meio.
(Patricia, Arnaldo e Leo estão botando a apresentação e a história do “Ele” em um envelope para enviar pelo correio)
Leo - Você sabe que as chances são muito pequenas. Eles recebem uma média de 3000 histórias por ano, e só contratam uns dois ou três.
Arnaldo - Ainda tenho mais chance do que numa prova pro Itamaraty.
Patricia - Não se você tentasse vender um “novo conceito em relações exteriores” pros caras…
Arnaldo (boladinho) - Não sei onde você está querendo chegar.
Leo - O que você achou dos enquadramentos? Dei uma caprichada.
Arnaldo (nem aí) - Ah, legais.
Leo - E usei umas cores quentes, pra contrastar com os ambientes escuros…
Patricia - Eu adorei…
Arnaldo - Leo, não queria te dar muita esperança não. Talvez eles só comprem o personagem, e prefiram usar um desenhista deles. Mas como falei, ainda sim você ganha uma porcentagem.
Leo - Sinceramente, acho que os caras nem abrem a correspondência.
Arnaldo - Não, no site os caras garantem que respondem todas as cartas, mesmo que com uma recusa padrão.
Patricia (para Arnaldo) - Que nem o gerente do seu banco.
(Reunião do sujeito da empresa com o Allan)
Dionísio (apontando para uma tela em que se projeta uma apresentação em Power Point) - Então essas são as mudanças básicas. (mostra o desenho do Ernie na tela, o persongem ganhou cílios enormes e está cheio de acessórios para o boneco em torno, como “secador de cabelos Ernie” e coisas assim). Sei que demos uma limpada radical na imagem dele, mas achei as modificações importantes, especialmente essa dele agora ser membro do Greenpeace. E também precisamos dar um certo apelo MTV. Alguma pergunta?
Allan - Onde é o banheiro?
(Allan no banheiro, vomitando)
(Mais tarde, de volta à reunião)
Allan - Deixa eu ver se eu entendi. A partir de agora o Ernie vai ser um personagem para crianças. E vai ter um desenho animado dublado pelo Selton Melo.
Dioníso - Sim, exatamente. Você ganhará uma porcentagem de todos os produtos da linha Ernie. Nessa primeira fase, serão em torno de 25 itens.
Allan (enrolado) - Olha, eu sei que deve ser difícil para vocês entender… veja bem. É o seguinte… a minha linha de trabalho… o que meu público espera… é que eu sou, pros quadrinhos underground, tipo… um baluarte.
Dionísio - E?
Allan (desistindo) - E também tem o tempo que vou levar produzindo essas coisas. Como vou continuar com os meus quadrinhos?
Dionísio - Como assim, “produzindo”?
Allan - Ahn, escrevendo as histórias, fazendo os desenhos do Ernie pras canequinhas e tal.
Dionísio - Ora, para isso temos uma equipe de roteiristas e desenhistas.
Allan - Peraí. Você quer dizer que não preciso fazer nada?
Dionísio - Só assinar um contrato cedendo os direitos de exploração do Ernie.
Allan - E nesse contrato… quer dizer, eu precisaria levar crédito? Eu posso ficar anônimo? Inventar um pseudônimo?
Dionísio - Se vc preferir. De qualquer forma, você terá direito a 20 por cento de cada item comercializado.
Allan - E posso continuar a fazer os meus quadrinhos sobre incesto e drogas pesadas?
Dionísio - Por mim você pode fazer a Vida Ilustrada de Hitler.
Allan - Ahn… e o passado do Ernie? Quer dizer, ele era pedófilo. Agora vai estar em livro para crianças.
Dionísio - Deixe isso com a nossa equipe. Os dias de dúvida e perturbação de Ernie acabaram, agora ele é um novo urso. E você vai ficar rico, rapaz.
Allan (ansioso) - Bem, onde é que eu assino?
Dionísio - O contrato ainda não está pronto. Só estamos esperando uma última pesquisa para medir a aceitação do Ernie entre seu público-alvo. Mas é uma mera formalidade, podemos marcar para segunda-feira a assinatura.
Allan - Vocês se importam se eu dormir aqui?
(Exibição do filme de apresentação do Ernie para as crianças. Entre elas, a menina que falou com Allan no stand de quadrinhos)
Crianças - Começa! Começa! Começa!
Homem de branco com prancheta - Muito bem garotada, esse é o Ernie.
(começa a projeção de um desenho animado do urso. A voz do urso é do Selton Melo)
Ernie - Olá Coelho Jonjoca! Você já viu a minha nova tatuagem?
Coelho Jonjoca - Não, o que é?
Ernie - É um coração com a frase “amor da sua mãe”! (claque)
Coelho Jonjoca - Puxa, Ernie, você sempre me pega!
Ernie - É porque eu tenho ATITUDE! (Ernie faz o sinal “metal”, os dedos da mão direita em chifre, enquanto toca um riff de guitarra)
Coelho Jonjoca - Oh, Ernie!
Menino - UUUUh! Boiola!!
Homem de branco com prancheta (para o homem que opera a máquina) - Pare o desenho. Ahn… você, garoto, como é o seu nome?
Menino - Nueda!
Homem de branco com prancheta (anotando) - Nueda?
Menino - Nuedassuaconta! (as outras crianças riem)
Homem de branco com prancheta - Porque você falou aquilo?
Menino - Todo mundo sabe que urso é apelido de gay gordo e peludo!
Homem de branco com prancheta - Ahn eu não…(anotando) eu não sabia.
Menino - Meu tio me ensinou. Ele me conta cada coisa…
Menina - Eu conheço esse desenho! É de um cara feio que cantou a minha mãe e tentou me dar uma revista de adulto!
(o homem de branco com prancheta fica bolado)
(Arnaldo chega em casa com a correspondência)
Arnaldo - Carta da Marvel! Uma semana… cara, o Leo devia estar certo, eles nem devem abrir a correspondência (abre a carta apressadamente e vai fazendo uma expressão de incredulidade enquanto lê). O quê??
Patricia (entrando) - O que foi?
Arnaldo - Eles gostaram do Leo! Querem contratar o cara! Dizem que o personagem não interessa, mas gostaram das cores e dos enquadramentos dele! “Enquadramentos”? O cara é o quê, Hitchcock?
Patricia - Que bom!
Arnaldo - É, é, é, que bom pra ele, mas como assim não gostaram do”Ele”?
Patricia - Bem, talvez o mundo não tenha se tornado tão individualista e cínico afinal.
Arnaldo - Mas LOGO O PORRA DO LEO?! SEMPRE ODIEI O CARA!! POR QUE NÃO EU???
(Patricia faz uma cara, tipo “esquece o que eu falei”)
(Matias em casa, com várias edições do seu zine “Tarja Preta”, pôsteres do Gil Scott Heron, desenhos de folhas de maconha e coisas assim. Ele está usando uma camiseta do Ernie. O telefone toca.)
Matias - Alô? Frila? Pra qual revista? Sério? Demorou, eles pagam benzão por lauda. Qual é a bagaça? (Anotando) Sobre essa operação da Polícia Federal… 5 toneladas de maconha apreendidas… tom anti-drogas? Dar uma sacaneada na bancada pró-liberação? O Gabeira também? Ué, claro… por mais duzentinhos abro um box pra culpar os usuários pela violência no Rio. Ah, pode botar o mesmo nome que usei naquela matéria contra o sistema de cotas… falou. (Desliga. Digita um número). Alô, Juca? Bora na passeata do passe-livre? Assim de gatinha de olho…
(Arnaldo e Patricia em casa, assistindo “Interlúdio” do Hitchcock)
Patricia - Porque todos os vilões de filme fogem pro Brasil? Eles não tem medo de assalto?
(toca a campainha)
Patricia - É o Allan.
Arnaldo (abrindo a porta) - Fala, cara! E aí, tem uma grana pra me emprestar?
Allan - Eles desistiram.
Arnaldo - Sério? Por quê?
Allan - Parece os caras acharam que o personagem é uma má influência… falaram alguma coisa sobre o Ernie suscitar dúvidas sobre a sexualidade das crianças. Apararentemente eles ainda não superaram o episódio Topo Giggio. Não entendo, eles mesmos mudaram tudo…
Patricia - Que pena, Allan. Quer assistir um filme?
Allan - Qual?
Patricia - Interlúdio, do Hitchcock.
Allan - Aquele dos nazistas no Brasil, não é? Belos enquadramentos.
CENA FINAL
(Preto e branco. “Início dos anos 60″, diz a legenda. O sósia do Maurício de Souza circula em um bar, de boina e barba por fazer. Chega até uma mesa com um homem de terno - não vemos seu rosto, ele está de costas)
Maurício de Souza - Olá, meu nome é Maurício de Souza, eu faço esses quadrinhos sobre essa mina meio porralouca chamada Mônica, ela é uma beatnik bem liberada. E tem esses dois amigos dela, que se ligam em uns baratos loucos, sacou? O Cascão e o Salsinha.
Homem (entregando um cartão) - Muito prazer, meu nome é Dionísio Bentes…

Update: achei essa foto do FIQ pertinente para ilustrar esse “roteiro”, eu e Allan encharcados de cerveja na palestra sobre Humor Engraçado. Reparem como eu sei dar prazer a um microfone, acariciando em cima e embaixo…

Semana passada saiu naquele suplemento para adolescentes do Globo, Megazine, uma matéria sobre as promessas pra 2006 - imagino que esses cadernos adolescentes só precisem de três editorias: a do Vestibular, a da Primeira Transa e das Eternas Promessas Jovens.
O que me deixou estarrecido (palavra que me lembra, não sei por quais meandros tortuosos da mente, ovo frito), mas não surpreso, foram as indicações de novas caras do cinema. Todos - eu disse TODOS - os escolhidos são filhos/parentes de alguém da área.
Já falei algumas vezes: não tenho muitos problemas com nepotismo na classe política, mas na área de cultura, mil reservas. Afinal, é mais fácil surgirem dois bons subsecretários em uma família do que dois bons atores shakesperianos. E alguns artistas com a prole toda empregada em algum filme desses que custam, sei lá, 3 milhões e têm 30 mil espectadores, ainda vão para a televisão cobrar vergonha na cara dos políticos que contratam chegados.
(Por favor, nada de “há exceções”. Sempre há; acredito que uma primeira-dama do teatro possa gerar uma excelente primeira-nora do teatro, mas… e aqui você vai perdoar a minha preguiça de argumentar).
Alguns defendem a consangüinidade artística com a tradição do circo, do vaudeville, da arte passada de geração em geração. Well, ali era mesmo a prova dos nove: se você não tivesse algum talento, poderia acabar caindo de um lugar meio alto. Imagine o filho de um atirador de facas famoso dizendo: “é difícil trabalhar sob a sombra do meu pai”… eu é que não seria assistente de palco desse aí.
Ah, a matéria também mostrava as novas promessas da literatura (”novas” literalmente, uma média de - ahn, por alto… 25 anos? Ah, memória, sic transit gloria - rimou). Ali acho que prevaleceu mesmo o talento, gosto muito (muito mesmo) do trabalho da Simone Campos, por exemplo. Curioso é que na semana anterior a capa do Segundo Caderno era dedicada aos escritores que se destacaram em 2005. A média de idade era bem mais alta e, se não me engano, nenhum constava na lista de promessas para aquele ano.
Acho engraçado um jornal que sabota seus próprios exercícios de futurologia.
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