Mundinho Animal, clique.
Earl Williams: You don’t have to answer this, Mollie, but is it true what they said in the papers?
Mollie Malloy: Is what true?
Earl Williams: That you were going to marry me on the gallows.
Mollie Malloy: Well, if it’s in the papers, it must be true. They wouldn’t print a lie.
Em homenagem à data, e porque também estou revendo comédias para fazer um trabalho (mais sobre isso outro dia), um pequeno post em homenagem a “The front page”, peça de Ben Hetch e Charles MacArthur que teve várias versões filmadas em Hollywood - a melhor delas com Adolphe Menjou em 1931; e a de maior bilheteria, com Cary Grant, o sexo de um dos personagens principais trocado e outro título (”His girl friday“, aqui “Jejum de amor”, 1940). O vídeo acima é o trailer do remake de Billy Wilder (1974) com Walter Matthau e Jack Lemmon, muito bom apesar de ter ficado mais com cara de teatro filmado.
A história é simples: na Chicago dos anos 20, um grupo de típicos jornalistas-urubus esperam na sala de imprensa da prefeitura pela execução de um simpatizante comunista acusado de matar um policial. Um dos repórteres quer se aposentar, casar e mudar para Nova York contra a vontade de seu editor, um escroque, mas uma série de acontecimentos de vaudeville que põem à prova seu apetite por manchetes adiam seus planos. E com isso se faz o retrato mais alucinado, embora fiel, da profissão mais equivocadamente romantizada do mundo. Pauline Kael dizia que o texto influenciou Orson Welles e defendeu em seu ensaio “Criando Kane” que a obra-prima de Orson era a consagração de uma tradição de comédias sobre o jornalismo (da qual “The front page” era a jóia mais preciosa), mas descarnada do humor.
E, para mim, a peça (e as versões cinematográficas) tem a melhor frase de encerramento da dramaturgia ocidental: “O filho da puta roubou meu relógio”. Vale a pena conhecer o contexto para saber porque.
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Mais uma tira no G1.
E duas inéditas ;) (clique)
Sei que isso aqui está devagar, e definitivamente estão faltando cartuns e quadrinhos, mas é que alguns frilas estão meio que absorvendo a força de trabalho. Esse texto abaixo, por exemplo, é de uma peça - de um famoso ator paulista, outro dia conto quem é - que ajudei a reescrever. É a história de um casal divorciado (ele sociólogo, ela rica) que sofre um assalto, o original tinha (ainda tem, mantive o tom) um teor de chanchada.
A cena é toda minha (as pessoas vão reconhecer piadas que já meti em cartuns e roteiros, só tive dois dias para entregar o texto, sorry), mas deve mudar bastante porque vai ser mesclada com o texto de outro cara - um comediante carioca, depois conto quem é - que trabalhou comigo nessa.
Ah, falando em trabalho absorvente. Chego amanhã 23 hs em Recife - com o Matias Maxx, que perigo o cara na capital latina da maconha… - para cobrir o Abril pro Rock, fico até segunda. Dicas do que fazer e convites para cervas na caixa de comentários, OK?
Ah, e outra coisa, também aproveitando a caixa de comentários. Estou adaptando (em mais uma corrida contra o relógio - em que o relógio sempre ganha, ainda que ao contrário de mim trabalhe de graça) “O Beijo no Asfalto” do Nelson Rodrigues. Queria dicas de filmes, livros, etc. sobre linchamentos (morais que sejam); sobre pessoas que são punidas pelas suas virtudes (exemplos: “Fúria”, do Fritz Lang, “Antígona”, “O Homem Errado” do Hitchcock, “Um Inimigo do Povo” do Ibsen…). Desde já, obrigado, folks.
(Trevas. Luzes na sala, com Rafy e Flora amarrados. Rafy está virado para a TV, que está ligada em filme falado em inglês. Barulho de tiros no filme, seguido de uma fala: “OK guys! Let´s take the money and escape to Brazil!”)
Rafy - Engraçado… esses ladrões de filme que fogem para o Brasil não tem medo de assalto?
Flora - Eles botaram essa TV alta para parecer que está tudo normal na casa mas esse filme tem tanto tiro que parece que estamos sendo assaltados…
(Surge Nélio com a empregada, uma toalha nas mãos em forma de trouxa com a prataria)
Nélio - Que porra de tiros são esses?! Ah… (vai até a TV e muda de canal)
Rafy - Ah, não na aberta é horário político!
(Deputado na TV: “Vote em mim, Nicolau Simplício, número 6868! Fui deputado cassado, exilado e ex-guerrilheiro! Fui barbaramente torturado na ditadura, mas não entreguei meus companheiros. Nicolau Simplício, o herói da resistência!”)
Rafy - Mas como falam que foram torturados esses caras que foram torturados e não falaram!
Nélio - Eu votei no Clodovil, o resto é tudo ladrão (desligando a TV). E cala a boca! Vamos brincar de Rio de Janeiro: vocês me levam pros pontos turísticos do mocó aqui e eu vou catando a grana e as jóias!
Empregada - Moço, eu precisava ir ao banheiro…
Nélio - Caralho… porra, te levo, mas se tentar alguma coisa, vai abrir uma vaga aqui na mansão. (Dá um tapa na nuca de Rafy, sai com a empregada)
Rafy - Mansão, pff… é engraçado, você é quem é rica de berço e quem ouve “burguês” o tempo todo sou eu. É mesmo uma sociedade machista, todo mundo pressupõe que o homem é o provedor…
Flora - Não é você quem defende esses tipos?
Rafy - Eu? Defendo que tipos?
Flora - Você! Sociólogo… blá blá blá melhoria no sistema carcerário…
Rafy - Qual o problema em melhorar o sistema carcerário? Sempre ouvi dizer que é um excelente lugar para tomar gosto pela leitura.
Flora - E blá blá blá tortura nas delegacias… e a gente? E a classe média que sofre com a violência?
Rafy - A gente também tem culpa! Qual é a diferença entre um Secretário de Segurança que vai para a TV dizer pela milésima vez que “Todas as previdências estão sendo tomadas” e a gente, que manda carta pela milésima vez para a Veja para dizer que “estamos todos indignados”? Ninguém toma nenhuma atitude nunca, a não ser as erradas!
Flora - Está querendo me culpar agora?
Rafy - Estou culpando também! Lembra quando você demitiu a Márcia?
Flora - Ela chegou três vezes atrasada na mesma semana!
Rafy - Foram três chacinas na área dela na mesma semana! Só a gente que “sofre com a violência”? (fazendo um aparte, bem calmo, dando um intervalo no discurso virulento) Queria estar com as mãos desamarradas para fazer o gesto de aspas nesse “sofre com a violência”. (Volta ao discurso inflamado) A gente quer que os pobres morem bem longe da gente, em um conjunto habitacional lá na putaqueopariu, mas que estejam as oito na nossa porta pra receber salário mínimo!
Flora - Mas o que tem a Márcia com esses marginais? Você acha que é só pobreza que justifica esses bandidos agirem assim? Se fosse isso, estávamos lascados, os serviçais iam cortar nosso pescoço quando a gente fosse dormir!
Rafy - (parecendo cansado, respirando pesado) É, acho que você também tem razão… Cristo, preciso da minha homeopatia.
Flora (ainda continuando o discurso, mas diminuindo de velocidade quando percebe que Rafy deu razão a ela, uma experiência inédita no casamento) - O problema é que vocês de esquerda compram o pacote todo, por que é que você foi assinar aquele manifesto que chamava o José Dirceu de injustiçado…? Você está se sentindo mal, Rafy?
Rafy - É, aquilo foi uma vergonha mesmo …um pouco, obrigado por se preocupar… é melhor mudar de assunto, não estou podendo me exaltar.
Flora - Rafy, eu… droga, Rafy. O que você veio fazer aqui hoje?
Rafy - Quer saber? Nem sei… sabia que não ia conseguir argumentar com você. Sabia que você tinha me superado. E acho até que esse dr. Reinaldo tem mais a ver contigo, um profissional liberal sessentão, o cara tem ’status’ escrito na testa, a sua família deve estar em festa, nada mais de discussões políticas constrangedoras no almoço de domingo…
Flora - Doutor? Como você sabe que ele é médico?
Rafy - Er… ah, azar. Eu mandei investigar.
Flora - Rafy!
Rafy - Mas isso não importa agora. Essa situação me mostrou que prefiro te ver bem, viva, com outro cara, do que em perigo. Fiz um estudo de campo para o meu próprio trabalho, que ridículo…
Flora (relutante) - Eu também.
Rafy - Também o que?
Flora - Percebi a mesma coisa. Morri de medo que algo acontecesse contigo.
Rafy (durante toda a discussão está um tanto arquejante, cansado) - Isso é muito bom… muito bom mesmo. Muito bacana da sua parte dizer isso.
Flora (bem relutante) - E queria dizer que “ter superado você” é uma expressão muito forte.
Rafy - Hummm… Flora, sabe o que reparei? Essa foi a nossa primeira discussão de relação que não se deu durante alguma transmissão de jogo de futebol. Ou de fórmula 1.
Flora (achando graça) - Ah, você mesmo me confessou que só assiste futebol para ver porrada e fórmula 1 para ver acidente…
(entram Nélio e a empregada)
Nélio - Porra, tu demorou pra caralho!
Empregada (falando errado) - É que eu tenho xistite!
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