24 de julho de 2009 às 11h05
Mega teaser multiplus
Já falei desse roteiro de curta metragem (que pretende dar origem à série) que o Dahmer bolou e eu desenvolvi; é uma paródia de novela que está pronta há uns três anos e sempre rodou nesses editais de incentivo à cultura – muito justo, porque é um puta desestímulo à mesma. Mas agora deve sair, na munheca e em animação (elenco mais barato). A apresentação dos personagens e o trecho incial.
MAR DE PAIXÃO
Uma novela de Arnaldo Branco e André Dahmer
Personagens:
Clara Sabatini Viegas – Rica viúva e herdeira de 8.000 poços de petróleo, a boazinha e piedosa dona da Petrolífera Natureza está sempre preocupada com os pobres, mas sofre confusos sentimentos de piedade e culpa oriundos de sua enorme riqueza. Manipulada em sua empresa pelo inescrupuloso diretor Carlos Renato Godoy e em sua família pela alienada filha Maria Eduarda, que ambiciona ficar com sua fortuna. Ainda é mãe da dócil Lelê, a filha adotiva “especial”.
Lelê – Com sérios problemas de fala, usa aparelho odontológico “freio de cavalo” e um de surdez, além de um colete cervical e óculos de grossas lentes. Está entrevada numa cadeira de rodas desde o nascimento, fruto de uma grave doença degenerativa. Tem quinze anos e só enxerga o lado bom da vida. No encosto de sua cadeira de rodas estará escrito “COTA”. Em suas cenas, Lelê aparece em campanhas politicamente corretas e vai trazer todo o tipo de minorias para a novela, como por exemplo, o homossexual negro e judeu Afonso, que salvou a vida de Lelê quando ela era uma criança.
Maria Eduarda Sabatini Viegas – A bela e rica filha de Clara Sabatini Viegas sempre teve tudo do bom e do melhor na vida, mas é atormentada por um trauma que marcou sua infância: foi ao primeiro dia de aula na Escola Americana com meias brancas, quando a norma é o uso de meias azuis em dias de chuva. Faz par romântico com o belo, pobre e limitado Ernesto Fidel Bastos, um modelo fracassado que empresta sua imagem em bailes de formatura no subúrbio e festas de 15 anos.
Giancarlo Bastos – Professor de sociologia do estado, ainda acredita no socialismo como solução para a humanidade. Tem barba grande, boné, casaquinho de Ziraldo e broche socialista na lapela. Alcoólatra, sofre com o comportamento hedonista e egoísta de seu filho Ernesto. Quando bebe, desabafa com o amigo Jurumá, um índio que usa short Adidas e que tem em suas costas a inscrição “COTA”.
Ernesto Fidel Bastos – Filho de Giancarlo Bastos, é um narcisista por natureza. Odeia livros e discussões políticas. Ernesto será interpretado por um ator de 20 anos que nada entenda de interpretação, mas seja extremamente bonito de rosto e corpo. A idéia é botar na trama alguém realmente ruim para este papel, sempre em cenas na praia, banho, ou academia, quando pode exibir seus dotes físicos. As cenas em que ele aparece são sempre precedidas de duas ou três cenas de tentativas de gravação da própria cena, em que ele erra o diálogo ou faz sua interpretação de maneira muito ruim. Quando chora ou ri é sempre de maneira caricata e a idéia é o público perceber claramente que um péssimo porém belo ator foi escalado para a novela.
Arlete, a Bá – Negra e obesa, tem nas costas de seu uniforme uma inscrição em que se lê “COTA”. É má e chantagista. Rouba periodicamente objetos da mansão de Clara Sabatini, onde trabalha como doméstica. Ajuda Maria Eduarda nos planos de ficar com a fortuna de Clara Sabatini e tenta destruir a saúde da já fragilizada Lelê. Será demonizada durante toda a trama, em contraste com sua patroa, a rica, branca e boa Clara Sabatini.
Carlos Renato Godoy – Diretor inescrupuloso da Petrolífera Natureza, só existe na trama para enganar a boa e ingênua Clara Sabatini e fazer todo o tipo de marketing acintoso em cena, de diferentes produtos ou um fictício. Quando está na praia, um barco passa ao fundo com uma propaganda. Quando entra em uma lanchonete, senta para comer em frente a um enorme painel de anúncio da loja e elogia a comida. Quando anda pela rua, está sempre em frente aos painéis com propaganda. Quando é filmado de baixo para cima, passa um avião com propaganda de um produto. Este personagem serve para transmitir ao espectador a idéia da propaganda “encaixada”, sempre presente em novelas da atualidade. O ideal seria que fossem fechados contratos com produtos reais, se possível. Mas pode ser o tempo inteiro um produto fictício, o concorrente da empresa, de nome Petrolífera Amigos da Ecologia.
ROTEIRO
[Imagem do Taj Mahal. É a casa de Clara Sabatini Viegas, onde moram também sua filha Maria Eduarda e a filha adotiva Lelê, além de Arlete, a Bá, empregada.
Close de colher entrando repetidas vezes na boca de Lelê. É Arlete, a Bá, quem está lhe dando comida na boca com certa má vontade e impaciência. Clara Sabatini Viegas desce sua imensa escadaria de mármore branco e está um tanto aflita.]
Clara Sabatini – Bá, você sabe da Maria Eduarda?
[Bá para de dar cominda a Lelê e antes que responda, Maria Eduarda aparece, de biquíni com os peitos explodindo e uma canga.]
Clara Sabatini – Já de pé, Maria Eduarda? Achei que você tinha ido ontem na rave.
Maria Eduarda – Acabei de voltar, só vim aqui trocar…
Clara Sabatini – De roupa?
Maria Eduarda – Não, ainda estou com a roupa que usei ontem. Vim trocar de carro.
Clara Sabatini – O Lamborghini está lavando, lindinha.
Maria Eduarda – Ia mesmo usar o Porsche, o Ernesto é simples, não repara nessas coisas. (pausa) O que é muito irritante.
Clara Sabatini – Vai a praia com o Ernesto? Ah, que bom. Gosto muito dele, ele é… (como se procurasse a palavra) pobre.
Maria Eduarda – Whatever, mami. (sai)
[Clara Sabatini suspira vendo a filha sair. Depois se vira para Lelê, a filha adotiva entrevada.]
Clara Sabatini – Lelê, estou de saída. Volto para o jantar e Arlete vai ficar cuidando de você. Então, faça tudo que a Bá mandar.
Lelê – Tudo que a Bá mandar. (Balbucia palavras, incapaz de falar de maneira clara e compreensiva).
Clara Sabatini – Bá, você viu um perfume num vidro azul no meu closet? Não acho ele de jeito algum…
Arlete, a Bá – Vi não, dona Clara. Mas vou dar uma procurada para a senhora.
[Bá passa a mão no rosto da patroa e olha com um leve e terno sorriso bem nos olhos dela. Por segundos, Clara Sabatini fica hipnotizada e ouve uma voz em off da Arlete, a Bá:
- A Arlete é fiel! A Arlete vai achar o perfume!]
Clara Sabatini – Está bem, Bá. Estou atrasada… Lelê, um beijinho. (Beija Lelê e sai da sala e de cena, batendo a porta. Entra uma cena de filme de ficção científica, uma nave deixando uma plataforma espacial).
Arlete, a Bá – (segura Lelê com força pelo queixo, toca uma música de vilão) Está vendo, aberração? Tudo que eu mandar você vai fazer. Segura a onda aí. (coloca a colher suja na cabeça de Lelê e corre para o quarto dos empregados).
[Lelê fica na sala e sorri com a colher na boca, pois é incapaz de entender ou escutar a maioria das coisas, muito menos remover a colher da própria cabeça. Fecha os olhos e uma chuva de imagens bonitas correm em sua cabeça: velhinhos se abraçando, casais correndo na praia, crianças brincando, golfinhos saltando...
Arlete chega ao quarto, em que se lê "criadagem", local que se assemelha a um estábulo, em contraste com o resto da rica mansão. Muito feno no chão. Nas costas de Arlete agora se lê claramente a inscrição "cotas" impresso no uniforme. Em uma bolsa de supermercado, pega o vidro de perfume que estava desaparecido. Rouba um pouco para outro pote e batiza o resto com água. Quando volta para sala e começa a preparar uma dose no bar, Lelê derruba a colher que estava em sua cabeça no chão.
AQUI ENTRA A ABERTURA DA NOVELA, UMA ANIMAÇÃO 3D BEM CAFONA, MEXICANA, NÍVEL GLOBO ANOS 80.
Carlos Renato Godoy está dirigindo. De repente o sinal fica vermelho. Ele para, pega o celular no banco do carona. Close na mão que segura o celular, ênfase na marca.]
Carlos Renato Godoy – Leveza e praticidade.
[Ele disca um número. Enquanto fala ao telefone, vemos pela janela uma dessas garotas que entregam propaganda de empreendimentos imobiliários segurando um dos panfletos e, bem evidente, a marca da construtora. Depois vemos Carlos Renato Godoy de costas e pelo pára-brisa dianteiro vemos um avião puxando uma faixa com anúncio de banco.]
Carlos Renato Godoy – Alô, Aparício? Peguei um sinal fechado. Ligue para o diretor do Detran e diga que tomei como ofensa pessoal.












