Mais uma coluna Histórias (Inventadas) da Televisão para a revista MONET. Nota do autor: INVENTADAS. Enjoy.
Muitos acompanham as novelas de época que são uma tradição da TV Brasileira, mas poucos se lembram da produção que foi mais longe no tempo para contar uma história: até a Idade da Pedra.
Origens da Paixão estreou em 1972 na TV Tupi, que já enfrentava as dificuldades financeiras que seriam responsáveis pela falência da emissora. Foi por causa do orçamento apertado que seu departamento de dramaturgia teve a idéia de fazer uma novela passada no período paleolítico, para economizar no cenário, nos figurinos e, por causa de seu elenco semi-amador, nos diálogos.
O bizarro resultado ficou algo como se Os Flintstones tivessem uma releitura séria. Até porque houve economia inclusive nas pesquisas sobre a época, e em Origens da Paixão dinossauros conviviam com seres humanos (um dos grandes recursos para reviravoltas na trama, na falta de atropelamentos e tiros de revólver). É claro que os dinossauros mesmo não apareciam - faziam uma grande sombra com um aparador aplicado aos spots sobre os atores quando estes estavam sendo atacados pelas monstruosas criaturas.
A história: o núcleo de primatas ricos (belas cavernas, vista melhor para a paisagem deserta) passava os dias nadando despreocupadamente em lagos aquecidos pelo magma ainda em fase de sedimentação - eu disse que faltou pesquisa - e mandando seus escravos em expedições para caçar filés de Tiranossauro.
No núcleo pobre (cavernas mais precárias, menos utensílios e animais de tração) o jovem Og queria fazer carreira como pintor rupestre, para desgosto de seus pais, que desejavam que seguisse a tradição familiar trabalhando como rolador de pedra, profissão mal remunerada, mas digna. Para piorar, Og se apaixonava por Uli, do núcleo rico. Os roteiristas tiveram que suar para criar uma cena de aproximação romântica que envolvesse golpes de clava na cabeça sem chocar a audiência.
Em capítulos mais à frente, surgiria um triângulo amoroso com Ur, jovem abastado, dono de um próspero negócio de locação de mamutes, e o pobre Og era obrigado a se virar para impressionar sua amada em um tempo em que os críticos manifestavam seu desapreço por artistas de vanguarda com o apedrejamento. Mas no fim, Og conseguia ter Uli só para si, depois de ganhá-la em uma disputa de cabeçadas com Ur.
Claro que o público da época não estava preparado para essas manifestações violentas de amor entre criaturas resmungantes. E como a atração foi ao ar durante o verão, a moda de pele de leopardo em tiras não teve nenhuma chance de sucesso quando chegou às lojas.

Ilustração do Fernando de Almeida
Mais uma das colunas que faço para a revista Monet, sempre usando um subertfúgio para ressaltar o nome da seção, Histórias INVENTADAS da Televisão. Abs.
Todos conhecem esses programas que entrevistam ricos e famosos - mesmo que eles não sejam tão ricos ou nem um pouco famosos - em festas pelo Brasil. Mas nem todos ouviram falar de uma atração idêntica, só que tão firme em seus princípios sobre o gabarito dos entrevistados que não durou tempo suficiente para virar nota de rodapé no Livro de Ouro da Alta Sociedade Brasileira.
O esnobismo do programa “Gente Bem”, tão antigo quanto a gíria que o batizou, começava pelo apresentador: Johannes de Castro Von Gripp, o Arquiduque de Consommé, um dos únicos brasileiros (naturalizado, naturalmente) que podia dizer que gozava da intimidade de Jacqueline Kennedy sem ouvir piadas grosseiras de pessoas de baixo nível - até porque não conhecia nenhuma. Ele comandava o show com sua coleção de gravatas-borboleta Hermès e a língua ferina que o transformou em persona non grata em mais de uma roda de bridge.
A primeira edição foi um desastre. Em uma recepção na maison Guinle, o Arquiduque não quis entrevistar uma Matarazzo porque “não falava com novo rico”. A senhora ofendida tentou argumentar que a fortuna da família tinha mais de meio século, o que Von Gripp interpretou como uma piada - muito engraçada, a julgar pela gargalhada que deu na cara da pobre milionária. Levou uma taça de Chandon na cara e uma bola preta preventiva do Country Club, lugar que não pretendia mesmo frequentar (”os toilettes são imundos”, disse).
No segundo programa, perguntou para Danusa Leão se alpinismo social também dava cãimbras (levou um tapa), limpou seus óculos na barra da farda de um general da reserva e chamou o anfitrião de “famoso cafetão” (depois se corrigiu: “cafeicultor, eu sempre confundo”). Conseguiu sair vivo por intervenção de Carmen Mayrink Veiga, que gostava dele apesar do apelido que ganhou do apresentador, Máscara Mortuária.
O programa durou pouco. Suas finas grosserias divertiam o público, mas desagradavam gente poderosa com influência sobre os patrocinadores. Por fim acabou desagradando os patrocinadores ele mesmo, quando comentou que usava o refrigerante que bancava seu show para limpar o escapamento de seu Lamborghini.
O mais anti-social dos colunistas sociais morreu sem amigos, principalmente porque sua misantropia aguda era sintoma de uma síndrome do pânico que acabou por isolá-lo em seu apartamento na Vieira Souto. Recusou a visita de um padre na hora final (”estou prestes a encontrar o proprietário, não preciso falar com o caseiro”)
Minha coluna para a MONET de outubro que se chama, ATENÇÃO: Histórias INVENTADAS da Televisão. Dig it?
Todos sabem que reality shows como Big Brother Brasil e A Fazenda fazem muito sucesso, mas poucos devem lembrar que esse formato foi testado bem antes da virada do século - e foi um tremendo fracasso.
O programa “Gente como a gente” (Globo, 1981) tirou o nome do filme do Robert Redford que ganhou o Oscar daquele ano, e reunia pessoas em uma casa numa competição para ganhar um valor x corrigido diariamente pelos números da flutuante inflação daqueles dias. Mas era bem diferente do tipo de programa que as TVs de hoje exibem.
Para começar, os concorrentes tinham profissões normais, como advogado ou médico - não havia nenhum decorador de interiores de casa de cachorro ou personal DJs de motel como nas edições do Big Brother. As academias de ginástica ainda não eram o investimento mais sólido do mercado e o metrossexualismo não estava na moda, portanto os participantes do sexo masculino não se moviam tensionando todos os músculos e as mulheres não inventavam pretextos para se curvar até o chão ou andar de quatro - uma das principais explicações para os baixos índices de audiência.
É claro que rolavam brigas entre os candidatos graças às dificuldades naturais do convívio humano, mas como ainda havia alguma inocência em relação à melhor forma de competir, ninguém procurava a câmera para aumentar o efeito dramático da cena ou falava frases decoradas de livros de auto-ajuda no meio da discussão. O pessoal da edição tinha que ralar para encontrar cenas interessantes de baixaria.
Além disso, o sucateamento do ensino público ainda não tinha atingido o máximo de seu efeito devastador, o que levava os moradores da casa a travar conversas articuladas sobre vários temas, notoriamente um desastre em termos de ibope. Ainda levaria algum tempo para que a comunicação entre os seres chegasse ao nível de síntese de hoje, quando um “u-hu” basta para comentar a situação política nacional e fazer o assunto voltar para a vida pessoal dos concorrentes.
E, claro, havia a dificuldade de se completar uma ligação com o sistema de telefonia da época. Votar para tirar alguém da casa era quase tão difícil quanto votar para qualquer cargo público naqueles últimos anos da ditadura. O vencedor levou 26.054.698.783,85 cruzeiros, o equivalente a cinco mil dólares na época. Era a crise.
Mais uma coluna Histórias (Inventadas) da Televisão:
Muitos conhecem os rumores que acusavam Xuxa e suas ajudantes de palcode tratar crianças com violência nos primórdios do programa infantil que tornou a apresentadora famosa. Mas poucos lembram de uma atração que lidava rudemente com a meninada não apenas para manter a ordem noestúdio, mas por uma questão de formato.
“Lugar de Criança” (TV Record, 1984) era um programa educativo baseado em padrões antigos de formação de caráter que estavam saindo de moda para dar lugar à psicologia infantil, mais permissiva do que o modelo disciplinador que aterrorizava nossos avós. A apresentadora era uma mulher de cabelo preso em coque, tailleur e botas de montaria conhecida por Tia Auxiliadora. Era ela quem organizava as brincadeiras de palco, tais como “Arrumando o quarto”, “Modos à mesa” e “Se divertindo em silêncio”.
O programa até passava desenhos animados, todos importados do Leste Europeu e de temática construtivista. Todas as músicas da atração falavam sobre os benefícios da obediência e as terríveis consequências do desregramento. O maior sucesso da Tia Auxiliadora se chamava “Vara de marmelo” e a coreografia efetivamente envolvia o uso de uma - além de uma criança.
As competições entre meninos e meninas não tinham prêmio: quem se saía bem não estava fazendo mais do que a obrigação. Mas quem não conseguia completar alguma prova ou demonstrava inabilidade para cumprir as tarefas, levava a pior: pagava prendas que iam da humilhação pública (chapéu de burro, passar o resto do programa escrevendo “sou um inútil” em quadro negro no fundo do cenário) até o castigo físico (palmatória, ficar no canto ouvindo lições de espanhol em headphones).
Havia um quadro chamado “Mau Menino”, em que um juiz vestido de Papai Noel condenava crianças mal-comportadas a não receber presente de Natal por desobediência aos pais - que testemunhavam contra os filhos. Às vezes os delitos eram considerados muito graves e o pequeno delinquente pegava dois ou mais Natais consecutivos de punição. Nunca tantas crianças choraram ao vivo para o prazer mórbido dos telespectadores.
Telespectadores que, aliás, foram responsáveis pelo fim do “Lugar de criança”, quando migraram para programas que maltratavam as crianças mais sutilmente, através do estímulo a pulsões consumistas, músicas grudentas e repetitivas e outras formas de dominação das pequenas mentes em formação.
Ilustração: Fernando de Almeida
Minha coluna que saiu na edição de julho da Revista Monet, Histórias (Inventadas) da Televisão. Atentem para o “inventadas” entre parênteses.
Todos conhecem Silvio Santos e os programas populares que comandou desde que fundou o Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT. O que não se sabe é que o protótipo do primeiro desses programas não tinha nada de popular.
Tendo sido camelô - e uma rara exceção entre as vítimas da má distribuição de renda no Brasil a superar sua condição do excluído - Silvio Santos era muito sensível ao problema da educação e da mobilidade social. Quando finalmente pôde ter seu primeiro canal de televisão, chamou uma equipe de intelectuais e encomendou uma grade de programação dedicada a levar cultura para todos os brasileiros.
Tudo era pensado em função do valor didático/cognitivo. A sessão de cinema, por exemplo, foi batizada de “Cinefilia” e só passaria filmes europeus e japoneses - americanos, só se dirigidos por John Cassavettes e Andy Wahrol. Mas a pérola era mesmo o programa de auditório de Sílvio Santos, que seria conhecido como Domingo no Campus.
Seus quadros eram um primor. A atração que depois ficou conhecida como Roletrando se chamaria “Pró-mestrando”, e sua roleta sortearia prêmios como bolsas do CNPQ e viagens guiadas ao Observatório do Valongo. Nem queira saber que tipo de equações matemáticas cada equipe tinha que resolver no segmento “Passa ou engrossa os índices de repetência?”
O Troca-Letra também era um jogo para tentar descobrir palavras ocultas em um painel, mas com aquela complexidade das Palavras Cruzadas de jornal que só nossos avós conseguem matar - muito em parte porque foram testemunhas dos eventos históricos sobre os quais esses passatempos sempre perguntam.
Show de calouros? Sintam o júri: os maestros Arthur Moreira Lima e Rogério Duprat (para abarcar as vertentes clássica e experimentalista da música erudita) e o Professor Mascarado, que era o membro escalado para fazer as críticas negativas e levar os tomates da platéia - que, pasmem, era interpretado pelo maestro Isaac Karabtchevsky, fazendo a maior questão de participar. A máscara era só para driblar seu contrato de exclusividade com a Rede Globo.
O programa deu errado na primeira edição. Apesar de selecionados entre as melhores instituições de ensino, todos os candidatos fizeram feio: os calouros não sabiam ler partituras, ninguém acertou nenhuma pergunta, não descobriram nenhuma palavra escondida. Silvio percebeu que seria uma roubada financeira apostar na inteligência ou no sistema educacional brasileiro, e mudou um pouco sua estratégia de mercado.
Minha coluna para a revista Monet: Histórias (Inventadas) da Televisão.

Ilustração: Fernando de Almeida
Todos sabem que Jovem Guarda era um programa musical comandado por Roberto Carlos. Muitos também devem saber que Roberto tentou a sorte como cantor de bossa-nova antes de se decidir pelo rock romântico que o consagrou. Mas provavelmente ninguém sabe que o Rei teve uma fase intermediária dedicada a outro ritmo musical, e que a primeira versão do programa que dividia com Erasmo e Wanderléa seguiu essa onda.
No início dos anos sessenta, o gosto dos jovens era uma incógnita. Os Beatles estavam dominando as paradas internacionais, mas as novidades chegavam aqui com muito atraso e passavam por uma fase demorada de estranhamento - convenhamos, aqueles cortes de cabelo não ajudavam. Roberto Carlos tinha acabado de fracassar com seu primeiro disco e precisava encontrar um novo estilo que cativasse a juventude. Sua nova aposta: o bolero.
Parecia fazer sentido: depois de uma fase solar e ingênua com os barquinhos da Bossa Nova e as lambretas do rock ingênuo de Toni e Celly Campello, era natural um ciclo mais introspectivo, dark. Pelo menos nos Estados Unidos houve uma entressafra entre a primeira e segunda geração do rock’n'roll em que predominou a música folclórica, mais engajada e sombria e definitivamente menos hormonal. O Bolero pareceu a resposta latina a essa tendência de mercado.
Carlos Imperial, seu empresário, comprou a idéia e decidiu que deviam ter o respaldo de um programa de TV para lançar a tendência. Como não havia nenhum dessa espécie, resolveu inventá-lo. Batizou a atração de “Fossa Nova” e juntou os parceiros Roberto e Erasmo e mais a cantora adolescente Wanderléa para entoar canções de fracasso e desespero que, tinha certeza, iriam emplacar com a moçada. Para isso, pediu aos jovens compositores que fizessem uma música que fosse uma espécie de cartão de visitas do show.
Roberto e Erasmo puseram mãos à obra e escreveram uma canção de amor e suicídio chamada “O Calhambeque”. Era uma versão rudimentar do grande sucesso que fizeram mais tarde, só que com andamento mais deprimente e, bem, com um suicídio no final. Contava a história de um rapaz que pegava um calhambeque na oficina e ia encontrar sua amada, que, em um gesto tresloucado, se atirava debaixo das rodas do veículo. A música terminava com o narrador achando que o carro estava com um problema de alinhamento, sublinhando a pungência da narrativa.
O primeiro programa foi ao ar em 1963 e durou exatos dois minutos: quando Roberto Carlos terminou de apresentar a orquestra e pendurou o acordeão para tocar o primeiro acorde, a transmissão foi interrompida para anunciar o assassinato do presidente Kennedy. Como a cobertura jornalística continuou pelo resto do dia, remarcaram para a semana seguinte a estréia do musical.
Mas nunca houve outra edição. A emissora entendeu que a realidade mundial, com a guerra fria, mísseis em Cuba e assassinatos de presidentes já estava mórbida demais. Em seu lugar estreou o programa de variedades “Belezuras de biquini”, e a direção do canal sugeriu que Roberto Carlos e sua trupe voltassem quando tivessem alguma idéia para um programa mais animadinho.
Todo mundo sabe que Pelé marcou seu milésimo gol no dia 19 de novembro de 1969 e que, por uma feliz coincidência, o evento histórico se deu no Maracanã, então maior estádio do mundo e palco favorito do Rei do Futebol. O que ninguém sabe é que não foi exatamente uma coincidência.
A verdade é que as redes que detinham os direitos sobre a transmissão de jogos estavam determinadas a garantir que o gol do artilheiro do Santos saísse no Rio de Janeiro, não só porque os índices de audiência seriam maiores, mas porque os operadores de câmera concordavam que só a iluminação do Estádio Mário Filho iluminaria com propriedade a dimensão épica do momento.
Pelé marcou o gol número 998 no Recife, contra o Santa Cruz, pela Taça Brasil. Ainda faltavam dois jogos até a próxima partida no Maracanã, contra o Vasco, e tudo indicava que o Botafogo da Paraíba e o Bahia iriam afrouxar a marcação em cima do Rei para disputar o privilégio de sofrer o milésimo tento. O que demonstra o quanto o futebol era mais romântico naqueles tempos - ou que a tal Taça Brasil não valia absolutamente nada.
Uma estratégia de guerra foi montada no jogo contra o Botafogo-PR. Repórteres de campo receberam uma lista de apelidos que Pelé odiava para tentar irritá-lo durante suas investidas ao ataque. Não adiantou: Pelé marcou o gol 999 logo no primeiro tempo. Por sorte, o time adversário estava tão disposto a deixar o Rei fazer outro (em uma saída de bola o goleiro chegou a cobrar um tiro de meta em cima dele pra ver se a rebatida entrava) que o craque decidiu não manchar o gol mil com a suspeita de fraude. No segundo tempo, o goleiro santista simulou uma contusão e Pelé foi defender a meta em seu lugar. (Sério. Pode procurar no Google).
No jogo contra o Bahia, tudo de novo. Estrategicamente posicionados na arquibancada, funcionários da TV Soteropolitana usaram espelhos para refletir o sol no rosto de Pelé. Fotógrafos disparavam flashs toda vez que o camisa 10 do Santos se aproximava da linha de fundo - recurso ainda mais enervante porque a partida foi disputada de dia. De qualquer maneira, as câmeras não tinham filme.
Mesmo assim, não foi possível parar o Atleta do Século em um lance. Aos 26 minutos do segundo tempo, Pelé recebeu a bola, driblou o goleiro e chutou contra o gol aberto. A bandinha contratada pela diretoria do Bahia chegou a erguer o naipe de metais para tocar “A copa do mundo é nossa”, mas o zagueiro Nildo tirou em cima da linha, proeza que foi premiada com uma tremenda vaia de sua própria torcida e a demissão do jogador no dia seguinte. (De novo, sério. Google.com).
E assim Pelé pôde fazer o gol mil diante de 70.000 pagantes. E aquele pênalti, não sei não.
Minha coluna para a revista Monet do mês passado, Histórias (Inventadas) da Televisão.

Ilustração: Fernando de Almeida
Muitos se lembram, ou ouviram falar, da Miss Brasil Martha Rocha e de seu vice-campeonato no concurso de Miss Universo, em 1954, evento que mobilizava emissoras do mundo inteiro. Mas ninguém conhece a história por trás da decisão dos jurados de negar o merecido primeiro lugar ao Brasil.
A desculpa oficial para a derrota também é conhecida. A brasileira teria perdido por ter duas indesejáveis polegadas a mais - balela que rendeu até marchinha de carnaval (”por duas polegadas a mais nos quadris / tenha dó seu juiz”) - embora tenha sempre sustentado que ninguém da produção do concurso tirou suas medidas ou explicou porque centimentragem das ancas era critério de desempate. Hoje em dia, com o advento da Mulher Melancia, parece até mais surreal.
Esse verdadeiro Marcanazzo da celulite calou fundo na alma brasileira, mas a verdade é que os motivos tinham menos a ver com estética e mais com razões de Estado. Vejamos.
Para começar, havia a ameaça comunista pairando, e desde o fim da segunda guerra mundial o governo americano adotava uma política de boa vizinhança para parecer para o resto do mundo que era a facção gente boa da guerra fria. A premiação de Miss Universo obedecia a um complicado sistema de rodízio para agradar países sob risco de revolução socialista, e em 54 a prioridade era da Colômbia - se a miss deles não fosse feia de doer. Como sempre acontecia em edições em que era impossível premiar a nação com situação política mais turbulenta, deram o cetro para a Miss América mesmo. Também é preciso lembrar que os Estados Unidos viviam o auge do Marcathismo, e pela ótica distorcida do Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, eram um país em vias de adotar o comunismo.
Havia também a questão da inclinação ideológica da nossa representante. No questionário preparado pela CIA e que os membros do júri chamavam com falsa inocência de “Teste de conhecimentos gerais”, Martha Rocha respondeu que sua cor predileta era rosa, seu livro de cabeceira Pollyana e que seu maior desejo era “a paz mundial”. Podem parecer respostas banais, mas o cruzamento dessas informações pelo processador IBM da Inteligência Americana apontou uma “simpatia residual à utopismos exóticos”.
No fim das contas foi bom para Martha Rocha: voltou pro Brasil com status de musa martirizada, virou garota-propaganda do surto desenvolvimentista e sobreviveu ao Macarthismo e à guerra fria - e para testemunhar o surgimento da Mulher Melancia.
Mais uma coluna Histórias (INVENTADAS) da Televisão para a Monet - tem dia melhor para postar aqui do que um primeiro de abril?

Ilustração Fernando de Almeida.
Todos sabem como a cobertura televisiva da Guerra do Vietnã foi fundamental para o fim da mesma: as imagens chamaram a atenção para o absurdo do conflito e transformaram os correspondentes de guerra em heróis. Mas poucos conhecem o episódio do repórter brasileiro que foi na contramão da História e forjou todas as suas matérias, de uma distância segura do alcance das bombas de napalm.
Oriovaldo Canela era correspondente da TV Record em Paris em 1967. Maio de 68 ainda estava adiante na curva, e seu trabalho consistia basicamente em cobrir as novas modas e a nudez eventual de Brigitte Bardot em prol da ecologia. Mas essa rotina de champagne e croissant acabou quando a emissora decidiu transferí-lo para o Vietnã quando a guerra engrossou.
Era uma medida de economia, já que Oriovaldo era o jornalista da Record mais próximo da zona de conflito e porque imaginavam que em um país subdesenvolvido, sem Maxim’s e Chanel, ele não teria como manter a mesma média de dois mil dólares em despesas extras. Mas o correspondente não deixou Paris sem resistência.
Confessadamente covarde, Oriovaldo tentou fugir da tarefa alegando que tinha alergia a mosquito e baixa resistência a climas úmidos. Mas a emissora insistiu. Foi aí que bolou seu plano de fuga perfeito. Com a cumplicidade do câmera Marcelo Figueirinha, pegou o primeiro avião para Aruba e passou a transmitir de lá como se na guerra estivesse.
Usando como fundo as palmeiras do deslumbrante paraíso caribenho, Oriovaldo falava ao microfone em um tom grave para dar os números de baixas no exército americano e vietnamita, recebidos por telex em sua suíte presidencial no Hotel Ambassadour. Alguma edição tosca com material de documentários e filmes de guerra foi necessária para parecer que o Oriovaldo testemunhava uma carnificina nas reportagens que enviava para o Brasil.
Certa vez tropeçou durante uma festa em uma boate local e teve que fazer um curativo na testa. Para dar dramaticidade, disse para o pessoal da emissora que tinha sido atingido por um estilhaço de granada, mas que não iria contar isso para os telespectadores para não parecer que estava “querendo tirar partido da situação trágica no Vietnã do Norte”. Mas é claro que as imagens do repórter com a cabeça enfaixada geraram especulações sobre o risco que estava correndo em lugar tão perigoso. Cogitaram seu nome para uma futura condecoração por bravura.
A farsa foi descoberta quando Figueirinha, por descuido, filmou (e não apagou na edição) um guarda-sol, no fundo de cena de uma matéria que em tese se passava em Khe Sahn. E também porque as despesas extras de Oriovaldo triplicaram.
Mais uma coluna d’O Colunista, meu personagem não mais anônimo na Monet.
Mundo cão animal
Estou nesse ramo desde antes da extinção de muitas espécies que agora só podem ser apreciadas em simpósios de paleontologia, e posso afirmar que esses programas de observação da vida selvagem atuais não são páreo para os pioneiros, quando havia risco real para a saúde dos apresentadores. Hoje não há mais aventura de verdade, nem amputações.
Parece que a mentalidade antibelicista e permissiva que começou com os hippies se estendeu aos programas sobre a natureza. Tudo que eles mostram hoje em dia são bichos em estado de cópula, que a TV do meu tempo evitava apresentar em consideração às crianças na sala e à estética, porque convenhamos, falta sensualidade a esse bando de animais. Bons os tempos em que o foco eram os massacres diários que são inerentes à estrutura da cadeia alimentar. Ajudava a moldar o caráter da juventude e a preparava para a vida profissional nas repartições.
Parece que as novas gerações são muito afeitas aos bichinhos e vacilam diante de um bom bife, com medo de uma crendice científica chamada enzimas - e como se os outros animais carnívoros tivessem os mesmos pudores se nos encurralassem na selva. Anotem o que digo: o Mal do próximo século será a anemia.
Mais uma coluna “Histórias (Inventadas) da TV” para a revista Monet:

Ilustração: Fernando de Almeida
Alguns se lembram do Teatrinho Troll, programa da TV Tupi em que o ator recém-falecido Fábio Sabag dirigia peças infantis com grande elenco - mas ninguém sabe sobre os bastidores do fim da série em 1966. Pudera: o episódio do Teatrinho que provocou o cancelamento nunca foi transmitido, proibido pelo governo militar.
Pode parecer estranho que um programa conhecido por apresentar fábulas de Esopo com atores vestidos de bichinho tenha sofrido alguma sanção da ditadura. Mas a verdade é que os roteiristas desse episódio específico (Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri) resolveram escrever o texto de oposição mais radical jamais encenado no Brasil, e tentaram usar o show para crianças para burlar a Censura Federal.
Os dois escritores eram visados por militarem no teatro de esquerda e sentiam que não tinham espaço para dizer o que realmente pensavam sobre o governo e a falta de pescoço do presidente Castelo Branco. Com dificuldade para trabalhar sem atrair a atenção dos censores, resolveram aceitar o convite para escrever para o Teatrinho. Foi quando tiveram a idéia de usar as habituais bruxinhas, coelhinhos e fadinhas para mandar uma mensagem para Brasília.
Primeiro pensaram em adaptar para a gurizada alguma peça para adultos que servisse como metáfora da situação política. Chegaram a cogitar Édipo Rei - Laio seria o Rei mau, Édipo o Principezinho Herdeiro, etc - mas acharam que talvez os pais encrencassem com o incesto e tal. Decidiram por um texto original: “A longa noite dos anos de chumbo do Reino Encantado da Belíndia”.
Em Belíndia, o Rei era um sapo (uma menção não muito sutil à tal falta de pescoço, representado por um Lúcio Mauro quase sem maquiagem) que usurpou o trono graças ao apoio de um bando de gorilas. O sistema pluripartidário foi substitúido por outro com apenas dois grupos políticos: as antas (situação) e os patos (oposição). A democracia em falta no Brasil era simbolizada por um anel mágico presa no rabo de um boi vestido de mulher e exilado no Reino de Uruguaiana, representação dramática bastante grosseira de Leonel Brizola.
A trama girava em torno da saga dos patos atrás do anel, e das cisões no grupo entre os que achavam que tinham que conquistar o artefato na base da bicada (menção óbvia à luta armada) ou através da conscientização do resto do mundo animal. Em uma cena, Tarcísio Meira, caracterizado de pato-líder radical, tentava demover os outros da idéia de apelar para a diplomacia: “É tudo um bando de mula alienada! O lance é meter os peitos!”
Não admira que o show não tenha passado pelo órgão de controle da programação, e que a emissora tenha cancelado o Teatrinho Troll com medo de represálias. Mas eram tempos menos sombrios que os que viriam depois da promulgação do AI-5, em 1968. No parecer sobre o episódio, o censor escreveu apenas uma pequena nota: “Boa tentativa”.

Desde que comecei na MONET faço anonimanente uma minicoluna chamada, duh, O Colunista. É uma encomenda do Ricardo Alexandre, que editava a revista quando comecei a escrever lá - o personagem é um velho que já viu dias mais gloriosos na TV brasileira e fica comparando sua época com a atual. Todas as colunas têm sempre a mesma abertura: “Estou nesse ramo desde que…”. Achei que o sigilo só faz sentido por lá, e o Luís Alberto, o novo editor, concordou. Portanto aí estão todos os textos que saíram.
Quem pediu sua opinião?
Estou nesse ramo desde que a Hebe Camargo apresentava programa infantil e posso afirmar de cátedra que televisão não era essa moleza de hoje em dia, em que qualquer salta-pocinhas com uma câmera se acha diretor e qualquer coisa filmada é digna de entrar na grade. E, principalmente: naquela época botavam os telespectadores em seu devido lugar.
Antigamente o público não se criava não. Tinha 5 horas de programa do Amaral Netto sobre a pororoca da Amazônia e se você, telespectador mimado, quisesse assistir outra coisa, que mudasse de canal - que eram só mais dois e um deles transmitia 24 horas diárias de Santa Missa em seu Lar. Hoje perguntam que filme a audiência quer assistir, deixam escolher quem vai morrer na novela, e pior: qual vagabunda de reality show vai sair pelada. Pesquisa de opinião, vê se na época da UDN tinha isso.
E agora a audiência também filma! E nem com câmeras de verdade, daquelas que pesavam algumas toneladas e eram multifuncionais, podiam servir de guindaste ou disparar pequenos mísseis, mas com telefone celular, que nem precisa de treinamento militar para manusear. Daqui a pouco vão faltar pessoas para efetivamente assistir os programas, já que vai estar todo mundo empregado pelas emissoras - que não demoram muito estão sorteando cadeiras nas reuniões da diretoria. Interatividade, bah: nos bons tempos, isso era senha pra pouca-vergonha.
Mais entediante que a ficção
Estou nesse ramo desde antes do primeiro divórcio do Chico Anysio e posso dizer que antigamente o critério era mais rigoroso no que diz respeito a pessoas que podem aparecer na TV. Vejam o nome dos programas do passado: Almoço com as estrelas! Café da manhã com os astros! Se fosse para filmar alguma atividade trivial, que fosse com alguma personalidade de destaque. Hoje o café da manhã é com os zés-ninguém.
Dizem que os reality shows são uma experiência antropológica válida. Concordo, se você tem uma curiosidade científica em saber como se sente um porteiro de prédio olhando o circuito interno. Parece que agora existe um interesse geral por gente com subemprego: mecânicos, tatuadores, babás, roqueiros velhos… também fazem sucesso pessoas com mau-gosto que precisam de ajuda para redecorar a casa, escolher vinho e se vestir.
E tem o supra-sumo dos documentários sobre pessoas com vocação para o anonimato: o Big Brother. Observar a interação dos seres humanos não é muito mais cativante do que acompanhar o ciclo reprodutivo dos lepidópteros no Animal Channel. E na verdade a diferença entre os Big Brothers e os ratos de laboratório é que os últimos são úteis para a sociedade. Nunca entendi muito bem todo esse envolvimento dos telespectadores e a mobilização para votar no analfabeto menos irritante. Se ao menos tivesse também um prêmio em dinheiro para quem assiste…
Palpite, palpite / nasceu no crânio de quem teve meningite*
Estou nesse ramo desde quando a Fernanda Montenegro não tinha idade nem para ser Daminha de Honra do Teatro e posso dizer que, embora programas de debates sempre tenham existido, hoje em dia parece não haver outra coisa na grade além de livre-pensadores (ênfase no “livre”) batendo concurso para saber quem é mais espertinho. Chega, a atmosfera precisa de mais gases poluentes do que de opiniões.
Talvez quando as mesas eram compostas por gente como Otto Lara Resende, Nelson Rodrigues e outros que infelizmente já viraram verbetes da Encyclopaedia Britannica, valesse a espera por alguma frase de efeito ou mesmo uma citação em latim, então língua corrente. Mas vamos convir que no presente falta material humano, e peças de reposição. Os assuntos também não são lá essa Segunda Guerra Mundial toda. Carla Bruni? Saudades da Eleonora Roosevelt.
É verdade que houve progressos: no meu tempo só se ouvia opinião feminina no programa “A cozinha maravilhosa de Ofélia” e se limitava a “está tostado” ou “muito sal”, mas agora parece que qualquer estagiária de jornalismo ganha automaticamente status de formadora de opinião. E o pior são os programas de aconselhamento, que sugerem coisas óbvias para uma platéia que a) subestimam ou b) conhecem muito bem. De qualquer forma, se conselho fosse bom ninguém dava de graça, como rezava um velho ditado e a lei da oferta e da procura.
* - daquele menino Noel Rosa
A alma do negócio
Estou nesse ramo desde que o Washington Olivetto era apenas uma encomenda no departamento de criação da mãe dele, e posso afirmar que, em comparação com os reclames ao vivo da TV antiga, esses canais modernos de televendas são coisa de amador. Hoje a os comerciais são desprovidos do drama, do suspense e até do terror dos tempos em que uma batedeira pesava como uma bomba de fragmentação e um curto-circuito em sua fiação podia causar um estrago ainda maior.
Antes do videotape tudo era impreterivelmente ao vivo, e os apresentadores tinham que ter sangue-frio para fazer demonstrações de eletrodomésticos que ainda estavam em fase de testes, como o descascador de jaca e o aspirador de pó, recém-criado a partir de um protótipo de dimensões um pouco menores e com um pouco menos potência que uma turbina de avião. Isso sem contar com a degustação de produtos alimentícios antes da invenção da assepsia e das técnicas modernas de lavagem estomacal. Aquele japonês do Shoptime nem deve desconfiar que seus antecessores tinham que ter o mesmo espírito kamikaze dos seus antepassados.
Hoje os produtos continuam letais (carros, celulares, vibradores) e fazendo vítimas fatais entre os clientes, mas pelo menos os apresentadores não correm risco de aparecer ao vivo sofrendo as consequências do consumismo desenfreado - é só editar a cena e substituir o sujeito. E celulares podem até causar câncer e justificar espancamentos no cinema, mas pelo menos são leves e cabem no bolso, reduzindo os riscos para a saúde do usuário à impotência sexual tão somente.
Futebol arte-moderna
Estou nesse ramo desde antes do Milton Neves escolher seu time e posso afirmar que não é apenas a safra de jogadores de futebol de hoje em dia que é ruim, mas também a de comentaristas esportivos. Talvez panoramas desoladores no que diz respeito ao talento necessitem do estudo de gente com conhecimento de causa, mas de qualquer forma o quadro inspira cuidados.
Apesar do auxílio da transmissão em tempo real, do videotape e do tira-teima, os repórteres de esporte preferem se ater apenas à sua especialidade, que é o óbvio. Os comentários durante as partidas atuais lembram a narração em filmes da época da invenção do cinema sonoro, em que se comentava em off o que efetivamente já estávamos vendo na tela. Onde estão os profetas do futebol? Falta a visão de jogo de um João Saldanha, que se arriscava em previsões que nem sempre davam certo, mas mesmo nesses casos o jornalista emergia das cinzas do seu palpite furado com uma aura de coragem maluca, praticamente suicida.
Nelson Rodrigues disse certa vez que o Fla X Flu começou 45 minutos antes do nada, e é exatamente essa impressão que me passam as mesas redondas de hoje - intermináveis e com o nada cumprindo importante função, no centro do debate. Antigamente, pela precariedade das imagens, não havia muito o que comentar, então a mentira tinha papel importante para colorir inclusive peladas para cumprir tabela terminadas em zero a zero. Hoje, falta imaginação e sobram imagens de arquivo - de gente como Jaílton, Vágner Love e Finazzi. Garrincha deve estar dando cambalhotas no túmulo.
Aleluia, Gretchen
Estou nesse ramo desde que a TV transmitia o Dom Hélder rezando missas em latim, então língua corrente, e posso afirmar que esses programas religiosos de hoje em dia matam todo o mistério necessário para manter o charme das religiões em si. A missa em latim mesmo era uma prova de que não é necessário nem entender os sermões para temer a Ira Divina, ou amar o próximo como Ele (ou algum Outro, em caso de seita exótica) nos amou.
É verdade que no passado só havia um programa do gênero, “Santa Missa em seu lar”, ainda é exibido na TV aberta em versão reduzida. Mas naquela época sua transmissão diária era obrigatória em todos os canais e a coisa durava o tempo de um programa de auditório médio. Hoje, a audiência é pulverizada pela necessidade da segmentação, e além de mais opções de programas de cunho religioso, efetivamente existem mais religiões para justificar cada um deles - o que pode satisfazer o telespectador como consumidor, mas confundí-lo como devoto.
Antes os televangelistas só contavam com a oratória, e os padrecos diziam no gogó. Agora há o auxílio de dramatizações, gráficos, ajudantes de palco de biquíni. Os intervalos comerciais entre os discursos ameaçando os fiéis também reduziu o impacto da mensagem, e o desenvolvimento de novas tecnologias também eclipsou o trabalho dos pregadores - ficou mais difícil de dizer o que é milagre e o que é efeito especial.
Parada de relativo sucesso
Estou nesse ramo desde antes do Roberto Carlos ter licença para dirigir O Calhembeque e posso afirmar que os programas de parada de sucesso de antigamente é que eram bons. Para começar, não tinha essa segmentação de mercado de hoje, em que um artista pode ser famoso para um determinado público consumidor e um completo desconhecido para outro. Naqueles tempos não existia a expressão “sucesso relativo” - ou você estava toda semana no Almoço com as Estrelas ou você estava tocando música de strip-tease em algum inferninho imundo.
Quando surgia um cantor que você não reconhecesse imediatamente na TV, sabia que era um novato em ascensão ou o Cauby Peixoto com uma nova plástica. Agora não se reconhece mais ninguém e quando você finalmente decora um nome, o sujeito já está recebendo a aposentadoria.
Hoje os músicos fazem mais discos do que escovam os dentes, até porque alguns relaxam na assepsia bucal, e é difícil escalar uma parada maiores sucessos. Existe uma teoria que defende a idéia de que se inventarem mais uma subcategoria para o Grammy a barreira do espaço-tempo será quebrada e o mundo mergulhará no caos cronológico. Talvez isso já tenha inclusive acontecido e o revival dos anos 80 seja uma prova.
Comentários infelizes
Estou nesse ramo desde antes de o Jânio Quadros ter idade para beber - o que não era de maneira alguma fator de impedimento - e posso dizer que os comentaristas políticos de hoje não teriam permissão para dar palpite nem em uma reunião de condomínio nos anos de Pinheiro Machado, Getúlio, JK e outros políticos mortos por causas não-naturais. Sim, é verdade que os políticos de hoje também não merecem coisa melhor, mas isso não é desculpa para o corte de cabelo da Míriam Leitão.
Hoje, com o interesse exagerado em aspectos periféricos da vida política é difícil distinguir o que pode servir de pauta para quem cobre Brasília e o que devia ser aproveitado pela produção da Ana Maria Braga. É só lembrar que uma mulher sambando no plenário durante a crise ética do governo Lula causou mais comoção do que a absolvição injusta que ela estava comemorando. O que serve para ilustrar como o brasileiro perdeu suas referências morais e uma verdade universal: gorda não pode fazer nada.
É claro que o contexto hoje é bem mais desinteressante, sem uma ditadura, conspiração golpista em curso ou um mísero estadinho de sítio. Estou esperando o dia em que os telejornais juntarão na grade a previsão do tempo com a resenha política, para que os comentaristas tenham algum assunto que valha a pena debater.
Miss Evasão Escolar 2009
Estou neste ramo desde que a Marta Rocha fazia anúncio de fraldas (como modelo) e posso afirmar que os concursos de beleza na televisão de hoje perdem em todos os quesitos para os de antigamente - inclusive em sensualidade, apesar de naquela época o desfile em trajes de banho subentender o uso obrigatório de escafandro.
Nas novas eleições de mulher mais bonita o critério de desempate continua sendo a habilidade para caminhar na passarela de salto alto, mas no passado era mais difícil: não se contava com o auxílio das mãos. Quem passa dificuldade atualmente são os jurados que precisam escolher a garota com o melhor figurino - para distinguir algum…
Hoje admiramos mais o trabalho dos cirurgiões plásticos do que a beleza natural que sobra no corpo das concorrentes. E pelo resultado dos testes de conhecimento geral ainda aplicados nos concursos de Miss, parece que a única parte original de fábrica nas meninas é o cérebro, infelizmente.
Se vira nos 00
Estou nesse ramo desde que o Silvio Santos apresentava sarau de colégio e posso afirmar com convicção que os programas de calouros das TVs de antigamente eram bem mais interessantes que os de hoje. Tanto é que muitos deles tinham nomes como “Novos Talentos”, “Nasce uma estrela” ou similares, e hoje um dos mais populares se chama “Se vira nos trinta”, como se a produção não quisesse se comprometer.
Apesar das notas musicais serem as mesmas há séculos (pelo menos nos que testemunhei), os parâmetros que definem o quanto o ser humano pode aguentar de desafinação parecem ter mudado. Atualmente é difícil saber quem é calouro e quem é profissional no ramo da música, ea melhor maneira para se distinguir os novatos dos consagrados é checar o sobrenome - se tiver pai famoso, é provavelmente consagrado.
É mesmo complicado esperar que concorrentes de programas de calouros do presente consigam acertar o tom das canções de Dolores Duran e Cole Porter como nos concursos do passado, mas seria de bom tom que fossem impedidos de defender músicas com menos de três frases. Outro dia assisti a performance de uma certa Mulher-Cupuaçu em que nem ao menos deram um microfone para a pobre menina - que de tão tímida, se apresentou de costas. Assim fica impossível o trabalho dos jurados.
Minha coluna para a Monet, municipalmente conhecida como Histórias (Inventadas) da Televisão.

Ilustração de Fernando de Almeida, visitem o site dele JÁ.
Todos sabem que a primeira transmissão via satélite da TV mundial mostrou os Beatles tocando All you need is love. Mas poucos lembram qual foi a primeira transmissão via satélite a partir do Brasil: uma tentativa de repetir a façanha dos rapazes de Liverpool com um time de ídolos da música nacional. Marx disse que a História se repete como farsa, mas o cara não conheceu o star system brasileiro: aqui a História se repetiu como drama e pastelão.
Primeiro, houve conflito quanto a escolha do nome dos envolvidos no projeto. O ano era 1969, uma época de polarização e piadinhas de duplo sentido, e não era possível convidar para a mesma mesa de mixagem determinadas figurinhas da MPB. Por exemplo, Tom Zé tinha acabado de publicar na revista de polêmica e discórdia Digressão o artigo “NaziTropicalismo”, em que rompia com o grupo baiano e pedia dinheiro emprestado para João Gilberto.
Curiosamente Caetano Veloso, o porta-voz do Estado-Maior baiano, não vetou Tom Zé na gravação (”Tom transcende, Tom procede”), mas Geraldo Vandré, que estava mesmo no exílio e nem soube do projeto. O grupo formou com Caetano, Gil, Tom Zé, Chico Buarque, Elis Regina, Juca Chaves, Jararaca e Ratinho. A dupla caipira foi chamada para evitar acusações de elitismo e do projeto não respeitar as raízes da música brasileira, mas os dois só tocaram chocalho na transmissão.
Aliás, esse foi um dos problemas enfrentados pela produção: a oposição dos tradicionalistas, que achavam um absurdo que uma banda de primeiro time do Brasil se sujeitasse a tocar um rock inglês, ainda mais um com tão poucos acordes (praticamente Sol, lá com sétima, ré com sétima). A solução foi a versão em português que Caetano compôs, intitulada “Tudo que você precisa é de amor” e subintitulada “…e um pouco de compreensão humana, peixe com coco, fitinha do Bonfim, cuca legal e pelo menos um disco do Caymmi, aquele que tem um pescador de chapeuzinho na capa”.
Mas a versão na língua pátria acabou causando transtornos também. Na véspera da transmissão, no programa Flávio Cavalcanti, o infame apresentador tocou a música ao contrário durante o quadro “Qual é a mensagem satânica?”, em que chamava especialistas para descobrir recados do demo escondidos nos discos. Um filólogo disse que o som embaralhado que saiu das caixas de som se assemelhava a “Entrem para a luta armada” em úmbrio arcaico, mas foi questionado por um advogado convidado sobre a utilidade de se usar uma língua morta para passar ordens do capeta.
A transmissão em si decorreu sem maiores transtornos, apesar de Tom Zé ter tocado nu, com um funil nas partes pudendas, em protesto contra o fato de Caetano ter sido paternal com ele.
Minha coluna “Histórias (Inventadas) da Televisão” para a MONET do mês passado. Enjoy.

Ilustração: Fernando de Almeida
Todo mundo na época (1981) acompanhou o casamento do Príncipe Charles com Diana Spencer e lembra que a transmissão durou quase um dia inteiro. Foi provavelmente a tomada mais lenta de uma carruagem percorrendo um trajeto curto desde os filmes de época da nouvelle vague. Mas o que poucos sabem foi o trabalho que deu às equipes de TV da época para evitar mostrar uma série de acontecimentos bizarros, portanto típicos de um casamento.
O atraso de praxe da noiva, por exemplo, aconteceu porque até a última hora os advogados de Diana negociavam cláusulas do acordo pré-nupcial, que estabelecia limites para o uso de fixador no cabelo de Charles e proibia terminantemente que o herdeiro do trono levasse para a banheira sua coleção de barquinhos em homenagem à Frota Real Inglesa. Mas apesar das câmeras terem flagrado a princesa assinando os últimos papéis já na escadaria de sua casa, indo em direção ao coche, uma ordem disparada pelo Palácio de Buckingham fez com que os telejornais descrevessem aqueles homens de terno e pastas 007 como “caçadores de autógrafo”.
Na hora da tradicional e simbólica pergunta do padre “se alguém tiver algo contra essa união, que fale agora ou se cale para sempre”, foi necessário desligar a câmera 23, que captou Camila Parker Bowles, a namorada horrorosa preterida por Charles (por pressão da família e não por bom senso, infelizmente) se levantando para mostrar uma carta em que o Príncipe, naquela época ainda tímido em suas declarações para a baranga, dizia “quero ser o seu descongestionante nasal”.
Mas as emissoras de TV mostraram com ênfase sua retirada da catedral de St. Paul, depois de, fora do alcance das câmeras, ter recebido um golpe de clava de um agente da Scotland Yard. Todos os comentaristas de casamento (na Inglaterra um cargo de importância, graças aos tablóides) falaram sobre o desmaio de uma fã emocionada do casal - mas o enviado especial da Rede Globo, Clóvis Bornay, por dentro dos babados, soltou um “cala-te boca” no ar seguido de risinhos abafados.
Durante os cumprimentos, um cavalariço que tinha conseguido se passar por Conde (na era Tatcher os títulos de nobreza tinham barateado e era difícil distinguir uma falsificação) beijou demoradamente a Princesa na boca. Não foi possível evitar a filmagem da cena, mas Charles pensou rápido e também beijou o cavalariço, inclusive inclinando o sujeito à maneira dos apaixonados. O narrador oficial da cerimônia disse que se tratava de um costume do condado e todo mundo caiu nessa. Mais tarde esse trecho da gravação foi confiscado a pedido da Família Real.
Ninguém sabe, mas pelos bons serviços prestados, o diretor de jornalismo da BBC que coordenou a cobertura do evento foi condecorado pela Rainha com a Ordem Secreta do Sigilo Colaboracionista, a honra máxima que pode aspirar um profissional chapa-branca da imprensa.
Mais uma coluna - atenção para o nome, explica a coisa toda - Histórias (Inventadas) da Televisão, que sai na última da revista MONET.
Quando Fernando Collor de Melo ganhou a eleição em 1989 muitos estranharam que um sujeito evidentemente perturbado tivesse iludido 33 milhões de eleitores. Também várias pessoas até hoje tentam entender como a novela “Carrossel” conseguiu audiência considerável quando foi exibida pelo SBT. Mas o que ninguém sabe é que a explicação desses dois fenômenos é a mesma: mensagens subliminares.
Ninguém, a não ser talvez adeptos de teorias da conspiração, leva a sério o tema. Mas as mensagens subliminares existem, têm um importante papel na história da TV brasileira e explicam muita coisa. A passividade do brasileiro, por exemplo: durante a última entrevista coletiva com o Dunga para definir a escalação da seleção brasileira, os televisores exibiram em intervalos regulares de microsegundos - imperceptíveis para o olho humano, mas registráveis pelo cérebro - a legenda “CALMA”. E, eventualmente, o conselho “NÃO FAÇA NADA DE QUE POSSA SE ARREPENDER DEPOIS”.
Se em 1964 ninguém pegou em armas para tentar impedir o golpe militar em curso foi porque - entre outras particularidades da conjuntura nacional - programas de TV favoráveis ao levante, como o de Hebe Camargo, Flávio Cavalcanti e do Palhaço Carequinha fizeram passar o letreiro piscante “JÁ ERA, COMUNAS” durante suas transmissões. Muitos militantes de esquerda e simpatizantes do governo João Goulart lembram de uma leve sensação de desânimo e da perda temporária de suas convicções políticas. Quando se recuperaram do torpor, a TV já exibia a leitura do Ato Institucional número 2 (acompanhado da mensagem nas entrelinhas “É ISSO AÍ MESMO”) e era melhor correr e se esconder.
E há vários outros exemplos da interferência do tubo catódico no curso da História. Por exemplo, muitos recordam um certo sentimento de esperança idiotizada na época da eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. A explicação está no vencimento da concessão dos militares para governar o Brasil junto às redes de televisão, que repassaram o direito de exploração de imagem para a Frente Liberal, coligação dos partidos de oposição com os dissidentes dos partidos da situação. A legenda mais exibida na época nos aparelhos televisores era “ESPERANÇA”, daí a crença desmedida em tudo, inclusive na versão de que a doença do presidente recém-eleito era uma bobaginha qualquer no divertículo de Merkel.
Sobrou esperança infundada até para o governo Sarney. Lembrar que um dos slogans da época era “EU ACREDITO NA NOVA REPÚBLICA”, e nem era mensagem subliminar nem nada.
Mais uma coluna Histórias (Inventadas) da Televisão para a revista Monet.
Todo mundo já viu as imagens do Homem na Lua, e muitos sabem das pessoas que não acreditam até hoje que elas são de verdade - teriam sido forjadas pela a) CIA b) Ditadura Militar c) Rede Globo. Mas o que ninguém sabe é que a alternativa c) é quase correta.
A transmissão via satélite era uma novidade recente (o primeiro evento testemunhado simultaneamente pelo planeta tinha sido uma apresentação dos Beatles antes da ação deletéria da Yoko Ono) e sujeita a falhas. Havia um delay entre as imagens recebidas do espaço pela Nasa (e por países com sistemas de captação de sinal mais avançados) e localidades com tecnologia incipiente na área. A transmissão chegava com um pouco de atraso para, por exemplo, a América Latina.
O sinal caiu logo depois que os telespectadores do hemisfério norte viram Neil Armstrong, primeiro homem a chegar a superfície da Lua, fazer uma embaixadinha com um rochedo e chamar os comerciais. As emissoras que não receberam o vídeo da alunissagem entraram em pânico: havia o risco da transmissão só ser reestabelecida depois que os astronautas estivessem de malas prontas, voltando para a Terra. O problema chegou até o principal responsável pelo marketing do programa espacial americano, o coronel Thomas T. Disturbing, que fazia questão que a vitória dos EUA sobre a União Soviética repercutisse o máximo possível.
O coronel Disturbing convocou em caráter extraordinário uma comissão de diretores de emissoras que não receberam o sinal, e deixou claro que seria fundamental que exibissem alguma espécie de transmissão falsa, até que o videotape com a filmagem do sucesso da missão chegasse. Não importa que a farsa destoasse muito da coisa real - contava com a falta de videocassetes e do Youtube para que o público esquecesse que testemunhou ao vivo um evento completamente diferente do que o Cid Moreira iria apresentar mais tarde, no Jornal Nacional.
Os diretores reunidos chegaram a pensar em simplesmente filmar a imagem estática de um cartaz promocional do filme “As areias de Iwo Jima”, com a reprodução da famosa foto de soldados americanos fincando sua bandeira no atol japonês, mas as pessoas estranhariam a falta de trajes especiais e a presença do John Wayne. A solução encontrada pela força-tarefa foi reencenar a descida dos tripulantes da Apolo 11 nos estúdios da Rede Globo, mais bem aparelhada para o trabalho.
O cenário usado foi o set abandonado de “Areias Escaldantes”, novela de Janete Clair sobre touradas. Só precisaram livrar a falsa Plaza de Toros da arquibancada cenográfica e da rede de vôlei que os funcionários do estúdio deixaram ali para relaxar entre as gravações. O módulo lunar (a cápsula em que viajavam os astronautas) foi improvisado a partir de uma câmera de TV desativada - as da época tinham o mesmo tamanho. Já a bandeira americana que seria cravada no novo território conquistado foi emprestada por um manifestante da UNE que a estava guardando para queimar depois.
E ninguém sabe, mas o homem que fez o papel de Neil Armstrong foi o comediante Tutuca. O diretor de elenco Malvino Worthsales deu graças a Deus pelo visor em vidro fumê do capacete espacial - o uniforme foi reaproveitado do episódio “Invasão alienígena”, da série do Capitão Asa. Famoso pelo bordão “Ah, se ela me desse bola!”, o irreverente Tutuca ameaçou várias vezes tirar o capacete durante as filmagens e fazer uma de suas habituais caretas.
Foi um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a Cultura de Massas. Da próxima vez, dê mais crédito para teorias da conspiração.
Mais um Histórias (Inventadas) da Televisão, para a Revista MONET.
Muitos sabem dos incêndios que destruíram prédios das TVs Globo, Record e Tupi nos anos 60 e 70. Ou deveriam saber, já que o Video Show fala deles periodicamente, talvez para aliviar a barra do pessoal do Arquivo, que até hoje deve receber pedidos de velhinhos ansiosos por rever imagens das novelas da Gloria Magadan. Alguns também sabem que os sinistros estiveram sob suspeita - desconfiava-se que teriam sido provocados pelo dinheiro do seguro. Mas ninguém conhece a verdade: os incêndios foram criminosos sim, mas o único responsável por todos eles era apenas um romântico cineasta alternativo.
Kleber Lang (nome artístico que denunciava suas inclinações estéticas e enorme pretensão) achava a concorrência da TV nociva ao cinema, especialmente ao seu, que, como escreveu na revista de “polemização cinemática” O Lanterninha, “obriga as pessoas a pensar”. A frase pode ser tomada em seu sentido literal se lembrarmos que em 1965 Kleber coagiu o público (3 pessoas) que havia terminado de assistir seu “Varapaus dos Confins” a permanecer na sala de exibição para debater o filme, com um revólver. Dois dos membros da platéia tiveram um colapso nervoso: eram apenas moradores de rua que entraram no cinema para dormir durante a sessão e não sabiam responder as perguntas de Kleber sobre suas intenções artísticas em determinadas cenas.
Embora a TV já estivesse no Brasil desde os anos 50, Kleber desconfiava que o aumento do números de aparelhos televisores vendidos fosse obra do governo militar para enfraquecer o movimento cinematográfico da época. Afinal, achava que os cineastas ofereciam maior resistência a ditadura do que, por exemplo, a MPB, só que o governo seria muito burro para perceber - e às vezes, o público também. Chegou a afirmar em uma entrevista que fez consigo mesmo e ofereceu para o Pasquim (recusada): “Sou muito mais oposição que o Chico Buarque. “A Banda” é uma música militar!”
Kleber chegou a planejar um ataque simultâneo às três emissoras, mas temia chamar mais alguém para a empreitada e comprometer o sigilo necessário - tinha medo de ser preso e torturado, mormente porque era alérgico. Primeiro pôs fogo nos estúdios da Record, em 1968, depois de se infiltrar através de um estágio no setor de jornalismo. Antes do ato de sabotagem chegou a propor uma pauta (recusada) sobre a confraria de cineastas em que militava, os Ladrões de Bicicleta. Nem todos entendiam a referência ao filme de Vittorio De Sica, e às vezes o grupo ia parar nas páginas policiais.
O fogo na TV Record foi um relativo sucesso. A rede já vinha mal das pernas e o incêndio começou uma crise que resultou em posições inferiores nos rankings de audiência, mas ela continuou no ar. Outra vez o medo da prisão e consequentemente dos fungos e bactérias falou mais alto e sua segunda incursão como incendiário só se deu em 1975, quando achava certo que uma ação não seria ligada à outra. Desastre total: a Globo se fortaleceu depois do incêndio - precisava mesmo se livrar de equipamentos obsoletos e renovar a decoração do prédio. Sua última tentativa foi em 1978, com o atentado aos estúdios da TV Tupi. Desta vez deu certo: em dois anos a cambaleante emissora estava fechada.
Mas o ímpeto de Kleber já não era o mesmo. Os Ladrões de Bicicleta tinham se dispersado e ele estava desiludido com a recepção da crítica a “Elas gostam por cima”, uma pornochanchada feminista. Consta que tinha mesmo acompanhado uma novela inteira, Gabriela, “apenas pelo viés sociológico”, explicou para sua mulher que desconfiava mais do viés das calcinhas da Sônia Braga. Por fim se rendeu e arrumou um emprego na TV Globo. Está lá até hoje, usando outro nome artístico.
Rough cut da matéria com As Pegadoras, para a MONET. Falando em sexo, AÍ WORDPRESS CHUPA O MEU PAU. Enjoy.

Bringing sexy back
Mulheres falando sobre sexo não é uma novidade na TV, ainda mais se pensarmos em todos os programas de debates com uma sexóloga de plantão – a diferença é que agora elas parecem realmente interessadas. O programa As Pegadoras, a nova atração da faixa sexytime do Multishow, reúne três lindas atrizes que, no papel de amigas que dividem um apartamento, tornam público aquilo que as mulheres conversam no banheiro – ou no quarto, antes da proverbial guerra de travesseiros.
As Charlie’s Angels do sexo foram escolhidas para sair do padrão loira-morena-ruiva: a japonegra Anna Tokiko é a DJ amante da noite Fê; a morena Mirella Payola faz Diana, uma praticante de esportes sócia-atleta da praia; e a mulata Ravine Chrispin é a designer antenada Bárbara. Elas formam um trio de personagens certamente eclético, mas que pode deixar o telespectador imaginando quando arrumariam tempo em suas agendas díspares para se encontrar.
O cast de As Pegadoras tem em comum a passagem anterior pelo catálogo do diretor Candé Salles, ex-diretor de elenco da Conspiração Filmes e um grande connoisseur da beleza feminina – e masculina também. É, nas palavras de Caetano Veloso, “o inimigo natural da hipocrisia sexual”. Candé é conhecido no meio como uma força da natureza, que consegue o que quer sem muito esforço – tanto é verdade que sua carreira de sucesso não foi planejada (”foi acontecendo”), e que a frase do Caetano entrou nesta matéria porque fez o repórter prometer que a incluiria.
O programa tem dois segmentos: em um, as Pegadoras conversam sobre sexo e lêem e-mails do público, no outro, uma história picante enviada pelo site www.multishow.com.br/pegadoras é encenada por um casal – ou por um casal com mais uma mulher, ou mais um homem… a idéia é dramatizar toda forma de amor. Homem com homem também? Anna Tokiko responde: “Por que não? Mandem as suas histórias”. As Pegadoras pode até roubar a oportunidade de mostrar o primeiro beijo gay na TV das novelas das 8 – que sempre adiam o evento baseadas em um suposto índice de rejeição do público. A produção chama as cenas de sexo simulado de animadas.
Coitus interruptus
Candé monta as animadas com um número de cortes de fazer inveja à cena do chuveiro de “Psicose” – ele aliás gravou uma cena de chuveiro em uma das encenações de Pegadoras, mas nela a mulher não toma banho sozinha, e seu companheiro não empunha exatamente uma faca. Se bem que Candé jura que “nenhum menino ficou excitado no set, em nenhum dos programas”. “Eu corto toda hora, fico dirigindo, falando em cima deles”.
Não é só Candé quem corta as tomadas. A externa com as Pegadoras, gravada em um clube no Recreio dos Bandeirantes, foi interrompida pelos alto-falantes do vendedor de pamonha e por uma obra nas cercanias da piscina. A produção teve que pedir para darem um tempo no quebra-quebra até o fim da cena. Candé brinca: “Ah, tudo bem, essas meninas estão acostumadas a interromper obra…”
Nessa gravação, a história escolhida para ser encenada – a filmagem da cena erótica seria no dia seguinte – é “Fui traída pela minha melhor amiga - e adorei!”. As Pegadoras se divertem com o tema e com as ordens de Candé: “Chupa o canudinho do drink!” Beija o tubarão de borracha!” e o bordão “Carão, carão, a palavra de ordem é carão!”, embora os câmeras recebam várias orientações para filmar bem mais que só o rosto das meninas.
A propósito, nos bastidores do programa teve origem o jogo “Batalha de carão”, que nada mais é aquela disputa entre duas pessoas pra ver quem pisca primeiro, ou não consegue controlar o riso, mas com os oponentes fazendo - muito sérios - caras e bocas de top model. Nem só as meninas do elenco se divertem, como se vê.
Seguindo o roteiro, as outras perguntam o que Diana/Mirella fez na noite anterior. Ela responde: “fiquei só batendo perninha”, alternando os dedos indicador e médio num gesto que pode sugerir um exercício de impulso em uma aula de natação, mas a gente sabe do que ela está falando - daquela jornada de auto-conhecimento que não ousa dizer seu nome. Ou ousa? “Todo mundo precisa de seu tempo sozinho no banheiro! Vamos bater perninha!”, continua o script.
Mesmo com essa campanha, os adeptos do sexo solitário não são exatamente o público-alvo de As Pegadoras. “É um programa pra você se divertir, um seriado de humor com sexo”, diz Mirella. “A proposta é para o casalzinho assistir junto, e depois…”, insinua Ravine. E o programa tem uma mensagem, digamos, política: “Tem que acabar com esse tabu do machismo, a mulher pode ser pegadora sim”.
Reality show
Em favor do realismo, às vezes a produção usa casais de namorados nas simulações e, na busca pela espontaneidade, improvisa: a figurinista Verena foi a estrela de um quadro em que Candé não estava satisfeito com a modelo escolhida. Aliás, o repórter que vos digita e sua namorada foram convidados para uma animada, mas infelizmente – para a elaboração desta matéria, não para o público do Multishow - declinei. Talvez numa próxima encarnação, menos tímida e com mais disposição para fazer abdominais.
Também na vida real, o elenco sofreu um desfalque: Romeu, o Yorkshire (”bem pequeno, pretinho com marrom, castrado”) de Mirella, que já participou das gravações com as Pegadoras, desapareceu. Mirella mora em Botafogo e espalhou cartazes pelo bairro para tentar recuperá-lo. Para quem devolver o cachorrinho, ela promete um beijo na boca - sem encenação coreografada ou dublê de corpo.
Mais uma coluna “Histórias (Inventadas) da Televisão” para a revista MONET. Leitores mais antigos reconhecerão o retalho de piadas velhas ;)
Todos sabem do sucesso recente no Brasil de formatos televisivos consagrados há mais tempo no exterior: o reality show e os programas de pegadinhas estilo Candid Camera. Mas poucos sabem de um projeto que não passou de algumas edições misturando essas atrações com um tipo de programa que sempre esteve em voga por aqui: o de debates.
Desenvolvido pelo antropólogo Onestaldo Antunes para a produtora independente Terceira Visão, o show Manhattan Jackass misturava os conceitos de troca de idéias com o de troca de cabeçadas. Havia mesmo um quadro em que os debatedores, usando capacetes, interrompiam a argumentação e partiam para cima um dos outros à maneira dos antílopes para decidir o vencedor. Mas não era só isso.
Um dos segmentos do programa se chamava Hora do Coringa. Nele, os participantes de uma roda viva precisavam descobrir quem entre eles seria na verdade um impostor. Todos os palestrantes eram apresentados como especialistas de áreas completamente diferentes do pensamento e incentivados a discutir até descobrir qual deles era na verdade um mecânico de automóveis, ou ajudante de pedreiro. Claro que, como as aferições do intelecto são relativas, muitas vezes os debatedores concluíam que havia pelo menos um cinco farsantes na mesa, o que deixava vários experts com os egos feridos.
Outra idéia controversa do programa era a seção Falar é fácil. Nela, formadores de opinião eram obrigados a provar na prática suas teorias. Nos poucos programas filmados tentaram a participação de intelectuais famosos, mas Arnaldo Jabor se recusou a presidir uma sessão da câmara dos deputados para tentar botar em discussão a reforma política, e Juca Kfouri preferiu não aceitar ser técnico de um time da terceira divisão do campeonato paulista para tentar mostrar de uma vez como o trabalho deve ser feito, afinal. E quase terminou em tragédia a tentativa de um partidário do desarmamento defender sua tese em uma boca de fumo.
Ainda mais provocativo era o Hora da verdade, em que câmeras escondidas na casa de um determinado pensador mostravam se tinha comportamento condizente com o que defendia em livros e simpósios. Foram flagrados uma sexóloga ruim de cama e um palestrante motivacional com tendências suicidas. Mas se safaram um escritor da nova geração e um crítico de cinema que se mostraram tão chatos na sua rotina diária quanto em suas exposições.
Manhattan Jackass na verdade nunca foi ao ar. A Terceira Visão nunca conseguiu negociar seus 12 episódios (meia temporada inteira) e cancelou o projeto. Onestaldo Andrade, que investiu seu próprio dinheiro, perdeu tudo e chegou a mendicância, mas nunca se entregou - agora tenta vender a idéia de uma Liga de Ultimate Fight de moradores de rua.
Mais uma coluna da Monet. Acho bacana fazer, mas ê mote difícil - lembrar eventos marcantes da TV brasileira e inventar uma história mentirosa relacionada a eles. Percebam como forcei a barra especialmente nesta aqui:
Todos sabem que o Brasil ganhou a final da Copa do Mundo de 1970 (a primeira a ser televisonada aqui) em um inquestionável 4 X 1 sobre a Itália, e alguns devem lembrar que o general Emílio Garrastazu Médici adivinhou o placar. Mas o que muitos desconhecem é a história do homem que soprou esse resultado no ouvido do então presidente da república.
Severino Clevert, vulgo Pai Goriot (além de médium, leitor de Balzac) era o guia espiritual de Médici. Dizia que podia captar emanações de eventos transmitidos pela TV com bastante antecedência, como se houvesse um delay de meses entre o que recebia do aparelho e o que a humanidade efetivamente captava ao vivo. Na verdade já tinha adiantado o resultado para o general da final quando a Seleção ainda tinha algumas dificuldades no período classificatório.
É de se estranhar que Médici contasse com os serviços de alguém que podia prever o futuro e tenha feito tão pouco por sua posteridade, mas a verdade é que já no ano seguinte à vitória brasileira no México deixou de consultar Severino, parece que assustado com sua previsão sombria para o próximo inverno: veludo cotelê iria entrar na moda.
Severino seguiu fazendo previsões para seus clientes famosos. Alertou o ministro da Fazenda Delfim Netto sobre a crise do petróleo de 1973 - mas homens do setor da economia também se acham possuidores de poderes premonitórios, os prognósticos resultaram conflitantes e o Brasil se ferrou nessa. Outro de seus clientes era o técnico Zagalo, na época ainda com um L só e mais moral para sermos obrigados a engolí-lo, mas o velho Lobo dispensou o trabalho de Severino por ocasião da Copa de 1974. Não precisava de um adivinho para saber que o Cruyff era melhor que o Mirandinha.
Dando consultoria internacional, previu para Jimmy Carter a vitória em 76, mas se absteve de entrar em detalhes sobre seu governo para evitar renúncia antes mesmo da eleição. Pensou estar poupando os Estados Unidos do trauma de ter dois presidentes desertores em menos de dois anos, mas acabou ajudando por tabela a escalada de Reagan, da Guerra Fria e do Phil Collins, por conta de uma conjunção astral paralela. Resolveu só operar no Brasil mesmo, onde achou que o estrago poderia ser menor.
Severino estava errado. Lendo o futuro para um eminência parda do PDS extremanente sensível a esses assuntos, previu para 82 a derrota da Seleção Brasileira de Telê Santana e a vitória de Brizola no Estado do Rio - de presto levou um cacete respeitável. Quando os dois resultados se concretizaram o político o procurou para pedir desculpas, se oferecer para pagar as despesas hospitalares e consultá-lo sobre se deveria se filiar ao PDT.
A partir daí Severino decidiu aposentar seus dotes de profeta. Toda vez que um pressentimento assalta sua mente, tapa os ouvidos e fica fazendo barulhos infantis (tipo bluá bluá bluá) com a boca até que o surto visionário passe. Nunca mais teve problemas decorrentes do seu dom maldito, mas não consegue passar mais de dois dias sem ouvir alguém recomendar um neurologista e sua vida social acabou.
Para o G1: cobertura do show do Muse, que tive que assistir careta para poder escrever de madrugada e entregar antes das 5 h.
Em tempo: na MONET de agosto, nas bancas, além da minha coluna rola uma matéria sobre o programa porno soft As Pegadoras, dirigido por Candé Sales. Trecho:
Candé monta as animadas* com um número de cortes de fazer inveja à cena do chuveiro de “Psicose” - ele aliás gravou uma cena de chuveiro em uma das encenações de Pegadoras, mas nela a mulher não toma banho sozinha, e seu companheiro não empunha exatamente uma faca. Se bem que: “nenhum menino ficou excitado no set, em nenhum dos programas, eu corto toda hora, fico dirigindo, falando em cima deles”.
Não é só Candé quem corta as tomadas. A externa com as Pegadoras, gravada em um clube no Recreio dos Bandeirantes, é interrompida pelos auto-falantes do vendedor de pamonha e por uma obra nas cercanias da piscina - que a produção pede para dar um tempo até o fim da cena. Candé brinca: “Ah, tudo bem, essas meninas estão acostumadas a interromper obra…”
* - Segmento do programa em que rolam cenas de sexo simulado
Mais uma coluna para a Monet. Por favor, evitem perguntar nos comentários se é verdade que esse cara existiu - o nome da coluna é Histórias (Inventadas) da Televisão…
Muitos lembram do palhaço Bozo, e alguns do famoso trote que levou nos anos 80, de um garoto que sugeriu ao vivo que o apresentador fantasiado experimentasse a conjunção carnal passiva com palavras menores, sendo a última terminada em u. Mas poucos sabem que o garoto (Marcos dos Prazeres, oito anos na ocasião) continuou sua carreira na interatividade com programas de TV que costumam abrir seus telefones ao público.
Já adolescente, alguns anos depois da sua façanha mais conhecida, foi exorcizado em rede nacional em um programa evangélico porque ligou não só afirmando estar possuído pelo Demônio, mas que Ele o obrigara a fazer a chamada a cobrar. Os produtores do programa “Jesus na Linha” lembram que Marcos foi tão convincente que todas as ligações depois foram de irmãos em Cristo apavorados com a manifestação do Diabo e de irmãs querendo saber se os atendentes tinham o telefone do possuído.
Uma ligação importante em sua coleção foi a que fez para a produção do Jornal Nacional denunciando um suposto atentado com medicamentos laxativos no refeitório da TV Globo. Esse quase acaba em tragédia porque um contra-regra com Síndrome do Colo Irritável e bastante vulnerável ao poder da sugestão imediatamente sofreu uma crise intestinal que despertou o pânico em seus colegas nos bastidores do telejornal. Baldes foram providenciados e a transmissão seguiu sob o signo da tensão nervosa. Cid Moreira teria desmaiado depois do Boa Noite e nas semanas seguintes membros da produção, em reação natural do organismo, apresentaram sinais de prisão de ventre.
Também entrou ao vivo certa vez com uma imitação canhestra da voz de Pelé e fez comentários sobre a partida em curso, América Ferroviário contra Santos de Barreirinha. Os locutores da TV Itumbiara, provavelmente levados pela emoção de uma participação especial tão ilustre, não perceberam que a pessoa que dizia ser o rei do futebol tinha dificuldades para segurar o riso e parecia estar ligando de um telefone público. Mas é possível que tenham se deixado enganar porque todos os comentários que fez, como os do verdadeiro Édson Arantes do Nascimento, resultaram equivocados.
Sua ação mais ousada foi uma tentativa de participação no Ligação Direta (a ironia do nome do programa não deve ter escapado de sua personalidade pândega) fingindo ser um sequestrador ligando do cativeiro. A Globo chegou a mobilizar uma equipe da polícia para rastrear a chamada e tentou obter autorização para mediar as negociações do resgate, negada porque os investigadores acharam prudente não deixar a responsabilidade sobre vida de um inocente nas mãos de uma pessoa jurídica. Marcos quase conseguiu seu intento, mas foi denunciado pela voz de sua mãe perguntando ao fundo se queria mais cachorro-quente.
Marcos dos Prazeres morreu enquanto tentava conseguir socorro por telefone durante um ataque cardíaco.
Minha segunda coluna para a MONET. Como falei, o Ricardo bolou a idéia (histórias inventadas da televisão), e todo mês mando uma ficção sobre a telinha na última página da revista.
Muitos lembram de Roque Santeiro, a novela da Globo que em 1985 teve piques de 99% de audiência. Ficou famosa pelo triângulo amoroso entre o personagem-título (José Wilker), a viúva Porcina (Regina Duarte) e Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e por todo seu elenco ter saído na Playboy, com exceção do Ewerton de Castro.
Mas poucos lembram de sua concorrente, detentora de 0,00001% da audiência (a maior parte dos 1% restantes ficava com o SBT, reprisando Chaves), a novela “Ventos da Mudança”, que passava na Bandeirantes ou na Record, os pesquisadores ainda não descobriram. Foi escrita pelo dramaturgo de esquerda Adelmo Pederneiras e seu fracasso pode ser explicado não só pela quase unanimidade de Roque Santeiro, mas também por estranhezas de sua própria trama.
Para começar, não havia um núcleo pobre e outro rico porque Adelmo não acreditava em uma sociedade de classes e porque a emissora poderia economizar em locação se não precisasse filmar em favelas ou em mansões cenográficas. “Ventos da Mudança” comentava a vida política nacional. O vilão da história, um verdureiro bigodudo, impotente e metido a poeta que herdou a quitanda depois da morte do sócio, um velhinho narigudo amado por todos, era uma alusão depreciativa e pouco sutil ao presidente José Sarney, que só não tomou nenhuma providência legal por desconhecer a existência da novela assim como 99,99999 % da população.
O elenco era um compêndio de erros de escalação. O galã era Lúcio Mauro, conservado para a idade, mas não do ridículo, e Gretchen fazia uma bailarina clássica. O assassinato costumeiramente usado em novelas para movimentar a história também não conseguiria interessar ninguém: o morto era um posseiro, personagem secundário que aparentemente só serviu para justificar os discursos pela reforma agrária na cena do enterro, que durou um capítulo inteiro. O assassino, para de surpresa de ninguém, era o verdureiro (Elias Gleizer), que confessou seu ato torpe retorcendo o bigode para enfatizar a natureza vil de seu personagem e por extensão, da Nova República.
A novela não teve problemas com a censura, e não só porque ninguém no governo tomou conhecimento de sua transmissão, mas também porque Adelmo, como muitos dos seus colegas revolucionários, era tremendamente conservador, sexualmente falando. Os beijos em cena eram cronometrados e o personagem de Gretchen era virgem - o dramaturgo teve que interromper várias cenas porque a atriz insistia em dizer as falas com um dedo na boca, “um truque de interpretação” como declarou na época à revista Fon-Fon.
“Ventos da mudança” seguiu sua rotina de trezentos capítulos sem muitos sobressaltos, porque nessa época todas as emissoras concorrentes da Globo se conformaram com o traço de audiência no horário. Consta que durante o período houve mesmo um telejornal das oito horas que deu as notícias verdadeiras, e com imparcialidade.
Esse é o briefing do editor:
Histórias (inventadas) da televisão - é a última página da revista, pra terminar de um jeito engraçado e despretensioso. a idéia é pegar um fato histórico da tv e contar uma história paralela a ele totalmente inventada. Dá pra ser maldoso, mas sendo vinculada à corrente do humor engraçado já está bom. 3 mil toques.
Essa é a primeira coluna que escrevi para a MONET:
Histórias (inventadas) da televisão
Festival Internacional da Canção, Rede Globo, 1968. Todos sabem a história do discurso de Caetano Veloso em resposta às vaias para “É proibido proibir” na eliminatória paulista, da preferência do público por “Para não dizer que não falei de flores”, da vitória contestada pela platéia de “Sabiá” (Tom Jobim e Chico Buarque). Mas não sabem da história de uma música perdida que o júri resolver eliminar para evitar problemas.
Theofilo Moura Durão era cabo do Exército, lotado no 26º Batalhão de Infantaria Pára-quedista. Era um sujeito revoltado com o que ele chamava de “polarização à esquerda da juventude brasileira”, especialmente de Sandra, ex-namorada que agora o chamava de gorila, logo ela que era a sua pituquinha. Sabendo do teor político radical dos Festivais da Canção, e arranhando um cavaquinho razoável, sentou-se um dia para escrever uma música que expusesse tudo o que pensava.
Em dois minutos e meio, exatamente o tempo do intervalo do programa que assistia, Teatrinho Troll, compôs o sambinha “Corte esse cabelo ridículo”, que na gravação ficou em 8min:27seg - era realmente um desabafo. Tinha versos como “gente de bem tem que ter um sustento / no próximo dia quinze compareça à junta de alistamento” e a citação a “Blowin’ in the wind”, de Bob Dylan: “A resposta, meu amigo / você vai me dar no interrogatório”.
Theofilo juntou alguns parceiros de dormitório e formou o conjunto “Reaça Negra”, embora todos fossem brancos: o violonista Ademilson “Torniquete” Louzada, Jão “Recruta Zero” das Dores no surdo, Marcelo Pezão no tamborim. Gravaram em um estúdio improvisado na garçoniére de Torniquete e mandaram a fita para a consideração do Júri do III FIC.
A comissão julgadora não sabia o que fazer com a música. A harmonia, melodia e letra pareciam horríveis, mas era 1968, a imaginação estava no poder e sabe lá se aquilo era alguma coisa hippie genial que os membros da banca não estavam preparados para entender. Já tinham desclassificado Hermeto Paschoal em uma edição anterior achando que o multiinstrumentista estava de sacanagem com a cara deles por fazer um arranjo para flauta e cadáver de cachorro, e dessa vez não queriam cometer outra gafe.
Apelaram para uma solução política e passaram a questão para os superiores de Theofilo no Batalhão. Por sorte o comando interino estava na mão do Coronel Edmundo Cerqueira, homem austero porém de hábitos finos, que achava samba “coisa de pobre, comunista e de cantoras de hábitos sáficos”. Cerqueira proibiu a participação do Reaça Negra no Festival e ainda mandou os músicos para uma temporada na cadeia, “excelente lugar para se tomar gosto pela leitura”.
Theofilo nunca mais compôs, embora ainda guarde o cavaquinho e os restos de acetato da fita, que deteriorou com o tempo e não pôde ser digitalizada. É casado com Sandra, que reencontrou nos porões do Cenimar, em 1972.
Amostras de coisas que gastei minhas férias fazendo: roteiros de quadrinhos, cinema, colunas, etc. Só uma delas remunerada, o resto investimento de risco para o futuro - tudo encaminhado, toda a parte burocrática OK (registro na Biblioteca Nacional e o caralho). Para bom entendedor, meio contexto basta.
Sequência de alucinações de Manolo. Paulo César Peréio aparece para ele vestido como Laurence Olivier em alguma adaptação cinematográfica de Shakespeare.
Manolo tenso com a aparição, gagueja - …Senhor Peréio?
Peréio - Por favor, nada de “Senhor Peréio”. Meus amigos me chamam apenas de Senhor.
Manolo - Senhor…
Peréio - Você não é meu amigo. Só vim na missão de nomeá-lo meu sucessor. Vejo que você não parece grandes coisas no quesito masculinidade, mas fazer o quê. O Cary Grant era boneca, mas que ator. Realmente um cara engraçado. Mas enfim, umas dicas: nunca faça essas porras de laboratório, não estude nenhuma porra de método e nunca trabalhe com o cuzão do Hector Babenco. E gostosa a sua mina, mas me parece um pouco bipolar. Vai por mim, tenho experiência nessas coisas (some).
XXX
Do lado de fora vemos a ação da turba que apedreja o prédio onde fica a redação da Última Hora. É manhã de primeiro de abril, o golpe militar está em curso e o jornal, defensor do governo deposto de João Goulart, é um alvo natural. Alguns manifestantes invadem o prédio e outros, já ocupando os andares superiores, atiram na rua máquinas de escrever, arquivos. A polícia trabalha para conter os ânimos e para evitar que o quebra-quebra evolua para uma tragédia. Um carro passa devagar pelo local. No banco de trás um homem de óculos observa a cena, as chamas nos andares superiores do prédio refletindo no vidro do carro. É Carlos Lacerda, governador da Guanabara. Ao seu lado, a silhueta de um homem com farda e quepe de militar.
XXX
Primeiro quadro: São Judas Tadeu está falando por aqueles telefones separados por um vidro da cadeia com Hitler.
SJT: Tenho um boa e má notícia.
Hitler: Diga primeirra a má.
Segundo quadro: idem
SJT: O juiz é judeu.
Hitler: E a boa?
Terceiro quadro: idem
SJT: Tem um jurado revisionista histórico
XXX
QUADRO 7
[Hórus didático, teatral]
Hórus - Camões escreveu esses versos para uma mulher que o zombou por ser caolho. Se chama mesmo “A uma dama que lhe chamou Cara sem Olhos”. Espero que a poesia tenha ajudado a enxergar a beleza que seus olhos não captaram no poeta…
QUADRO 8
Hórus - A visão, amigos, é o sentido supremo. Mas eu pergunto: você está preparado para sentir o que os olhos não vêem?
QUADRO 9
[A cena abre, e aqui há uma surpresa. Hórus é apresentador de um programa de auditório de TV, o letreiro "O que os olhos não vêem..." é na verdade o letreiro no fundo do cenário do seu programa (abaixo do letreiro, a assinatura "com Hórus, o Magnífico). Uma câmera de TV aponta para uma mulher bem simples sentada em uma cadeira com os pés em uma espécie de caixa com os olhos vendados. Uma ajudante de palco (a mulher de Hórus, a sra. Fortuna) de maiô está ao lado dela]
Hórus - Você está, Lucicreide?
Lucicreide - Estou sim, Seu Hórus.
XXX
Ernesto Fidel Bastos - Desculpe o atraso, Maria Eduarda. O tráfico estava lento.
Maria Eduarda - O tráfego, Ernesto.
Ernesto Fidel Bastos - Tráfego é como chama aqui na Zona Sul, lá na minha área chama tráfico mesmo.
Maria Eduarda - Ah, Ernesto, você é autêntico.
Ernesto Fidel Bastos - Acho que não, tomei vacina quando era criança.
Maria Eduarda - Criança…
[Maria Eduarda acaba de recordar seu trauma de infância. Cena de flashback tosca, em que lembra quando foi no primeiro dia de aula na Escola Americana com meias brancas, quando a norma é o uso de meias azuis. O episódio banal toma proporções fantasmagóricas na mente da garota. Pátio de colégio, chove.]
Crianças em torno de Maria Eduarda - Meia branca, meia branca!
Maria Eduarda em posição fetal - Nãooooo!!!!
[Volta do flashback, Maria Eduarda em posição fetal na canga]
Ernesto Fidel Bastos - Tudo bem, a gente não precisa ir na água.
XXX
Em dois minutos e meio, exatamente o tempo do intervalo do programa que assistia, Teatrinho Troll, compôs o sambinha “Corte esse cabelo ridículo”, que na gravação ficou em 8min:27seg - era realmente um desabafo. Tinha versos como “gente de bem tem que ter um sustento / no próximo dia quinze compareça à junta de alistamento” e a citação a “Blowin’ in the wind”, de Bob Dylan: “A resposta, meu amigo / você vai me dar no interrogatório”.
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