Arquivo: Rascunhos ’
16 de dezembro de 2009 às 10h24
Tentativa e erro
Abaixo, um trecho do projeto que, para dizer o mínimo, me livrou da vida corporativa. Ano passado fui procurado por um produtor com esse briefing tentador/assustador: “quero que você crie Os Simpsons brasileiros”. Isso mesmo: uma animação semanal que satirizasse o Brasil tal e qual os Simpsons fazem com a sociedade americana. Os roteiros do meu esforço nesse sentido (hehe) ainda estão com ele e quem sabe um dia. Por enquanto colo aqui o início de um episódio com um dos personagens (bolei mais de trinta), o roqueiro oitentista decadente Bob Fossil (depois soube que já usaram esse nome em outro seriado, depois eu corrijo isso).
Taí.
(Imagem como se gravada em VHS de um programa de TV dos anos 80, com um pouco de chuvisco e de vez em quando uma faixa de fita mastigada correndo pela tela . É o programa do Chacrinha começando. Aparecem aquelas imagens idiotas de zoom indo e vindo na bunda das chacretes, com o letreiro por cima: “Cassino do Chacrinha”. Chacrinha entra com seus berros de “Aêêêêê!!!” e jogando comida crua para a platéia, como de hábito, a câmera histérica mostra a reação das mulheres)
Chacrinha (jogando um pedaço de carne-seca para as arquibancadas) – Quem quer Jabáááááá???? (ele pisca cúmplice para o lado e a câmera frenética habitual do programa sai dele e vai até um homem com uma valise no colo, sentado na arquibancada com as macacas de auditório, que pisca de volta e faz o sinal de OK para o Velho Guerreiro)
Chacrinha – E atenção! Vai cantar agora o mais novo sucesso da Lobby Records! Com vocês, o internacionaaallll Bob Fossil!
(Entra Bob Fossil bem novo, ainda magro, pelo túnel de acesso aos camarins, muita fumaça em torno, com sua guitarra. O playback começa antes dele chegar até o microfone, ele começa a fazer a mímica com os lábios quando chega lá da música megaoitentista – teclados, guitarra com eco – “Amor Neon”)
Bob Fossil (cantando empolgado, jogando o cabelo, estilo brega 80′s) – “Cinza de cigarro / Marca de baton / Motel barato / Amor Neon”
(É um sonho. Bob Fossil acorda nos dias de hoje, bem mais gordo, no seu apartamento em Brazzaville, ao som do despertador. É um rádio relógio em forma do brinquedo Genius, que toca “Amor neon”, em sincronia com a imagem do programa do Chacrinha que acabamos de ver. Bob Fossil grunhe, se levanta com dificuldade. Vai escovar os dentes: seu espelho tem decalques do logotipo da revista Rolling Stone e de manchetes sobre música – todas elas dos anos oitenta, tipo “interview: Boy George”, “hottest new band: The Smiths” – com um espaço para a cara refletida de Bob Fossil – para ele se sentir capa da publicação. Vai até o armário para se vestir, uma das portas tem um velho poster seu, marcante a diferença de silhueta entre o Bob Fossil jovem e o velho. Bob vai até a sua secretária eletrônica, que está piscando com duas mensagens. Ele aperta o botão)
Bob Fossil (Voz na secretária eletrônica, cheio de charme datado, tipo tio Sukita) – Deixe o seu recado… após o Beep Bop. (tempo, toca uma frase de trumpete Be Bop. Toca o primeiro recado)
Michel (voz na secretária) – Oi, Bob, aqui é o Michel, seu empresário. Seguinte, seu show do dia 21 foi cancelado, parece que a casa passou por um reposicionamento de público e agora a clientela é da faixa dos 14 aos 17 anos. Entraram no seu lugar os Garotos da Platéia, uma banda jovem que imita as bandas que você imitava nos anos 80. Sei que parece injusto, mas você sabe como cabelo e abdômen são importantes na música hoje em dia. Mas a data do dia 25 continua de pé (barulho de telefone desligando).
(Som da frase de be bop, começa o outro recado)
Michel (voz na secretária) – Michel de novo. Ahn… esquece também dia 25 (desliga).
(Bob Fossil suspira. Confere um calendário na parede, vai folheando e vendo poucos círculos vermelhos em torno de algumas datas – todas elas com um risco e escrito ao lado “cancelado”, até que acha um círculo virgem, um compromisso não cancelado. Quando olha mais de perto, vê que está assinalado “exame de próstata”. De repente, entra uma conta por debaixo da porta. Ele pega o envelope e vê escrito “Condomínio Brazzaville – taxa mensal”. Olha o valor. Vai até seu quarto e mexe em um dos criados-mudos, que é na verdade um cofre. Dentro, vários vidros de remédios suspeitos, uma pistola, algumas moedas e um maço de notas. Ele pega o maço e examina. Vemos em close que as notas são de guaranires, moeda oficial do Paraguai – são notas de um milhão cada. Bob pensa, rola um flashback dos anos 80: Em um estádio de futebol, acontece um festival chamado Rock in Assunción. Um apresentador entra no palco, com um som de microfonia da banda anterior ainda no ar – o bumbo da bateria dela tem uma foto do ditador Alfredo Stroessner com várias medalhas acima do texto “Partido Colorado” – para anunciar Bob Fossil)
Apresentador – Estes fueram Los Hijos de Stroessner y la Lei de Segurança Nacional. Agora, com usteds, de Brasil, Bob Fossil!
(No túnel um sujeito com o crachá do staff do festival e uniforme militar está dando as últimas instruções para um jovem Bob Fossil)
Cara do staff – E lembre-se, las palabras proibidas son “revolución”, “democracia”, “eleiciones”, “ditadura”, “golpe” e “libertad”.
Bob Fossil – Pode deixar, as minhas músicas são todas sobre gatinhas e desilusão amorosa.
Cara do staff (fazendo cara de desconfiado) – Hum, lo se… essa era la desculpa de Chico Buarque. Toma su cachê (põe o maço de notas na mão de Bob) e (batendo continência) viva el rock’n'roll.
3 de dezembro de 2009 às 13h53
Aproveitamento
Duas coisas que fiz recentemente: um mascote das Olimpíadas 2016 para uma matéria do jornal Extra, o Caipirito – sempre achei engraçado o drink nacional ser essa coisa débil de fazer, só perde em tosquice na categoria “bebida que representa o país” para a Cuba Libre. Toda vez que vejo esses turistas e artistas gringos fazendo hinos para a caipirinha, penso: não tem limão, gelo e açúcar na terra desses caras? Bem, talvez não em Cuba.

E essa é uma idéia não aproveitada para uma camiseta de bloco (a primeira que faço, rito de passagem cartunístico, emossaum), o Imaginô agora amassa – que é composto por advogados, talvez ficasse melhor em uma agremiação de médicos. Alguma interessada?

24 de novembro de 2009 às 11h22
First draft
Curiosidade. Abaixo, o roteiro original de Pussy Power, HQ que eu e Leo fizemos para a Vice. Foi até aprovado, mas a revista resolveu montar a sua edição de aniversário de 15 anos como se tivesse sido feita em 1994, e tivemos que mudar o ângulo. Está incompleto onde deixei marcado para o editor, mas gostei bastante. Lê aí e me diz.

Quadro 1:
Legenda: Os presidentes americanos nasceram para ser notas de dólares.
Imagem: Desenhos tipo efígie (os carinhas olhando para o infinito, etc) do Lincoln, Kennedy e Obama.
Quadro 2:
Legenda: No Brasil, temos presidentes de caricatura.
Imagem: Caricaturas dos presidentes (faixinha com nome embaixo de cada um) Getúlio Vargas, sorridente e com o charuto; General Figueiredo (que diz “Prefiro o cheiro de cavalo ao do povo*”) com os óculos escuros e quepe e do Fernando Collor, nariz enorme e cabelo cheio de gel (dizendo “Eu tenho aquilo roxo*”)
Legenda abaixo do desenho: * – Frases reais.
Quadro 3:
Legenda: Um desses inventou uma expressão para se referir as atribuições do mandatário supremo da nação: “liturgia do cargo”
Imagem: Caricatura do Sarney (faixinha com nome embaixo)
Legenda abaixo do desenho: (Foi o presidente mais impopular da História)
Quadro 4:
Mas há 15 anos um desses presidentes de caricatura quebrou a liturgia do cargo em um episódio digno de desenho animado…
(título): PUSSY / POWER
Imagem: Desenho/paródia da capa da Veja que ficou famosa, com o x na buceta da Lílian Ramos, com a legenda “O X da questão”)
Quadros 5-6-7: (Nesses três quadros, a descrição do episódio da buceta exposta e da reação bocó do Itamar em legendas-piadinhas nos quadrinhos, ainda falta elaborar)
Quadro 8:
Legenda: De certa forma, esse episódio foi libertador. 5 anos antes, Lula tinha perdido a eleição para o medo do “comunismo” – e por causa de um caso extraconjugal.
Imagem: Dois carinhas lendo a manchete “AMANTE” em uma banca de jornal
Popular 1 - Se ele traiu a mulher, vai trair o povo.
Popular 2 – Povo perdoa mais fácil.
Quadro 9:
Legenda: E o mundo também mudou. Isso foi antes da proliferação das sex tapes.
Imagem: casal olhando um computador, da tela vem sons de foda.
Homem – Que absurdo, é o cardeal com a primeira-dama.
Mulher – É mesmo, ele não era gay?
Quadro 10:
Legenda: E antes que a intimidade das celebridades deixasse de ser apenas pauta dos tablóides ingleses para virar commodity da grande imprensa.
Imagem: Um editor com os pés em cima da mesa (plaquinha “Editor”) ao telefone. Do outro lado da linha uma voz diz:
Voz – Britney nua morde cachorro!
Editor – Onde está a notícia?
Quadro 11:
Legenda: E do insuperável Berlusconi.
Imagem: Mulher da alta sociedade, gostosa com roupa de madame, lendo um convite. O texto:
Convite para a XVII posse de Silvio Berlusconi. Traje: desnecessário.
Quadro 12:
Enfim, ainda vamos lembrar da história de Itamar e Lilian como um símbolo da ingenuidade daqueles tempos.
Imagem: Um travesti em um carro alegórico com a faixa presidencial. Um box com seta apontando para ele, com os dizeres: Carlos Roberto, primeiro presidente transexual. Ele está com uma puta ereção.
Carlos Roberto – Poder me deixa de pau duro!






























