12 de dezembro de 2007 às 13h02
Grato pela compreensão
Na íntegra a coluna da UM (contém tema recorrente) que mencionei aqui.
Mores castigat ridendo
É mais fácil erradicar o analfabetismo no Brasil do que ensinar matemática para os garçons. Aposto que o roubo na conta de bar onera mais o brasileiro que a dívida pública ou o cinema nacional.
Mas nosso grande problema na área da educação é na verdade o analfabetismo funcional – que é a incapacidade de decodificar uma informação lida, também conhecido como nome científico da burrice. Os cursos de alfabetização deveriam ter também disciplinas tipo Ironia, Contexto, Subtexto, Sutileza etc.
O mau desempenho nessas matérias torna quase insuportável o trabalho do ficcionista, que precisa contar com a colaboração da imaginação do público e por isso tem por aqui o mesmo status do mentiroso patológico, sem a desculpa da doença. Mas uma subcategoria sofre mais do que as outras: a dos humoristas.
Para melhor compreensão do humor, à parte Zorra Total e Teletubbies, é necessário algum conhecimento sobre figuras de linguagem como a metáfora ou a sinestesia, grande problema em um país em que ninguém consegue entender direito o uso da crase ou as regras de acentuação tônica.
Aqui você não só é obrigado a repetir o final da piada, e devagar, como também explicar tecnicalidades do início que o ouvinte não entendeu da primeira vez, como o que o português estaria fazendo em uma ilha deserta ou porque alguém levaria um papagaio para uma suruba.
Trabalhar com suposições é um exercício de abstração muito pesado para a cabecinha do brasileiro, mas também também atrapalha o piadista a nossa opção preferencial pela seriedade. Se você afirma que “a turma lá da frente é bicha” é melhor ter provas substanciais ou testemunhas isentas. Não é a toa que no morro os traficantes chamam vacilão de “comédia”.
OK, todo mundo quer ser levado a sério, e não só quando está pedindo aumento ou em um tribunal se defendendo de um crime inafiançável, mas aqui chega a ser ridículo. Deve ter gente que acha que o Tom Cavalcanti é alcóolatra, o Jorge Loredo bonito e a Heloísa Perissé engraçada.
Ficaria rico se ganhasse um centavo por cada entrevista em que li o clichê “o importante é saber rir de si mesmo”, mas raras vezes vi um concidadão fazendo isso sem ajuda de entorpecentes. Só rimos de nós mesmos quando esquecemos de vestir a carapuça e não entendemos que a gracinha é conosco – e para isso basta o interlocutor disfarçar o verdadeiro sujeito da piada. “Estavam no avião um americano, um alemão, um francês e um habitante de um país em desenvolvimento…”
Olavo Bilac escreveu que somos a flor de três raças tristes, mas acho que ele quis dizer sérias. De Gaulle estava errado.









