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Arquivo: Universo Masculino

Grato pela compreensão

Na íntegra a coluna da UM (contém tema recorrente) que mencionei aqui.

Mores castigat ridendo

É mais fácil erradicar o analfabetismo no Brasil do que ensinar matemática para os garçons. Aposto que o roubo na conta de bar onera mais o brasileiro que a dívida pública ou o cinema nacional.

Mas nosso grande problema na área da educação é na verdade o analfabetismo funcional – que é a incapacidade de decodificar uma informação lida, também conhecido como nome científico da burrice. Os cursos de alfabetização deveriam ter também disciplinas tipo Ironia, Contexto, Subtexto, Sutileza etc.

O mau desempenho nessas matérias torna quase insuportável o trabalho do ficcionista, que precisa contar com a colaboração da imaginação do público e por isso tem por aqui o mesmo status do mentiroso patológico, sem a desculpa da doença. Mas uma subcategoria sofre mais do que as outras: a dos humoristas.

Para melhor compreensão do humor, à parte Zorra Total e Teletubbies, é necessário algum conhecimento sobre figuras de linguagem como a metáfora ou a sinestesia, grande problema em um país em que ninguém consegue entender direito o uso da crase ou as regras de acentuação tônica.

Aqui você não só é obrigado a repetir o final da piada, e devagar, como também explicar tecnicalidades do início que o ouvinte não entendeu da primeira vez, como o que o português estaria fazendo em uma ilha deserta ou porque alguém levaria um papagaio para uma suruba.

Trabalhar com suposições é um exercício de abstração muito pesado para a cabecinha do brasileiro, mas também também atrapalha o piadista a nossa opção preferencial pela seriedade. Se você afirma que “a turma lá da frente é bicha” é melhor ter provas substanciais ou testemunhas isentas. Não é a toa que no morro os traficantes chamam vacilão de “comédia”.

OK, todo mundo quer ser levado a sério, e não só quando está pedindo aumento ou em um tribunal se defendendo de um crime inafiançável, mas aqui chega a ser ridículo. Deve ter gente que acha que o Tom Cavalcanti é alcóolatra, o Jorge Loredo bonito e a Heloísa Perissé engraçada.

Ficaria rico se ganhasse um centavo por cada entrevista em que li o clichê “o importante é saber rir de si mesmo”, mas raras vezes vi um concidadão fazendo isso sem ajuda de entorpecentes. Só rimos de nós mesmos quando esquecemos de vestir a carapuça e não entendemos que a gracinha é conosco – e para isso basta o interlocutor disfarçar o verdadeiro sujeito da piada. “Estavam no avião um americano, um alemão, um francês e um habitante de um país em desenvolvimento…”

Olavo Bilac escreveu que somos a flor de três raças tristes, mas acho que ele quis dizer sérias. De Gaulle estava errado.

13 Comentários

I’ve been working like a dog

1) Mal Necessário da semana.

2) Tinha esquecido de linkar, saiu a nova UM com outra matéria assinada por moi, sobre olheiros de modelos. Trechos:

O leigo talvez acredite que a beleza não precisa ser descoberta, já que está na cara (e em outras partes do corpo anexado a ela), e somente portadores de deficiência visual não estariam qualificados para o trabalho. É um equívoco comum a quem só pratica a observação de mulher bonita por lazer – há vários tipos de lindeza e nem todas são comercializáveis.

(…)

Alienados do universo da moda – para quem o termo booker deve lembrar algo vagamente associado ao agenciamento de apostas – devem estranhar a distinção, mas ela existe: booker é quem cuida da imagem e da agenda da modelo, scout é o caçador de talentos, o batedor para quem um dia de praia equivale a um passeio por uma mina de ouro em potencial. Abidon é um caçador em proveito próprio, porque acumula as duas funções.

(…)

Orlando concorda: “É um lance de ser paizão mesmo, a gente aconselha bastante”. Também é contra misturar as coisas e usar a profissão para se dar bem. “Quem faz isso geralmente é mal intencionado, e a garota que cai nessa é mal assessorada, veja aquele caso do motoboy que prometia fotografar as meninas e levava para o mato”, diz, usando o exemplo mais radical possível de assédio predatório, o caso do maníaco do Parque Estado.

(…)

Para algumas fotos da sessão Catarina precisa tirar a blusa. O ambiente profissional se mantém nas condições normais de temperatura e pressão, o que é mais do que pode se dizer do repórter… e quando o trabalho envolve nudez? Orlando: “Menor de idade não faz nu sob hipótese alguma”. Lembro do caso da atriz Flávia Monteiro, que protagonizou aos 15 anos um remake disfarçado de “Lolita”, o filme “A menina do lado”, cheio de cenas com figurino zero. “Mas hoje isso não aconteceria, as coisas são organizadas, antes não tinha muito produtor de elenco, não tinha uma agência que cuidasse da imagem da pessoa – Xuxa, Luiza Brunet levavam o book debaixo do braço”.

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Mucho work, minus play

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Começo este mês a escrever na UM (Universo Masculino). A revista está na mão de feras como André Forastieri e Marco Lopes e parece que a idéia é fazer uma espécie de Esquire brasileira – não sei muito bem como me encaixo em um projeto desses, mas sure as hell fiquei lisonjeado com o convite. Se o Gay Talese daqui é assim, imagina o da Jamaica.

Minha estréia é com um perfil do fotógrafo e ladies man Antonio Guerreiro, recordista nos anos 70-80 do troféu Pussy of the Year: Sônia Braga, Silvia Falkenburg (Bandeira), Denise Dumont, Sandra Bréa… um trecho:

E como a linha da vida profissional de Guerreiro é um cordão de auges com pequenas diferenças de gradação, começou no Rio mais uma fase espetacular: montou um estúdio no segundo andar do lendário bar Zeppelin. Eram os anos da Swinging Ipanema e o fotógrafo estava instalado em um dos quartéis-generais do charme local. Quando nada parecia poder superar isso em termos de qualidade de vida, o editor Adolpho Bloch ligou para saber se Guerreiro gostaria de trabalhar com moda em Paris – e não era uma pergunta retórica. O ano, 1972.

Em Paris aproveitou sua expertise na arte de fazer amizades em prol do ofício. Enturmado com os grandes costureiros, tinha permissão para fotografar as coleções antes do lançamento – e aproveitava para publicá-las nas revistas da editora Bloch no Brasil. Em depoimento a João Carrascoza explicou o motivo da despreocupação dos mestres franceses: “Porque era para o Brasil. Eles pensavam: Ninguém vai ver essa merda lá, mesmo…”

Também escrevi uma coluna para a seção “contracorrente”. Alguns vão reconhecer o tema – a falsa fama de bem-humorado do brasileiro – de outras colunas, mas o Marco pediu mesmo para bisar o assunto. Outro trecho:

Ficaria rico se ganhasse um centavo por cada entrevista em que li o clichê “o importante é saber rir de si mesmo”, mas raras vezes vi um concidadão fazendo isso sem ajuda de entorpecentes. Só rimos de nós mesmos quando esquecemos de vestir a carapuça e não entendemos que a gracinha é conosco – e para isso basta o interlocutor disfarçar o verdadeiro sujeito da piada. “Estavam no avião um americano, um alemão, um francês e um habitante de um país em desenvolvimento…”

Olavo Bilac escreveu que somos a flor de três raças tristes, mas acho que ele quis dizer sérias. De Gaulle estava errado.

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