Foto: AP

Tenho um bom amigo de anos que se chama Thiago Frias. Um cara genial, talentosíssimo, um grande artista e escritor, também. Desvie o olhar pras laterais do blog pra se deparar com um trabalho do Thiago: a arte no papel de fundo do Olhômetro é dele.

O Thiago foi preso em flagrante na manifestação ontem. Injustamente, claro. Está detido ainda sob as acusações de formação de quadrilha, depredação ao patrimônio público, resistência a prisão e dano qualificado, de acordo com informações de amigos.

O Thiago não fez nada disso, claro. A "quadrilha" dele são outras pessoas que ele nunca viu antes. Ele ficou atordoado com uma bomba lançada na direção dele, caiu no chão e aí os PMs vieram pra cima: pegaram-no pelo colarinho, jogaram-no dentro da viatura. O Thiago pode ter que enfrentar um processo de anos. Como o Thiago, outras 4 pessoas dentre as 19 que foram detidas ontem ainda estão presas, a maioria provavelmente inocente a julgar pelo histórico, e estão sendo usadas como bode expiatório para dar exemplo a quem se atreva a ir pra rua gritar contra o status quo.

Editado: nesse vídeo, a partir do minuto 1, dá pra ver o Thiago passando mal no chão e sendo ajudado por outras pessoas. Daí, chega a PM e o leva preso:

Aliás, é nisso que o Thiago acreditava quando continuou indo pra rua, ao contrário de todo mundo que desistiu no meio: ele acreditava no poder da voz dele pra impedir que coisas como essas continuassem acontecendo com as pessoas. Na periferia, um pobre preto é preso ou morto todo dia, né? Só é bom lembrar.

O Thiago é um preso político, só mais uma vítima injustificada dos interesses do capital e do poder. A prisão do Thiago prova que a qualquer momento eu, você, o Amarildo, podemos ser presos com uma tonelada de acusações, podemos apanhar, ser mortos, tudo em nome de uma guerra que é travada nas ruas entre nós e a PM, em nome da tonelada de dinheiro que um monte de gente sentada atrás de grandes mesas de mogno ganha. E eu vejo gente em comentários nos sites de notícias dizendo que as pessoas que sofrem abusos da PM mereciam: o mecanismo de manutenção do status quo é tão eficiente que ele explora e ainda garante que os próprios explorados o defendam.

Se você ainda não entende como a vida do Amarildo, do Thiago, do Piero Locatelli, da Giuliana Vallone, do Felipe Peçanha, do Nicolas Gomes, dos meninos mortos na Rocinha, são problemas nossos, eu te ajudo a lembrar daquela citação do Dante Aligheri que, digo mais uma vez, nunca foi tão atual:

"As regiões mais sombrias do inferno estão reservadas para aqueles que permanecem neutros em tempos de crise moral."

Porque se manter neutro, em um momento desse, é ser co-responsável por todas essas coisas: a não-desmilitarização da PM, a não investigação rigorosa e a punição dos envolvidos no propinoduto tucano, a falta de qualidade absurda da educação e do atendimento médico, a prisões e mortes injustas que acontecem todos os dias, o tempo todo, no país inteiro.

Atualizado em 6 de agosto: pessoal, o Thiago foi solto na última sexta-feira. Obrigada a todo mundo que leu o texto e compartilhou. Ele ainda está sofrendo uma grande injustiça, porque está respondendo ao processo em liberdade e não foi inocentado das acusações falsas.