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Le Parc Lumiére

Venho falar de algo que já passou. Acontece muito, e sempre me deixa angustiada. Mas aí lembro que esse blog nunca se propôs a ser um guia cultural, uma agenda. Posto aqui experiências que sinto vontade de compartilhar, mas pra fazer isso preciso vivê-las antes, e nem sempre dá pra alinhar o ritmo da vida com o da informação. Vai ver foi por isso que nunca trabalhei como jornalista…

Faço essa introdução porque a exposição do Julio Le Parc na Casa Daros foi vertiginosa – das experiências mais extasiantes dos últimos tempos. E se você for um pouco mais atrasado que eu, ler isso sem ter ido, e então se interessar em ver, será tarde demais. A mostra terminou ontem, e dá uma tristezinha saber que não vou poder visitar  novamente o mundo encantado escuro/luminoso desse mago argentino (e pelo jeito não sou a única). Mas ok, o importante é que emoções eu vivi. E olha, foram muitas…

I come here speaking of  something that’s already past. It happens a lot and always leaves me a bit anguished. But then I remember this was never meant to be a cultural guide / calendar type of blog. I write about experiences I feel like sharing, but to do so I must live them first, and it’s not always possible to set life’s pace to that of information. Maybe that’s why I never worked as a journalist despite my degree…

This brief introduction is due to the fact that Julio Le Parc’s exhibition at Casa Daros was vertiginous – one of the most exhilarating experiences I’ve had in a while. And if you’re further behind than me, reading this without having seen it yet and then deciding to go, it’ll have been too late. The show ended yesterday and it’s a bit heartbreaking that I won’t be able to visit this argentinian wizard’s dark/bright world again (seems like I’m not the only one who felt this). But ok, the important thing is I experienced it wholeheartedly.

Apesar de adorar arte cinética e idolatrar artistas “imersivos” como Olafur Eliasson e James Turrell, não conhecia o trabalho de Le Parc. Fiquei impressionada com a simplicidade e elegância de suas peças mecânicas, feitas nos anos 60 mas com “resultados” de luz que às vezes lembram visões da era digital, como aqueles padrões default de descanso de tela ou iluminação de boate moderninha. As obras funcionam em dois planos: no primeiro – material, da fisicalidade e gravidade palpáveis, nosso e de todos os objetos do mundo (inclusive as esculturas) – as engenhocas econômicas, precisas e funcionais que por sí só já são admiráveis. No segundo – etéreo, leve, fugaz, ao qual só nos resta contemplar e deixar penetrar já que nunca o penetraremos – seres e teias de luz que dançam ao nosso redor, ora de forma organizada e ritmicamente precisa, ora soltos no ar numa coreografia orgânica e fluida. A impressão que tive várias vezes era de ter mudado de escala e estar enxergando plânctons, bactérias ou outros seres normalmente invisíveis aos nossos olhos. A cada sala éramos sugados pra dentro de micro universos de luz e movimento, ficando quase impossível pro corpo não pulsar no mesmo ritmo – ou ritmoS, já que algumas obras eram simultaneamente lentas (na matéria quase blocada) e velozes (na luz dispersa). Perdi o querido João Penoni executando sua performance Lúmens dentro da mostra, mas depois da visita entendi perfeitamente a ligação entre o trabalho dos dois artistas – Le Parc pode não ter tido a intenção de falar do corpo, mas o corpo responde à sua obra.

Despite loving kinetic art and idolising “immersive” artists like Olafur Eliasson and James Turrell, I wasn’t aware of Le Parc’s work and was impressed by the simplicity and elegance of his mechanical pieces – all from the 60′s but some with light “results” reminiscent of digital age visions like default screensaver patterns or trendy club lighting. The works exist in two simultaneous planes: in the first – material, of palpable physicality and gravity, the one we and all objects (including sculptures) inhabit – we have the economic, precise and functional machines, admirable on their own. In the second one – ethereal, weightless, fleeting, which we can only contemplate and be penetrated by since we can never penetrate it ourselves – light beings and webs dance around us; at times organised and rhythmically precise, others loose in a fluid, organic choreography. Several times I had the impression I had changed scales and was now able to see planktons, bacteria and other normally invisible beings. In each room we were sucked into micro universes of light and movement, making it almost impossible for the body not to pulse in the same rhythm – or rhythmS, since some pieces were simultaneously slow (in the block-like matter) and fast (in the dispersed light). I missed João Penoni’s one-time execution of his ‘Lúmens’ performance inside the show, but after the visit I completely understood the connection between the two artists – it might not have been Le Parc’s intention to talk about the body, but the body responds to his work.

O artista sabe brincar com os sentidos como ninguém, e me colocou em contato com alguns meus de forma muito curiosa. Nunca imaginei que um labirinto sem paredes fixas pudesse me deixar tão confusa, tonta (literalmente) e extasiada. A miopia mais uma vez veio a calhar e ajudou na viagem: de longe naquela escuridão alguns materiais perdiam contorno, os fios desapareciam, as luzes estouravam…de certa forma tudo ficava mais mágico – menos objeto, mais acontecimento. Viagens visuais tão intensas costumam suprimir a fala, e nessa não foi diferente: quando embarcamos de verdade, vem o silêncio. Boquiaberta, não sentia a necessidade de produzir sons que perturbassem a atmosfera sublime – a não ser uma risada involuntária quando só o sorriso de idiota constantemente estampado no rosto não da mais conta de representar a felicidade diante de alguma peça.

E como se esses trabalhos mágico não fossem suficientes pra me ganhar, o cara ainda é ativista! Entre outros textos, fez um questionando o papel do artista na sociedade que se mostra perfeito pros dias de hoje, tão conturbados quanto os de 1968 quando foi escrito.

The artist plays with our senses like no other, and put me in touch with some of mine in a very curious way. I never imagined a maze with no fixed walls could be so confusing, dizzying (literally) and entrancing. Nearsightedness once again came in handy and helped the trip: from a distance in the darkness some materials lost definition, wires disappeared lights flared…in a way everything became more magical – less object, more happening. Visual journeys so intense usually suppress speech and this time it was no different: when we truly embark, silence follows. Open-mouthed, I didn’t feel the need to produce sounds that would disrupt the sublime atmosphere – except for the occasional involuntary laugh when the dopey smile plastered on my face is not enough to represent the joy before a certain piece.

And as if his art wasn’t magical enough to win me over, the guy is also an activist! Among other texts, he wrote one questioning the role of the artist in society which is just perfect for the troubled days we’re living in, as much as those of 1968 when it was written.

Sorte enorme ser essa a primeira expo visitada após 5 semanas de imersão artística teórica e prática focada em desenho – tudo que eu precisava era arte dessas de mergulhar de corpo e alma. Julio Le Parc comprova que a simples curiosidade pelos processos do mundo, combinada à pesquisa e dedicação rigorosas, pode ter uma riqueza de desdobramentos impressionante. Foi também a minha segunda visita à Casa Daros e, assim como na primeira, saí de lá com a sensação de que o lugar em pouco tempo já se consolidou como um dos centros de arte mais relevantes e bem estruturados da cidade (apesar de ainda sentir falta de mais verde e sombra no pátio e de um biciletário na entrada :p)

Lucky me to have this be the first exhibition I visit after a 5 week intensive artistic immersion – both practically and theoretically focused on drawing. All I needed was this kind of art you can dive into, heart and soul. Julio Le Parc proves that simple curiosity for the world’s processes combined with rigorous research and dedication can lead to impressively rich and diverse developments. It was also my second visit to Casa Daros and, just like the first time, I left with the feeling that in a short period of time the place has already been able to establish itself as one of the most relevant and well structured art centres in Rio (despite still lacking bicycle parking and trees / shade in the patio :p)

Karl Blossfeldt @ Whitechapel

Karl Blossfeldt (1865 – 1932), escultor e professor de arte, começou a fotografar plantas para estudar as estruturas presentes na natureza e observar como essas influenciavam as formas criadas pelo homem. Durante anos catalogou detalhes impressionantes e belíssimos criando um riquíssimo inventário do que eu só posso chamar de “arquitetura floral”. O projeto, mantido por décadas apenas para uso didático e, portanto, sem alarde, só ganhou notoriedade em 1928, quando com o lançamento do livro Urformen der Kunst (mais fotos no link). A partir daí Blossfeldt ficou conhecido como pioneiro da Nova Objetividade na fotografía e foi reverenciado por figurões como László Moholy-Nagy, Walter Benjamin e Georges Bataille.

Quem estiver em Londres até 14 de Junho pode conferir ao vivo o trabalho de Blossfeldt na Whitechapel Gallery .

Karl Blossfeldt (1865 – 1932), sculptor and art teacher, began photographing plants to study their natural structures and observe how these influenced man-made forms. For years he catalogued impressive and beautiful details generating an extremely rich database of what I can only call “floral architecture”. The project, educational by essence and, therefore, carried out for decades without outside recognition, finally gained public notoriety in 1928with the publishing of Urformen der Kunst (more images on link). From then on he became well know as a pioneer of New Objectivity in photography and revered by big-shots like László Moholy-Nagy, Walter Benjamin and Georges Bataille.

 Those in London until the 14th of June can see his work up-close, at the Whitechapel Gallery.

 

Art in Rio pt.1 – Casa Daros

A passagem pelo Rio foi corrida, uma semaninha só, mas ainda assim consegui conhecer os dois espaços de arte recém abertos na cidade – Casa Daros e o MAR (Museu de Arte do Rio) – e ir na estréia do Travessias 2. Abaixo, um pouquinho sobre a primeira – em breve post sobre os outros dois.

My trip to Rio was rushed, only one week, but still I managed to see two recently opened art spaces – Casa Daros and MAR (Rio Museum of Art) and attend the launch of  Travessias 2 project. Below, a few words about the first one – soon a post about the other two.

Casa Daros
Nada mais justo do que uma das maiores coleções de arte contemporânea latino-americana abrir um espaço na América Latina (a sede é na Suíça), e que privilégio para o Rio de Janeiro ser a cidade escolhida para tal. O prédio, um antigo orfanato e educandário, foi totalmente restaurado e o resultado é um misto de museu e galeria de altíssimo nível. A escolha de manter a estrutura original, com quase todas as salas dando vista para o pátio central, poucos andares, muitas janelas, piso de peróba original (grande parte) e outros detalhes, dão ao local um clima bem aconchegante. Senti falta apenas de mais verde, tanto na entrada quanto no pátio central.

Aliás, o pátio foi uma grande questão durante a visita: uma área de encontro e descanso tão gostosa merece mais sombra e, como uma parte tão marcante do prédio, merece também mais vida. Fiquei imaginando aquele espaço árido no auge do verão – não vai ter quem aguente ficar ali fora. Pra tornar a coisa mais interessante, a própria proposta de sombra poderia virar um projeto para o espaço – de tempos em tempos convidar artistas ou arquitetos para uma intervenção no local, dando ao público novas oportunidades de interação e exploração do mesmo (algo como o que acontece no pavilhão da Serpentine Gallery).

Nothing fairer than one of the world’s largest collections of contemporary latin american art (based in Switzerland) opening a branch in…Latin America. And what a privilege for Rio to be the chosen city. The building, formerly an orphanage and school, was completely refurbished and the result is a top notch mix of museum and art gallery. The choice of maintaining the original structure, with most rooms facing the central courtyard, few floors, lots of windows, original wooden flooring (most of it) and other details give the place a really cozy feel. I just wished there was a bit more green, both at the entrance and in the courtyard.

Actually, the courtyard was thoroughly debated during the visit: such a nice meeting / resting space deserves more shade and, being such an important area of the building, more life. I kept imagining that barren patio in the summer – no one will stand to be outside. To make it more interesting, the shading proposal could become a project on itself, with artists or architects being invited from time to time to create an intervention in the space, giving the audience new opportunities of exploring and interacting with it (something like the Serpentine Gallery pavilion).

Em termos de conteúdo, curti muito a decisão de fugir do óbvio que seria inaugurar a casa com uma mostra de arte brasileira. Apesar da diversidade de artistas e meios, as obras da expo Cantos Cuentos Colombianos são quase todas sobre o mesmo tema: a violência – da guerra civil que assolou os campos nos anos 50 às guerras entre paramilitares e guerrilheiros ao narcotráfico a partir dos anos 80. Eu não conhecia muitos artistas colombianos e fiquei impressionada não só com a qualidade dos trabalhos, mas também com a realidade duríssima que penetra essa sociedade e serve de combustível para artistas altamente engajados. As obras ali expostas não são nada passivas e suas camadas de significados exigem o mesmo dos espectadores: várias passam por metamorfoses ou possuem detalhes e referências escondidos que requerem atenção, observação e paciência.

Now moving on to the content, I really liked the decision to avoid the cliché that would be launching the place with an exhibition of brazilian art. Despite the diversity of artists and media,the works in Cantos Cuentos Colombianos revolve mostly around one theme: violence – be it from the civil war that devastated the fields in the 50′s, the paramilitary groups versus guerrilla fighters or the drug wars that spread from the 80′s on. I didn’t know many Colombian artists and was impressed not only by the quality of the works but also by the extremely harsh reality that penetrates this society serving as fuel to highly engaged artists. The artworks in this show aren’t passive at all, and their multi layered meanings demand the same from the viewer: lots of the pieces go through metamorphoses or have hidden details and references that require attention, observation and patience.

Oscar Muñoz – Aliento: respiração revela rosto de desaparecido tirado do jornal // a breath reveals the face of a missing person sourced from a newspaper

Musa Paradisíaca, de José Alejandro Restrepo, é definitivamente a obra mais impactante.  A imponente presença e o cheiro forte das bananas (cujo nome científico é o mesmo da obra) toma conta do ambiente. A banana é um dos mais importantes produtos de exportação da Colômbia e a exploração do mercado por grandes multinacionais há décadas gera massacres a camponeses nos bananais do país. Chegando bem perto dos cachos, é possível ver vídeos que retratam a dualidade simbólica dessa fruta: enquanto alguns mostram Adão e Eva em um paraíso tropical, outros são imagens de combate tiradas de telejornais dos anos 80 e 90 – nossa impotência e distância diante das imagens contrasta com a proximidade física e o impacto sensorial das bananas.

Musa Paradisíaca (Paradise Muse), by José Alejandro Restrepo is definitely the most impactful piece. The imposing presence and strong smell of the bananas – whose scientific name is the same as the work’s title – take over the room. Bananas are one of their main export goods and the exploitation of the crop by large multinationals has been causing massacres among plantation workers in the country for decades. By getting very close to the hanging bunches the viewer can see videos that illustrate the symbolic duality of the fruit: while some feature Adam and Eve in a tropical paradise, others show combat footage from news reports of the 80′s and 90′s  - our impotence and distance from the images contrast with the physical closeness and the sensorial impact of the bananas.

Na mesma sala, Boca de Ceniza (Boca de Cinza) de Juan Manuel Echavarría acaba servindo de trilha sonora para a obra de Restrepo, tornando o clima ainda mais pesado. Ao nos aproximarmos daqueles rostos enormes e seus olhos cheios d’àgua e prestarmos atenção nas suas palavras, entendemos o porque: o projeto apresenta os relatos cantados de vítimas e sobreviventes de massacres das forças paramilitares. As descrições da violência, quando cantadas, ganham uma força que não teriam se fossem apenas faladas – tudo parece ficar mais sincero e emotivo.

In the same room  Boca de Ceniza (Ash Mouth) by Juan Manuel Echavarría acts as a soundtrack to Restrepo’s piece, making it even heavier. As we approach those giant faces with their teary eyes and pay attention to the words they sing we understand why: the project presents reports of massacres by paramilitary groups, composed and sung by victims and survivors. The portrayal of violence finds strength  in song that maybe it would lack if told through spoken word – everything seems to become more sincere and emotional.

É dele outro trabalho do qual gostei muito: Corte de Florero. A série de montagens fotográficas faz referência a vários aspectos históricos do país: o nome do corte que grupos rivais de camponeses executavam nos cadáveres inimigos (cortando-lhes a cabeça e os membros e enfiando tudo dentro do torso, como um vaso de flores), as expedições espanholas de estudo da flora local após a independência e a importância do comércio de flores no país (a Colômbia é o segundo exportador do mundo, perdendo apenas para a Holanda). Segundo o próprio Echavarría, a intenção é atrair o espectador com algo aparentemente belo e fazê-lo pensar ao perceber que as flores na verdade são arranjos de ossos humanos.

He’s also the author of another work I loved: Corte de Florero (Flower vase cut). This photographic series references several different historical aspects of Colombia: the name of the cut that rival peasant groups performed on their enemies’ dead bodies (cutting the head and limbs and stuffing it all down the torso, like a flower pot), the post independence Spanish expeditions to study local flora and the importance of the flower business in the country (it’s the second biggest exporter in the world, only behind Holland). According to Echavarría, the intent is to attract viewers with something apparently beautiful make them think when they realise the flowers are in fact human bones.

Passiflora Sanguinea

Orquis Lugubris

Cattleya Afflicta

Não vou ficar aqui falando de todos pois são muitos artistas e muitas obras boas, mas já da pra ter uma idéia né? Ao final da exposição o visitante pode ainda ir a uma sala contendo um monte de informações e depoimentos em video de todos os artistas. E é justamente essa a cereja do bolo: ao contrário de muitos museus e centros culturais da cidade, a Casa Daros não oferece apenas exposições – a agenda conta com bate-papos com artistas, exibições de filmes e programas educativos com escolas públicas e particulares. Definindo-se como um espaço de arte, educação e comunicação, o local é equipado com um ótimo auditório, uma biblioteca especializada em arte contemporânea latino-americana, Espaço de Leitura com catálogos de exposições da coleção e Espaço de Documentação. Pra finalizar, o restaurante é comandado pela Roberta Ciasca, mesma dos excelentes Miam Miam e Oui Oui (não comi no local então não posso analisar muito – só espero que os preços sejam mais amigáveis do que o dos outros dois) e a lojinha tem um conteúdo bem interessante, mas que eu acho que ainda poderiam explorar bem mais – fui tentar comprar uma caneta, por exemplo, e não encontrei.

I’m not gonna go on and on about the whole exhibition because it’s too many artists and too many good pieces, but you get the idea, right? After reaching the end of the show visitors can go to a room containing all sorts of info about the works and video statements of all the artists. And this is in my opinion the highlight of Casa DAros: unlike many museums and cultural centres in Brazil, it goes beyond the exhibition content to feature year-round artists talks, film screenings and educational programmes with public and private schools. Defining itself as a place for art, education and communication, it is equipped with a great auditorium, a library specialising in contemporary latin american art, reading room with exhibition catalogues and documentation space. To finish it off, Roberta Ciasca, of the excellent Miam Miam and Oui Oui restaurants, is in charge of the food (I haven’t eaten there so can’t say too much – just hope it’s not as pricey as the other two) and the shop has interesting content (although I still think they could explore it a bit further – I tried to buy a pen and they don’t sell them….).


Rosemberg Sandoval – Mugre (aliás, no dia 25/04 o artista participará de um bate-papo no local //btw, there will be an artist’s talk on site – 25/04)

Claro que nada é perfeito e durante o passeio anotei algumas pequenas críticas, como a falta de bicicletários na entrada (essa, mais uma sugestão, já que espaço não falta), o volume dos rádios dos seguranças (em uma sala ficava difícil se concentrar no audio da obra) e a falta de cortinas para quebrar a luz direta (os retratos de soldados mutilados de Miguel Angel Rojas ficam difíceis de se ver devido ao reflexo, em uma sala com mais janelas do que quadros), mas o local é novo e há tempo de sobra para ajustes. O importante é que o Rio, e o Brasil, ganham um espaço fundamental para diminuir a distância entre nós e nossos vizinhos latinos.

Of course, nothing’s perfect and I wrote down some points of criticism, like the lack of bike parking spots by the front yard (this is more of a suggestion, as there is clearly enough space), the volume of the security guards’ radios (in one of the rooms it made it hard to focus on the audio from the video) and the lack of curtains to break the strong light coming from outside (the reflection made it hard to see Miguel Angel Rojas‘ mutilated soldier portraits, shown in a room with more windows than images). But, then again, the place has just opened and there’s enough time for adjustments. The important thing is that Rio, and Brazil, now have a cultural centre that might help shorten the gap between us and our latin neighbours.

 

William Kentridge – ‘Fortuna’ @ IMS

Uma das melhores surpresas nas férias cariocas foi a mostra do Sul Africano William Kentridge, no IMS (para ilustradores e animadores é programa obrigatório!). Acredito que por ser pouco conhecido por aqui, a idéia, segundo a curadora Lilian Tone, era uma mostra que expusesse o processo do artista ao invés de um tema em particular – deu certo. ‘Fortuna’ combina obras nos mais diversos meios, dando uma dimensão da inquietação criativa de Kentridge. “Para ele, “fortuna” é uma espécie de acaso dirigido, descoberta ou sorte comum a toda busca incessante e apaixonada, algo distante do controle racional e da estatística fria.”

One of the best surprises in my Rio holidays was the William Kentridge exhibition at Instituto Moreira Salles (a must see for illustrators and animators!). According to curator Lilian Tone, the exhibition is meant to bring forth his whole process, and it definitely does – ‘Fortune’ combines works in the most diverse media, allowing viewers to grasp the dimension of Kentridge’s creative unrest.. “For him, ‘fortune’ is a sort of directed chance, discovery or luck common to every incessant and passionate search, something beyond rational control and cold statistic.”

O visual de algumas obras lembra as nossas gravuras de cordel // Some works resemble brazilian folk art known as ‘cordel’

Apesar de distintas nos materiais e formas de apresentação, suas obras possuem elementos comuns como o traço “sujo”, rápido, as sobreposições de texturas (principalmente folhas de livros) e a forte carga política com constantes referências à guerra e ao colonialismo. Além de deixar tudo visualmente coeso (e transformar-se em marca registrada do artista), essa estética da ao trabalho simplicidade e dinamismo. A impressão é de que, para escoar a constante enxurrada de idéias, ele se faça valer (com maestria, claro) do primeiro material encontrado pela frente – talvez por isso a predileção por trabalhos com movimento que reforçam ainda mais essa urgência.

“Cada uma destas diferentes transformações está testando quais seriam os possíveis significados da imagem”

Despite the distinct materials and presentation styles, his pieces have common elements like the “dirty”, quick trace, texture layers (especially book pages) and strong political subjects like war and colonialism. Besides giving the whole thing a cohesive visual identity (and a sort of trademark of his), this style makes the work feel very simple and dynamic. It’s as if he needs to let the constant flood of ideas flow by (masterfully) making use of whatever material he can find first – maybe that’s the reason behind the fondness for moving image, which reinforces this urgence.

“Each of the different transformations are testing what the possible meanings of the image could be”

A exposição, que fica em cartaz até o dia 17 de Fevereiro reúne trabalhos criados entre 1989 e 2012 (entre eles 27 filmes) e ocupa ambos os prédios do centro cultural – ou seja, vá com tempo. Aliás, parabéns aos responsáveis pela sala com os projetores no chão – excelente disposição das projeções deixa os espectadores imersos nas obras e o tamanho causa uma sensação de voyeurismo, como se a sala fosse uma extensão do estúdio do artista e aquelas ações estivesse acontecendo alí, em tempo real. Agora a dica final: se precisar de um break ou um lanche pós programa, a broa de milho do café local é, sem exagero, a melhor que já comi ;)

The exhibition is on until February 17th. It showcases works made between 1989 and 2012 (including 27 films) and is spread over both buildings so make sure you have plenty of time to see it all. By the way, congratulations to those responsible for the room with the projectors on the floor – the excellent display of the projections allows viewers to immerse themselves in the images while the scale gives a voyeuristic feel, like the room is an extension of the artist’s studio and the actions are happening right there, in real time. Now a final tip: if you need a break in between or a snack after the show, the corn bread in the local café is, without a doubt, the best one I ever had ;)


De como não fui Ministro d’Estado’: um dos trabalhos criados especialmente para a mostra carioca, primeira do artista da América Latina
‘On how I wasn’t Minister of State’: One of the pieces created especially for the Rio show, his first in Latin America.

Retrospectiva OEsquema 2012 – Rio Occupation London

O Rio Occupation London foi uma celebração do que há de melhor não só na cena artística do Rio, mas nos cariocas (nativos ou não). Um encontro de 30 “novos” talentos de diversas áreas que não só tiveram a oportunidade de se conhecer mas também de criarem juntos. O resultado foram trabalhos colaborativos, sensíveis, muitos tratando da questão do real na arte e da tênue linha que separa um e outro, talvez por conta da própria experência – pessoas altamente criativas juntas, em uma cidade estranha, ligadas pelo fato de serem do mesmo lugar mas completamente diferentes em suas vivências e estilos de trabalho. O evento tinha como QG o Battersea Arts Centre, onde os artistas estavam hospedados e onde toda quarta rolava o Brazilian Kitchen, uma jam session aberta ao público onde os músicos Domenico Lancellotti e Pedro Miranda faziam também o papel de cozinheiros – não sei se os gringos estavam lá pela música ou pela feijoada.

Mas o grupo não ficava restrito ao local e cada projeto foi desenvolvido em um espaço diferente da cidade – Breno Pineschi e suas bananas coloridas ocuparam Londres inteira, incluíndo o ilustre V&A Museum, ao lado de Robson Rozza e Eric Fully com suas deslumbrantes fantasias de papel. O museu eventualmente foi palco de uma noite inteira dedicada ao Occupation, com vários artistas do projeto apresentando trabalhos em diversas salas do local. Laura Lima montou seu cenário dentro de um apartamento vazio e de lá ia gravando cenas que eram transmitidas em tempo real em uma sala de cinema ao lado – nem teatro nem cinema, something in between. O espaço cultural RichMix, em Shoreditch, também foi palco de uma noite do Occupation que contou com uma performance visceral de Bernardo Stumpf e terminou com todo mundo dançando até o chão ao som de João Brasil.

Muitos também foram pra rua – Pedro Rivera passou com seu Camelondon por diversos pontos turísticos da cidade, incentivando as pessoas a trocarem objetos pessoais por um pendrive com obras dos artistas do projeto e Gustavo Ciríaco utilizou os arredores do V22, local onde foi montada a exposição final do Occupation, como cenário para sua performance que combinava atores e transeuntes, confundido os espectadores que assistiam tudo do telhado. Tudo era captado pelas lentes de Paulo Camacho que ao final de cada dia transformava as imagens em uma espécie de diário de bordo visual. Outro lugar a ser ocupado foi a Somerset House – que abrigava uma outra expo de artistas plásticos brasileiros, a Casa Brasil. Pela sala de cinema do local passaram os filmes dos ‘Occupantes’ Christiane Jatahy, Anna Azevendo e Andrea Capella, entre outros.

A riqueza do choque cultural, a vontade de digerir o novo, a simbiose daquele ambiente repleto de carinho e idéias geraram um resultado único, que culminou em uma belíssima exposição em uma antiga fábrica de biscoitos em Bermondsey. Durante 3 noites brasileiros e gringos deliciaram-se na piscina de bolas de isopor de Camacho, foram impactados pelas poderosas “geringôncas gramofônicas” de Ricardo Siri, se emocionaram com a delicadeza dos filmes de Felipe Rocha e Eduardo Nunes, admiraram a fusão corpo/espaço de Dina Salem Levy, sentiram o peso do tempo das sandálias de Marcela Levi e foram alertados pela distopia olímpica de Bruno Vianna. E como não podia deixar de ser, tudo terminou em samba. Foi lindo.

Posso estar sendo altamente subjetiva, mas não tem como não ser. Ter um pedaço tão rico do Rio, da minha cidade, invadindo Londres, foi único, inspirador, emocionante. O resultado oficial será um catálogo do projeto previsto para o ano que vem, mas colaborações surgidas em Londres como o Taksi de Domênico e João Brasil, o Cinema Shadow/Segundo de Laura Lima e ‘Day by Night’ de Emanuel Aragão já estão dando as caras por aqui.



Rio Occupation London was not only a celebration of Rio’s artistic scene, but of the ‘carioca’ essence. 30 ‘new’ artists from Rio had the opportunity to meet, live and create together for 30 days. Probably due to the experience itself – highly creative people in a strange place, linked by their Rio dwelling but completely diferent in their experiences of life and work – most of the resulting works deatl with the question of reality in art and the thin line that separates one from the other. The group’s HQ was the Battersea Arts Centre, where every Wednesday they held an open jam session and feijoada, cooked by musicians Domenico Lancellotti and Pedro Miranda.


But the project also reached other London venues – Breno Pineschi and his coloured bananas took over the city and the prestigious V&A Museum, alongside Robson Rozza and Eric Fully with their beautiful paper costumes. The museum eventually held a late night in honour of the Occupation. In an empty apartment,Laura Lima set up her scenes and screened them real-time in a cinema below – neither theatre nor cinema, something in between. Shoreditch’s RichMix also hosted an Occupation night featuring a visceral performance by Bernardo Stumpf and João Brasil’s booty shaking tunes.

Others took to the streets – Pedro Rivera’s Camelondon passed through several tourist hotspots encouraging people to exchange personal items for usb keys filled with works by the ‘Occupiers’, while Gustavo Ciríaco treated the surroundings of V22, where the final Occupation exhibition was held, as a scenery for his performance combining actors and passerbys and puzzling viewers who watched everything from the roof. All the action was captured by Paulo Camacho, who at the end of each day turned the images into a sort of visual diary. Another host space was Somerset House. The venue’s projection room screened films by Christiane Jatahy, Anna Azevendo and Andrea Capella, among others.

The cultural shock, the will to digest all that is new, that symbiotic environment filled with tenderness and ideas let to a unique result, which culminated in a beatiful exhibition at The Biscuit Factory, Bermondsay. For 3 nights brazilians and ‘gringos’ delighted themselves in Camacho’s styrofoam pool, were impacted by Ricardo Siri‘s powerful  “gramophonic contraptions” , were moved by the delicate films of Felipe Rocha and Eduardo Nunes, admired Dina Salem Levy‘s body/space fusion, felt the weight of time through Marcela Levi‘s sand walk and were alerted by Bruno Vianna’s olympic dystopia. As expected, everything ended in samba – and it was great!

Maybe I;m being extremely subjective, but there’s no other way. Having such a rich piece of my city, Rio, invading London was unique, inspiring, moving. The official outcome will be a catalogue of the project (due next year), but some collaborations born in London, like Domênico and João’s Taksi , Laura’s Cinema Shadow/Segundo and Emanuel Aragão‘s ‘Day by Night’ can already be enjoyed by brazilian audiences.

Tim Noble & Sue Webster

Nihilistic / Optimistic traz a dupla Tim Noble e Sue Webster fazendo o que sabem melhor – retratos de sombras a partir de uma junção aparentemente caótica de materiais descartados.

Nihilistic / Optimistic shows british duo Tim Noble e Sue Webster doing what they do best – shadow portraits from apparently caotic groupings of discarded materials.

Um olhar mais próximo revela o minucioso e trabalhoso processo de composição e, apesar das estrelas serem as sombras figurativas, é impossivel ficar indiferente às dinâmicas (e, na minha opinião, lindas) esculturas que as produzem.

A closer look reveals the well thought and laborious composition process and, despite the stars of the shows being the figurative shadows, it’s impossible to be indiferent to the dynamic (and, in my opinion, beautiful) sculptures from which they emerge.

No catálogo da expo a dupla fala mais sobre seu processo de criação e como encontram os materiais e inspiração para as suas ‘Street Compositions’ pelas lixeiras de Shoreditch. Nihilistic / Optimistic está em cartaz na galeria Blain Southern em Londres, até o dia 24/11.

The exibition catalogue  has the artists talking about their creative process and how they find materials and inspiration for their ‘Street Compositions’ in Shoreditch bins. Nihilistic / Optimistic is showing at Blain Southern gallery, London, until Nov 24.

 

Robinson Institute @ Tate Britain

still 'Robinson in Ruins'

A comissão 2012 da Tate Britain, ‘Patrick Keiller: Robinson Institute’ é um belíssimo exemplo de como dar vida nova a uma coleção permanente, enaltecendo o valor histórico da arte e conectando obras de diversas épocas com questões atuais . O trabalho transfere para dentro do museu um pouco do universo do excêntrico pesquisador e andarilho Robinson, protagonista dos filmes London (1994), Robinson in Space (1997) e Robinson in Ruins (2010), de Patrick Keiller.

Os três filmes ficam no meio do caminho entre documentário e ficção: o personagem-título (e alter-ego de Keiller) é só uma referência e sua presença se dá apenas através dos narradores, cujos relatos explicam as motivações e ações de Robinson. A narração retraça o itinerário do explorador enquanto longas tomadas dos locais visitados servem de pano de fundo para fatos históricos, delírios poéticos e questionamentos sociais, políticos e economicos.

Focado sempre nas mazelas do seu tempo e tentando encontrar no passado as pistas para explicar o presente, Robinson vê a paisagem como um livro e o deslocamento como a única possibilidade de leitura. “Ele acreditava que se olhasse a paisagem atentamente, a base molecular de eventos históricos seria revelada. Ao caminhar guiado principalmente pela intuição, ele procurava recuperar a possibilidade de transformação política e econômica”.

‘London‘ é uma ode aos valores dos escritores românticos dos século 18 e poetas franceses do fim do século 19, em contraponto a uma Londres social e culturalmente devastada pelo quarto mandato consecutivo de um governo conservador. Em ‘Robinson in Space’, ao ser abordado por uma agência de propaganda para descobrir o “problema da Inglaterra”, Robinson parte em uma jornada baseada no livro ‘Viagem por toda a ilha da Grã-Bretanha‘, de Daniel Defoe, na tentativa de “criar uma ponte entre realidade e imaginação”. Finalmente, em ‘Robinson in Ruins‘, o personagem diz ter sido contactado por “inteligências não-humanas” para preservar a vida na terra e tentar livrar o mundo de um grande mal cujos sintomas incluem crise bancária, aquecimento global, as guerras do Iraque e Afeganistão e a privatização obscura do espaço público no país. É sobre esse último que se trata a exposição.

The Tate Britain 2012 Comission, ‘Patrick Keiller: Robinson Institute’ is a beautiful example of how to breathe new life into a permanent collection, praising the historical value of art and connecting pieces of various times and styles to current issues. The commission brings into the London museum the universe of Robinson, eccentric researcher, wanderer and fictional lead character of the films London (1994), Robinson in Space (1997) and Robinson in Ruins (2010), by Patrick Keiller.

All three films lie somewhere in between documentary and fiction: Robinson (Keiller’s alter-ego) is just a reference, made present only through the narrators, whose accounts explain the motivations and action of the character. The narration retraces the explorer’s itinerary while lengthy shots of the locations visited serve as a backdrop to historical facts, poetic raving and social, political and ecnomic questioning.

Focusing on the ills of his time and looking into the past for clues about the present, Robinson sees the landscape as a book and wandering as the only possibility of reading. ‘He believed if he looked at the landscape hard enough, it would reveal to him the molecular basis of historical events. By walking guided mostly by intuition, he sought to recover the possibility of political and economic transformation’.

‘London’ is an ode to the values of 18th century english romantic writers and late 19th century french poets, contrasting with a socially and culturally devastaded London as the result of a 4th consecutive Tory government. In ‘Robinson in Space’, after being approached by an advertising agency to investigate the ‘problem of England’, Robinson embarks on a series of seven journeys across England inspired by Daniel Defoe‘s ‘Tour through the Whole Island of Great Britain’, claiming “a bridge between imagination and reality must be built”. Finally, in ‘Robinson in Ruins’, the character claims ability to communicate with network of non human intelligences determined to preserve the possibility of life on the planet, and had been enlisted to work on their behalf, keen to cure the world of ‘a great malady’ whose symptoms include the banking crisis, global warming, war in Afghanistan and Iraq, and the transfer of British land to obscure owners. This is the one the exhibition is about.

“Atualmente, parece ser mais facil para nós imaginar a contínua deterioração da terra e da natureza do que o colapso do capitalismo moderno.” Fredric Jameson, As Sementes do Tempo

Penelope Curtis, Diretora da Tate Britain, diz: “Patrick Keiller aceitou o desafio de maneira exepcional com uma instalação que nos permite enxergar na a coleção permanente da Tate uma relação com algumas das questões que a Inglaterra enfrenta atualmente, demonstrando como preocupações similares emergem de tempos em tempos. O interesse de Keiller em entender a paisagem britânica e o que essa pode nos dizer sobre as origens de alguns problemas mundiais se adequa perfeitamente à coleção da Tate”

“It seems to be easier for us today to imagine the thoroughgoing of deterioration of the earth and nature than the breakdown of late capitalism.” Fredric Jameson, ‘Seeds of Time’

‘Patrick Keiller has risen to the challenge of the Tate Britain Commission in an exceptional way with a new installation that enables us to look at the Tate’s collection in relation to some of the issues that Britain faces today, demonstrating how similar concerns run through time. Patrick Keiller’s sustained interest in understanding the English landscape, and what it can tell us about the origin of some of the world’s problems, strikes a perfect chord with the Tate collection.’

Head of a Man, Nigel Henderson

Dividida em sete seções temáticas, a exposição contém stills, textos e trechos do filme misturados a pinturas, gravuras, livros, fotografias e esculturas, além de documentos, placas e qualquer outro objeto que reforçe os links históricos e narrativos que ele levanta durante suas andanças.

O ponto de partida da sua viagem ‘pictoresca’ é o lichen em uma placa de estrada – o tal sinal da comunicação extraterrestre que determina que ele deve ir até Newbury. Enquanto um texto explica que lichen cresce em lugares expostos a altas doses de nitrogênio, outro explica como Robinson disse ver o perfil de Goethe em um dos pequenos organismos. É esse o link para as outras obras que complementam a seção:

Divided into themes, each section of the exhibition contains stills, texts and footage from the film. Added to these are paintings, prints, books, phorographs and sculptures as well as documents, signs and any other object that reinforces the historical and narrative links he brings forth throughout his journeys.

First ‘picturesque’ view – an image of a road sign covered in lichen from which he understood he should visit Newbury. While a nearby text explains that lichen grows in areas with high levels of nitrogen pollutants, another one explains how Robinson saw Goethe’s profile on the little growth. This is the link to the other works that complement this section:

Goethe, Andy Warhol


Nos fones, o Alto Rhapsody – Op. 53 de Brahms, baseado no poema ‘Viagem a Harz no inverno’, de Goethe que diz algo como “…seu caminho se perde na vegetação rasteira, atrás dele os arbustos se fecham, a grama cresce, a mata o engole”
Speakers play the Alto Rhapsody – Op. 53, by Brahms, which is based in Goethe’s ‘Harz journey in Winter’ which begins: “but apart there, who is that? His way is lost in the undergrowth, behind him the bushes close sharply together, the grass springs up again, the wilderness engulfs him”

Graças a essa imagem no cartaz, fui descobrir o trabalho de Keiller e tive a sorte de ve-lo falar na sessão de lançamento do filme // Thanks to this image on posters, I looked him up and was lucky enough to go to the first screening of the film, featuring a Q&A with Keiller himself.

Daí em diante, sua psicogeografia nos leva a um passeio por locais e temas: um sítio onde um meteorito caiu em 1830, mesmo ano em que a Europa foi tomada por revoluções; Greenham Common, primeira base europeia a receber os mísseis de cruzeiro americanos e a última de onde foram tirados, em 1991; Aldermaston, onde o Estabelecimento de Armas Atômicas (EAA) produz ogivas para mísseis Ingleses e Americanos (atualmente a empresa privada é controlada por 3 corporações, sendo duas delas americanas). Descobrimos que a EAA é um dos principais destinos do Sistema de Oleoduto e Armazenamento do Governo, que leva combustível para as bases militares dos EUA e Reino Unido e que ao seguir um dos seus oleodutos, encontra-se em um enorme campo de papoulas. Papoulas essas que parecem ser o único  produto voltado para o consumo humano em South Oxfordshire, onde Robinson nota também a falta de mão de obra nos campos. Ele comenta ter lido sobre dados de extinção serem subestimados e menciona um estudo de 4 anos sobre plantas, passaros e borboletas na Inglaterra indicando fortes evidências de extinção em massa.

Isso é só um pequeno retrato de como funciona a “lógica” de Robinson. O fluxo é de mão dupla – a busca por conexões o tempo todo determina as suas decisões práticas de seguir por esse ou aquele caminho, mas o acaso, a intuição, também levam a descobertas que geram novas ligações entre natureza e civilização, paisagem natural e intervenção humana.

still, 'Robinson in Ruins' - uma aranha tece sua teia enquanto a narração fala sobre capitalismo e relata detalhes da bolsa de valores americana // a spider spins its web while the narrator discusses capitalism and details of the US stock market

From then on, his psychogeography takes us on a stroll through different places and themes: the site where a meteorite fell in 1830, same year that Europe was taken by revolutions; Greenham Common, first Europe base at which the US had deployed cruise missiles and last from which they were removed in 1991; nearby Aldermaston, where the Atomic Weapons Establishment (AWE) makes warheads for UK’s and US supplied trident missiles (currently private, operated by 3 corporations, 2 of which are american).We find out this is one of the major destinations of the Government’s Pipeline and Storage System’s (GPSS), which supplies fuels to US and UK military bases – he follows one of the pipelines till he encounters enormous fields of opium poppies, which  seem to be the only crops primarily for human consumption in South Oxfordsire, where he also notices the lack of manual labour in the fields. He mentions having read that rates of extinction had been underestimated and a four year study of plants, birds and butterflies in Britain had given firm indication of approaching mass extinction.

That’s just an insight into Robinson’s reasoning. The ideas flow both ways – the never ending search for connections determines his practical decisions of which path to take while chance, intuition, also lead him to discoveries that breed new connections between nature and civilization, natural landscape and human intervention.

Na tv, um video de arquivo sobre a Companhia de Petróleo Anglo-Persa, precursora da BP, acompanhada de anotações sobre o golpe de estado orquestrado pelos Ingleses no Iran, em 1953, após a nacionalização da indústria de petróleo local.

On the screen, a newsreel video about the Anglo-Persian oil company, the precursor to BP, accompanied by notes about the coup d’état in in 1953 orchestrated by the British after Iran nationalised its oil industry.

Bahrein, Andreas Gursky

Number 23, Jackson Pollock

posto da GPSS // GPSS post

Chicago Board of Trade, Andreas Gursky

A exposição é um ótimo complemento ao denso filme e, de uma certa forma, ajuda a digerir e compreender melhor as intenções por trás do mesmo. Mais do que mostrar verdades ou oferecer respostas, ambos os trabalhos nos convidam a olhar mais e enxergar a paisagem, do macro ao micro, como algo vivo, contínuo, onde as marcas do passado funcionam como pistas não para entender, mas sim para questionar o cenário atual.

The exhibition is a perfect complement to the dense film and, in a way, helps viewers to digest and have a better understanding of the intentions behind it. Rather than claims of truth or answer offers, both works invite us to look closer and more, seeing the landscape,  from micro to macro, as something living, continuous, where marks from the past work as clues not to understand, but, rather, to question the actual scenery.

Crítica do The Guardian sobre a expo aqui
The Guardian’s review of the exhibition here

A expo fica em cartaz até 14 de Outubro de 2012 – De graça
Exibition open til October 14th 2012 – Free

Gormley: Iron Man @ SP

Quem passar por SP até o dia 15 de Julho não pode perder a expo do Antony Gormley! O inglês é famoso por explorar o espaço ocupado pelo corpo com esculturas humanas em tamanho real, usando como molde ele mesmo (a instalação da obra Event Horizons chamou atenção e deu um susto nos paulistas).

Those in São Paulo until the 15th of July can’t miss Antony Gormley’s exhibition! The british artist is famous for his exploration of body space through life-size sculptures molded after himself  (already in the set up his work Event Horizons gave people in SP a scare).

Event Horizons: Um dos 31 homens de ferro espalhados por SP // One of the 31 iron men spread across São Paulo

Apesar de muitos inglêses implicarem com o artista “egocêntrico” e considerarem sua obra “repetitiva” (palavras deles), eu particularmente adoro como ele desconstrói a figura humana de diferentes maneiras. Talvez por não ser muito fã de escultura a qualidade concreta, quase gráfica, das suas formas me agrade, sei la.

Despite accusations by some British people of  being egocentric or his work too repetitive (their words, not mine), I’m quite fond of the way he deconstructs the human figure in different ways. Maybe because I’m not the biggest sculpture fan, the concrete, almost graphic, quality of his forms appeals to me.

A mostra se divide entre dois locais: no CCBB está em cartaz Corpos Presentes (em inglês chama-se Still Being que, traduzindo literalmente, pode significar “ainda sendo” e também “ser imóvel”). Além dos homenzinhos nos topos dos prédios estão expostas também Amazonian Fields (feita pra ECO-92), Critical Mass e Breathing Room, obra que eu pude conferir ao vivo e postei aqui há um tempo atrás (daquelas sacadas simples, mas de tirar o fôlego e colocar um sorriso bobo no rosto).

The exhibition is divided among two locations: in CCBB is Still Being, with the little iron men on top of buildings plus Amazonian Fields (created for the Rio 92 UN Summit), Critical Mass and Breathing Room, which I saw in London and wrote about a while back (one of those simple yet awe inspiring concepts, which cause a lasting smile).

60 figuras de ferro compõem Critical Mass (Massa Crítica)

Detalhe de alguns dos milhares de bonequinhos de barro de Amazonian Fields

É só clicar na foto pra ver um video do artista falando sobre Amazonian Fields

Just click on the image to watch a video of the artist commenting Amazonian Fields

 

Breathing Room III: Quase me sinto na obrigação de botar "alerta de spoiler" antes dessa // Almost feel obliged to put "spoiler alert" before this

Já em um projeto especial da galeria White Cube (em um galpão da cidade), está Fatos e Sistemas, com duas séries novas de esculturas em aço.

In another part of town, a special White Cube Gallery project hosts Facts and Systems, with two new series of his humanoid steel figures.

Ideal seria ver tudo junto, mas pra quem não conseguir, Corpo Presente passará também por Rio e Brasília. Fica a dica ;)

Ideally one would attend both, but if you can’t make it, Still Being will also come to Rio and Brasilia ;)

Pictoplasma Festival 2012

 

Confesso que sou ruim de planejar viagens, então adoro quando o universo conspira a meu favor e eu descubro programas legais rolando durante a trip. A boa surpresa de Berlim foi o festival de animação Pictoplasma. Focado em personagens, o evento reúne feras da área, mostrando o espaço enorme que essas criaturas ocupam na arte contemporânea e a sua importância na linguagem visual atual, em diversos meios e formatos.

I have to confess I’m not the best planner when it comes to travelling, so I love when the stars align and something very cool is happening where I am. This time in Berlin the lucky surprise was the Pictoplasma Festival. Focusing on character animation, the event brings together a team of allstars of the field, showing just how big a space these creatures occupy in contemporary art and their importance in today’s visual language, in distinct media and formats.

As atividades se dividiam entre dois QG’s principais: no espaço .HBC ficava o Character Lab, onde alguns dos artistas participantes dividiam suas técnicas com o público atráves de workshops variados (de xilogravura a vidro assoprado a ilustração 3D), enquanto outros apresentavam seus trabalhos em meio a um bate papo. No cinema Babylon (super perto) rolavam as palestras principais, com nomes de destaque como Gary Baseman, Julia Pott e Joel Trussel entre outros, e as sessões de curtas – para noooooooosa alegria (serviu pra matar um pouco da saudade do Anima Mundi – uma das poucas coisas que Londres ainda não me oferece é um festival de animação foda como o nosso). Abaixo, alguns dos meus preferidos:

The activities were divided among two HQ’s: the .HBC space was home to the Character Lab where some participating artists shared their techniques in workshops (from linocut to blown glass to 3D illustration), while others introduced their work in small talks and presentations. A few blocks away, Babylon cinema hosted not only the main conference lectures, featuring well known artists like Gary Baseman, Julia Pott and Joel Trussel among many others, but also the animated shorts programme (which I couldn’t get enough of, since I still haven’t found a London equivalent to top-notch brazilian animation festival Anima Mundi). Here are some of my favourites:

Bonequinha do Papai

Da pra imaginar a minha cara e as risadas quando, no meio de um cinema na alemanha, começa ISSO! Fiquei tão embasbacada com a genialidade dessa “ode às tecnologias ultrapassadas” que nem identifiquei a voz inconfundível do Arnaldo Antunes. Agora tudo faz sentido
I was laughing out loud when this came on – totally unexpected. This freakish “ode to technologies past” called Daddy’s Little Doll is part of a project called Little Citizen, created by some pretty well known brazilian musicians.

Wonderland

Umbra


Baltimore Clap

Bird Benny

gIant


Crossover

Diretamente da Bauhaus Weimar
Straight from the Bauhaus Weimar

Let Go

Vale a pena conferir o Making of
Check out the Making of

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Além disso tudo ainda rolavam várias exposições ligadas ao festival, espalhadas por galerias da area. Um mapinha esperto mostrava a rota percorrendo todas e, pra não ter chance de se perder mesmo, do lado de fora de cada galeria participante uma bandeirinha fluorescente identificava o local. Segue um gostinho…

On top of it all, several local galleries had exhibitions related to the festival. A map of the Character Walk highlighted the area and traced the best route going through all of them. And to avoid all chances of getting lost, each participating gallery had a little fluorescent flag hanging outside. Here’s a little taste…


Já tinha me apaixonado por essa ilustra do Ben Newman em um flyer aqui em Londres - construtivismo tribal! // I had fallen in love with this illustration in a London flyer - tribal constructivism!

Ben Newman

Ben Newman - Mascaras // Masks

Ben Newman

Julia Pott

Julia Pott

Nick Sheehy

Nick Sheehy

Joshua Ben Longo

Joshua Ben Longo

Steven Alexander

Cordel pop de Henning Wagenbreth com temas sobre a exploração do continente africano // Pop folk with themes related to the exploration of the African continent

Jordan Metcalf

Jordan Metcalf

Mark Gmehling

Mark Gmehling

Mark Gmehling

Mark Gmehling

Que saudade que eu tava de uma imersão intensa nesse mundo nonsense, colorido, mezzo demente e hiper lúdico… A primeira impressão foi ótima e com certeza ficarei de olho nos projetos futuros do pessoal do Pictoplasma, torcendo pra uma versão Londrina!
Oh how I missed a full imersion in this nonsense, colorful, kinda sick and hyper playful world! This was quite a first impression and I’ll definitely be keeping a lookout for Pictoplasma’s fututre projects – and hoping for a London edition.

Olafur Eliasson (@ SP)

Acabo de saber que um dos meus artistas preferidos está duplamente em cartaz em São Paulo! A mostra Olafur Eliasson: Seu Corpo da Obra divide-se entre a Pinacoteca do Estado e o SESC Pompeia e vai até o dia 08 de Janeiro. Quem já teve a chance de ver ao vivo o trabalho do artista dinamarquês / islandês pode confirmar: é uma experiência única, inesquecível!

I just found out one of my favorite artists has a double bill in São Paulo! The Olafur Eliasson: Your Body of Work exhibition, on until January 8th, is taking place both at the Pinacoteca do Estado and SESC Pompeia. Those who’ve had a chance to see the danish/icelander’s work live can back me up: it is a unique and and unforgettable experience!

Tome o Seu Tempo / Take Your Time (2008) - Em cartaz na Pinacoteca / Showing at Pinacoteca SP

Seu Corpo da Obra / Your Body of Work (SESC Pompeia, BR - 2011)

Microscópio para São Paulo / Microscope for São Paulo (Pinacoteca do Estado de São Paulo, BR - 2011)

Seu Caminho Sentido / Your Felt Path (SESC Pompeia, BR - 2011)

Explorando elementos como água, luz, cor e temperatura o artista consegue resultados mais do que belos – sublimes. Suas obras imersivas, grandiosas e ultra sensoriais, brincam com a percepção dos espectadores e são capazes de invocar emoção pura, sem qualquer preocupação com linguagem ou códigos de qualquer tipo. Reações comuns? Olhos arregalados, bocas abertas, silêncio, seguido de sorrisos e até gargalhadas. Mais do que ver ou contextualizar, a arte de Eliasson é para ser sentida.

The result from his exploring of elements such as water, light, color and temperature is more than beautiful, it’s sublime. His immersive works, grandious and ultra sensorial, play with perception and are capable of invoking pure emotion, without any worry about language or codes. Some common reactions? Wide open eyes, dropped jaws, silence, followed by smiles and sometimes loud laughter. More than seen or contextualized, Eliasson’s art is to be felt.

Projeto Clima / The Weather Project (Tate Modern, UK - 2003)


‘Seu Passageiro Cego’ / Your Blind Passenger (Arken Museum, DK – 2010).
Essa e a outra abaixo eu tive a sorte de experienciar ao vivo! / This one and the one below I was lucky to experience live!

Seu Panorama Negociável / Your Negotiable Panorama (Arken Museum, DK - 2006)