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“How Strange, Innocence”

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After silence, that which comes nearest to expressing the inexpressible is music.
A. Huxley

11:00pm

I hop on the Central Line in Leyton. For the first time in weeks I have music playing in my headphones once again (thank you Apple for rendering the ipod obsolete and making ebay a second-hand player heaven). Shuffle selects ‘Look Into The Air’, and I immediately obey, moving my eyes away from the tiny screen.

Facing me is a beautiful cinnamon-skinned girl with dreadlocks tied up in a bunch. She sits upright in the middle of the empty row, knees pressed together, body leaning slightly forward, separated from the seat by a backpack whose straps she clutches tightly – arms crossed over her chest.

As our eyes meet briefly, she smiles, but I only process it mid-turn as I was already shifting my gaze elsewhere. “Why?!” I ask myself. The power the non-physical connection of these little organs has over our bodies (and minds) never ceases to amaze me…

Why did I look away so quickly? Would it be weird if we decided to just keep looking into each others’ eyes for the remainder of our journey? What does ‘weird’ even mean?

I look at her, she smiles again.  I smile back.

“How Strange, Innocence”

Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música” A.Huxley

23:00

Eu entro na Central Line em Leyton. Pela primeira vez em semanas há música tocando no no meu fone novamente (obrigada Apple por tornar o ipod obsoleto transformando o ebay no paraíso dos mp3 players de segunda mão). O Shuffle escolhe ‘Look Into The Air’ (‘Olhe para o ar’), e eu imediatamente obedeço, tirando meus olhos da telinha.

Na minha frente, uma linda menina com pele cor de canela e dreadlocks amarrados. Ela está sentada no meio da fileira vazia, joelhos colados, corpo levemente inclinado para frente, separada do encosto pela mochila cujas alças ela segura firmemente – braços cruzados sobre o peito.

Quando nossos olhos se encontram por um breve momento, ela sorri, mas eu só processo depois, já virando a cabeça, olhos mirando outro canto.  ”Por quê?” eu me pergunto. Não canso de me espantar com o poder que a conexão não-física entre esses pequeno orgãos exerce sobre nossos corpos (e mentes)…

Por que eu desviei o olhar tão rápido? Seria estranho se nós ficássemos olhando nos olhos uma da outra durante o resto da viagem? Aliás, o que significa “estranho”?

Eu olho pra ela, ela sorri novamente. Eu sorrio de volta.

“Que Estranha a Inocência” (tradução literal do nome do disco “How Strange, Innocence”)

 

 

Nightshots #3

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I love the London sky, especially at sunset. Its ever changing cloud patterns playing peekaboo with the sun, the mix of greys, blues and lilacs occasionally lined with neon orange, the piercing golden rays that manage to shine through.

At the edge of the road on The Approach I wait for nightfall, mesmerised by this tranquil spectacle of light and colour as a backdrop to the frenzied rush-hour freeway traffic. It’s as if I there are two parallel realities existing at different speeds – my stillness allowing me to simultaneously observe both while belonging to neither. I sit on the steps, suspended in time, thinking about Turner and wondering if what I see now is still the same he saw then…

August showers signal the end of summer. Still under the influence of the afternoon delight, I notice two snails on the sidewalk. A shell-less one lies stretched across the pavement, antennae still moving. I touch it, it squirms. (It’s the first time I ever touched a snail. Not as wet as I expected). It’s alive, but not sure for how long. Can snails survive without the shell? If so, would they still be called snails or would that make them slugs?

Next to it, a fully clad one moves away. I wonder if it stole the other’s shell and is making the slowest getaway in history (flat hunting in London can be a bitch). Suddenly – if such a term can be applied to snails – the shelled one stops, about a palm away, turning back to the other. Maybe they had a fight and it just needed some space. Maybe it’s sorry.

I notice two others approaching – their pace the same as the setting sun. They all stop, triangulating the naked one, and just stand there, as if mourning their dying friend This is the most beautiful memorial service I’ve ever witnessed.

The smell of skunk fills the air…

Eu amo o céu de Londres, especialmente no pôr do sol. As nuvens em constante movimento brincando de esconde-esconde com o sol, a mistura de diversos tons de cinza, azul e lilás com um ocasional contorno laranja neon, os raios dourados que conseguem brilhar através.

Na beira da estrada em The Approach eu espero a noite cair, hipnotizada por esse tranquilo espetáculo de luz e cor que serve como pano de fundo para o transito frenético da hora do rush na auto-estrada.  É como se houvesse duas realidades paralelas movendo-se no tempo em velocidades distintas – a quietude me permite observar ambas sem pertencer a nenhuma. Sentada na escada, suspensa no tempo, eu penso em Turner e imagino se o que vejo agora ainda é o mesmo que ele via…

As chuvas de Agosto marcam o fim do verão. Ainda sob influência do entardecer encantador, eu noto dois caramujos na calçada. Um, sem casca, atravessado no chão, antenas ainda em movimento. Eu o toco, ele se contorce. (Nunca havia tocado um caramujo – não é tão molhado quanto eu esperava). Está vivo, mas não sei por quanto tempo. Caramujos sobrevivem sem a casca? Caso sim, eles continuam sendo caramujos ou passam a ser lesmas?

Ao seu lado, um ainda “completo” se afasta. Imagino se ele roubou a casca do outro e está realizando a fuga mais lenta da história (procurar apartamento em Londres é foda). De repente – se é que esse termo se aplica a caramujos – ele para a cerca de um palmo de distância, e volta-se para o outro. Talvez tenham brigado e ele só precisava de um pouco de espaço. Talvez ele esteja arrependido.

Percebo que outros dois se aproximam num ritmo que lembra o por-do-sol.  Eles todos param, triangulando o “descascado”, e permanecem como que despedindo-se do amigo. É o velório mais bonito que já assisti.

O cheiro de skunk invade o ar…

Love Walk

On Friday I went out looking for Love .

Love Walk is a two-way street (of course). As I walked in from one end I immediately saw the sign, but, along with it, all sorts of adjacent shit like ‘Controlled Zone’, ‘Permit Holders Only’, ‘Mon’, ‘Sun’, ’8:30 to Midnight’..aaaarghhhh! No, Love cannot be this messy and full of warnings and rules! Absolutely confident of a nicer display, I walked away, not even bothering to shoot this one, you know, just in case. Sometimes you just have to follow your gut and carry on…

As you distance yourself from the main road, silence kicks in and the light changes, due to the shade of the flower trees abloom. Love (Walk) gets cozier the further in you go. Suddenly, a slight turn to the right signals the way cars must follow. A new sign – Hashcombe Terrace – makes it seem like that’s the end of the line, but my AtoZ shows the path goes on, despite all the physical world evidence signalling otherwise. And then I realise, this is where you drop the armour, where you have no choice but to let go of the steering wheel. Love does carry on indeed, but only for those who can follow on foot.

I enter a pathway with brick walls on both sides, vines hanging from the top. A little archway entrance to my left reveals an enclosure with a lovely garden, some houses and a perfect little sign, just waiting to be photographed. A mother and daughter walk by, arms wrapped around each other and scarves covering their heads. As I shoot away, another mother-daughter pair laugh their way home after an afternoon of, apparently, rollerskating lessons down the road. Photograph secured, I follow down the path with a big smile on my face, enjoying this urban treasure and pleased with not having settled for that word-cluttered chaos from before. As I reach the end of the street I come to one of the most laid back, colourful cafes I’ve ever seen in London, real fruit hanging by the windows and all.

Turns out Love (Walk) is as peaceful, quiet and beautiful as it should be – you just have to be curious and persistent enough to find it.

love

Na Sexta-feira eu saí em busca do Amor.

Love Walk (que traduzindo literalmente seria Caminho do Amor) é uma rua de mão dupla (claro). Já na esquina vi a placa mas, junto a ela, um monte de coisas como ‘Zona Controlada’ ‘Somente com Permissão’, ‘Seg’, ‘Dom’, 08:00 à Meia-noite’…aaaarghhhh! Não, o Amor não pode ser tão bagunçado e cheio de alertas e regras! Confiante de que encontraria uma placa melhor, entrei na rua, nem me dando ao trabalho de fotografar essa só pra garantir. Às vezes é melhor ouvir a intuição e seguir em frente…

Ao distanciar-me da rua principal, o silêncio toma conta e a luz muda, graças às sombras das árvores em flor. O Caminho do Amor vai ficando mais aconchegante na medida em que é penetrado. De repente uma curva à direita sinaliza a direção obrigatória para os carros. Uma nova placa- Hashcombe Terrace – faz parece que é o fim da linha, mas o meu mapa indica que o (Caminho do) Amor continua, apesar de todas as evidências contrárias no mundo físico. E aí eu entendo que aqui é onde você se desfaz da armadura, onde não há escolha a não ser largar a direção. O Amor continua sim, mas apenas para quem segue a pé.

Eu entro em uma pequena passagem, paredes de tijolo em ambos os lados com vinhas penduradas no topo. Um pequeno arco à minha esquerda revela um pátio com um jardim fofo, algumas casas e uma placa perfeita, esperando para ser fotografada. Mãe e filha passam abraçadas, lenços cobrindo suas cabeças. Enquanto fotografo, outro par de mãe-filha dá risadas à caminho de casa após uma tarde de, aparentemente, aula de patinação na rua. Foto concluída, eu continuo o caminho sorrindo, apreciando esse tesouro urbano e feliz por não ter me contentado com aquela bagunça verborrágica do início. A rua termina em um dos cafés mais coloridos e simpáticos que eu vi em Londres, frutas frescas penduradas na janela e tudo.

O (Caminho do) Amor é tranquilo, silencioso e bonito, exatamente como deveria ser – você apenas tem que ser curioso e persistente o suficiente para encontrá-lo.

Nightshots #2

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Battersea, 11pm

A group of boys and girls on an empty lot are laughing, yelling, drinking and, some, wobbling about holding onto each other for balance. As I sit on the curb and set up the tripod and camera, I get all kinds of stares. One of them yells from across the road: “Look, a spy!”
A few of the girls, heavy makeup and short short short shorts, walk by: “Heya, paparazzi, take our picture! Yeah, whooo!”

I laugh and tell them it’s cool, I just want the sign.

‘Why you doin’ that? Why you taking pictures of them?”
A chubby guy looking kinda confused / grumpy is standing next to me.
“You mean of that sign?”
“You photographing the sign?” His tone softens…
“Yup”
“What for?”
“For a project”

He looks at me suspiciously.

“I don’t get it.”
“I’m using the signs to tell a story. It’s an art project”
“Hmmm…You doin’ that a lot? Photographing them signs?”
“Yeah. Over 100 of them…”
“Whaaaa?! Doesn’t it get boring?”
“Well it’s definitely lots of work, but it’s cool ’cause I also get to see a lot and m…”
“…meet lots of people.” He finishes my sentence as if, right after asking, he realised the upside to this whole thing.
I nod. We both smile.
“Like me” he says
“Like you.”

I turn back to the camera.
“But, yeah, it does get tiring sometimes…but, well…” I point to the sign.
“Says ‘patience’ there. Is that part of your story? Patience?”
“Well, it’s a love story…you gotta have patience, right?”

Battersea, 23:00

Um grupo de jovens em um terreno baldio rindo, gritando, bebendo e, alguns, cambaleando, se apoiam uns nos outros. Assim que eu sento na calçada e armo o tripé e a câmera, atraio todos os olhares. Um deles grita: “Olha, uma espiã!”
Algumas meninas, super maquiadas e com shorts curtos curtos curtos, passam por mim “Ei, paparazzi, tira nossa foto! Yeah, whooo!”

Eu rio e digo que tá tranquilo, só quero fotos da placa

‘Que cê tá fazendo? Por que ta tirando fotos deles?”
Um cara gordinho parado do meu lado olha meio confuso / emburrado.
“Você quer saber por que eu to tirando foto da placa?”
“Você tá fotografando a placa?” Seu tom fica mais suave
“Aham”
“Pra que?”
“Pra um projeto”

Ele me olha meio suspeito

“Não entendi”
“Eu to usando as placas pra contar uma história. É um projeto de arte”
“Hmmm…E você tem feito muito disso? Fotos de placas?”
“Aham. São mais de 100 placas…”
“QUÊ?! E não enche o saco?”
“Ah, é muito trabalho, mas é legal porque eu vejo um monte de coisas e conh…”
“…conhece um monte de gente.” Ele termina minha frase como se, logo após a pergunta, caísse a ficha do lado bom desse trabalho.
Eu concordo balançando a cabeça. Sorrimos os dois.
“Como eu” ele diz
“Como você.”

Eu me volto para a câmera
“Mas sim, casa às vezes…mas, bem…” Eu aponto para a placa.
“Ta escrito ‘paciência’. É parte da sua história? Paciência?”
“Bem, é uma história de amor…tem que ter paciência, né?”

Night shots #1

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Dessa vez a versão em português está embaixo (;

It’s now been 3 years of intermittent strolls around London capturing street signs on camera, but this was my first night hunt. There is something quite liberating about roaming the urban landscape alone at night, an even greater sense of belonging – I AM the city, I AM the street.

Night sounds are more scarce, even more delicate, yet their individual presences are somehow stronger, lingering in the air much longer and with more “body” than the cacophony of daytime. The lack of competition makes sure each sound has its own space – with the occasional piercing siren, of course, trampling over all of them.

Objects and nature and pretty much everything which usually lies in the shadow of overwhelming human presence during the day is now centre stage. You get to observe street life in it’s most literal expression.

Human presence is restricted mostly to the inside of houses, buildings and cars, hinted by flickering television or the sound of radios driving by. It’s interesting to just stand outside someone’s window and see their choice of nighttime entertainment or which rooms are lit and alive, hear them having dinner or putting the kids to bed or having a massive argument.  Walking along residential streets afterdark feels like a night at the human zoo.

Of course you do meet some people along the way. Like with the sounds, we become much more aware of each single human presence. There’s a complicit glance among night creatures and they’re surprisingly cheerful. Or at least these E14 – E16 ones were:

“Working late eh?”
“I need the night light”
“You like old buildings?”
“It’s the sign I’m after (point to building name)”
“Ah…this one says ‘Gaze House’. Is that as in ‘gays’? As in ‘gay people’?”
“No…it’s like gazing. Looking at something, you know?”
“Ah…as in you gazing at the sign?”

-
“Darwin court…yeah, I know where that is. It’s right around there, around that street there. Know what, come on, I’ll show you. Aren’t you scared of walking alone at night?”

-
“You taking photos of the moon? It sure is lovely tonight”

-
“You lost?”
I shake my head and smile: “No”
“You know where you’re going yeah?”
“This is what I was looking for” (pointing to street sign)
“Alright. You are a beautiful woman!” He says loudly while riding off on his bike

-
“Excuse me, miss, can you tell me where them lights are coming from?”

//

Já são 3 anos de passeios intermitentes pelas ruas de Londres capturando placas com a câmera, mas essa foi minha primeira caçada noturna. Há algo libertador em caminhar pela paisagem urbana à noite, uma sensação maior ainda de pertencimento – eu SOU a cidade, eu SOU a rua.

Os sons noturnos são mais escassos, até mais delicados, mas suas presenças individuais de alguma forma são mais fortes, vagando pelo ar por mais tempo e com mais “corpo” que a cacofonia diurna. A falta de competição garante a cada som um espaço próprio – com a ocasional sirene lancinante, claro, passando por cima de todos.

Objetos e natureza e basicamente tudo que fica na sombra da opressiva presença humana durante o dia, agora vira protagonista. É possível observar a vida da rua de maneira bem literal.

A presença humana fica quase que restrita aos interiores das casas, prédios e carros, denunciada pelas televisões ou o som dos rádios passando. É interessante ficar do lado de fora da janela de alguém e espiar sua escolha de entretenimento noturno, quais quartos estão acesos e vivos, ouvi-los jantando, colocando as crianças pra dormir ou tendo uma mega discussão. Andar por ruas residenciais após escurecer é como passear por um zoológico humano.

Claro que você encontra pessoas pelo caminho. E como acontece com os sons, ficamos muito mais atentos a qualquer presença humana. Há um olhar cúmplice entre as criaturas da noite e elas são surpreendentemente alegres. Pelo menos essas das zonas E14 a E16 foram:

- Trabalhando tarde é?
- Eu preciso da luz da noite.
- Você gosta de prédios antigos?
- São as placas que eu procuro (aponto pro nome do prédio)
- Ah…essa diz ‘Gaze House’ (casa da contemplação). É tipo “gays”? Os gays?
- Não…é olhar fixo. Contemplar algo, entende?
- Ah…tipo você olhando essa placa…

-
“Darwin court…sim, eu sei onde é. É logo ali, virando aquela rua ali. Quer saber, vem cá, te levo lá. Você não fica com medo de andar sozinha à noite assim?”

-
“Tá tirando fotos da lua? Ela tá linda hoje”

-
- Tá perdida?
Balanço a cabeça e sorrio: – “Não”
- Sabe onde tá indo né?
- Era isso que eu tava procurando” (apontando pra placa da rua)
- “Ok. Você é uma mulher linda!” ele grita já pedalando a bicicleta

-
“Licença, moça, você sabe de onde estão vindo aquelas luzes?”

The Afronauts

Em 1964, em uma Zâmbia recém independente, o professor Edward Makuka Nkoloso fundou a ‘Academia Nacional de Ciência, Pesquisa Espacial e Filosofía’. Seu objetivo era formar astronautas para competirem com os Americanos e Russos na corrida para o espaço. Com sessões de treinamento que incluíam rolar morro abaixo dentro de um barril de óleo e cortar a corda onde os ‘cadetes’ se balançavam para simular segundos de gravidade 0,  a iniciativa não foi levada a sério pelo governo do país e acabou morrendo, mas quase 50 anos depois a história do primeiro e único programa espacial africano ganhou vida nova graças à imaginação da fotógrafa espanhola Cristina De Middei.

In 1964, in recently-independent Zambia, science teacher Edward Makuka Nkoloso founded the National Academy of Science, Space Research and Philosophy. His goal was to train astronauts to compete with the US and Russia in the space race. With training sessions which included rolling downhill inside an empty oil barrel and clipping the end of a swing rope to simulate 0 gravity, the initiative was never taken seriously by the Zambian government and wound up dying out, but almost 50 years later the story of Africa’s first and only space programme came to life again thanks to the imagination of spanish photographer Cristina De Middei.


Registro do programa espacial de Nkoloso

Os Afronautas‘ é um delicado registro ficional do fato, no melhor estilo sci-fi roots dos filmes B dos anos 60/70. As fotos foram tiradas em Alicante, sua cidade natal, e nos arredores de Madri, assim como no Senegal e no Mar Morto. O contraste entre elementos tradicionais da cultura e geografia africanas e a ícones ligados à tecnologia espacial dão às lindíssimas imagens um ar surreal que alterna entre comicidade e melancolia. Segundo a artista o trabalho fala de sonhos impossíveis, e não é uma tentativa de fazer graça – pelo contrário. “Ninguém acredita que algum país africano possa chegar à lua. Ele esconde uma crítica muito sutil à nossa posição em relação a todo esse continente e nossos preconceitos. É como dizer palavras fortes com um belo sorriso no rosto.

The Afronauts is a delicate fictional depiction of the fact resembling 60′s/70′s low budget sci-fi films. The pictures were taken in Alicante (her hometown), the outskirts of Madrid, Senegal and the Dead Sea. Contrast between traditional african cultural and geographical elements and space technology icons give the beautiful imagery a surreal mood alternating between humour and melancholy. According to the artist the work addresses impossible dreams and is in no way an attempt to poke fun at the story. “Nobody believes that Africa will ever reach the moon. It hides a very subtle critique to our position towards the whole continent and our prejudices. It’s just like saying strong words with a beautiful smile”.

Cansada dos limites da carreira de fotojornalista, Cristina encontrou na fotografia de arte uma forma de romper a barreira entre fato e ficção: suas obras alternam entre a reprodução de fatos reais que parecem mentira (como é o caso dos Afronautas) ou a construção de realidades totalmente críveis, mas que de fato são inventadas por ela (como o caso da série Poly-Spam, onde ela cria retratos dos personagens que mandam aqueles spams com histórias trágicas e pedidos de doação de dinheiro). Me lembrou um pouco o trabalho dos paulistas do Garapa, também ex fotojornalistas.

Tired of the limitations of her photojournalist career, Cristina found in fine art photography a way of blurring the lines between fact and fiction: her works alternate between the visual reproduction of real events which seem untrue (like the Afronauts) and made-up lies which seem totally believable (like her series Poly-Spam, which depicts the people who send those spam mails with tragic stories asking for money). It reminded me of the work of São Paulo collective Garapa, also former photojournalists. 

O projeto, de 2012, virou um livro lindo cuja edição esgotou em apenas dois meses e foi indicado ao prêmio da Aperture Foundation no mesmo ano. Em 2013 a artista foi indicada ao Deutsche Börse Photography Prize.

The 2012 project became a beautiful book which was completely sold out in just 2 months and was shortlisted to the Aperture Foundation prize that same year. In 2013 Cristina was nominated for a Deutsche Börse Photography Prize.

 

Wilder Mann

“Plugados, neuroticamente conectados via wi-fi e 3G, nós ansiamos reestabelecer contato com o atual, o primal, o antigo…Nós definhamos pelo não-mecânico, pelo pré e pós-industrial. Somos peregrinos buscando o passado, o genuíno, o individual”

O tom do prefácio de Wilder Mann, livro do fotógrafo Charles Fréger que retrata as fantasias usadas em rituais pagãos Europeus, ressalta a importância da manutenção e do conhecimento dessas tradições folclóricas na nossa era cada vez mais virtual.

“Plugged in, neurotically Wi-Fied and 3Ged as we are, we yearn to re-establish contact with the actual, the primal, the old … We languish for the non-mechanical and the pre- or post-industrial. We are pilgrims seeking the past, the genuine, the individual.”

The preface sets the tone for Wilder Mann, Charles Fréger’s book depicting costumes worn in pagan rituals throughout Europe and reinforcing the importance of maintaining and sharing these folk traditions in an increasingly virtual age.

Babugeiri, Bulgaria . Vestidos com pele de cabra, saem em procissão no dia 01 de Janeiro. Originalmente simbolizavam fertilidade. // Dressed in goat skins, hold a procession on 1 January. They originally symbolised fertility. (source: Guardian)

Schnappviecher, Italia // Italy – Medindo até 3m de altura, saem na Terça-feira Gorda para espalhar terror pela vila vinícola de Tramin. // Often 3m high, they appear on Shrove Tuesday to spread terror on the wine village of Tramin. (source: Guardian)

Strohmann, Alemanha // Germany – Mitologia rural. Identificado como a personifação da luxúria e símbolo do inverno.
Rural mythology. Has been interpreted as a personification of lust and a symbol of winter (source: Guardian)

As vestes são de uma beleza e força impressionantes, sem contar o fator aterrorizante de algumas deliciosamente monstruosas. Ao retrata-los em perfeita sintonia com seus arredores, Fregér torna reais esses seres fantásticos. A sensação que tive ao folhear o livro pela primeira vez foi de encantamento, como se tivesse encontrado uma espécie de National Geographic de algum universo paralelo – imaginei o fotógrafo dias entocado esperando o momento perfeito de capturar imagens daqueles seres em seus habitats naturais.

The costumes are of impressive force and beauty, not to mention the deliciously monstruous qualities of some. By depicting them in perfect sync with their surroundings, Fregér brings these fantastical beings to life. The feeling I had while browsing the book for the first time was one of enchantment, like I had found a kind of National Geographic of some parallel universe – I could almost picture the photographer hiding for days waiting for the perfect moment to snap a shot of those being in their natural habitats.

Além do óbvio valor antropológico, Wilder Mann é uma ótima referência para quem trabalha com figurino, direção de arte, ilustração…ou quem simplesmente gosta de dar uma viajada por outras realidades possíveis nesse mundo cada vez mais padronizado. Mais infos e links pra compra online aqui.

Besides the obvious anthropological value, Wilder Mann is a great reference for those working with costume, art direction, illustration…or those who simply like to wander through other possible realities in our increasingly standardized world. More info and links for online purchase here.

Close encounters of the digital kind

Em conversas recentes me peguei constantemente voltando a temas que adoro refletir a respeito – a experiência real x experiência captada / compartilhada, a experiência do tempo em um mundo de avanços tecnológicos cada vez mais rápidos, e a ilusão de comunicação e pertencimento proporcionada pelas redes sociais. Resolvi então juntar em um post três referências recentes boas pra pensar sobre o assunto e, quem sabe até, permearem conversas reais, daquelas cara a cara, sem sinal de alerta ou limite de caracteres ;)

In recent conversations I’ve found myself constantly coming back to some issues I love reflecting upon – real x captured / shared experience, the experience of time in a world of fast-paced technological advances and the illusion of communication and belonging brought on by social networks. I decided to bundle up these three recent references; food for thought which, who knows, might even permeate some real face to face conversations – you know, the ones without message alerts or character limits ;)

Louis CK,genial como sempre, usando humor pra falar sobre a importância de crianças saberem conviver com sentimentos desagradáveis sem a distração constante da tecnologia.

Louis CK, brilliant as always, using humor to address the issue of kids needing to live through unpleasant feelings without being constantly distracted by technology.

Calvino profetizando a era instagram em meados dos anos 50: como a obsessão por capturar a realidade pode levar a uma desconexão da mesma. Não é atual tecnologicamente, mas ainda assim cai como uma luva.

Calvino foreseeing the age of instagram in the mid 50′s: how an obsession for capturing reality may disconnect one reality itself. Not up-to-date technology wise but, still, fits like a glove.

Garapa

“Somos um espaço de criação coletiva. Temos como objetivo pensar e produzir narrativas visuais, integrando múltiplos formatos e linguagens, pensando a imagem e a linguagem documental como campos híbridos de atuação”. É essa a auto-definição do coletivo paulista Garapa.

Os trabalhos do grupo extrapolam os limites da linguagem direta e objetiva do foto-jornalismo, formação original de seus integrantes, misturando factual e emocional, real e imaginário, presente e passado. A linguagem fragmentada, apresentada em diferentes meios e formatos, ajuda a reforçar a idéia de descentralização, de diferentes pontos de vista sobre uma mesma história. A forma afeta diretamente o conteúdo, mostrando que não existem temas, lugares ou pessoas mais importantes ou interessantes  - é a maneira como uma história é contada que lhe confere valor.

A obra Calma , em cartaz na 1a FotoBienalMASP, é a criação mais recente do grupo (em colaboração com Thomas Kuijpers e Lana Mesic) e um exemplo perfeito dessa dinâmica. Um personagem central é usado como recurso para amarrar diversas histórias em torno da tragédia do edifício Joelma, em um mural digno de filme policial. A busca desse holandês pelo pai, que ele acredita ser um dos mortos não identificados do incêndio, é o fio condutor da narrativa que permeia as imagens e textos.

“We are a space for collective creation. Our objective is to develop visual narratives which integrate multiple formats and languages, viewing the image and documental language as hybrid fields of action”. This is how São Paulo photography collective Garapa define themselves.

Their works push the boundaries of direct, objective photojournalism mixing up factual and emotional, real and imaginary, past and present. The fragmented language, presented in diverse media and form, reinforces the idea of decentralisation, of different points of view on the same story. Form directly affects content showing viewers that there are no themes, places or people more interesting or important than others – the value of a story lies in the way it is told.

Calma, a collaborative piece between Garapa, Thomas Kuijpers and Lana Mesic currently being shown at 1a FotoBienalMASP, is a perfect example of their dynamics. One central figure links several stories related to the tragedy of the Joelma building, in a mural fit for a police movie. This dutch man’s search for his father, who he believes is one of the non identified victims of the fire, is the thread conducting the narrative which permeates images and text.

Outro trabalho do grupo, exibido recentemente no CCSP, foi A Margem. Tendo como ponto de partida missões exploratórias dos séculos 18 e 19, os integrantes do coletivo percorreram toda a extensão do Rio Tietê dentro do estado de São Paulo. A interseção dos relatos e impressões desses exploradores presentes e passados, somada a outras fontes como histórias publicadas pela mídia, fotografias antigas e atuais, “causos” e memórias de habitantes dos municípios percorridos, resulta numa cartografia criativa e emotiva do rio e seu entorno.

“Percebemos entre as séries fotográficas e a instalação de vídeos que a imanência de um lugar se efetiva como símbolo menos por sua geografia demarcada e mais pela reincidência de histórias que, nas espirais do tempo, geram potentes mitologias.” CCSP

A Margem (The Riverbank), another one of their projects, was also exhibited in São Paulo recently. Referencing exploratory missions from the 18th and 19th centuries, the group embarked in a series of expeditions covering the length of the Tietê river, which runs through the state of São Paulo. The intersection between the findings of these explorers past and present, alongside other sources like photographs old and new, newspaper stories and tales and memories of riverside dwellers, result in a creative and emotional cartography of the river and its surroundings. 

“Among the photographic series and the video installations we can sense that the immanence of a place is consolidated as a symbol not for its mapped geography, but for the recurrence of stories which, in the spirals of time, generate powerful mythologies”. CCSP


 

Além de exposição, A Margem virou um livro lindo, que apresenta as diversas facetas do projeto com a mesma fluidez e liberdade de conteúdo e forma. O catálogo pode ser comprado aqui.

The Riverbank also became a beautiful book portraying the diverse aspects of the project with the same fluidity and liberty of content and form.  The book can be bought here.

Samsara

Samsara filme do Ron Fricke, mesmo diretor de Baraka. De 2011, mas eu só conheci agora.
Pra um Domingo de reflexão e silêncio – afinal, quem precisa de palavras com imagens dessas?!

Samsara, a 2011 film by Ron Fricke, director of Baraka, which I only discovered now.
For a contemplative, silent  Sunday – after all, who needs words with images like these?!

filme completo aqui
watch the whole film here