OEsquema

bom dia

uma sensação boa, né?

uma sensação boa, né?

Como é bom acordar num país mais organizado, com instituições mais fortalecidas, mais sério, que pune criminosos terroristas inimigos da ordem pública com todo rigor possível. Punições exemplares em um país menos desigual.

Tão bom acordar com essa sensação. Me sinto mais seguro e esperançoso de que agora sim o país está no caminho certo.

É isso aí, Brasil. Vamo que vamo porque eu sou brasileiro e não desisto nunca.

E um bom dia para você que é do bem.

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homem de bem

Ratinho, em seu pronunciamento em TV aberta, no seu programa de baixarias, idiotices, lobotomia e um pouco de xingamento, novamente no SBT, vem a público afirmar que os cara do botão dourado vão voltar.

Os cara do botão dourado são os milicos, vulgo militares, que protagonizaram o Golpe de 64 e instituíram o AI-5 e que instauraram anos de terror e medo no Brasil, além de proporcionarem, junto com o chamado “espetáculo de crescimento” a maior hiperinflação da história do Brasil.

Segundo a famosa Lei de Pedro Aleixo, a preocupação maior com o medo e o terror é com o guarda da esquina. Ele estava certo.

Essa mensagem do Ratinho, que possui canal de TV e rádio. É DONO de canal de TV e rádio, é uma mensagem clara para sentar o sarrafo.

Conseguiram e vai piorar. Pode chamar os comerciais.

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erros sistemáticos

Esse sorriso…

Esse sorriso…

Ano passado o jornal O Globo pediu desculpas e afirmou ter sido um erro apoiar o golpe militar de 64.

— Antes tarde do que nunca, né? — repete constantemente meu Grilo Falante otimista.

Até seria, mas hoje, um pouco mais de 7 meses após o início dos protestos, o mesmo jornal vem com uma linha editorial chamada LINHA DURA. Exigindo mais da sociedade ao responsabilizar os atos de delinquência nos protestos. Falando sobre ampliação de penas duras.

Crimes e responsabilidades devem ter punições sempre. Ninguém deve escapar. Mas o que se vê é uma capitalização da indignação, uma criação de desordem sob forma da ordem, que mais parecerá com aquele vídeo do Batman no Leblon, onde todos estavam certos, todos atacavam e ninguém tinha razão.

O cidadão de bem hoje foi convocado a dar um pescotapa nos manifestantes. Nos chamados mascarados. E pescotapa de cidadão de bem é aquilo né? Pode imaginar.

Após a morte do cinegrafista, o terreno está dado. O erro sistemático de construir um imaginário de ódio no cidadão de bem está feito. Isso é apoiar o golpe militar: a classe média tinha horror de comunistazinho, que virou terrorista e quando escafederam-se podia se escutar, veladamente da dona de casa ao porteiro: “ufa, menos um”.

O sorriso delicado de Monalisa pode ser ingênuo, misterioso, indecifrável, mas pode ser o puro disfarce do ódio. Do dever cumprido pela vingança.

Se a coisa continuar dessa forma, acho que nem em 50 anos poderemos presenciar outro pedido de desculpas. Por quê? Porque a mensagem está bem clara: “não se manifeste muito, se liga na novela e relaxa”.

Plim Plim.

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acompanhando as cagadas: capítulo 2

Quando todos somos monstros.

Quando todos somos monstros.

William Bonner fez um pronunciamento no Jornal Nacional hoje. Extraio muitas coisas positivas isoladamente. Mesmo. É um discurso que prega, por exemplo, uma coisa que a Dilma pregou, no auge das manifestações do ano passado: é preciso racionalizar as coisas. Bonito, né? Hã han.

Por outro lado, o pronunciamento é o que há de mais vil em toda a história das manifestações recentes desde o início da explosão no ano passado: é um discurso pronto, feito para emocionar, para ser um basta naquela janela da Epitácio Pessoa. A coisa não é assim. Há pouca autocrítica no papel da imprensa em todo o discurso de Bonner.

Por exemplo, o que se fala em teoria, não correspondeu exatamente aos fatos. A presença do jornalismo como peça fundamental para a compreensão da totalidade de qualquer evento de forma que uma sociedade democrática possa ter acesso aos lados foi muito explorada como conceito, mas pouco explorada como método. Repare, acho importante que haja jornalista em terra mesmo no olho do furacão. Alguns, principalmente da Globo, foram ameaçados durante as primeiras manifestações, o que considero um erro estratégico. Mas a reação dos meios de comunicação, principalmente da Globo foi a seguinte: mandou jornalistas a paisana, filmando com celulares, APENAS os atos de quebradeira da minoria. Não vi, desde o início das manifestações um jornalista filmando o perrengue quando a PM apagou as luzes dos postes na Lapa, as câmeras da prefeitura foram misteriosamente desligadas e cenas de terror, de bonde criminoso mesmo, dominaram uma noite inteira o bairro boêmio do Rio de Janeiro.

Ter jornalistas para cobrir a totalidade soa portanto quase como uma piada de mau gosto. Os jornalistas não cobriram a totalidade dos fatos nem quanto estavam a paisana.

Até porque as manifestações foram cobertas mesmo, de cima, pelos helicópteros, com o discurso da ruiva meio lentinha. Claro que é a maneira mais segura para as emissoras (e seus jornalistas) e também a melhor maneira de compreender a totalidade territorial da coisa. Mas isso não implica em uma metodologia em função da informação, mas em função de uma construção estética da coisa toda.

E nessa construção estética, para mim, residiu o maior erro da mídia, ou melhor, da imprensa: a estética do combate pela anarquia.

Ora, numa manifestação com mais de 2 milhões de pessoas na Av Presidente Vargas, dezessete pardais e sinais foram depredados. Repito, dezessete. E os bancos tiveram seus computadores quebrados e vidraças também. Mas anarquia é algo mais forte né? Anarquia para ser anarquia mesmo, tem a ver com invadir os bancos e roubar a porra toda, incendiar, botar pra fuder, remodelar o centro da cidade. Não foi o caso. Foi o caso de uma minoria, sempre rechaçada pela maioria de pessoas nas ruas, que pediam para não praticar atos de violência, que cometeram esses atos.

Ora, se o próprio editorial do Jornal Nacional veio a citar uma minoria violenta, como os protestos foram recheados de imagens justamente dessa minoria em prol da construção de uma imagem totalmente distorcida dos eventos?

Nessa mesma manifestação da Presidente Vargas, um idiota com cabelo de soldado do exército começou uma pancadaria em frente a prefeitura que resultou numa explosão de violência desmedida da polícia. Nessa época nem se falava em P2, os infiltrados pela própria polícia para causar baderna e consequentemente dar o aval para uma resposta policial.

Quantas vezes, você amiguinho leitor que assiste o Jornal Nacional (eu infelizmente me recuso), ouviu a palavra P2 nos noticiários? Uma? Duas? Nem isso? Nem eu.

Aí fica difícil acreditar no discurso bonitinho do William Bonner, não é mesmo?

Óbvio que os que se disseram “apolíticos” tinham uma estrutura comportamental e metodológica mais próxima da direita, apesar de amigos reconhecidamente de esquerda exigirem a não utilização de bandeiras na primeira manifestação. Eu alertei isso na minha primeira manifestação e escrevi isso nesse post intitulado de “O Partido Fantasma”. O quanto os discursos aparentemente libertadores eram perigosos para sua própria liberdade. Falei abertamente para muitos colegas o quanto isso me apavorava. Resultado? Um bando de moleque fascista com a máscara do Guy Fawkes surgiu fazendo todo tipo de barbaridade. Parecia que o desabafo tinha um vetor totalitário. E tinha: no fundo quase todos que vestiam a máscara queriam derrubar um governo e assim fizeram, derrubando sites públicos e hackeando com vídeos cheios de palavras de ordem.

Que perigo.

Isso também não foi quase explorado pela mídia. Muito mais perigoso que derrubar postes é derrubar sites com vídeos incitando o ódio por um ou outro grupo político.

Claro que no meio das manifestações há os manifestantes revoltados que não têm nada a dizer que não seja: destrua tudo. E tinham. Mas eram uma minoria mesmo. Mas a imprensa, com toda sua autodeclarada imparcialidade democrática foi no mínimo incompetente em tentar estabelecer um mapeamento sociológico de grupos no meio da multidão. Foi incompetente sim, mesmo que eu queira dizer que foi tendenciosa, maquiavélica.

Porque aqui no Brasil se vende a ideia fácil do formato definido. As pessoas têm predileção por se manter na superfície e não na complexidade. São os achismos que fazem governantes e modelos políticos. Por isso as suas imagens são tão importantes. Seus programas de tevê, rádio e até seus complexos midiáticos. E as manifestações foram exploradas a servir um formato.

Até que um belo dia a palavra black block veio a tona. Pronto: Black block is the new traficante. Antes grupos heterogêneos: da rapaziada que se defendia da covardia policial aos que viam um simbolismo em quebrar bancos até aqueles que incitavam a violência, tudo virou a mesma merda. E continua até hoje. Grupos totalmente diferentes em método e pensamento são jogados num único canil: o de mascarados. Pouco se comentou sobre os gases e a função prática de proteger os rostos.

A imprensa, tão defensora da democracia e da informação como um todo, como ética e princípio fundamental a serviço do brasileiro simplesmente ignorou a enxurrada de mais de 100 vídeos de atos covardes da polícia que postei nesse espaço. Simplesmente não apareceram como também não apareceram os vídeos dos manifestantes tentando entrar na câmara da CPI dos Ônibus enquanto que grupos financiados pelos interessados na dissolução da CPI entravam pela porta dos fundos e lotaram o estabelecimento. Quem ficou dentro da câmara foi ameaçado por milicianos, tendo um vídeo de uma jornalista da própria emissora que foi agredida quando tentava entrevistar as pessoas lá dentro. Esse vídeo não passou no telejornal. O povo não ficou sabendo disso. Uma pena, né?

O povo só soube da Câmara quando puseram fogo e prenderam vários funcionários lá dentro. Naquela noite violentíssima, policiais jogavam objetos do telhado na população. Sem qualquer responsabilidade.

Também nunca entrevistaram UM MANIFESTANTE SEQUER que foi intimidado pela polícia e que teve carros com vidros fumê cercando seus prédios por dias a fio. O ambiente estava aterrorizante mesmo.

E no discurso de Bonner, hoje, tão preocupado com a segurança do profissional de jornalismo frente a atos de violência,  NADA se falou da importância de se equipar os funcionários com ítens de segurança que os próprios manifestantes usavam. Principalmente cinegrafistas amadores: capacetes, coletes e máscaras como ítens fundamentais para manifestações. Pensar em responsabilizar o patrão pela falta de segurança? Nada disso.

Parece que tudo, mas tudo pode ser reduzido a um discurso sobre um trabalho legítimo impedido de ser realizado. Infelizmente não foi bem assim. Ficou mais fácil contar a história de que os cara pintadas se tornaram monstros.

E até hoje ninguém encontrou o Amarildo pra falar que monstros são esses.

Restou apenas o luto justo pelo cinegrafista e a monstruosidade da imprudência isolada para explicar como a coisa funciona.

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Atos políticos: uma historinha

Acho que em 1996, eu estava no segundo ano da PUC e uma lanchonete surgiu no pilotis do Edifício Kennedy. Era um Subway.

Nunca tive nada contra marcas estrangeiras. Nem poderia, afinal sou consumidor de algumas marcas há muitos anos. Primeiramente da Apple. Então não era o caso do Subway ser uma marca americana. Nunca foi essa a questão.

Voltando. Achei estranho. Tudo começou com uma reforminha. Algo que parecia um conserto de esgoto. Mas aos poucos foi subindo uma parede e depois outra e depois mais outra. Até vislumbrar-se uma casa.

Os amigos resolveram pedir explicação: por que outra lanchonete na PUC e num local ainda sem lanchonetes, um local privilegiado onde não haveria a concorrência das outras que se encontravam todas no outro prédio? Por que uma construção assim, meio na surdina, meio como a cabecinha marota encontrando o cabaço? Eu não participei da reunião, mas um grupo de amigos foi perguntar lá na reitoria. Ficou horas e a coisa ferveu, pelo que sei (sempre fervia).

Resposta: um filho de uma figura influente da PUC tinha conseguido o ponto. Aquilo não era um ponto. Era um esculacho.

Participei até de alguns atos simbólicos contra a construção. Mas nada adiantou. O tal Subway abriu.

Resultado: fiquei 6 anos naquela universidade sem dar um mísero centavo naquele treco. Zero. Nenhum.

Até alguns amigos próximos, que participaram dos protestos, sucumbiram ao açaí do local quando a marca Subway já tinha sido substituída, apesar do dono ser o mesmo. Eu nunca emiti um pio. Nunca reclamei com nenhum amigo. Mas não gastava meu dinheiro ali.

Foda-se. Questão de princípio.

Sempre soube que minha atitude não mudaria em porra nenhuma aquela situação. Nunca duvidei da “inutilidade” da minha atitude. Mas nunca dei um níquel.

Foda-se. Questão de princípio.

E o que se desenha no Brasil hoje depende muito do seu níquel e para onde você coloca esse seu dinheirinho, sua audiência. Em que empresas o seu tutú capitaliza?

Não vai mudar nada, como não mudou no caso da Puc. Mas pode significar muita coisa.

Pensa nisso.

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Play no John Williams

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Morreu o cinegrafista. Uma pena. Um horror.

Mas não se preocupe porque só piora: agora a PM terá mais motivo para esculachar. Vão prender o rapaz. Vão prender o que acendeu. Vão prender uma penca de pessoas, enquadrando como terroristas, homicidas (qualificados!) e nazistas. Enquanto isso nenhum PM será responsabilizado por plantar provas, invadir hospital, bar, universidade, apagar a luz das ruas e praticar o terror, pegar a vovó, o vovô, a mamãe, o papai, o totó e você também, óbvio.

É a era dos PMs sendo reinaugurada com tapete vermelho. De sangue.

E você ainda pagará 3 reais na passagem.

Justíssimo.

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A moral do criminoso

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Segundo entrevista com suposto justiceiro no Fantástico ontem, um dos jovens que fazem ronda no Flamengo afirma que dá lição de moral no assaltante.

Uma frase determinante.

Afinal, para ele, o crime é um desvio moral do ser humano. Pura, digamos, safadeza, falta de caráter, desvio mesmo. E por isso, nada mais justo que dar uma lição nos meliantes para aprenderem bons modos. Porque o cidadão de bem avança o sinal, sonega imposto, faz bandalha, pede um jeitinho aqui ali acolá, estaciona na vaga de deficiente, senta na poltrona do idoso, acha que o Brasil está cada vez mais sem vergonha mas dorme com a sensação de dever cumprido quando pensa que o criminoso deve entender por bem ou por mal que a coisa na área dele não é assim não.

E vou enlouquecendo. Deve ser o calor.

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acompanhando as cagadas: capítulo 1

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Enquanto o rapaz Fabio Raposo está preso e, ao que tudo indica, segundo palavras do delegado, será acusado por tentativa de homicídio qualificado, a cagada da imprensa só aumenta e você continua pagando 3 reais numa única viagem desse ônibus maravilhoso que temos no Rio de Janeiro. Um ônibus de primeiro mundo, com ar condicionado, condições confortáveis, horários programados, profissionais cordiais, serviço noturno primoroso e transporte seguro.

Vamos as cagadas:

  1. Puxou uma ficha criminal do rapaz, que foi apreendido (ou preso, sei lá) em duas manifestações, as mesmas onde nenhum membro da PM foi preso, processado ou afastado. Mesmo com muito material filmado, fotografado, e divulgado, com rosto, patente e nome, de diversos policiais que plantaram provas ou que tenham usado força desproporcional.
  2. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.
  3. Parou de comentar a questão de que os técnicos do TCU do município sugeriram a redução e não o aumento das passagens. Ou melhor, sequer entrevistou o responsável pela canetada no TCU, que foi contra o parecer técnico. Ou seja, não questionou quanto foi estranha essa ligação com a canetada controversa e a prefeitura.
  4. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.
  5. Arrumou uma suposta ligação com o Marcelo Freixo, baseado num suposto telefonema de uma manifestante que não foi entrevistada para dar sua versão. Essa suposta ligação sugere costas quentes do deputado, para jogar a discussão para o campo da disputa política.
  6. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.
  7. A suposta ligação do deputado com os manifestantes foi uma manchete baseada no relato do estagiário do advogado. Portanto relatos não confirmados de estagiários de advogados rendem manchete.
  8. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.
  9. Afirma que o rapaz fará uma delação premiada, aplicando o retrato falado de um manifestante que estava mascarado. Repito: mascarado. Retrato falado de um mascarado, que em outras manifestações não estava mascarado. Ah bom.
  10. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.
  11. Achou uma pichação escrita “Black Block” no muro do vizinho, onde o vizinho afirma ter sido o rapaz. Mesmo sem provas contra ele.
  12. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.
  13. Em suas manchetes, escreve que o artefato “foi disparado em direção ao cinegrafista”, reforçando a sua própria tese de que foi algo premeditado, ao invés de escrever, por exemplo “ao explodir, atingiu o cinegrafista”, muito mais justo enquanto laudos técnicos não saem.
  14. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.
  15. Ignorou até o momento, um relato do deputado Renato Cinco de que o advogado do rapaz tem uma disputa pessoal com Marcelo Freixo, porque o advogado teria sido o defensor dos milicianos.
  16. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.
  17. Pouco se pronuncia sobre o cinegrafista. Sobre a familia do cinegrafista, sobre a falta de segurança do cinegrafista (que não justifica nada, só previne) nem nada sobre o cinegrafista.
  18. Não falou mais nada de passagem a 3 reais. Uma passagem = 3 reais.

Que coisa, né?

(estou enlouquecendo)

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O rosto dos anjos

Tipo camisa do Banksy, viu?

Tipo camisa do Banksy, viu?

Fabio Raposo, o rapaz que estava aparentemente envolvido na explosão que feriu o cinegrafista da Band, anteontem, no Centro da Cidade, resolveu ir a polícia explicar que estava lá sim, mas que não teve nada a ver com a explosão do artefato. Deu uma entrevista, sem advogado, em plena madrugada, para a Rede Globo. Expôs que não conhecia o meliante que explodiu o artefato, mas que viu o artefato no chão, apagado e entregou-0 para o outro mascarado, que teria acendido.

Explicou, antes de mais nada, que tem certeza de que o alvo não era o cinegrafista, mas sim, uma explosão de efeito moral.

Antes de continuar aqui quero expressar minha opinião: eu acredito nele.

Continuando agora, o rapaz, pelo que parece, estava na polícia explicando que ele não cometeu crime algum. Que estar no local não caracteriza crime. Essa, a que tudo indica, é a lógica do rapaz. Ele foi até a polícia esclarecer de cara limpa e de peito aberto. Afinal, não há álibi melhor que seu relato, de fato importantíssimo quando a prova do crime é totalmente reconstituída por pedaços de fotos. Porque a narrativa é essa: “só poderia ser o rapaz de camisa cinza” e consequentemente, se uma foto, mostra o Fabio ao lado do outro suposto criminoso, o Fabio deve ter ciência.

Assim se constrói a verdade quando convém.

Por que digo que é conveniente? Porque envolveu alguém da imprensa. Mais ou menos como Tim Lopes, uma vítima da violência, que ganhou muito mais repercussão que muitas outras vítimas. Por exemplo, a Priscilla Belfort, ou o caso da mãe que subiu o morro do Pavão Pavãozinho para pedir as ossadas de seu filho e muitas outras. Em Tim Lopes há uma mensagem clara de heroísmo a qual eu endosso mas também critico da forma como é explorada. E ela é explorada da seguinte forma: o jornalista busca a verdade, nada menos que a verdade, e a Globo, por ter um dos maiores corpos jornalísticos do país, passa a ser detentora da verdade para o cidadão comum. O uso do caso do Tim Lopes enquanto herói, no fundo é uma bela arma para a marca Globo, a detentora da verdade, que deu muito mais espaço para seu herói, que para os vilões da história. Um desserviço, já que a sociologia da história seria uma busca da verdade mais sincera.

O manifestante Fabio, taxado de black bloc, a nova distorção do circuito midiático, acabou percebendo que seu esclarecimento, de quem estava lá, vale muito menos que a busca por vilões. Vale nada mesmo, triste né? O importante é enquadrar a imagem do vilão, puxar a ficha toda dele (o rapaz já esteve preso pela PM em uma manifestação, a mesma PM que sistematicamente coloca rojões nas mochilas dos cidadãos, para plantar provas).

O inquérito contra esse rapaz será meio como o PM que coloca pedras e rojões na sua mochila enquanto anda pela rua. E a história será devidamente contada pela tevê, montando cacos, arrumando fotógrafos fantasmas e ignorando outros depoimentos para transformar Fabio Raposo em “o chefe da quadrilha”.

Infelizmente sou obrigado a viver numa cidade que tem um túnel nomeado de Rafael Mascarenhas, um “anjo” criado pela mídia, que foi brutalmente assassinado enquanto se divertia. Uma meia verdade, todos sabemos. Rafael, o anjo, estava se divertindo de fato e foi atropelado por um imbecil bêbado. Agora, Rafael estava desde sempre correndo risco, ao dividir o espaço proibido ao público, com caminhões e tratores que reformavam o túnel fechado. Rafael, o anjo, não cometeu crime algum, mas foi imprudente, assim como seus amigos e como o rapaz que o atropelou, que também cometeu um ato de imprudência ao entrar com seu carro, bêbado, no túnel fechado. Ambos corriam riscos. Ambos estiveram no túnel fechado. A soma de muitas imprudências acabou por fazer uma vítima e um criminoso. E consequentemente de um anjo e um monstro.

Por que de repente falei de Rafael Mascarenhas? Porque ao olhar para o “inimigo público número um”, Fabio Raposo, vejo um pouco de Rafael ali. Um jovem de classe média “imprudente”, correndo riscos, mesmo que fazendo o que acreditava. Raposo, franzino e magrinho, resolveu falar que não quer ser anjo, mas tampouco não aceita ser demônio, mas sua atitude de encarar a verdade e ir a polícia mostrou que vale tão pouco quanto ao atropelador de Rafael, que fugiu e tentou subornar o guarda. Ou melhor, tanto o atropelador quanto Fabio tiveram uma atitude agravante, apesar de totalmente opostas. Bater na porta da polícia e tirar a máscara é, infelizmente um agravante.

Mas não se preocupe. Em pouco tempo o Fantástico exibirá casos de brasileiros honestos, que encontraram dinheiro e devolveram a seus donos. Tadeu Schmidt, aguarde, fará um especial sobre Rafael Mascarenhas, com a camiseta do anjo. Ninguém vai mais se lembrar do cinegrafista que corre grande risco de vida, a vítima mais pura da ocasião.

Tudo bem, tudo bem. Não precisa fazer camisa, mas será que batizariam a praça com o nome do cinegrafista? Ah, não é da Globo. É da Band.

Então não.

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Em conserva

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No meu penúltimo post, talvez o mais lido da história desse blog, comentei que há um mito da solução e que isso não passava de uma neurose coletiva.

Mas não acreditar numa solução estanque, repleta de lógica, não significa que não acredite em mudança.

Pois bem, amiguinho leitor. Pode acreditar que eu acredito em mudança. Principalmente porque olho para mim quando o assunto é mudança.

Veja bem. Fui criado da forma mais conservadora e opressora do mundo, com um pai dono da verdade, formulando shows em cada jantar, na cabeceira de uma mesa de mármore de 8 lugares. De seus shows uma pilha de indignação e preconceito saltavam a cada grito e ameaça (ele sempre teve medo de um filho seu não ser macho). Fui criado assim. Meu pai não é má pessoa, com pensamentos maléficos. É uma pessoa dita “de bem”. Mas seu discurso é conservador, porque quer conservar o que acha certo. Quer conservar alguns valores e conservar a todo custo, ou seja, ignorando as mudanças a sua volta.

Tenho um livro de um dos meus maiores influenciadores, que é o Flavio de Carvalho, que se chama “A Moda e o novo Homem”. Flavio, com uma mente quase mediúnica, viu no costume da moda, ou melhor, do vestuário, um sinal evidente das mudanças de uma sociedade. Acima das questões semióticas inerentes ao livro, o que pude ler em seu discurso era quase um ato político de como mudar e aprender a mudar.

E felizmente dentro dos valores que todos nós individualmente tentamos conservar, há forças maiores que as que podemos exprimir. São forças tão grandes que uma das soluções dos ditos conservadores é buscar uma ajudinha divina, com a voz de Deus sendo a última justificativa para conservar uma ideia ou um comportamento.

Curioso é que esse conservadorismo só acontece em alguns pontos. Em outros, meu pai como o pai de muita gente, adora, por exemplo, o design mais agressivo e doido daquele novo carro coreano. Como se o futuro fosse feito pelo homem ainda moderno, vestindo a mesma camisa polo, o mesmo corte de calça, o mesmo penteado, o mesmo comportamento sexual, mas a bordo de um bólido voador, supereônico, controlado por algum gadget de última geração.

Chega a ser hilário o conservador tentando entender a nova tecnologia. A ausência de botões é algo que ainda não foi totalmente assimilada. No fundo no fundo parece que ele achava melhor que não existisse esse negócio de touch screen, mas isso ele tem vergonha de falar porque afinal o mundo mudou né não?

Pois é. Mudou e está além do toque grosseiro sobre a superfície lisa do telefone celular ou do tablet onde o conservador conserva e reage as novas mudanças que são inevitáveis.

O conservador compartilhando um texto do Rodrigo Constantino em seu iPad com capinha azul bebê é uma das imagens mais ridículas que posso construir hoje. Um conservador que sai daquele Hyundai Veloster, ao lado da sua “conservada” esposa graças as técnicas plásticas mais avançadas, e que vai naquele restaurante e, munido de seu iPhone dourado, vocifera contra os gays.

Na verdade o papo do conservador vem da ideia de que não acha justo ter uma opinião diferente da corrente. Foi isso que Constantino vem tentando teorizar. Ele diz, por exemplo, que não “achar bonito” gays se beijarem não quer dizer que não respeitem o beijo entre gays ou a existência de gays. O povo aplaude.

O que ninguém avisou ao Constantino (ou avisou e ele ignorou) é que os gays não querem que você ache bonito ou lindo o amor e o sexo entre eles. Eles simplesmente não querem que ninguém tenha juízo algum, em outras palavras, que achem natural como deve ser. Essa é a luta. A luta não é estética. É política.

Isso foi um exemplo de mudança que aconteceu na minha cabecinha quando comecei a usar meu pai como um anti modelo. Quando comecei a me fartar do meu banquete totêmico (o assassinato inevitável do patriarca). Como amante de música, sempre fui a todos os programas sem preconceito. Principalmente, em meados dos anos 90, nas festas GLS, gigantescas, onde a melhor música eletrônica se tocava. E lembro-me da primeira vez, que o choque ao ver homens se beijando não poderia pertencer ao meu comportamento. Em poucos minutos simplesmente ignorei porque achei quase que automaticamente, natural aquilo ali. Houve em mim uma mudança comportamental. Nas seguidas festas, o tal beijo gay não era sequer algo a ser focado. Meu olhar continuava acompanhando os meus interesses, sem medo.

Sexualidade é algo que não se aprende. Se desenvolve. Cada um desenvolve a sua e essa é uma realidade que pouca gente no Brasil ainda admite. O que se aprende é preconceito. O que se aprende é, por exemplo, que homossexual pode ser homossexual lá com as negas dele, não no meio da rua. Ou seja, o conservador como o colunista da Veja, a quem eu considero doido mesmo, pirado, respeita os gays como respeita um pastor alemão lá no sítio dele: contanto que fique no canil sem atacar ninguém, é super natural. Taí a liberdade que não é recíproca, ou seja, o conservador no mínimo exige que a sua liberdade tenha mais liberdades que a de outros. Não é lindo?

Isso tudo por que? Eu não terei a menor condição de falar aqui. Nem pretendo. Mas o que sei foi o que falei para meu pai na semana passada, tão enfraquecido com os percalços da vida, que ao me perguntar o que eu achei sobre o beijo gay na novela, com toda indignação, nem teve forças para argumentar a minha resposta. Foi assim:

— Meu filho, você viu esse negócio de beijo gay na novela?

— Vi sim, pai. Achei uma merda.

— Mas não é uma merda isso na televisão, meu filho? (logo se animando)

— Não, pai. Achei uma merda o beijo. Tinha que ter sido um chupão ardente. 20 anos de atraso não poderiam ser mostrados de forma tão patética.

— Ah, é meu filho? Então você acha isso bonito? É isso? Dois homens se beijando?

— A sua pergunta está errada, pai. Não é para achar bonito ou feio. É pra existir, sem julgamento. Viado, bicha, sapatão, homossexual, estão aí do nosso lado desde que o mundo é mundo. Você só aprendeu que é um desvio de caráter e não uma questão própria de sexualidade. Tá na hora de você entender que ninguém nunca vai conseguir “acabar” com isso.

— Ah é? Então tá…

Pela primeira vez ouvi resignação de sua boca. Ele não tinha forças para discutir. Não era porque eu tinha razão ou não. Era, sem dúvida, porque ele já não tem mais força nem paciência para isso.

O que me faz pensar que devemos nos preocupar com nossos filhos. Esses sim mudarão. Não que eu ache isso necessariamente bonito. Não é essa a questão, repito, apesar de achar bonito. Acho, sim natural. E ponto final.

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