24 de maio de 2013 às 2h12
Bullying corporativo

O quê? Um negro? Como assim?
O amiguinho leitor deve ter percebido que não tenho tido muito tempo para escrever. Escrever até tenho, mas para ler, que para mim é o mais importante, não.
Eis que hoje, após um dia bem esquisito, resolvi ler algumas coisas. Principalmente meu feed do Twitter, onde vi que a marca metrossexual básica (acredite, metrossexual básica existe), Abercrombie and Fitch, pede desculpas pelas palavras mal interpretadas de seu CEO. Resolvi me aprofundar e vi que recentemente um rapaz ficou indignado com a estética nazi de ideal de beleza da empresa, cuja política resulta em: só contratam “gente bonita”, não há produtos XL e XXL para mulheres nas lojas e por fim, a de que a empresa não doa o que está danificado, mas incinera seus produtos para que os pobres não apareçam vestidos com roupas da marca.
Pois bem, na semana passada esse rapaz postou um vídeo no YouTube que já foi visto por quase 8 milhões de pessoas. Nesse vídeo, ele propõe uma ação chamada #FitchTheHomeless, a qual pede que as pessoas busquem peças de roupa da marca e doem para abrigos de sem teto. Veja abaixo, que beleza:
Um outro rapaz, que sobreviveu a um transtorno de desordem alimentar também propôs uma ação repreensiva a marca e parece que a coisa vai ficando cada vez mais apertada (ui!) para a grife. Só o seu CEO, Mike Jeffries, que após um estágio com o Governador Sergio Cabral, resolveu ficar em silêncio. Deve estar indignado com a existência de pessoas feias se metendo em sua marca.

dois gênios do bem.
Para quem cresceu vendo as campanhas revolucionárias de Olivero Toscani para a Benetton, e posteriormente, junto com Tibor Kalman, a criação da revista Colors, tudo isso me parece um triste retrocesso, mesmo sabendo que há uma grande parcela de adolescentes que são influenciados pela cultura do fodão/merda (nos EUA, winner/loser). Basta ver a quantidade de seriados adolescentes onde há, no meio de brancos lindos, aquele que representa o solitário “black guy”. O canal CW, onde passa o programa Barrados no Baile, mais conhecido como 90210, teve uma linda alfinetada do genial programa de improvisos, Whose Line is It Anyway, que está voltando as telas nesse mesmo canal. O que era para ser divulgação, acabou como uma crítica perspicaz a esse formato de programas:
No Brasil a coisa não é muito diferente. É comum reparar em alguns amigos repetirem o bordão “só tem gente bonita”, mesmo quando não percebem o ato falho. Praias loteadas de “gente bonita” e muitas vezes endinheirada impõem uma fronteira clara a quem não pertence a eugenia social. E não falo apenas de Jurerê ou Maresias e nem daquela farsa da praia no quartel de Copacabana. Estão ali sim, na praia de Ipanema, as fronteiras que não correspondem ao mito de que a areia é um local democrático. É, mas com muitas ressalvas. Um local “bem frequentado” passa rapidamente a execrado se neguinho (com duplo sentido) começar a invadir. Essa gente bonita se muda para não conviver. Aliás, quantos amiguinhos das classes A e B alta frequentam a Praia de Copacabana, onde cresci e frequentei? Poucos.
É claro que o problema é muito mais complexo que o que escrevi em poucos parágrafos, mas a atitude da marca predileta dessa gente bonita mostra que uma cultura anômala pode servir para exploração comercial. Um bom exemplo disso no Brasil foi o da marca Reserva, a qual seu dono se envolveu em uma trapalhada numa livraria no Leblon. Mandou o vendedor retirar a camisa falsificada e tentou fazer campanha contra a livraria, que não repreendeu seu funcionário. O tiro saiu pela culatra e em poucos minutos foi duramente criticado nas redes sociais. E justiça seja feita, a marca passou posteriormente a fazer roupas para gordos, gordinhos e gordões, anunciando que todos deveriam ter o direito de se vestir.
Nós enquanto designers, estrategistas, sociólogos, blogueiros e complicados, temos a obrigação de lembrar do grande Neumeier: a marca não é aquilo que você diz que é, mas aquilo que os outros dizem sobre ela. Está corretíssimo.
Mesmo que o dono da grife faça cara feia.
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Um sujeito sem predicado. 
A casa é sua’