21 de janeiro de 2008 às 18h46
2007: O pop brasileiro e a responsa

O “tempo” dado pelo Los Hermanos no meio do ano parecia exagero até começarem a pintar as notícias do que os integrantes estavam fazendo após seus shows de despedida, no meio do ano. Camelo passou gravou com Sandy & Júnior e apareceu em shows de veteranos do nosso pop, como Marcos Valle, Titãs e Paralamas. Amarante bandeou-se para a gringa, e virou integrante da banda de Devendra Banhart e flertando com integrantes dos Strokes. Ambos vocalistas ainda passaram por apresentações da Orquestra Imperial, esse enorme e itinerante boteco carioca vintage para paulista ver. Medina segue blogueiro full-time, enquanto Barba passeou por aí assumindo as baquetas do Jason, do Latuya e do Canastra. Ou seja: coisas para fazer por aí, eles tinham.
Mas o que isso quer dizer sobre o pop brasileiro atual? Quando uma de suas principais bandas suspende suas atividades para matar a vontade de fazer participações especiais, isso pode ser entendido como um reflexo deste cenário?
Pode ser coincidência, mas tem a ver. 2007 não foi um ano bom para a música brasileira – longe disso, aliás. Talvez tenha a ver com a crise dos CDs, que, finalmente, bateu com força: perceba como as gôndolas de discos ficaram menores nas grandes lojas ou como as seções de clássico e jazz das megastores estão ganhando importância perto das de lançamentos. Isso fez com que as grandes gravadoras não investissem mais em novos artistas e insistissem na fórmula greatest-hits/ao vivo/acústico. Até Lobão, quem diria, entrou nessa dança.
Certamente tem a ver com uma nova safra de artistas que ainda não se firmou como tal – nomes como Superguidis, Vanguart, Móveis Coloniais de Acaju, Lucy and the Popsonics, Canastra, The Feitos, Fino Coletivo, Los Poronga, Terminal Guadalupe, Violins, China e Charme Chulo são alguns que estão no primeiro ou segundo disco, mas que ainda não emplacaram no imaginário coletivo e correm por fora do circuito rádio e TV através da internet e dos festivais independentes que, com a consolidação da Abrafin, prometem começar a desequilibrar este cenário em 2008.
Enquanto isso, o dial e a programação da TV são tomadas por clones de CPM 22 – os emos estão por todo o lado, incensados até mesmo por Jorge Ben. Entre os medalhões da década passada, nada de novo: o Pato Fu tentou fugir da mesmice ao lançar primeiro seu disco online para depois transformá-lo em disco físico, a Nação Zumbi trocou a Trama pela Deck e fez seu disco mais fraco. Em ambos casos, projetos paralelos das duas bandas saíram-se melhor (tanto o Maquinado de Lucio Maia é melhor que Fome de Tudo, quanto o disco-tributo que Fernanda Takai fez a Nara Leão é melhor resolvido que Daqui pro Futuro). Seus contemporâneos – O Rappa, Mundo Livre S/A, Marcelo D2 – seguiram apenas fazendo shows e contando os trocados, e importando tanto quanto as bandas de axé ou de pagode. Nem a MPB fez algo digno de nota – tirando Paulinho da Viola, 2007 foi um imenso “mais do mesmo”. O mesmo pode ser dito sobre o hip hop e a eletrônica (esta última com melhores dias, graças ao disco de Gui Boratto e a um início de cena que junta Bo$$ in Drama, Twelves e outras duplas de produtores num mesmo balaio).
Talvez a única real movimentação no pop nacional atual seja na música instrumental pós-Hurtmold. O gênero deixou de estar vinculado à surf music e abriu suas portas para o jazz. Bandas como Banalizando, Mamma Cadela, Lavoura e projetos do próprio Hurtmold (como o solo do Granado, Bodes & Elefantes, e o de Takara) encontram pouco a pouco mais terreno para crescer sem estarem necessariamente vinculados ao pop, ao rock ou a refrões.
E o que isso tudo tem a ver com o hiato proposto pelo Los Hermanos? Sem saber o que fazer, o pop nacional prefere experimentar ao se assumir como tal. Assim, artistas seguem fazendo frilas, projetos solo e participando de discos e shows alheios, regravando velhos consagrados e usando destes subterfúgios para fugir da responsabilidade do sucesso. E aí chegamos à principal pergunta deste fim de década: o que é sucesso? Tocar no rádio, ter uma base de fãs, número de downloads, fazer o que se gosta…? É nessa encruzilhada que se encontra o pop nacional, esperando que alguém decida por ele o que ele mesmo deveria decidir.
3 Comentários



Profissão: autobiógrafo.


22 de janeiro de 2008 às 10h01
O Medina não é blogueiro full-time não. Trabalha no departamento de promoções (responsável pelas chamadas) da Globosat. 8h por dia, crachá pendurado, almoço no refeitório e tudo o mais.
Responder
22 de janeiro de 2008 às 10h20
E já que você falou de música instrumental, procura conhecer a Fanfarra Paradiso, aqui do Rio, que tem tocado bastante e crescido um tanto. Tão pra lançar CD por agora, mas procura no YouTube pra ver qualé.
Responder
22 de janeiro de 2008 às 18h47
“tirando Paulinho da Viola, 2007 foi um imenso ‘mais do mesmo’” – Tirando Paulinho da Viola?!? Aquele que regravou seus grandes sucessos em formato pouco diferente do que sempre fez? Que o disco é bom, é. Mas é mais do mesmo.
Responder