19 de abril de 2008 às 16h17
Industrial acústico – Young Gods em São Paulo
Confesso a pitada de frustração quando vi os instrumentos no palco. Dupla frustração: a primeira por constatar, de fato, que o show do Júpiter Maçã tinha acabado e a segunda ao confirmar que aquele não seria o “show elétrico” da primeira apresentação de verdade do trio suíço no Brasil. Depois amigos, conhecidos e reconhecidos confirmaram comentários idênticos – que o velho Júpiter tinha feito mais um de seus shows memoráveis (tava comentando isso com o Ronaldo, já vi uns dez shows do cara, sendo que no mínimo cinco foram nota 10) e que todas as apresentações do Young Gods em sua passagem pelo Brasil seriam naquele formato devido a problemas com a acústica do Sesc, que não permitiria a avalanche sonora de decibéis em suas instalações. Nem sei se isso é verdade, tinha acabado de sair do trabalho e não tava com disposição para checar a veracidade do buchicho vigente. Me dá um Black & White aê.
Passado o sentimento inicial, veio a curiosidade. Eis um momento interessante: uma banda de música eletrônica dos anos 80 em formação acústica. Bom frisar a temporalidade da banda porque eletrônico nos anos 80 era uma coisa mais ou menos parecida com o emo de hoje em dia – não em termos de som (tá maluco!), mas em se tratando de tribo urbana e novo gênero musical. Para quem cresceu no cânone do rock ou da MPB, aqueles caras (fosse o Depeche Mode, o próprio Kraftwerk ou o New Order) tocando com computador pareciam ser de outro planeta. Não é à toa que a eletrônica de vinte anos atrás primava pelo excesso. Saindo destes medalhões, a paisagem desta cena musical era quase sempre associada ao excesso de barulho muito mais do que o ímpeto para dançar. À medida em que os anos 90 entraram em cena, a eletrônica foi aos poucos assimilando ruído com ritmo, criando o gênero que hoje movimenta milhões. Gênero que fez com que a imagem que o associamos à tal década se divida entre grupos de tecnopop (Pet Shop Boys, Human League, Duran Duran) e DJs em galpões abandonados (as cenas de Chicago e Detroit, o jungle em Londres) – e nos esqueçamos completamente de bandas como Cabaret Voltaire, Clock DVA, Scritti Politti, Front 242, Einsturzende Neubaten, Throbbling Gristle, Skinny Puppy, Psychic TV. Essas bandas criaram um universo que hoje parece mais gótico que eletrônico, mas é culpa da roupa preta e do lápis de olho (lembra que eu falei dos emos?). Se hoje Nine Inch Nails (emo), Arcade Fire (emo?) e Marilyn Manson (emo!) podem andar despreocupados por aí, é porque esses caras, que habitavam gêneros conhecidos como industrial, glitch e EBM.
Eu particularmente acho um saco, mas no meio desse balaio surgem umas pérolas – e o Young Gods é uma delas. Eles estão mais próximos do rock clássico (como os austríacos do Laibach e a fase boa do Ministry, outros fodões) do que desse universo quase-gótico dessa música eletrônica do B. E quando empunham os instrumentos no palco do Sesc Pompéia, provam isso.
Vão do rock mais básico (“Gasoline Man” fica entre Muddy Waters e Doors e há até uma releitura de Richie Havens – “Freedom”, aquela do Woodstock, “Ghost Rider” do Suicide ganha a estrada) à canção tradicional (“Speak Low”, de Kurt Weill e Ogden Nash) e se apresentam com três violões e percussão, às vezes soando pantaneiro, outras apenas folk. Esta formação é a mesma que o grupo promove no disco novo, Knock on Wood, mas eles não se limitam ao clichê da roda de violão e usam os instrumentos como aparelhos de experimentação musical, tocando-os também de forma não convencional – às vezes o violão vira percussão, a gaita faz as vezes de slide, um violão surrado com apenas duas cordas funciona como baixo e um plugue de microfone pode se transformar num chocalho de estática. O Young Gods hoje é formado pelo fundador Franz Treichler (uma mistura de Finatti com Mark Arm), Alain Monod (um Gui Barrella velho), Bernard Trontin (que parece um dos caras do Coupling inglês), além de um quarto integrante, que, como Franz e Al, toca violão. O nome dele eu não lembro – manda outro Black & White aê.
Sem eletricidade nos timbres, as canções do trio sobrevivem, provando serem mais do que apenas uma banda barulhenta. “Our House”, “I’m the Drug”, “Skin Flowers” e “She Rains” (no vídeo que eu achei no YouTuba – já já pintam aí) provam isso. Conversando com o público tanto musicalmente (puxando palmas e coros) quanto verbalmente (seja num bom português, em inglês ou francês), Treichler lembrava que era a primeira vez que o grupo se apresentava no país, embora os três já tivessem feito um show por aqui em 2004, quando, ao lado do antropólogo Jeremy Narby, apresentaram o espetáculo Amazonia Ambient Project (entrevistei os caras na época e o Narby me autorizou a publicar a íntegra do texto que ele contou – em português ainda mais fluente – durante todo o show [foi fodaço]).
(Agora que percebi que o texto tá fora do ar por conta daquele pau no Gardenal de 2005 que fez todos os blogs perderem dois anos de publicação – sorte que eu faço backup dos principais, já já subo aqui).
Se você tá de bobeira sem programa hoje em São Paulo ou quer começar a noite bem, aproveita: programão. O show começa às 21h, mas quem abre é o mala do Skylab – ou seja, não tem pressa.
PS – A propósito: os caras não fizeram o show elétrico por nóia de barulho do próprio Sesc.
1 Comentário



Profissão: autobiógrafo.


22 de abril de 2008 às 20h04
gostei bastante do show, mas esparava muito que, em algum momento, eles fizessem algo “plugados”.
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