4 de agosto de 2008 às 20h31
Rodrigo Lucianetti (1974-2008)
Em tempos de mudanças profundas, quando parece que todos tentam esquecer suas referências passadas e buscam encontrar algo novo para se agarrarem, nada mais apropriado do que decretar a morte de um dos maiores símbolos de nosso agonizante século, o rock. Porém, quem conhece bem este velho Peter Pan, sabe que é sempre nos momentos de dúvidas quanto ao seu futuro que ele mais se renova.
Parecia ser só mais uma notícia trágica de fim de semana, com um motorista bêbado atropelando dois triatletas que estavam treinando para o Iron Man em Floripa. Mas eis que:
O triatleta Rodrigo Lucianetti, 34 anos, morreu no local. Seu companheiro, Marcelo Occhialini Godoy, 37 anos, foi levado para um hospital de Florianópolis com lesões graves.
Mutli forwardeou a notícia, negritando o nome do Rodrigo, mas ainda incrédulo. Quem a recebeu, sentiu a mesma coisa: “Não é possível”.
Era. :(
Rodrigo Lucianetti foi um dos vários amigos que fiz online, um cara sempre tranqüilo e gente boníssima, desses amigos que você fica feliz por participar do círculo social dele – ainda que apenas via internet. Mas, além disso, Lucianetti foi, sem exagero, um jovem mestre.
Como eu, muita gente boa conheceu o sujeito quando, em plena revolução do MP3, ele descolou um espacinho no servidor da empresa em que trabalhava para subir discos. Mas não eram simples lançamentos ou clássicos do rock. Rodrigo ampliou para a internet uma prática que já conduzia no mundo offline: apresentar música nova pros camaradas. Havia começado alguns anos antes, fazendo fitinhas e enviando-as para os amigos – seja nas lendárias tape chains de listas de discussão, seja apenas para presentear um camarada.
Mas seu talento ganhou escala nacional a partir do endereço www.esss.com.br/~rodrigo/. Ali, ele mostrava suas obsessões atuais, fosse hip hop alternativo, nova psicodelia ou IDM. Repassava discografias inteiras de artistas semidesconhecidos, discos tributos que alguém tinha ouvido falar que existia ou artistas brasileiros cujos discos não existiam nem em CD. Lembro direitinho que, após eu ter escrito um artigo sobre a história do krautrock (outro dia republico aqui), dias depois ele linkava no site todos os discos de cada uma das bandas que eu havia comentado.
(O Gonzo descolou outros links onde dá pra sacar a versatilidade do sujeito: esse, esse, esse e esse.)
À medida em que disponibilizar discos na internet tornou-se comum e várias das obras que Rodrigo havia linkado deixaram de ser impossíveis de encontrar online, era corriqueiro comentar com alguém que, na virada do século, “havia um site de Floripa em que um carinha que subia discos incríveis, raros e desconhecidos”. Ele deixou de ser apenas um referencial entre os amigos para se tornar um nome comum entre pessoas que só haviam recebido o link de alguém. Grande parte dessas pessoas sequer sabia seu nome – e ele não queria reconhecimento maior do que teve. Como bem lembrou o Mutli em seu réquiem para o amigo: “Lucianetti não tinha banda, não era de ir muito em shows, não discotecava, não tinha programa de rádio, mas ajudou muita gente a conhecer muita coisa boa”.
Além do fino bom gosto (apesar de tachar o Animal Collective como “o Velvet Underground dos anos 00″ – como o próprio Mutli brincou à época em que ele disse isso, era bom saber que ele também era humano), Rodrigo também escrevia que era uma beleza. O texto que abre esse post foi tirado da resenha que ele escreveu sobre o In the Aeroplane Over the Sea para o 1999, site que eu tocava com o Abonico no ano de mesmo nome.
Por isso, fica aqui minha homenagem ao jovem mestre.
Say a word for jimmy brown
He aint got nothing at all
Not a shirt right of his back
He aint got nothing at all
And say a word for ginger brown
Walks with his head down to the ground
Took the shoes right of his feet
To poor boy right out in the streetAnd this is what he said
Oh sweet nuthin
She aint got nothing at all
Oh sweet nutin
She aint got nothing at allSay a word for polly may
She cant tell the night from the day
They threw her out in the street
But just like a cat she landed on her feet
And say a word for joanna love
She aint got nothing at all
cos everyday she falls in love
And everynight she falls when she doesShe said
Oh sweet nuthin
You know she aint got nothing at all
Oh sweet nutin
She aint got nothing at allOh let me hear you!
Say a word for jimmy brown
He aint got nothing at all
Not a shirt right of his back
He aint got nothing at all
And say a word for ginger brown
Walks with his head down to the ground
Took the shoes right of his feet
To poor boy right out in the streetAnd this is what he said
Oh sweet nuthin
She aint got nothing at all
Oh sweet nutin
She aint got nothing at all
She aint got nothing at all
Oh sweet nutinShe aint got nothing at all
She aint got nothing at all
She aint got nothing at all
Update: A Flávia, o Dago e o Custódio também homenagearam a partida do Lucianetti. O Custódio não escreveu simplesmente um réquiem, mas resgatou uma ótima entrevista com ele, de onde eu tirei essa passagem, que resume muito o que ele – e muita gente que eu conheço – e sua relação com a música.
“Sempre há uma trilha sonora em praticamente tudo o que faço, seja no trabalho, no carro, em casa ou em qualquer outro lugar. Nas minhas lembranças, um fato importante é quase sempre seguido de uma música tema. Essa minha obsessão por música fez com que eu não me contentasse em apenas ouvir o que pintasse na minha frente, mas também a correr atrás de informação. Ler sobre música logo se tornou minha segunda obsessão e a partir daí a coleção de discos foi crescendo. Hoje com a Internet é muito fácil. Você lê sobre uma banda e em questão de minutos ta ouvindo algo e tirando suas conclusões. A história da música, principalmente da música pop, sempre me fascinou. O problema é que eu lia muito, mas era uma dificuldade pra conseguir ouvir os discos, que além de tudo, é um volume muito grande. Até eu conhecer o Audiogalaxy eu ia comprando tudo, depois virou uma festa e eu vi a “misteriosa” história da música se descortinando na minha frente. Era assim: All Music + Trouser Press na cabeça e agora é só kraut, depois no-wave, rap, uma banda puxava outra e assim por diante. Já perdi a conta de quantos CDs com MP3 eu tenho. Mas qual a graça de curtir isso sozinho? Todo colecionador quer dividir, trocar impressões. Daí veio a idéia do site”
E já iniciei uma campanha para revitalizar o site original, com tudo que ele compilou. Afinal, se ele influenciou mais de uma geração com sua generosidade, não custa repetir o gesto, criando um merecido memorial.
Vai fazer falta, compadre. E valeu por tudo.
PS – A imagem que ilustra esse post é a capa do Peng!, clássico do Stereolab, que Rodrigo usava como seu avatar no Last.fm
5 Comentários




Profissão: autobiógrafo.


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5 de agosto de 2008 às 15h07
[...] amigos Rodrigo, Flávia, Hector, Alexandre, Gilberto e Dago deixaram seu carinho registrados nos blogs, sites e principalmente, nas listas [...]
5 de agosto de 2008 às 17h54
é inacreditável! primeiro amigo da geração internet q perco, é triste e bizarro ao mesmo tempo!
Responder
10 de agosto de 2008 às 16h51
Dá um look no http://www.esss.com.br/~rodrigo. Eu ia colocar no ar de novo, mas o pessoal da empresa não liberou pelo lance de pirataria, direito autoral, etc. Cheguei a montar o index..html, mas não pude ativar os links. Vi que vocês estão tentando montar um site/memorial, então como tenho os discos zipados, eu poderia enviar pra vocês. Dos que eu coloquei no ~rodrigo eu só não tenho uns 10, os outros 700 discos eu tenho. O Rodrigão tinha me mostrado onde estava e eu copiei tudo pro meu disco. Se tiver interesse me dá um toque que a gente vê como faz. Abraço.
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15 de agosto de 2008 às 18h29
[...] morte do Lucianetti gerou alguns posts-tributo (comece pelo do Matias e siga as placas) que sublinham uma conexão bonita: poucos o conheceram pessoalmente mas muitos [...]
Pingback por Um ano sem Lucianetti - Trabalho Sujo - OESQUEMA
4 de agosto de 2009 às 10h53
[...] volta a nos lembrar da passagem de Rodrigo Lucianetti por nossas vidas e da importância de um precursor da generosidade intelectual. « Um recado | » Por Alexandre Matias às 10:53 | | Permalink Categorias: Brasil [...]