OEsquema

Ricardo Alexandre explica para Ed Motta

E o embate entre Álvaro Pereira Júnior e Ed Motta, a versão anos 00 (ou anos 90?) pra eterna briga entre a crítica e o artista, segue rendendo. Ricardo Alexandre se dispôs a analisar minuto a minuto do vídeo do Altas Horas para constar que tá tudo errado:

“Poderia passar meses comentando a empáfia de Ed Motta e o quanto ela é nociva para o ecossistema artístico, mas não sou pai dele, dane-se Ed Motta. Poderia passar outro tempo igual analisando essa frase que ele acha ser do Frank Zappa (imagine o Zappa defendendo que alguém que não sabe fazer pode ensinar outra pessoa a fazer, e que o professor de um artista é inferior a ele – muito bem, Ed!). Mas acho mais importante o ponto prático da discussão: o clichê absurdamente batido de que o jornalista de música, ou o crítico musical, precisa ser alguém com conhecimento técnico de música.

Ed sustenta sua “tese” (dele e de outra tonelada de artistas recalcados) sobre duas mentiras: uma frase de Frank Zappa que ele entendeu errado e o “fato” de que na Europa e Estados Unidos só há críticos de música formados em universidades. Bem, se há uma longa tradição de críticos eruditos escrevendo sobre música clássica, jazz ou mesmo pop-rock, também há uma longa tradição de chutadores na imprensa internacional, gente que escreve mais com o fígado do que com o cérebro, e ninguém nunca supôs uma hierarquia entre eles. É tudo uma questão de tamanho de mercado: entre Caco Barcellos e Paulo Francis, entre Lester Bangs e Grail Marcus, eu fico com todo mundo. Quanto mais diversidade de pontos-de-vista, melhor para o público, esse detalhe irrelevante da engrenagem.

Para escrever sobre música é preciso algo muito diferente do que ter formação musical. É preciso saber escrever. Para falar sobre música no rádio ou na TV é preciso saber falar e se comunicar. É preciso ter base histórica e estética, é preciso ter um corpo de idéias, saber defendê-las e ter caráter. Se fosse diferente, a coluna de vinhos de Ed Motta na “Veja” não seria um horror, e seu programa “Empoeirado” na Eldorado não seria insuportável (note como todas as “cabeças” do programa são idênticas: “vamos ouvir a música tal, do disco tal, da banda tal, lançado pelo selo tal no ano tal; na guitarra, fulano; no baixo, cicrano; na beteria beltrano” – isso é entender de música, e é desentender completamente de rádio e de comunicação).

Por último, há o absurdo supremo, que é a incrível cegueira dos artistas em relação à função da imprensa musical. Ei, cretinos: a imprensa (seja reportagem de campo ou crítica destrutiva) alimenta o sonho, bobões. A jovem guarda só existiu porque o público sonhava que aqueles pés-rapados eram john-paul-george-ringo. E quem alimentou isso foi a imprensa. O RPM só existiu como fenômeno porque a imprensa musical convenceu o país inteiro de que a força jovem dos anos 80 merecia um supergrupo andando entre nós. Tentar inviabilizar a crítica negativa não é só ineficiente, é imbecil: os Engenheiros do Hawaii, vocês se lembram, fortaleciam sua relação com seu público fiel, cada vez que eram estocados nos jornais. O Kiss também.

Matar a crítica como moscas só revela a enorme ignorância de Ed Motta, nada mais do que isso. (Aliás, ontem fui para casa ouvindo seu novo disco, “Chapter 9”. Ouça também – é de graça – e depois escolha entre a existência de Ed Motta e a existência da crítica de música)”

Vale ler na íntegra.

16 Comentários
por: Alexandre Matias postado em: Brasil, Musica, Pop, Talagadas tags: , , ,

16 Comentários

Comentário por joilson
11 de setembro de 2008 às 14h53

“Este site foi denuciado como foco de ataques”. Nao contra o Ed Marmotta, mas contra o computador mesmo. Heheh
Acho que o Ricardo pegou até leve com o Ed Motta, mas foi em cima.
Para ser crítico de cinema nao precisa fazer, nem de futebol precisa jogar. Pelo contrário. Melhores são os que olham de fora, mas tem muita referencia. O crítico é aquele que tem parametros, devido a sua experiencia exatamente como espectador. Além de senso estético e bom gosto.
Eu leio críticos que gosto e que não gosto. Os que não gosto para fazer exatamente o inverso e os que gosto para seguir as dicas.
E o Alvaro P. Jr. foi o culpado pela minha formação musical lá no inicio dos anos 90, quando nem internet direito havia.

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Comentário por Eva
11 de setembro de 2008 às 17h51

“Rock journalism is people who can’t write, interviewing people who can’t talk, in order to provide articles for people who can’t read.” – Ben Watson interviews Frank Zappa, October 1993, Mojo Magazine

odeio gente que cita sem saber direito o que foi dito. é tipo aqueles powerpoints com textos horrorosos ‘do fernando pessoa’

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Comentário por Alexandre Matias
11 de setembro de 2008 às 17h58

Oi Eva, acho pior, pq esses powerpoints tem uma certa inocencia, uma coisa neutra e bucolica, o cara cita errado, mas se pudesse, citaria certo.

No caso do Ed, a arrogancia se mistura com a ignorancia e o rancor, aih ele se quebra sozinho. Ridiculo.

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Comentário por Bruno
11 de setembro de 2008 às 20h23

A arrogancia do Ed e a boa tirada do Alvaro nublaram o ponto que estava sendo levantado: a critica musical no Brasil, principalmente as de jornais, é realmente muito ruim. Com raríssimas excessões.

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Comentário por Alexandre Matias
11 de setembro de 2008 às 20h33

Nao eh isso, Bruno: esse debate eh meio a cara do estado das coisas no q diz respeito aa musica no Brasil. Musico arrogante q nao aceita critica e critico q nao assume q eh critico.

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Comentário por Flávio
11 de setembro de 2008 às 21h17

E quanto ao site do “Álvaro ser foco de ataque” (afirmação do Firefox), Matias? Posso ir lá?

Valeu. É impressão minha ou o pique para postar aumentou?

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Comentário por Alexandre Matias
11 de setembro de 2008 às 21h27

Oi Flavio, acho q o Firefox dah esse aviso pq o site do Ricardo foi hackeado uma epoca.

O pique continua o mesmo: eh q no Gardenal demoraaaaaaava PACAS pro post publicado resolver dar as caras no site. Aih desanimava…

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Comentário por dafne
12 de setembro de 2008 às 10h05

ô matias, tava falando com o ricardo que o que mais me deixou de bode nessa história não foi nem o acúmulo de bobagens e arrogâncias do ed motta (o cara é enólogo! precisa mais?), mas o fato dele ter perdido a chance mandar um petardo rumo ao alvaro, que tenho um bode gigante.
falar algo do tipo: deve ser foda pra você ter nascido no Brasil, né? ou, aconteceu algo na sua infância que te fez ter ódio e desprezo absoluto e gratuito com a música brasileira?
ou que se explodam os dois!

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Comentário por jean mafra
12 de setembro de 2008 às 10h15

concordo em quase tudo. o que me incomoda é o fato e alguém como álvaro pereira junior, um sujeito (esse sim) recalcado e frustrado que nem bem crítico é, sair ileso da discussão.

ed motta, por mais arrogante que seja, disse ou tentou (ao menos) se colocar diante de um sujeito que é um dos mais cretinos do jornalismo musical publicado neste pais.

pena que ed motta não tenha os argumentos corretos….

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Comentário por Alexandre Matias
12 de setembro de 2008 às 10h17

Pra tu ver como o Ed Motta manda mal…

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Comentário por dafne
12 de setembro de 2008 às 10h41

acho que acabei falando mais do alvaro porque apesar de concordar com o raciocinio do ricardo (e no texto dele tem muita coisa boa pra ser debatida) não costumo defender a classe.
já disse que o ed motta é um bocoió?

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Comentário por bete monta
13 de setembro de 2008 às 21h22

bem, o que moço não é expert em Frank Zappa, isso é notório..
entre tantas frases boas do idolo, esta é sim mais uma…
seguem algumas do genio:
“”Se você quer trepar, vá à faculdade. Mas se você quer aprender alguma coisa, vá à biblioteca.”

“A maioria das pessoas não reconheceria uma música boa se ela viesse e as mordesse na bunda.”

“Estupidez até pode ter um certo charme. Ignorância não.”
“Existem vários guitarristas muito bons por aí, mas posso lhe garantir que sou o único fazendo as coisas que faço. Isto porque não me apresento como um estrela. Vou lá pra tocar composições.”"
“Tocar guitarra é como trepar. Você jamais esquece, a não ser que você seja realmente muito burro.” “Pessoas consomem produtos via respiratória para poderem diminuir seu nível intelectual e assim poderem se sentir parte da turma. Afinal, ninguém gosta de andar com quem é mais inteligente do que você. Isto não é divertido.”

Esta frase em especial, não posso afirmar como sendo do Zappa. Mas seria bem interessante assistir à uma entrevista do músico no YouTube “Frank Zappa on Crossfire” – vera a excelente relação dele com jornalistas (muito malas, por sinal!)… assim, ainda fico com o Ed Motta. Sim: para ser um bom crítico é preciso conhecer muiiiiito do inimigo para poder falar qualquer coisa. para isso é preciso ser bom e estudar muiiiiiito. e na biblioteca… rs

kisses boss

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Comentário por Alexander Pindarov
15 de outubro de 2008 às 7h26

Há um comentário extenso meu sobre isso tudo em :
http://pingumanbr.spaces.live.com/blog/cns!75069C5A144DA3E1!496.entry (que pena .. até o Ricardo dá virus “di grátis”), em :
http://pingumanbr.spaces.live.com/blog/cns!75069C5A144DA3E1!494.entry
e em :
http://pingumanbr.spaces.live.com/blog/cns!75069C5A144DA3E1!492.entry
Enjoy !

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Comentário por Alexander Pindarov
15 de outubro de 2008 às 7h28

PS. Mixtapes são item PROIBIDO pela RIAA. Quero ver quando o projeto do Azeredo passar ;)
Lembre-se, um processo judicial dos EUA é muito mais “eficiente” que os daqui ;)

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Comentário por Ubiratan Bandeira
10 de julho de 2009 às 19h47

Ricardo:
Não quero lançar lenha na fogueira, mas você extrapolou. Na minha modesta opinião o crítico de música tem que entender de música sim. Como um crítico de arte tem que entender de arte e o crítico de futebol tem que entender de futebol, etc. Música, meu caro, é algo muito complexo. É algo abstrato. É algo que flui através de uma emoção, de um sentimento ou satisfação e, até mesmo, num momento de ódio ou de intensa angústia. É algo que vem da alma. Seja qual for a música, ela sempre advém de uma inspiração ou de um insight. João Donato, um dos maiores gênios musicais do nosso país, disse que certa vez ele sonhou com uma música e quando acordou ele a escreveu completamente e a tocou. Essa música é verdadeiramente uma obra prima reconhecida por todos. O que é uma música ruim? Sinceramente eu não sei. Este humilde escriba diria que aquilo que soa mal aos meus ouvidos é o bálsamo para outros e vice-versa. Eu, por exemplo, sou vidrado em música sacra. Para você deve ser um pesadelo ouvir música sacra ou música erudita. O que é música Ruim Ricardo? Para o seu senso de crítica o fato de eu criar e compor músicas sacras sob o seu julgamento faz de mim um péssimo compositor, ou péssimo músico só pelo fato de você não gostar desse estilo de música? Com que autoridade você me julgariar? Qual é a extensão do seu real conhecimento sobre esse tipo de música? Qual é a sua autoridade sobre o assunto? Pelo menos conhece a história que envolve a música sacra ou a música erudita? O que é música ruim caro Ricardo? Sinceramente eu não sei e a minha única reverência é o silêncio. Música “ruim” seria algo cuja mensagem sonora não compreendemos, não alcançamos como deveríamos, ou, ainda, aquilo que não experimentamos. Será que as alternâncias das oitavas executadas nos espaços esmos que formam uma sequência de sonoridades que chamamos de música tem o poder de exautar, de conturbar, de repelir, ou de irritar consideravelmente uma pessoa? Uma música “ruim” seria algo que não soa bem aos pobres ouvidos despreparados das pessoas? É muito difícil crer que uma melodia venha a ferir os “tímpanos” de quem quer que seja. Estou falando da sonoridade de uma melodia pura. Talvez, a letra de uma música posta sobre uma melodia cuja mensagem é incompreendida de certa forma seja, então, o fiel da balança para se julgar que a música é “ruim”. Será que a sinceridade expontânea de um compositor pode ser questionada? Para você nobre Ricardo pode ser uma merda, mas para outros, repito, pode ser um bálsamo sonoro. O que é uma música ruim caro Ricardo? Sinceramente eu não sei… E no seu íntimo, você inexoravelmente também não o sabe, pois não tem autoridade para fazê-lo. Dizer que a música de Ed Motta é isso o que você pensa, francamente, acho que você está apenas brincando e quer, apenas, aparecer na mídia. Creio ainda que você está “batendo” no Ed por algum outro motivo que eu desconheço, ou melhor, ainda não identifiquei. Mas o meu raciocínio lógico e intuitivo indica que há em você algo no seu caráter e de caráter pessoal que deveria ser sublimado. Faça-o o mais rápido possível senão a própria vida te quebra como já quebrou de tantos outros que agiram como você. Faça-o rápido e dou-lhe minha palavra de honra que você se sentirá muito melhor. Lembre-se que somos seres humanos imperfeitos e estamos completamente equidistantes da perfeição humana. Meu Grande Mestre disse-me algo que jamais irei esquecer: ” Quando criticamos alguém, nós estamos apenas externando com palavras a nossa própria incapacidade e as nossas próprias frustações quando vemos outros realizarem com o absoluto sucesso e competência aquilo que gostaríamos de fazer. E, quando nos sentimos de certa forma roubados, a crítica que desencadeamos ao vencedor sempre está relacionada à um dos vícios capitais, ou seja, à inveja, o instrumento dos perdedores e dos imcompetentes.
Talvez você não saiba e, nesse momento, eu gostaria de ser o portavoz: O Ed é um Ser humano super inteligente. A sua trajetória de vida já diz o bastanteIsso sobre a sua capacidade. Isso eu posso lhe garantir com toda a minha convicção. Além de ter uma inteligência acima da média, reconhecidamente, ele é eclético e um profundo conhecedor de música. Música na verdadeira concepçao da palavra. Isso também é um fato que eu posso afirmar.O pesquisador Ed Motta conhece mais música do que eu, você e muita gente juntas. Assim sendo, quando não se conhece o verdadeiro potencial das pessoas sobre qualquer que seja o tema é bom ficarmos calados e só ouvir. Em se tratando de música, no meu caso particular, eu ficaria completamente calado e jamais abriria a minha boca diante do Senhor Ed Motta quando o assunto fosse música, pois não sou maluco para querer cair no ridículo. E, isso amigo, é sabedoria passiva, ou seja, ouvir para apreender.

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Comentário por Zé Martinelli
14 de maio de 2011 às 16h05

Concordo com o Jean. Os críticos de música no Brasil são recalcados, a grande maioria não entende do assunto e misturam desavenças pessoais com opiniões musicais.

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