15 de setembro de 2008 às 14h06
Wanted
Mark Millar e o futuro do super-herói
Tou pra falar desse filme há um tempão, mas sempre vou deixando passar. O Procurado – um título sem graça, mas ao menos não é um clichê e se aproxima do título original sem precisar simplesmente ser mantido em inglês – parece ser só mais um filme de ação desses pra executivos de Hollywood faturarem um troco no meio da temporada, mas por trás daquilo que parece ser mais um blockbuster que o cinemão americano produz sem precisar ter um protagonista convincente (James McAvoy é um anônimo, ainda mais se o compararmos com seus coadjuvantes, Angelina Jolie e Morgan Freeman) há uma história e tanto.
Não apenas a história contada na tela. Originalmente uma minissérie em quadrinhos (Wanted, escrita por Mark Millar), ela poderia ser mais um dos vários casos de autores originais que se frustram com adaptações de suas obras para o cinema americano. Afinal, a história original do gibi fala de uma fraternidade secreta de supervilões que, em comum acordo, exterminam os super-heróis e passam a conduzir uma série de assassinatos para escrever a História ao seu dispor. No cinema, esta irmandade torna-se secular e com outras motivações – e só isso já seria motivo para muito escritor espernear.
Millar, não. Ainda viu, sem medo, sua história transformada em filme simplesmente abolir as referências a mitologia de super-heróis. No Wanted em quadrinhos, cada personagem era uma citação de um herói ou vilão estabelecido, às vezes com mais de uma personalidade fundida em sua descrição – o líder da fraternidade originalmente era uma mistura de Lex Luthor com Dr. Silvana, por exemplo. No cinema, tudo isso se foi. E Millar, em vez de lamentar e chutar o sofá de raiva, preferiu contemplar a mudança de mídia. Entrou como produtor no filme e deixou o diretor Timur Bekmambetov (“o David Fincher russo”, como ele sublinha) reescrever sua saga para virar um filme de ação.
E, orra, que filme. Wanted é de assistir inteiro às gargalhadas, de tanto que as cenas de ação são exageradas. Mas isso não é ponto negativo – a correria desenfreada e a ação fantasiosa são pontos a favor do filme, que é pra ser visto no cinema, com suas perseguições e balas que fazem curva sendo acompanhadas na telona, com som cheio. É uma homenagem ao movimento superlativo levado às últimas conseqüências, no mesmo tipo de megalomania-desastre do quarto Duro de Matar, por exemplo – só que com a velocidade de um Matrix.
Divertidíssimo, é claro que o filme não vai agradar o pessoal da “profundidade” cinematográfica. Vão ficar dizendo que as cenas são impossíveis, como se a história de um moleque zero à esquerda que descobre, do nada, que ele é um super-herói, fosse algo plausível, pronto para acontecer todo dia. Se você quer realismo, vai passear na rua – cinema é só diversão.
E Wanted tira onda nesse quesito. É um filme tão divertido quanto o último Batman ou o primeiro Homem de Ferro, sem precisar das grifes de Nolan ou Downey Jr. ou sequer das próprias lendas dos super-heróis. Ele inventa uma mitologia própria, que o Millar ousa dizer que foi “melhorada” pelo diretor.
É claro que ele não está dizendo isso de graça – e sim, tá levando grana. Mas eis um novo paradigma: em vez de um estúdio parceiro de uma franquia de quadrinhos para reinventar super-heróis do passado, temos um autor conversando com um estúdio para criar super-heróis para os dias de hoje. O escocês Mark Millar é um dos escritores de quadrinhos mais importantes da atualidade e nasceu sob o signo de dois mestres: Alan Moore e Grant Morrison (foi contratado pela DC nos anos 90 para escrever o Monstro do Pântano ao lado de Morrison e assumiu o texto de Authority quando Grant Warren Ellis saiu). Ele é responsável por uma das histórias mais fodas do Super-Homem (Red Son, que cogita que o meteoro de Krypton caiu na União Soviética) e fez os Ultimate X-Men e os próprios Ultimates, que é versão fodona para os Vingadores da Marvel (foi ele quem transformou o Nick Fury no Samuel L. Jackson, ainda em quadrinho, fazendo Jon Favreau acatar a idéia no final do filme do Homem de Ferro), além de já ter escrito para o Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e criado os Marvel Zombies, a Guerra Civil Marvel e o boato de que o Orson Welles faria um filme do Batman.
Não bastasse isso, desde que o século virou ele anda criando sua própria grife, que inclui Wanted. Além dela, que ele apostou com o estúdio que teria seqüências caso faturasse mais de 50 milhões de dólares, Millar ainda é autor de Kick-Ass (com John Romita Jr.), que foi lançada em abril deste ano e já está com um filme em produção; Unfunnies e Chosen, que ele diz ser a continuação da Bíblia. Todos os títulos estão sendo negociados para virar filme e Millar ainda pode virar consultor num possível filme dos Vingadores. Fora a história dele com o Super-Homem, que eu conto daqui a pouco.
Mas quando você ver o protagonista de Wanted se vingando do pseudo-amigo que come sua namorada enquanto ele estar no trabalho, você vai entender porque o nome de Millar tende a crescer. E muito.
5 Comentários




Profissão: autobiógrafo.


15 de setembro de 2008 às 14h17
assino em baixo tua resenha, cara. Só corrijo a parte que você disse que o Millar assumiu o Authority depois de Grant Morrison. Na verdade, foi depois de Warren Ellis, outro fodão das Hq’s. Eu ri muito em Wanted. O ator principal, o James McAvoy, é muito bom e transmite toda a panaquice e esperteza que o personagem precisou. Já a Angelina Jolie, como o nosso arroz de festa Morgan Freeman, foi no básico mesmo. Mas nada que desmereça o filme.
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15 de setembro de 2008 às 16h44
pois é. E o troço da ”higienização” é uma leitura ”clube da luta”(caramba, angelina jolie interpretando ”o que o público acha que ela é na vida: um produto”!) dos primeiro capítulos do mundo como vontade e representação de Schopenhauer, olha. O engraçado, a parte ”livre”, isto é, da religião/mitologia comum ao Matrix, vem como ”preenchimento” no enredo do filme. Fiquei bobo. Parece uma adaptação do livro. Sem a violência, claro. Partes como ”negação”, contra a qual o alemão coloca cristianismo e filosofia vedanta…
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15 de setembro de 2008 às 19h17
[...] Como eu ia falando, há muito tempo o Mark Millar já planeja um filme do Super-Homem. Um não, três. Ele vem soltando seu plano desde que terminou Red Son pra quem quisesse ouvir – e desde então vem vendendo a idéia que, apesar do filme de Bryan Singer ter sido feito, sua versão para a história do alienígena de Krypton seria não apenas “a história definitiva” do super-herói como “tornaria o personagem convincente para o século 21″. [...]
23 de outubro de 2008 às 16h31
Horrível, detestei essa coisa não presta
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Pingback por Trabalho Sujo » Arquivo » Kick Ass - OESQUEMA
27 de janeiro de 2009 às 11h39
[...] apareceram as primeiras fotos do Kick-Ass, o segundo filme inspirado na obra de Mark Millar (já falei do Wanted aqui, achei filmaço, pra se ver gargalhando). Kick-Ass conta a história de um moleque fã de história [...]