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Morte eletrônica

“Né, Valmir?”

Confesso que eu comecei a ficar preocupado quando vários amigos, em situações e lugares diferentes, vieram me perguntar se eu tinha ouvido o novo do Metallica. À minha negativa, eles sorriam como se soubessem de algo que eu não sabia, pra depois tascar frases equivalentes a “eles voltaram à velha forma” e que Death Magnetic era “muito bom”. Minha nóia era dupla: será que eu ia gostar do disco novo de uma banda que há mais de uma década e meia não fez nada que preste? E será que, ao “voltar à velha forma”, o Metallica conseguiria reconstruir sua reputação?

O Metallica tem sua importância na história da música popular do final do século passado por dois motivos bem diferentes. Primeiro, inventou um gênero agressivo e veloz ao colidir duas escolas que nunca haviam ido muito com a cara da outra, o metal e o hardcore. Assim, os americanos deram uma injeção de ânimo às duas vertentes musicais, mas foi o metal quem mais se aproveitou do nascimento do thrash metal. Não fosse isso, o gênero inventado no final dos anos 60 pelo Led Zeppelin e pelo Black Sabbath estaria fadado a levar a epicidade proposta pelo Iron Maiden às últimas conseqüências. Se não fosse o Metallica, o metal atual seria povoado por aquilo que os adeptos chamam de “metal melódico”, de bandas tediosas como Nightwish e Dream Theater.

Num segundo momento, quase quinze anos depois de ter lançado seu primeiro disco (o irrepreensível Kill’Em All), o Metallica surgiu como um outro tipo de personagem. Afeito às comodidades da indústria do disco, a banda foi o primeiro artista a comprar a briga das gravadoras multinacionais frente ao MP3. Todos lembram do mico que foi o processo movido pela banda contra alguns milhares de fãs que estavam baixando suas músicas sem que tivessem que pagar por elas. O estrago feito à reputação do grupo não foi tão grande quanto o que acometeu às próprias gravadoras, mas a banda deixou de ser vista com o elemento de periculosidade – ainda que, na época, apenas sonora – para latir feito um pitbull treinado por executivos.

Entre a invenção do thrash e o processo contra os usuários do Napster, a banda amoleceu. Demais. Mesmo que tenham fãs do material que produziram durante os últimos 15 anos, o Metallica sequer chegou aos pés de seus próprios discos iniciais. Os quatro primeiros discos da banda falam por si: Kill’Em All, Ride the Lighting, Master of Puppets e …And Justice for All são obras-primas do rock pesado, discos que alternam zunidos e grunhidos com pique e pesar – solos rápidos de guitarra que funcionam como intervalos entre riffs épicos tocados à velocidade da luz. Mas quando entrou nos anos 90, a banda quis sair do gueto do metal e tornar-se pop.

Aí veio o Álbum Preto. Maior sucesso da história da banda, ele também foi o responsável por diluir toda a tensão e nervosismo dos primeiros discos em canções palatáveis e fáceis de assobiar. Compare “Enter the Sandman” (hit de rádio!) com qualquer música dos discos anteriores e você ouvirá apenas uma banda de hard rock. Isso sem contar “The Unforgiven”, a baladinha em que, segundo um compadre meu, conta com o momento exato em que o Metallica desandou (naquele “né, Valmir?” farofão que segue a letra “never see…”). A partir daí, a banda continuou tentando atingir mais gente, deixando seu som cada vez mais caído. Mas o principal erro do disco preto foi ensinar, de forma didática, que o método de composição do Metallica era só uma fórmula, que poderia ser copiada – como foi – por qualquer bandinha de hard rock fuleiro.

De lá pra cá, eles fizeram nada para mudar esta situação – pelo contrário, insistem no erro como se achassem bonito. O Bruno esteve no show de lançamento do novo disco em Londres, quando, antes, de começar a apresentação, James Hetfield soltou suas farpas, de novo, contra o próprio público:

“Tenho algo para falar… Guardem a merda das câmeras, guardem os telefones. Vamos aproveitar o metal, ok? Vocês podem ligar para mamãe mais tarde. Colocar um vídeo de merda de algum momento do Metallica no YouTube não vai te deixar famoso. Aproveitem esse momento, certo?”

Mas mesmo com essa postura agressiva antipirataria (antifãs, melhor dizendo), o grupo conseguiu chamar atenção para o novo disco que, fui ouvir, e… que disco chato. Insuportável. Lembra o Metallica das antigas? Sim. Mas em termos de sonoridade, não nas canções. O que ouve-se em Death Magnetic é algo como se uma banda mega popular (um Pearl Jam ou um U2) resolvesse fazer um disco-tributo ao thrash metal. Não é que o Metallica tenha voltado à boa forma – eles (ou melhor, o produtor Rick Rubin) estão se auto-sampleando para lembrar dos bons tempos. Mas a estrutura das músicas, os riffs, as letras (constrangedoras, quase sempre), enfim… a banda, soa tão visceral quanto um prato de mingau.

Dá pra entender até os fãs gostarem. Afinal, depois de tanto disco ruim (as elegias ao ridículo St. Anger, de 2003, me lembram os fãs de David Bowie dizendo que Black Ties White Noise era a “volta do camaleão à velha forma”), ouvir um disco que pelo menos soa parecido com o tipo de música que eles esperavam deve ser recompensador. Mas, peraê, tamos falando de gente com mais de trinta anos. Se até o Slayer pendurou as chuteiras ao ver pais de família batendo a cabeça no meio do seu público, fico pensando quanto tempo vai levar pra cair a mesma ficha pro Metallica.

A letra de “Unforgiven III” (como se “Unforgiven II” já não fosse infame o suficiente) tem um trecho que traduz perfeitamente o estado atual do Metallica. “Como posso estar perdido se nem sei para onde vou?”. Boa pergunta. Mas só o fato do Lars Ulrich sonhar em ABRIR UM SHOW DO U2 (sério!), mostra que essa banda que se chama Metallica lembra as bandas do rock brasileiro dos anos 80, que se esqueceram de acabar e continuam vagando por aí, feito zumbis…

Queria saber o que o Lars de 87 acharia de abrir um show da turnê do Joshua Tree…

5 Comentários
por: Alexandre Matias postado em: Musica, Pop, Texto tags: , , , , , , ,

5 Comentários

Comentário por glauber
19 de setembro de 2008 às 13h56

cara eu vi um vídeo com uns soldados e com uma música é uma “one” piorada.

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Comentário por antonico
19 de setembro de 2008 às 16h26

Falou tudo. É isso mesmo !

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Comentário por denis
19 de setembro de 2008 às 17h41

já q hj eu to falando bagarai aqui, fecho o dia agradecendo os textos longos. Hj deram a cara aqui geral. Lembro q uns anos atrás eles enchiam a tela. Legal postar-um-monte/dia, desde que “textos longos” na leva, rs

tá bom, volto ao silêncio de consumidor por mais uns 3 anos, flw :P

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Comentário por terezo
20 de setembro de 2008 às 12h38

gostei do post, acho q é isso mesmo: o metallica perdeu a credibilidade e dificilmente volta às origens. mas vou provocar só por causa de um trechinho ali no meio. a pergunta é: pq ter tornado o som “caído” (melodias fáceis de assobiar etc) é um demérito do metallica, mas não é de outros grupos/artistas q “já nascem” com o som “caído” (los hermanos, mallu magalhaes) ?

off – estou sentindo falta de algum post falando sobre lost.
um abraço

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Comentário por Eduf
21 de setembro de 2008 às 11h14

Há algum tempo, escrevi isso: http://eduf.tumblr.com/post/48598871/testando-death-magnetic

Errei feio no item market share. Eles estão em 1 no chart de 18 países.

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