23 de setembro de 2008 às 10h15
“Eu sou Will Eisner”
Frank Miller, super-heróis e cinema
O Slashfilm descolou umas fotos do próximo filme do Frank Miller, que está adaptando o Spirit de Will Eisner para a telona. Saca só:
As fotos tão muito coloridas pro tom dark que o filme devia inspirar, mas Miller sabe o que faz. Apesar de muita gente ter torcido o nariz para a versão cinematográfica de Sin City, o filme que marcou sua estréia na direção (ao lado de Robert Rodriguez, cuja importância poderia ser resumida só por chamar Miller para fazer cinema) tinha o mesmo ritmo e tom que as histórias que colocava nos quadrinhos – só que os “cinéfilos” (ô raça, esses indies do cinema) o desclassificaram como pueril (normal, neguinho que nem lê quadrinho, né… Já viu…) e o filme passou meio batido.
Só que Frank Miller não sabe apenas da própria importância para a história da HQ como é devoto de São Eisner, além de talvez ser a melhor pessoa no mundo para qualificar o peso que é a adaptação da primeira obra séria feita no formato história em quadrinhos imaginada pelo mesmo sujeito que inventou o conceito de graphic novel. No livro Eisner/Miller, deleite para quem curte HQ e talvez a melhor e mais competente introdução para a história da mídia, ele encara Will Eisner não apenas como um mestre, mas de igual para igual, assumindo o papel de porta-voz de uma geração que inclui nomes como Alan Moore e Neil Gaiman – o que, sabemos, não é pouco.
Então é natural que ele seja o porta-estandarte deste enorme passo que estamos assistindo na entrada do século 20. Ampliando o escopo de atuação e jogando com um pouco de perspectiva histórica, toda essa enxurrada de filmes de super-herois (que, acredite, nem começou de verdade) antecipa a jornada que toda a mídia quadrinho fará rumo ao audivisual, se estabelecendo como máquina de criação de grifes. Já vimos filmes com os principais super-heróis da história e vamos começar a ver adaptações com heróis de segundo escalão ao mesmo tempo em que as principais obras dos quadrinhos chegarão à telona.
Por isso é natural que Miller se veja como o Will Eisner de uma geração que também ampliou a importância do formato quadrinho. Eisner pegou uma mídia esquizofrênica e amalucada, que sobrevivia entre tiras de jornal e revistas feitas para crianças, e lhe deu seriedade e sobriedade com The Spirit. Mais tarde criou, em Um Contrato com Deus, o formato adulto que não precisava ser comprado na banca toda semana. Se hoje vemos prateleiras e prateleiras de quadrinhos de capa dura nas megastores pelo planeta, a culpa é de Will Eisner, que, por duas vezes, ousou subir o nível do cenário que habitava.
Frank Miller foi um dos protagonistas da reinvenção dos quadrinhos nos anos 80 e deu um salto de maturidade e energia semelhante ao que Eisner deu com o Spirit. Mas ele foi além de Moore, Gaiman ou Morrison – e apostou na própria mitologia dos quadrinhos para fazer sua obra central. Os outros três proclamaram sua maturidade com personagens secundários para, depois, criar seus próprios cânones. Alan Moore escrevia para o Monstro do Pântano e, em vez de revisitar os heróis da Charlton como havia proposto, os reinventou como seus próprios Watchmen – e partiu para a não-ficção com seu maior superlativo, From Hell, sobre os assassinatos de Jack o Estripador. Depois de Orquídea Negra, Neil Gaiman usou um conto de fadas e todas as mitologias e religiões do mundo para criar a série de horror Sandman (você até pode alegar que Sandman era um super-herói, mas, convenhamos, não é a mesma coisa, cê sabe). Grant Morrison virou o Animal Man do avesso antes de partir para os Invisíveis. Frank Miller, não. Mirou num dos integrantes mais nobres do triunvirato do Olimpo super-herói (a saber, Batman, Super-Homem e Homem-Aranha) e fez sua obra-prima (O Cavaleiro das Trevas – não confundir com o filme lançado no meio do ano) usando um dos principais personagens do século vinte. Só ele chamou para si o papel de porta-voz da história dos quadrinhos, ao contar uma história em que, depois que Gotham City entra em colapso, o Batman sai da aposentadoria, velho e fascista, para mostrar que não morreu.
E agora, ao mesmo tempo em que a Marvel vira um estúdio de cinema, e todo mundo quer fazer o próximo filme do Super-Homem ou ser o vilão do próximo Batman, Frank Miller volta para a história mostrar como eram as coisas no tempo em que quadrinho era coisa de criança – e super-herói era só uma fantasia juvenil. Se hoje sabemos que o conceito de super-herói é o formato mais pop da ficção científica e que este gênero tende a crescer cada vez mais, Spirit tem um papel didático e formal. Não espero, no entanto, obra-prima – Miller é esperto e está usando a homenagem a Eisner como exercício para o seu Contrato com Deus: a adaptação do próprio Cavaleiro das Trevas, a minissérie que reinventou o Batman, para o cinema – em um futuro não muito distante.
4 Comentários







Profissão: autobiógrafo.


23 de setembro de 2008 às 13h57
Eu gosto tanto de quadrinhos como eu gosto de jiló! Mas adoro as adaptações. Frank Miller já ganhou um espacinho no meu coração. Tá ali entre o Rodriguez e o Tarantino na certa…
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23 de setembro de 2008 às 22h01
Texto foda, como de praxe. Além dos hits, dos herois do segundo escalão, tambem estamos vendo uma convergência meio bizarra, que ainda deve ser lapidada como Kickass, que já tava virando filme antes mesmo de chegar nas lojas.
Acho que isso ainda vai dar pano pra manga, de uma maneira nao meramente promocional e nem como uma plataforma de lançamento.
E melhor que Frank Miller dirigindo uma versao de TDK, só Clint Eastwood como Bruce Wayne…
Abraço!
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24 de setembro de 2008 às 12h53
Sin City é um dos filmes mais subestimados do cinema. Se o assunto for nova linguagem cinematográfica, eis o filme.
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25 de setembro de 2008 às 11h03
[...] talagadas numa só: Matias mostra as fotos da adaptação para cinema do Spirit pelo Frank Miller, indica um livro com u…. O curioso é que com toda a ascenção nerd no mundo os quadrinhos ainda precisem de explicação [...]