29 de setembro de 2008 às 14h29
Justice vai às compras, Skol Beats 2008
Curuzes!

Foto: Marcelo Elídio
E no Skolba, vocês foram? Quer dizer… Skol Beats ou o show do Justice no shopping? Porque das duas únicas atrações imperdíveis no evento, só o Justice correspondeu – o Digitalism ficou devendo -, enquanto o festival que um dia já bateu no peito para gabar-se de ser “o maior festival de música eletrônica do mundo” virou uma enorme praça de alimentação disposta em um corredor do tamanho do sambódromo – que é um senhor corredor.
A organização do festival colocou o palco em uma das pontas do Anhembi e uma das tendas na outra, deixando a terceira no meio. Entre as atrações, enormes espaços vazios que serviam apenas para marcas exibirem seus produtos – de formas toscas e pouco inspiradas – e para lanchonetes colocarem cadeiras e mesas para seus clientes sentarem. Tinha até lugar vendendo roupa. Música? Zero. Clima de festival? Nenhum. Um DJzinho animando os transeuntes? Nada. Uma caixa de som qualquer, tocando um poperô genérico? Só em um estande – ironicamente, o de um shopping. Quando não se estava olhando diretamente para uma das tendas do evento, a sensação era que se estava numa feira a céu aberto – ou caminhando em direção à saída do festival. Só faltavam as pessoas carregando sacolas e as escadas rolantes para o clima de sábado sem graça estar completo.
O público de música eletrônica – como a música eletrônica em si – mudou muito nesta primeira década de século. Uma vez que ela não pertence mais a um gueto de quatro ou cinco casas noturnas por cidade ou a uma turminha de descolados, era raro ver gente fantasiada de clubber, como em anos anteriores. O traje da noite era o traje de qualquer outra noite – mesmo a fantasia oficial do clubber em 2008 (boné cheio de buttons, camisa folgada, colete, barba por fazer, óculos de aro grosso) não chegava perto das meninas vestidas à moda clássica patricinha ou dos caras com blaser ou gente vestida de calça jeans, tênis e camiseta (e casacos, porque fez um frio da porra).
E aí você vai ver a programação do festival e parece que ainda estamos em 2002. Nunca o Skol Beats esteve tão defasado em relação à produção musical de sua época. Tudo bem, tinha um Killer on the Dancefloor ali, um Flow & Zeo acolá – mas tudo em horário ingrato. No miolo, só o mais do mesmo de todos os outros anos – o nome pode até mudar, mas o som é aquele lá… Era passar por qualquer uma das duas principais tendas e ser defenestrado para algum recanto sombrio enclausurado na memória. Tudo bem, Anderson Noise, Renato Cohen, Gui Boratto, blablablá… Mas esses caras fazem exatamente o mesmo tipo de som há algum tempo e é difícil diferenciá-los de qualquer outro genérico de seus estilos musicais. O público – loucaço, insandecido – não estava ligando tanto e dançava como se fosse o ano 2000. E se lembrarmos que as únicas atrações com cara de novidade só vieram ao país pois estavam escaladas para a edição deste ano do Sónar no Brasil, que foi adiado para o ano que vem e deixou as datas de brindes pro Skolba, é de se pensar se o Skol Beats 2009 não vai ter cara de Trash 00s. Falta curadoria, isso é um fato.
As únicas exceções estiveram no palco principal. Além de Justice e Digitalism, o Mixhell segurou bem a onda, apesar da insistência de Iggor Cavalera em mostrar que é baterista e não abandonar seu instrumento. Depois do Justice, o Marky mandou o público ainda mais fundo no túnel do tempo – 1997, pra ser mais preciso. Tudo bem, o cara é um dos melhores DJs do Brasil, mas tá mais parado no tempo do que a maioria dos nomes na ativa hoje em dia – por isso colocá-lo no palco principal, depois do Justice é muito exagero – ou brodagem. O Pendulum, grupo de rock com drum’n'bass que veio a seguir, se esforçou muito para superar a si mesmo em termos de cafonice e falta de noção. Cada música que passava dava a impressão que toda aquela fusão de rock com eletrônica que tanto celebramos parecia ter sido um erro histórico mortal – imagine se o Linkin Park se mashupasse com o cara que produziu a Fernanda Porto em vez do Jay Z (e que o referencial de rock fosse o Status Quo). Mas passou logo (embora na hora não parecesse) e logo era a vez do Digitalism.
Justice e Digitalism dividiram opiniões – uns adoraram os franceses e acharam os alemães previsíveis, outros justo o contrário. Fiquei no primeiro grupo. Desde o momento de abertura das cortinas já estava claro que não era só uma apresentação de música eletrônica que iria acontecer ali – mas quem esperava um choque aos sentidos como o show do Daft Punk também se enganou. O clima do Justice é o de show de rock – e por mais que os beats ruidosos e graves distorcidos incitassem à dança, era uma apresentação para se assistir ao mesmo tempo em que se balançava o próprio corpo. O cenário colocava a dupla entre duas paredes enormes de amplificadores Marshall de mentira, com a icônica cruz branca no meio, cercada por circuitos eletrônicos fake ao redor – parecia aquelas máquinas futurísticas de filmes dos Trapalhões. Mas o que parecia ser só um trio elétrico do rock estacionado, no entanto, era uma espécie de terceiro elemento no show da dupla – a iluminação do cenário transformava o palco em laboratório ou arena, dependendo do clima que os dois de jaqueta preta quisessem.
Ao contrário da maioria das duplas eletrônicas, os Justice fazem questão de se mostrarem dois elementos, em vez de uma unidade só. Gaspard Augé, com seu bigodón de D. Pedro I, é o cérebro musical, que conduz as melodias e dispara os samples centrais, enquanto Xavier de Rosnay é o vocalista olímpico, o herói das massas, que fuma um cigarro atrás do outro como se fosse um protesto político (talvez seja), para em frente ao público erguendo os dedos com o V da vitória e controla timbres, freqüências e ondulações.
A apresentação do Justice, no entanto, não seguiu o arco de uma parábola simples, como os grandes shows de música eletrônica. Como um show de rock, eles dividiram seu set em blocos, exibindo-se magistralmente como roqueiros dos anos 70 solando seus instrumentos. Começaram anunciando um clima bíblico como no disco, criando o primeiro de vários momentos de tensão épica que criariam à medida em que o show se desdobrava – sempre derrubando-os com grooves pesados e batidas certeiras. E se a princípio o Justice parecia preso em uma encruzilhada – como sair do beco de hard rock com disco music em que eles se meteram? -, com o último show da turnê de seu disco de estréia eles mostraram diversos caminhos que podem seguir: do electro new rave à house distorcida, passando pelo impacto rock’n'roll e um flerte pesado tanto com o pop progressivo quanto com breakbeats. E para cada um destes pequenos big bangs, eles sacavam um de seus hits quase como exibicionistas – “D.A.N.C.E.”, “Waters of Nazareth”, “Stress”, as duas “Phantom”, o remix para “We Are Your Friends”, “The Party” com os vocais de Uffie – no meio, citações aos Klaxons, ao MSTRKRFT e ao Scenario Rock. Só bordoada. Palmas para o som: cristalino e pesado, como pediam.
Já o Digitalism tinha a oportunidade de fazer uma apresentação tão boa, mas teve contratempos. Pra começar, seu palco demorou para ser montado (e, mais uma vez, o festival sequer colocava uma mísera trilha sonora para animar o público, que esperava com cara de tédio) e o som estava bem mais baixo que o do Justice. Segundo que as músicas do Digitalism são mais aptas a misturar-se umas com as outras, criando justamente o tal arco de narrativa de um set. Como o Justice, optaram por apresentar suas músicas separadamente, só que, diferente dos franceses, poucas músicas da dupla alemã têm climas tão diferentes entre si. Acrescente isso ao fato que os dois DJs também se arriscavam nos vocais – o loirinho Jens Moeller com muito mais sucesso do que o rotundo İsmail Tüfekçi – e que ambos soam como vocalistas punk de bandas sem graça. Mas a empolgação dos dois no palco (Ismail ainda tocava uma bateria eletrônica de vez em quando) valeu o show e seu belo rosário de hits (“Fire in the Cairo”, “Zdarlight”, “I Want I Want”, “Anything New”, “Rwnd”, “Idealistic”, “Magnets” e “Pogo”, que encerrou a noite) conquistou o público fácil fácil.
E ali terminou o evento – pra mim e prum monte de gente – que vai ficar na memória da maioria das pessoas como a apresentação do Justice com o Digitalism no Brasil, longe do festival de música eletrônica que não vende bebida destilada. Porque se o Skol Beats não se cuidar, já já vira um grande baile de saudade. Ele tem a sorte de não ter um concorrente da mesma proporção – ainda.
3 Comentários



Profissão: autobiógrafo.


30 de setembro de 2008 às 3h20
vish, matou a pau! apesar do justice, foi triste esse skol beats!
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30 de setembro de 2008 às 12h24
Ykes, massacrou o Drum n’ Bass ,mas foi culpa do público não trazer o Reprazent .
Quanto ao Marky todos sabemos que ele é performático …
Pelo menos tivemos Justice para todos!
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