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O estado do pop em 2008

Kanye West brilha no escuro – ou seria o contrário?

Antes de comprar os ingressos para o Tim Festival, já vinha matutando árdua escolha que teria pela frente (daquelas de cinco segundos de reflexão antes de apertar a senha do cartão): com os preços fora da realidade do festival e a minha recusa em apelar para a carteira de estudante “amiga” que, dizem produtores de show em geral, ajuda a salgar os preços dos ingressos, tinha de optar entre dois shows: Kanye West ou Sonny Rollins. Sei que a maioria dos meus leitores e amigos sequer pestanejaria ante o assunto e marcaria o “x” na opção do velho jazzista, mas eu curto música pop. Eu gosto do aspecto grandioso e adolescente, plástico e descartável que transforma anônimos em deuses – e como o máximo de espetáculo desse naipe que temos em nosso país é alguma visita dos RBD e High School Musical ou alguma propaganda com Ivete Sangalo que consegue ganhar palco (nem vem com madonnismos – Madonna é só uma máquina de fazer dinheiro que vive do passado, um parque temático sobre si mesmo, como os Stones ou o U2). Fiz minha escolha pouco antes de saber que ela já tinha sido feita: os ingressos para Sonny Rollins haviam se esgotado e só me restava o Kanye West.

Ou “Cã-nhê”, que é a forma afrescalhada que ele diz que seu nome é pronunciado, é um dos sujeitos mais descolados do resto de jet set que sobrou à indústria fonográfica. Com seu glamour corroído pela crise de administração que culminou com a vilanização da internet, restou à velha indústria do disco buscar conexões em outras paragens para conseguir manter seu estilo de vida – daí recentes associações com empresas de natureza tão diferentes quanto a indústria de telefones celulares e de computadores, o mundo dos esportes ou o universo da moda. Uma seara aberta no hip hop depois que Puff Daddy assumiu o gênero após as mortes de Tupac e Biggie. Se antes o barato do rap ao tirar onda com grifes era mostrar que, mesmo com a origem pobre, era possível subir na vida, quando o gangsta rap morreu de vez, liberou geral (a Renata conta um pouco da decadência do gênero em um especial que ela fez pro Rraurl aqui).

De 1996 em diante, desfilar com ternos Armani não era mais o topo da pirâmide do hip hop e sim conviver com Giorgio Armani e chamá-lo pelo primeiro nome. Logo, essa bolha de status inflou e transformou não só o rap em um gigante milionário (e musicalmente vazio) como funcionou como tábua de salvação pra indústria do disco que, com o golpe dado com a chegada do Napster, aprendeu na pele que sua máquina de fazer sucesso que transformou várias gravadoras em quatro multinacionais só funcionava a curto prazo. Quando o MP3 popularizou-se, a indústria viu-se refém do modelo de negócios que havia inventado, de criar artistas que desapareciam com a mesma velocidade que surgiam, e, literalmente, quebrou.

Daí recorrer para outras esferas do entretenimento, como televisão, cinema, game, moda, design, e, só há pouco tempo, internet. Pode reparar: quase todas as tentativas da antiga indústria do disco de emplacar novos (ou velhos, tanto faz) artistas neste século vinham atreladas a acessórios que não necessariamente eram musicais. E assim músicos, compositores e intérpretes tornaram-se celebridades – e tanto fazia de onde eles vinham, se fazem rap, música eletrônica, rock e dance music, se apareceram numa garagem, num site ou num reality show: o importante é que eles vendem trilhas sonoras, celulares, perfumes, roupas finas, carros, comida congelada, tele-sena e papa-tudo.

Kanye West talvez seja quem melhor personifica esse novo status quo. Na cabeça deste reformulado hip hop, a malandragem não é mais simplesmente sair da vida dura e ganhar uma grana pagando de playboy. O golpe agora pressupõe ser playboy e acontece em escala planetária, numa pernada que derruba a tchurma do design, o novo eletrônico francês, o mondo fashion, animação em computação gráfica e, olha só, até mesmo gente de música. Indo além, seus principais hits são um espelho disso: “Gold Digger” é “I Got a Woman” de Ray Charles através da cinebiografia com Jamie Foxx (que participa da música e do clipe) e “Stronger” é o Daft Punk relido (de forma trivial). Mais um motivo para apontar Kanye como posterboy do pop 2008 – sua onipresença seja equivalente à assombrosa ausência de hits. Suas músicas fazem sucesso nos EUA, mas não são hits globais do escalão de “Everyone Nose” e “Umbrella” (do N*E*R*D e da Rihanna, artistas que, por acaso, fizeram parte da abertura de sua antiga turnê, Glow in the Dark, que se despede com os shows na América Latina). Mas West é maior que os dois pelo simples motivo de que ele não é um artista só de música.

OK, mas isso é bom ou ruim? Pro showbusiness, é ótimo. Assim, gastam-se adjetivos e efeitos especiais, gastos são justificados, capas de revista ganham o tom épico do tempo em que as gravadoras ainda mandavam no mundo da música, o glamour, o jet set, a hi-life – tudo aquilo que emperrou a criatividade da música pop a partir dos anos 80 ganha uma sobrevida que pode garantir a aposentadoria do executivo que até outro dia processava moleques baixando MP3. Pra música vista longe do bizness, também pode ser. Afinal, ao criar uma bolha de realismo fantástico ao redor de artistas como Kanye West, os titãs do mercado musical podem estar, sem querer, promovendo um Baile da Ilha Fiscal (ou da Enron ou AIG, pra ficarmos em termos mais atuais). Sem perceber que o fim está próximo, torram dinheiro como se não houvesse amanhã. Só que dessa vez, talvez não tenha.

E pelas prévias do disco novo do sujeito, que deve tocar algumas pérolas no show de hoje em São Paulo, o fim de Kanye também talvez esteja. Porque nunca ouvi tanta música ruim saindo de um disco tão esperado (nem o novo do Oasis é tão vergonhoso). Por enquanto, vamos lá ver se o sujeito brilha no escuro mesmo – ou se é o lado negro da força que brilha de dentro dele…

15 Comentários
por: Alexandre Matias postado em: Musica, Pop, Show, Texto tags: , , ,

15 Comentários

Comentário por flávia d.
22 de outubro de 2008 às 18h40

é por aí mesmo, não é um artista q eu tenha um álbum q eu idolatre, como o próprio N.E.R.D. e o “in search of”, pra mim um dos discos do século 21… gosto dele como artista completo, como produtor, entertainer e como cidadão/pensador (não achei um termo melhor, sorry). acho ele fodão pelo conjunto todo.

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Pingback por Seria o Fim? « Entretenedor
22 de outubro de 2008 às 20h05

[...] Enquanto o show não chega ao Rio, Mathias da sua opnião sobre o que é Kanye West e onde irá parar. [...]

Comentário por fabio
22 de outubro de 2008 às 21h47

Ótimo texto, grandão. Só a ressalva: Anônimos em…Deuses?

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Comentário por Alexandre Matias
23 de outubro de 2008 às 1h26

Isso, Fabiao – Beatles, Elvis, Dylan, Joao, Miles – poucos tiveram berco… E sao os nossos deuses, ao menos qdo o assunto eh musica.

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Comentário por Hector Lima
23 de outubro de 2008 às 2h05

fudido o texto – só quero ver o q vc vai escrever pós-show hahaha.

mas quem diz que caras como o Kanye não poderão ser os deuses de amanhã?

Beatles, Elvis, Dylan, Joao, Miles – todos foram anônimos um dia, transformados em deuses pela Máquina do Showbiz.

a máquina hj já é outra, os deuses saem diferentes, como vc bem notou no fim desse post.

apesar o próximo disco parecer bem chato por enquanto [e ainda bem que vimos show dos discos anteriores], dêem tempo ao Kanye.

ele tem grandes chances de ser levado pelo tempo pra perto desses outros deuses.

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Comentário por Andre Passamani
23 de outubro de 2008 às 8h55

Nao entendi porque voce pegou o cara pra Cristo.

Ele produz direito, canta direito. Tem umas sacadinhas boas e faz o bagulho bem feito.

O Baile da Ilha Fiscal é responsa do senhor del rey… ele só foi chamado pra tocar lá! :-P

PS – Mas eu concordo contigo que tá faltando inquietação nessa porra…

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Comentário por lalai
23 de outubro de 2008 às 10h30

e aí, achou que brilhou? eu ainda estou pensando a respeito

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Comentário por Miguel Caetano
23 de outubro de 2008 às 11h56

Alô, Alexandre. Desculpa mas discordo da tua opinião. Para falar verdade, eu gosto muito do Kanye West e adoro o Lil Wayne – esse mesmo, o rapper mais misógino, mais mauzão e mais comercial da actualidade.

Quanto ao Kanye, acho que o álbum de 2007, o Graduation, foi o melhor dele até hoje e olha que eu só o conheci há alguns meses. Já tinha ouvido os discos anteriores dele mas entretanto fui na conversa de que o Kanye tinha virado mais mainstream e comercial. Mas foi só quando ele começou a ser indicado por pessoas que eu considero terem o mais apurado, refinado e eclético gosto musical que eu começei a interessar-me realmente. Depois de ouvir o disco, fiquei pura e simplesmente encantado. Algumas músicas contam com uma produção de luxo e samples espectaculares (“Good Morning”, “I Wonder”, “Everything I Am”, “The Glory”).

De igual modo, o Lil Wayne tem tido um ritmo de produção absolutamente estonteante, se bem que as mixtapes – em especial a Da Drought – tenham sido bem melhores do que o Tha Carter III. A voz dele é pura e simplesmente fenomenal precisamente pela sua versatibilidade. Às vezes parece que é o Bugs Bunny a rappar. Outras parece um raggamufin jamaicano. Depois, tem o bom gosto de se rodear dos melhores produtores, incluindo o Kanye West.

Tudo isto para dizer que Hip-hop comercial e mainstream não é necessariamente mau.

É claro que boa parte das letras, dos vídeos e de toda a imagem desses rappers aponta para um estilo de vida altamente “reprovável” do ponto de vista do politicamente correcto. A apologia das armas, do dinheiro fácil, do luxo e de um materialismo exibicionista até ao máximo e essa perspectiva de encarar sempre a mulher como um objecto sexual. Mas aí é que está: a música, tal como toda a arte, não é um concurso de boas intenções. Porque senão aí o Bob Geldof, os U2, os Keane e os Coldplay ganhavam logo à partida. Mas eu não quero ouvir lições de moral e bom comportamento de músicos. O que interessa é a música e se ela insonsa e se não tem nada a ver comigo, nada feito. Isso vale também para os Nine Inch Nails. Trent Reznor tem feito um percurso irrepreensível a nível de marketing e da música online mas eu não consigo gostar daquilo. Porque a arte tem que ser maior que a vida. Como o Weezy diz, o objectivo é atingir o céu: “The Sky Is The Limit”.

Se a indústria musical, apesar de todas as crises, ainda é capaz de lançar superestrelas do tamanho do Kanye ou do Weezy, é porque nem tudo está mal. Para mal e para bem, esses caras servem de referência para muita gente. Ninguém fica indiferente a tipos como esses que têm personalidades magnéticas e carisma para dar e vender. Há sempre quem os odeia e quem os adora. Nesse sentido, eles conseguem formar uma espécie de culto à sua volta. E é precisamente isso que faz falta na música.

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Comentário por Alexandre Matias
23 de outubro de 2008 às 13h02

Mas Miguel, nao ha problema algum em ser comercial, o “popular” vira “pop” justamente para ser vendido… Rap comercial eh uma meta, um objetivo, nao eh uma escolha. O problema eh ser apenas comercial. Por mais que exista cuidado musical e criativo pela parte de Kanye (e ha, eh indiscutivel), ele se apega mais a esteticas e polemicas do q a fazer musica realmente boa.

Pelo tamanho q tem, devia ter hits mais memoraveis, nao apenas reciclar hits alheios.

Comercialmente ele eh otimo, artisticamente eh monotono. A diferenca entre ele e o Coldplay eh o berço? A raça? Acho isso desculpinha: quero ver quem eh q vai ser cantarolado pelos nossos pais…

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Comentário por obama
23 de outubro de 2008 às 15h08

quanta besteira… é muito trauma com os preto memu

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Comentário por obama
23 de outubro de 2008 às 15h40

vc é bem racista

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Comentário por obama
23 de outubro de 2008 às 15h41

que tal ficar com o indie q é a sua cara? deixa os preto em paz, seu chato

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Comentário por Alexandre Matias
23 de outubro de 2008 às 15h59

Trauma? Preto? Em q seculo vc vive?

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Comentário por Miguel Caetano
23 de outubro de 2008 às 18h28

ele se apega mais a esteticas e polemicas do q a fazer musica realmente boa.

Sem marketing e muita polémica à mistura não bola $$$ ;-)

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