24 de outubro de 2008 às 17h08
O que está embaixo é como o que está no alto
Os Klaxons são só uma banda de rock
“From Atlantis to Interzone”
O que eu mais gosto nos Klaxons é que eles não se parecem com nada. Apesar da insistência em chamá-los pelo rótulo “new rave” e pelos vários remixes que os colocam na pista de dança, eles são uma banda de rock. Mas ao contrário das milhares de bandas que aparecem hoje em dia, fazem um hit e depois somem, eles não têm um grupo ou um gênero musical de onde tiram suas referências sonoras principais – não lembram os Stones, o Joy Division, o Sonic Youth ou uma banda de britpop, por exemplo. Além de não ficarem presos ao cânone do rock tradicional: o falsete bizarro que conduz parte das músicas tem sua origem no R&B amanteigados dos anos 80 e o uso dos samples – da escolha à forma como eles são encaixados na música – é abertamente cafona (a alternância do sussurro com a sirene em “Atlantis…”, por exemplo, é quase citação de italo house).
“Golden Skans”
Mas isso é a crosta na superfície, é a cobertura do bolo. É só ouvir. Por baixo de samples, gritos e falsetes há o zumbido que sai da guitarra, um baixo duro e marcado, teclados caricatos e uma bateria que galopa. Ora, ora, é o bom e velho pós-punk – só que o Klaxons em vez de o revisitá-lo pela via britânica do Wire, Gang of Four, U2, Joy Division ou Public Image (como seus companheiros de geração), vai pela trilha dos Estados Unidos da esquisitice do Pere Ubu, Talking Heads e Devo. E nesta esquisitice também incluem a lenta confirmação que aconteceu durante os anos 80, de que música eletrônica podia ser tão pop quanto o rock, numa linha do tempo que começa entre o Duran Duran e o Human League passa pelo New Order e Pet Shop Boys e deságua no segundo verão do amor, com o nascimento das raves. Eis a fórmula do Klaxons enquanto banda: new wave americana e eletrônico não-gótico. Só isso já contaria muitos pontos a favor dos caras.
“As Above So Below”
Mas eles soam como o Devo, o Pere Ubu, o New Order ou o Duran Duran? Não. Esse parentesco é mais estético do que sonoro, embora os elementos que unam essas diferentes bandas ainda estejam lá – baixo em primeiro plano, ritmo quadrado, vocais que não cantam, guitarra que faz mais barulho do que música. Acrescente aí duas décadas de experiências musicais que estas bandas não puderam antecipar e o Klaxons é facilmente entendido como herdeiro deste art rock do começo dos anos 80.
“Gravity’s Rainbow”
A discrepância maior é justamente no conteúdo. Enquanto essa safra de bandas cantava sobre o tédio do cotidiano, os Klaxons são épicos numa escala pouco vista em música pop. Enquanto o máximo de grandiosidade associada às letras de música sejam adaptações de clássicos da literatura por bandas de metal ou de passagens históricas por bandas de rock progressivo, os Klaxons miram no misticismo pesado e cantam sobre a terceira via na busca pelo sentido da vida: nem ciência, nem religião, o papo deles é magia pesada, ciências ocultas, misticismo cabeça, mágicka com K. E no meio daqueles sussurros e falsetes, gritos e vocais falados estão letras que falam sobre mudanças de eras arqueológicas, escritos de civilizações perdidas, a tábua de esmeraldas e literatura freak. Os poucos autores que incluem, numa mesma tacada, William Burroughs, Thomas Pynchon e Atlântida estão no campo das letras – seja em livros ou quadrinhos – não em áreas como cinema ou música pop.
“Magick”
Sem medo do ridículo (olha as roupas que eles tavam vestindo!), transformam tudo isso na construção da lenda de si mesmo. A própria banda se define como uma espécie de quatro cavaleiros do apocalipse de seu universo, “mitos de um futruro próximo” e datam para o dia 12 de dezembro de 2012 seu dia D (12.12.12!). Nisso, delimitam sua validade e criam sua própria realidade alternativa para brincar, alinhando-se com outros grandes do mundo pop atual – e geram uma expectativa sobre o que pode acontecer no fatídico dia (duas vezes o 06.06.06!). Um show histórico, o lançamento de seu próprio Sgt. Pepper’s ou uma melancólica nota à imprensa informando o fim da banda – embora os Klaxons digam, rindo, que este vai ser o dia do fim do mundo.
“It’s Not Over Yet”
No circo do rock dos anos 00, os Klaxons se situam em algum lugar entre o experimentalismo punheta do Animal Collective e o foda-se total dos Black Lips, com um pequeno detalhe: boas músicas. Passada a estranheza da primeira audição, é fácil ficar com elas na memória e mesmo seus vocais ridículos passam a fazer sentido. Refrões, riffs, melodias, timbres: com uma formação tradicional de baixo, guitarra, teclado e bateria, eles reinventam mais uma vez a roda e criam uma nova forma de fazer música boa. Todas as músicas que eu coloquei neste post são memoráveis e pertencem a um mesmo disco, seu único até agora, numa média muito acima da atual produção de rock. Dê tempo ao tempo: os Klaxons só estão começando.
Um pouco antes teve o show do Neon Neon, que não me incomodou como acabou rolando com uns amigos, mas também não me acrescentou nada. O Gossip certamente fez uma enorme falta ao dia, mas bem que podiam ter colocado alguma banda (brasileira, que seja) pra tocar no lugar da banda da gorda. E como tem gente melhor que o Neon Neon por aqui. Não precisa nem sair de São Paulo…
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Profissão: autobiógrafo.


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