Quantos bons shows precisa ter um festival?
MGMT - “Time to Pretend”
Culpe o fechamento lá no jornal na sexta-feira ou o fato da terceira noite do Tim Festival deste ano ter começado cedo demais. Eu não culpo nada, perdi o Dan Deacon e o Junior Boys, mas paciência. Do primeiro eu ouvi relatos como “festa junina” ou “aula de ioga” e vendo os vídeos no YouTube deu pra sacar que o produtor induziu o público a um transe taichichuan lúdico - e quem participou mais ativamente da performance foram os velhos freqüentadores das quartas e quintas no Milo (deu pra reconhecer vários nos vídeos e fotos que apareceram). Tocando no meio do público, ele incitou os presentes a uma série de joguinhos, que iam do proverbial túnel junino a um concurso de dança. O som me pareceu aquela discotecagem desconexa e zen feita para indies se esticarem enquanto imaginam que sua realidade-túnel seja possível - é quando o RPG (reeducação postural global) e o RPG (role playing game) se encontram. Do Junior Boys, não soube nem se foi bom ou ruim.
Cheguei no meio do Gogol Bordello que, já falei, fez um grande show - só não me peçam para gostar. E os ucranianos bêbados pulando feito bandoleiros do deserto ao som de música do leste europeu nem precisaram de muito mais do que só isso para incendiar o público, que delirou. Mas duas dançarinas do Tchan vestidas com uniformes do Santos e a citação de “Morena Tropicana”, do Alceu Valença, foram suficientes para saber que em um ou dois anos esses caras tão de volta no Brasil, por uma, duas, três vezes - até se mudar pra cá de vez. O amálgama de som colide folclores específicos que se mistura com facetas diferentes da música pop com aparato cênico e movimentação de palco é algo que já ouvimos tantas vezes (Karnak, Mano Negra, Móveis Coloniais de Acaju, Brasov, Manu Chao fase Proxima Estación, Cordel do Fogo Encantado, Farofa Carioca, Teatro Mágico) que eu sempre tenho preguiça quando surge um grupo novo desses. Há, claro, um elemento inevitável da consciência de uma globalização paralela, cultural, que abandona fronteiras em favor do ritmo e do hedonismo, mas não é algo que se conecta comigo além da sociologia. Musicalmente falando, sinto-me a poucos passos de distância de uma micareta.
Depois do Gogol veio o set insuportável do Switch, que eu já conhecia de uns remixes e esperava bordoadas boas para balançar o corpo. Em seu lugar veio um bate-estaca sem graça, com acelerações de ritmo que oscilavam entre o house e um princípio de trance. Não conseguia parar de pensar em como um publicitário brasileiro bolaria a trilha sonora para um filme de aventura que se passa no futuro - nem esse som imaginário conseguia ser tão monótono e anônimo quanto a apresentação do sujeito. Não foi à toa que muita gente saiu durante o set dele: estava realmente chato.
Quem foi embora, perdeu o Yoda, DJ/VJ na linha do Mike Relm e Eclectic Method - ou melhor, um meio-termo entre os dois. Enquanto o set de Relm exagerava no nerdismo e o da dupla EM pesava a mão no hip hop, Yoda equilibra-se entre os dois multiversos: o lado nerd chamava Guerra nas Estrelas, Indiana Jones e Super Mario Bros. para a briga enquanto o lado rap vinha de Ol’ Dirty Bastard, Biz Markie, Snoop Doggy Dogg e beats precisos, que iam do beatbox velha guarda ao andamento tranqüilaço do rap mais riponga e os graves pesados do gangsta. No meio, tudo: raggamuffin, Austin Powers, programas de ginástica, Fringe, Tom Jones, a velhinha que ensina o que é mashup, Chemical Brothers, Richard Pryor no Superman III, Ini Kamoze, Simpsons, Rocky Balboa, Yo Gabba Gabba, Vila Sésamo, Run DMC - misturado, scratchado, mashupado, mixado e remisturado. Yoda é uma metralhadora de referências pop, cuspidas com uma velocidade que, ao mesmo tempo, nunca saía do ritmo; é possível assistir às suas interferências de vídeo e cair na dança sem que uma atividade não interferisse na outra. E assim Yoda mexia cabeças e quadris ao mesmo tempo - e gastando, provavelmente, um centésimo do que o Kanye gastou.
Pra mim, foi ele quem salvou a terceira noite do festival. Pena que pouquíssima gente viu.
(Fazer o que, né… Mesmo contra todo o preconceito, o mashup ainda impera.)
Perdi o Cérebro Eletrônico por puro desleixo (preguiça, melhor dizendo, mas não da banda em si). A quarta e última noite do festival pra mim começou com o National, que eu já tinha visto tocar esse ano em Lisboa. Vi os caras num lugar fantástico, chamado Aula Magna, que é onde doutores vão defender suas teses na universidade local. Como não havia comprado ingresso com antecedência, só consegui a entrada mais cara para o show daquela noite, o que me colocou numa poltrona em que cabiam umas três pessoas com folga, de tão confortável. Fiquei a quatro fileiras da banda e assisti à apresentação literalmente de camarote - e ali já dava pra perceber que a banda havia atingido um outro patamar. Se Boxer, seu disco mais recente, consagrava sua saída da adolescência anunciada no disco anterior, Aligattor, o show não poderia acontecer em um lugar mais apropriado - e era possível não apenas embarcar na viagem emocional do vocalista Matt Berninger (que se jogava, andando pelas poltronas do auditório a certa altura) como perceber a coesão e cuidado de um time de músicos que ia da introspecção à muralha de microfonia com uma disciplina rara em show de rock. Na época, filmei “Brainy” e “Secret Meeting”, além de um trecho de “Fake Empire”.
The National - “About Today”
The National - “Fake Empire”
O show em São Paulo repetiu a mesma ótima apresentação de Lisboa, com um pequeno diferencial - em Portugal, todos sabiam de cor as letras das músicas, no Brasil, poucos sequer sabiam os refrões. E foi aqui que a banda mostrou que é boa - afinal, parte do público desconhecia completamente a banda que ia abrir para a dupla psicodélica MGMT e foi tragado pelo rock sério e adulto do National. Desta vez de óculos, Matt igualmente se entregava ao público, conversando com as pessoas, sendo gente boa de uma forma natural, nada populista. Quando cantava, com seu timbre grave e emotivo, era hiptonizado pela música e deixava-se levar, carregando o público para dentro do emaranhado de som cuidadosamente tecido por um grupo formado por dois pares de irmãos, os gêmeos Bryce (guitarra) e Aaron (baixo) Dessner e Scott (guitarrista) e Bryan (baterista) Devendorf, que ainda se revezavam nos teclados (e contavam com a participação de um sexto músico, que ia do piano ao violino). E assim o grupo alinha-se ao outro lado do pós-punk, o inglês, de bandas como Echo & the Bunnymen, Joy Division, Cure e U2. Showzaço, aconteceu num momento crítico para o National que, se fizer o disco certo, passa para o primeiro escalão do rock mundial em breve. Se o mundo fosse justo, eles venderiam mais que o Coldplay e seriam mais respeitados que o Tindersticks.
Para encerrar, a dupla nova-iorquina MGMT se afogou na psicodelia e descambou pro prog. Esse é o drama do gênero. O negócio começa a ficar viajandão demais e aí os caras começam a viajar que são músicos de primeira linha, solo de guitarra vira uma coisa transcendental e trips instrumentais viram apenas bad trip. Também, né, nova-iorquino pagando de californiano é tipo paulista querendo tirar onda de carioca. E o público - o mais cheio dos quatro dias na tenda, além do mais florido - que veio para ouvir os hits (especificamente três, “Kids”, “Time to Pretend” e “Electric Feel”), achando que eles eram uma banda pop com cores tie-dye, desanimou-se em todas as músicas que não eram essas três (e “The Youth”, também bem recebida). “Kids”, que veio no final, lavou a alma de um show curto mas demorado, mas que deixou um gosto de “quero mais”.
MGMT - “4th Dimensional Transition”
MGMT - “Of Moon, Birds and Monsters”
MGMT - “Electric Feel”
MGMT - “The Youth”
No fim, esse Tim Festival, apesar de tudo, teve seus acertos. Mas dava pra reuni-los todos em uma mesma noite com National, Klaxons, MGMT e o Yoda - de preferência num lugar que pudesse terminar mais tarde, sem ter os seguranças empurrando o público pra desarmar o circo. Pagando ingresso, bebida e estacionamento apenas uma vez aposto que o público viria em mais peso, ficaria mais feliz e o festival sairia com o filme menos queimado.
pedro em 27 de outubro, 2008 às
3:48 pm
vc nao curtiu o baixo e guitarra do gogol bordello? bem na linha do clash!
vai la no blog, escrevi sobre os shows do rio.
Bruno em 27 de outubro, 2008 às
3:58 pm
O Eugene do Gogol já tá morando aqui, em Ipanema, com a mulher!
Abs,
flávia d. em 27 de outubro, 2008 às
4:27 pm
me arrependi mortalmente de ter perdido o tal do yoda. já o dan deacon e teatro mágico não me fizeram falta.
OESQUEMA/Conector » Arquivo » O melhor do Tim (não o Maia, o Festival) em 27 de outubro, 2008 às
6:43 pm
[...] O Matias fez um enorme post sobre a versão paulista do festival, linkou um monte de outras matérias e ainda descolou o Fabric Live do DJ [...]
João Madrid em 27 de outubro, 2008 às
8:02 pm
Po Ale, eu fui na quarta noite. Tive que escolher, o bolso só comportava uma noite, considerando o planeta terra e as donnas que tão chegando.
Nationals eu já tava esperando O show.. e foi muito bom, acho que muita gente vai sair procurando mais da banda. Se acertarem mais um, de fato entram pro primeiro patamar.
MGMT eu fui sem nem saber o que era. Na verdade conhecia os hits por cima. Não aguentei, fui embora no meio. O som estava pessimo, vc nao achou?
O que tu espera do planeta terra?
Gustavo em 27 de outubro, 2008 às
10:50 pm
Lá do meião, onde eu tava, tinha uma galera razoável cantando National do gogó sem titubear. Não era muita gente, mas eram os fãs mais animados da noite… O Matt pareceu curtir… Em volta, tinha uma molecada de em média 17 anos, pintada pra ver MGMT, grande maioria do público naquela noite, totalmente perdida com o som mais encorpado dos caras. Daí me pergunto o que eles acharam daquele show meio estranhão do MGMT descanbado totalmente pro prog… Será que eles tinham saco pra ver aquilo?
Gunter em 30 de outubro, 2008 às
11:31 am
Fala, meu caro. Achei um pouco equivocada sua comparação do Gogol com Móveis. Farofa, Cordel e Teatro Mágico então percebo como bvandas a anos luz de distância. A sonoridade deles até me parece bem clara, como algo mais leste europeu. Não acha? Pra mim, Gogol me lembra mais os casamentos judaicos q fui. Com uma levada mais punk rock. Aliás, acho isso uma salvação perante as modernices que nos assolam.
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