Lembro quando Wado começou a flertar com a música eletrônica e ele me falava empolgado da descoberta de um novo instrumento (a groovebox) e de letras que tinham um pé na pornografia como se pudesse zerar a própria carreira e cair - literalmente - de boca em uma nova versão de si mesmo. Ficava pensando no que poderia vir. Era 2006 e a época marcava o auge do Cansei de Ser Sexy no exterior, o começo do hype ao redor do Bonde do Rolê e mais uma época de vacas gordas (sem trocadilho, plis) para o funk carioca. Imaginava a possibilidade esdrúxula do compositor catarinense-alagoano voltar electro, celebrando o hedonismo e o fake, temperado com batidas secas, putaria e zero melodia - algo como uma “versão noite” para sua obra praiana. Qual o qUê. Terceiro Mundo Festivo, o quarto disco de Wado, é justo o contrário - é seu disco mais diurno e em vez de deixar o ar noturno contagiar seu trabalho, usou de sua latinidade para fazer o litoral nascer no bailão. Assim, o suor que pinga não é só o do movimento da dança, mas também o da preguiça de deitar-se ao sol. O truque foi usar riffs e baladas ao piano como contrapeso dos beats eletrônicos - quase todos criados a partir de timbres acústicos. Mesmo quando uma possível mundanidade lírica surge, ela é modesta, se comparada, por exemplo, com a putaria de Caetano Veloso no experimental - e chato - e Cê: uma “buceta” que rimaria com o título da faixa “Teta” é deixada no ar pelo cantor, enquanto o refrão de “Recado” (”escuta amor/ O som do bate-estaca / No coração no meu coração empaca / Eu vou te fazer puta”) é apenas bonito - Wado segue fino, embora cutuque algumas feridas, como o rádio (”Reforma Agrária do Ar”) e a imprensa (o protesto de “Fita Bruta” me lembra o de “Look Inside America”, do Blur). E assim segue o disco: o groove latino lo-fi de “Faz-me Rir” contrapondo-se à a levada de baile de “Lucrécia” ao som de gaivotas que ecoam no horizonte, sob um mar com textura de teclado jovem guarda. Wado espreguiça-se, alheio ao fato do Brasil sequer conhecer um de seus principais compositores.
38) Wado - Terceiro Mundo Festivo
Wado - “Reforma Agrária do Ar“
Marcos Espíndola em 16 de dezembro, 2008 às
12:45 pm
Fantástico… Wado é incrível Não por menos, o melhor artista catarinense é alagoano!!!!
Geo Euzebio em 16 de dezembro, 2008 às
6:04 pm
haha, e o melhor produtor musical alagoano é meu cunhado ;P
Denis em 31 de dezembro, 2008 às
4:38 pm
Um ótimo disco, sem dúvida! “Teta” é quase uma canção psicanalitica sobre o processo de amamentação!
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