4 de fevereiro de 2009 às 14h19
2009: O ano da volta do Legião Urbana?
Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Embora muita gente entorte a cara, uma das principais bandas da história do pop brasileiro pode estar às vésperas de renascer para toda uma nova geração. Com o anúncio ano passado que a EMI finalmente vai disponibilizar online o catálogo do Legião Urbana, aos poucos começa uma espécie de Anthology brasileiro, idealizado por Renato Russo desde antes de sua banda existir, que em seus últimos anos de vida idealizava uma caixa com todo o material não-oficial do grupo lançada com o título de Material.
Mas o Legião continua firme e forte, rendendo não apenas dinheiro para sua gravadora e detentores de direitos autorais como reverberando no imaginário coletivo sempre de alguma forma – seja numa regravação, numa peça, num programa de TV. A presença de Renato Russo no imaginário coletivo brasileiro é uma constante maior do que ídolos mais incensados – como Cazuza, Raul Seixas ou os Mutantes – mesmo que não haja o oba-oba característicos dos fãs destes grupos.
Veja por exemplo, um festival realizado em Montevidéu no Uruguai que foi responsável, pela primeira vez depois do fim da banda, por reunir Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá de novo num palco – e para tocar Legião Urbana. Organizado no final de 2008 por bandas fãs uruguaias do grupo de Brasília, o evento teve um público de 2 mil pessoas que teve a oportunidade de assistir, entre outras atrações, ao Dado desafinando no vocal de “Índios”.
O Bruno do Sobremúsica entrevistou o Dado sobre o show no Uruguai:
Assisti da platéia, quente e lotada o Sebastián (vocalista da banda Vela Puerca) cantar “Se fiquei esperando meu amor passar”. Chorei! Muito emocionante, nunca mais tinha ouvido essa música ao vivo… E assim foi até a décima-primeira música quando eles nos chamaram ao palco e o La Trastienda (casa de shows) foi abaixo. Cantei “Índios” acompanhado do pessoal do Bajofondo, Juan, Luciano , Gabriel e Bonfá na bateria… Foi incrível. Na sequência Bonfá cantou “Pais e filhos” e mais uma vez a casa caiu… E assim se deu até o fim, momentos de grande emoção e comoção generalizada, todos acabaram em êxtase numa grande confraternização sulamericana. O melhor é que está tudo filmado. Lavamos a égua…
Isso no Uruguai. Por aqui, mal se fala num grupo que é a única banda pop brasileira que chega aos pés de Chico, Caetano ou Gil no critério quantidade de hits no inconsciente coletivo nacional. Nenhum outro grupo de rock brasileiro teve uma trajetória tão particular e uma aceitação tão instantânea – e massiva – de seu trabalho. Mais do que “porta-voz de sua geração”, Russo teve um papel crucial na história da música pop brasileira, quando ensinou a várias safras diferentes de ouvintes que era possível compor letra de música que não tivesse necessariamente cara de letra de música. Boa parte dos hits do Legião tem letras que parecem ter saído de conversas, de bate-papos, em vez de terem sido propriamente compostas.
E, bem ou mal, Renato Russo foi o arquetípico indie brasileiro. O moleque que não gosta de samba nem de praia, que fica ouvindo suas bandas desconhecidas no quarto, vivendo fantasias rock’n'roll. Renato imitava Morrissey e Ian Curtis quando se apresentava, líderes de duas bandas essencialmente indies, além de ter posado para a foto interna de um disco (V) com a camiseta do Jesus & Mary Chain. Nunca gravou cover, fez apenas citações de músicas alheias no meio de suas músicas. Quando fez concessões à música estrangeira, saiu em carreira solo, foi atrás de um tema para reunir grandes compositores americanos e outro para juntar breguices italianas. “Feche a porta do seu quarto porque se toca o telefone pode ser alguém com quem você quer falar por horas e horas e horas” é uma letra que fala de um comportamento típico do nerd atual – e isso antes da internet ou celulares existirem.
O indie, como tribo, é o nerd do rock (e não necessariamente só do rock inglês pós-86, mas de toda história do rock) – o cara que sabe a ordem das faixas de qualquer disco (pode ser dos Beatles, do My Bloody Valentine, do Engenheiros do Hawaii ou dos Ramones) equivale sua nerdice com gente disposta a aprender a falar orc ou klingon. A sutil diferença entre o indie e o nerd clássico é que os ídolos do primeiro aspiram por algo que os ídolos do segundo ignoram: estilo. Se bem que tem gente que acha que os uniformes dos Beatles (seja na Beatlemania ou no Sgt. Pepper’s) eram mais brega do que os de Jornada nas Estrelas (tudo bem – mas as únicas pessoas que eu vi fantasiadas de Beatles na vida eram bandas cover).
O Legião Urbana podem ser uma peça que está faltando no cenário pop brasileiro atual, que una tanto a geração dos festivais independentes com a cadavérica safra insistente das bandas de rock dos anos 80, aos grupos dos anos 90 que estão cada vez mais perdidos, aos indies ortodoxos que só ouvem bandas em inglês e aos emos cujas bandas podem aprender que compor em português permitem rimas que não são apenas verbos no infinitivo. O fato de Russo ter morrido pode ser crucial para não virar apenas mais um revival – substitui-lo por qualquer vocalista para uma volta do Legião me parece ainda mais risível do que colocar alguém para cantar no lugar de Freddie Mercury e chamar a banda de Queen – e fazer com que o cenário pop brasileiro finalmente se enxergue como um só.
26 Comentários



Profissão: autobiógrafo.


4 de fevereiro de 2009 às 14h38
Já, já aquele cara do Catedral assume o posto do vocal. Depois da volta do The Doors, vale tudo, né… E se a idéia for reviver a experiência de olhos fechados, ao menos a voz do cara é parecida.
Responder
4 de fevereiro de 2009 às 15h18
A Legião gravou covers no seu MTv Acústico, entre elas, Head On do JAMC.
Responder
4 de fevereiro de 2009 às 15h28
CONCORDO, ALEXANDRE. SEU ÚLTIMO PARÁGRAFO FINALIZOU MUITO BEM. A LEGIÃO É UM LIVRO LIDO E RELIDO MUITAS VEZES QUE NUNCA DEVERÁ SER REESCRITO. COMO FÃ, ACHO QUE OS REMANESCENTES DEVERIAM MONTAR UM NOVO PROJETO COM UM NOVO CONCEITO MUSICAL JUNTO COM OUTROS INSTRUMENTISTAS.
Responder
4 de fevereiro de 2009 às 17h09
Fala Matias!
Não duvido muito se eles resolvam se reunir com o Toni Platão nos vocais. O cara era fã da banda das antigas e além do mais canta paca, com estilo.
É claro que vai ser outro lance, pois a presença de Russo era forte demais para poder ser substituída, mas mesmo assim não deixa de ser interessante.
Poxa, o cara morreu há algum tempo e muita coisa mudou no mundo desde então. Os próprios projetos solos dos ex-integrantes eventualmente tangenciaram o legado do grupo, então nada mais natural do que juntar as peças restantes em um pacote só.
Vc sabe: a trajetória da banda é dividida facilmente em duas fases: a dos três primeiros discos é uma e depois a banda vira outro lance a partir do “As Quatro Estações”. Então fico mais tentado a imaginar o que poderia surgir dessa primeira fase.
Outro lance: essa não foi a primeira vez que Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá se reuniram após o fim da banda. No show de lançamento do primeiro disco solo do Bonfá, eles tocaram/cantaram juntos duas músicas. Se não me engano foi em 1999, lá no Rock In Rio Café. Foi praticamente uma reunião daquela formação ao vivo da última turnê da banda…
Agora, esse lance das sobras de catálogo vai ser bem bacana, pois tem umas coisas legais. Lembro daquela versão que eles gravaram nas antigas pra “Juízo Final”, do Nelson Cavaquinho, que é FODA, por exemplo.
Também é legal saber que as desavenças entre as partes chegaram a um ponto pacífico. Esse apanhado da trajetória deles já está sendo prometido há bastante tempo! DEMOROVSKI!
Por essas e outras, seria legal, pelo menos, um show ou um evento para marcar o lançamento desse material.abs
Responder
4 de fevereiro de 2009 às 18h38
Sempre gostei da banda, mas esse é um típico caso de que a superexposição pode destruir alguma coisa legal. E Matias, esse lance de decorar acho q é só vc mesmo… não conheço mtos q decoram ordem de faixas – aliás, não conheço ninguém hehe.
Responder
5 de fevereiro de 2009 às 6h12
Bom texto. Tirando a parte em que trata Renato Russo como “indie”. Renato Russo é uma coisa muiro longe de Indie ou nerd. Ele é popular.
Responder
Trackback por Linkblog Pensar Enlouquece, Pense Nisso.
5 de fevereiro de 2009 às 9h16
Leituras recomendadas…
2009: O ano da volta do Legião Urbana?, em Trabalho Sujo.
Inocência, em Ideias na Janela.
IPVA, correntes e o boicote à Petrobras, em Sitio do Sergio Leo.
Ortografia pró-ativa, em Idoso.
A coelhinha e o nerd, em Rexplora.
[Type perso…
5 de fevereiro de 2009 às 11h40
matias,
não é injusto dizer que “por aqui, mal se fala num grupo que é a única banda pop brasileira que chega aos pés de Chico, Caetano ou Gil no critério quantidade de hits no inconsciente coletivo nacional” ?
se isso não é falado, como deveria ser, pelo menos é vivido intensa e intimamente por cada um dos milhares de fãs da banda. a força da legião urbana é descomunal. vide as várias bandas covers que ela tem.
às vezes me vejo comparando o los hermanos com a legião, pelo teor sentimental das letras de ambos, e visto que desde os primórdios no garage (rj), camelo e cia faziam todos da platéia cantarem a plenos pulmões todas as letras de todas as músicas. eu nunca tinha visto aquilo acontecer com nenhuma banda vizinha e, indo mais longe, nem com a legião, pelo menos nos três shows deles que vi na minha vida. mas vejo a comoção em volta das duas como algo muito parecido.
tenho que reconhecer que ao mesmo tempo em que los hermanos é amado visceralmente, também é execrado com muita devoção enquanto não se nota isso quando o assunto é legião. bem, pelo menos nada que a minha sensibilidade tenha notado. não sou o dono da verdade.
e quanto à questão de “relançar” o legião, não vou ser radical em achar que isso é ridículo. eu é que não pago para ver.
mas veja bem, um show de rock é algo muito intenso. isso pode servir de mais outro canal para que as novas gerações conheçam a legião e o legado de renato russo, que nesse cenário atual com tantas músicas de mensagens pobres, será uma aquisição imensurável para os corações recém-chegados.
obrigado, matias, por revolver essas recordações tão valiosas com seu texto sempre afiado.
um grande abraço.
Responder
Pingback por Um bom texto sobre a Legião Urbana | Butuca Ligada
7 de fevereiro de 2009 às 22h37
[...] é um trecho do post 2009: o ano da volta do Legião Urbana, do blog Trabalho Sujo, do jornalista Alexandre Matias. Nunca havia lido uma síntese tão limpa, [...]
Pingback por Trabalho Sujo » Arquivo » Hoje só amanhã: a quinta semana de 2009 - OESQUEMA
8 de fevereiro de 2009 às 4h02
[...] A volta do Legião Urbana • • Gravações raras de João Gilberto ressurgem na internet: tanto as gravações que fez na [...]
8 de fevereiro de 2009 às 21h18
Sou obrigado a dizer q já sabia:
”
URGENTE!!!
Janeiro 29, 2009
O presidente Lula, acaba de sancionar por debaixo dos panos, uma medida provisória vergonhosa. A partir de hoje, Legião Urbana passa a ser cool. Pode colocar uma frase do Renato Russo no seu msn, convidar os amigos pra ouvir Faroeste Caboclo e mandar aquela foto do Marcelo Bonfá pra sua namoradinha indie. É preciso aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaamar!”
Responder
9 de fevereiro de 2009 às 11h52
Não existe Legião sem o Renato Russo. Assim como não existe Queen sem o Freddy Mercury ou The Doors sem o Jim Morrison. O que podem existir são tentativas saudosistas de reviver os sucessos do passado com os membros remanescentes. Acho válidas essas reuniões… mas são sempre temporárias e de certa forma são “covers” ou cópias do orginal. Valem a diversão e ajudam a matar a saudade. Como assistir um show de uma banda cover muito boa! Pra resumir: são espectros das bandas originais pois normalmente o que está faltando é o espírito da banda.
Responder
21 de setembro de 2009 às 23h50
dado vc nao tem e ninguem arrepia como a voz do mestre so toca voce foi um previlegiado de fazer parte desse monumento mundial que e a LEGIAO
Responder
21 de setembro de 2009 às 23h52
CUIDADO a LEGIAO e nossa nao a maltratemmmmmm
Responder
27 de setembro de 2009 às 2h47
Porra a música nacional esta um lixo ,graças a deus a legião urbana voltou pra ver se melhora o nivel nacional ,na moral tirando as bandas dos anos 80 e 90 de rock ,O Rappa,Gabriel O Pensador ,CPM22 estragou a carreira depois que cantou
com a Claudia,Detonautas ,Pitty ja foi melhor,Matanza ,Os Pedrero
Funk não e música , sertanejo e chato, pagode uma porcaria tirando o zeca pagodinho,
MPB significa música precaria brasileira
Responder
21 de outubro de 2009 às 20h55
Não vem com essa de comparar Los Herchatos com Legião, fala sério cara!
Eu tenho banda e faço shows pelo Brasil inteiro, toco rock nacional e internacional, e a única banda que a galera pede em côro é Legião! Esses babacas do Los Herchatos vão ter que reencarnar mais uns dez mil anos para chegar aos pés desta que é e sempre será a maior banda de Rock do Planeta Terra!
Responder
21 de outubro de 2009 às 21h28
Fan is fuck…
“Toca Raul” eh maior do q “Toca Legiao”, facil.
Responder
31 de outubro de 2009 às 0h54
A Legião Urbana e bem melhor que caetano veloso e Chico Buarque ,como esse imbecil compara a legião com esses dois idiotas , legião tem que voltar mesmo niguem merece esses emocore de hoje em dia a juventude de hoje e muito facil manipulada ja esqueceram da ideologia do rock !!!!!!!!!!!
Nx Zero ,fresno ,drive ,cine que porcaria de música só fala de relacionamento isso e música pra playboy e patty.
Legião Urbana com Renato ou sem Renato ainda sou fã de vocês
Responder
31 de outubro de 2009 às 10h48
Eu me sinto uma espécie de Mãe Dinah da nova geração sempre que vcs upam esse post nos comments aqui do Sujo… LOUCURE!
Responder
13 de novembro de 2009 às 13h04
Everaldo, só corrigindo:
A Legião não é nossa:
NÓS SOMOS A LEGIÃO!
É fácil – e gostoso – recordar os tempos do Renato.
Mas há alguém que componha algo infimamente comparável às canções do Renato Russo? Com todo o sentimento, com toda a crítica política, com a amargura e a esperança?
Responder
26 de dezembro de 2009 às 18h59
EU NÃO TIVE O PRIVILEGIO D IR A 1 SHOW DA LEGIÃO, SO CONSEGUI IR NUM SHOW Q O DADO FEZ AQUI EM JUIZ DE FORA FOI MUITO BOM, AGORA VER OS 2 NO MESMO PALCO SERIA DMAIS.
Responder
4 de janeiro de 2010 às 18h30
Seria maravilhoso a volta da Legião, estamos precisando, o Brasil precisa, mas infelizmente esse sonho ñ pode se tornar real. Nosso líder ñ está mais entre nòs, pelos em corpo, ñ dá para imaginar Legião Urbana sem Renato Russo, ele ainda vive em suas canções e nossos corações. Força sempre!
Responder
13 de julho de 2010 às 20h43
Queremos legiao de voltaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…\o/\o/\o/
Responder
Pingback por A volta de “Eduardo e Mônica” - Trabalho Sujo - OESQUEMA
8 de junho de 2011 às 10h38
[...] bem feitinho, corre o risco de bombar e fazer a música voltar a ser tocada de novo no rádio (e talvez apresentar uma geração inteira à obra do Legião Urbana?). E fica a pergunta: quem vai ser o primeiro artista a regravar Legião depois dessa? Por que isso [...]
Pingback por A (Re)Volta de Eduardo e Mônica | Nuts
8 de junho de 2011 às 12h32
[...] Esses são seres capazes de ressucitar uma música das antigas, de uma banda das antigas. Não, mentira. Quem ressucitou a canção foi a publicidade. Agora já era, corre o risco de bombar e fazer a música voltar a ser tocada de novo no rádio (e talvez apresentar uma geração inteira à obra do Legião Urbana?). [...]
16 de julho de 2011 às 17h06
Depois de todos esses comentários, eu agora vou ouvir minha caixa especial do Legião Urbana, vou escolher musicas simplesmente maravilhosas e eternas no consciênte coletivo…
Responder