5 de fevereiro de 2009 às 14h25
A fita demo de João Gilberto
Lembram do Volume 3 do Tim Maia Racional, que apareceu do nada no ano passado? Mais um disco não-disco ressurge do baú da história graças à tal “pirataria” com aspas – e esse deixa o terceiro Tim Maia Racional minúsculo, de tão desimportante. Estou falando do disco Registros na Casa de Chico Pereira em 1958, que traz nada menos do que gravações de João Gilberto antes de ele ter gravado o compacto de Chega de Saudade – e talvez antes mesmo de participar do disco Canção do Amor Demais, considerado marco zero da bossa nova por reunir João, Tom Jobim e letras de Vinícius juntos pela primeira vez em disco. Registros foi pinçado pelo excelente Toque Musical que só por disponibilizar essa jóia já merecia ter um patrocinador que bancasse as pesquisas do autor do saite.
Esses registros – porque nunca foram um disco, como a capinha da fita magnética na capa entrega – não são apenas uma raridade. Eles trazem uma mistura de raio X na obra que inaugurou a música brasileira moderna (os três primeiros discos de João) com bastidores do nascimento da carreira do principal músico do século 20 – é algo como se encontrassem uma fita com o Lennon num camarote do Cavern Club tocando, ao violão, “Strawberry Fields Forever”.
Mas ao contrário do complexo de épico típico inglês, os rascunhos de um dos principais legados brasileiros ao planeta são músicas tocadas com zero pompa e com aquele calor informal que logo seria esfregado na cara do mundo como uma qualidade essencialmente brasileira. Não é um show, é um sarau na casa de um amigo – Chico Pereira era fotógrafo das capas dos discos da Elenco e além das canções em si – você pode o ouvi-lo comentando entre as faixas, às vezes acompanhando-o batucando em algum lugar. O clima é quase sempre informal: ouve-se um cachorro ao fundo de umas músicas, outras são atravessadas por risos e som de copos batendo na mesa. O som, mal gravado mas nítido o suficiente para ouvir o violão mágico como se estivesse a poucos centímetros de distância também não prejudica a voz, criando uma espécie de granulação ou sépia sonora que dão às músicas o aspecto que elas têm, o de peças de museu, itens escavados entre as ruínas da história.
Quem passou a dica do disco foi o Ronaldo, que ainda transcreveu o trecho em que Ruy Castro comenta a estas gravações em Chega de Saudade.
Uma das pessoas que João conhecera com Roberto Menescal e Carlinhos Lyra fora o fotógrafo da Odeon, Chico Pereira. Pela quantidade de hobbies a que Chico dispensava total dediacação – som, jazz, aviação, pesca submarina -, era difícil imaginar como lhe sobrava tempo para fazer um único clique como fotógrafo. Mesmo assim, Pereira conseguia dar conta das fotos de todas as capas da Odeon. Menescal era seu companheiro de pesca e os dois eram também irmãos em Dave Brubeck. Quando João Gilberto cantou pela primeira vez em seu apartamento, na rua Fernando Mendes, levado por Menescal, Chico experimentou a mesma sensação que tivera ao conhecer o fundo do mar. Com a vantagem de que a voz e o violão de João Gilberto podiam ser capturados. Não perdeu tempo: assestou um microfone, alimentou seu gravador Grundig com um rolo virgem e deixou-o rodar. Foi a primeira das muitas fitas que gravaria com João Gilberto em sua casa.
Antes mesmo que o 78 de “Chega de Saudade” invadisse as rádios – antes mesmo de ter saído o disco, fitas domésticas de rolo, contendo a voz e o violão de João Gilberto já circulavam pela Zona Sul. Circulavam é força de expressão. Poucos possuíam gravadores naqueles tempos pré-cassete, o que limitava a audiência de uma fita aos amigos do dono do gravador. Uma dessas fitas tinha sido gravada pelo fotógrafo Chico Pereira, felizmente um homem cheio de amigos; outra, pelo cantor Luís Cláudio. Em quase todas João Gilberto cantava “Bim Bom”, “Hô-ba-la-lá”, “Aos pés da cruz”, “Chega de Saudade” e coisas que nunca gravaria em disco, como “Louco”, de Henrique de Almeida e Wilson Batista, e “Barquinho de Papel”, de Carlinhos Lyra.
Não é brincadeira: é a fita demo de João Gilberto!
Separei uma versão mais jazz (com backing vocals sugeridos) para “O Pato”, “Louco” de Wilson Batista, uma “Doralice” cantada entre risos, “Nos Braços de Isabel” (em que é possível ouvir Chico corrigindo as letras para João) e “Chão de Estrelas” (música-símbolo daquilo que a bossa nova não queria ser), ambas de Silvio Caldas, e duas das sete “Conversations”, faixas em que Chico conversa com João – em uma, ele diz que depois apaga as gravações (hehe) e na outra, eles conversam sobre o maior violonista da atualidade. Justo com quem…
O disco você baixa aqui.
João Gilberto – “Chão de Estrelas“
João Gilberto – “Conversando sobre ‘Chão de Estrelas‘”
João Gilberto – “Nos Braços de Isabel“
João Gilberto – “Doralice (Reprise)“
João Gilberto – “Louco“
João Gilberto – “Conversando sobre o maior violonista da atualidade“
João Gilberto – “O Pato“




Profissão: autobiógrafo.


5 de fevereiro de 2009 às 15h20
Sensacional.
Quanto ao patrocínio a pesquisa do autor do blogue que desencavou a pérola, nem vai custar tanto.
Qualquer 50 pratas já resolvem o problema do pesquisador não ter lido “Chega de saudade”. Hahaha!
Abs,
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Pingback por URBe » Arquivo » João - OESQUEMA
5 de fevereiro de 2009 às 16h02
[...] Finalmente apareceram as mitológicas gravações caseiras de João Gilberto, feitas em 1958, antes do lançamento de “Chega de Saudade”. O Matias conta a história completa. [...]
5 de fevereiro de 2009 às 17h30
tava procurando isso faz tempo, obrigado!
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Pingback por Trabalho Sujo » Arquivo » “Vivo esperando e procurando…” - OESQUEMA
6 de fevereiro de 2009 às 21h20
[...] conta mais novidades sobre a histórica gravação de João Gilberto na casa de Chico Pereira antes de lançar seu primeiro disco. Conversando com um repórter do Metrópolis que está fazendo uma matéria sobre o registro, ele [...]
Pingback por João e a reverberação - Trabalho Sujo - OESQUEMA
9 de fevereiro de 2009 às 19h27
[...] na capa da Folha, na TV Cultura, no Estadão, no blog do Nassif, no Piratebay… Enfim, os primeiros registros da história da bossa nova já estão rendendo assunto para a web e além – resta saber se alguém vai se dispor a lançar isso de uma forma decente ou se vamos só esperar o [...]
10 de fevereiro de 2009 às 0h54
A grande merda desta grande divulgação é que o toque-musical, um dos mais ousados blogs de música deste planeta, foi tirado do ar após disponibilizar estes registros que jamais chegariam ao público se não fosse por alguém que,
realmente se importa em divulgar coisas importantes.
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Pingback por SOBREMUSICA | Au Bon Gourmet, 1962
15 de fevereiro de 2009 às 12h54
[...] década de 50 e do show dele com Tom, Vinícius e Os Cariocas no Au Bon Gourmet, em 1962 desde que começaram a pipocar as notícias. Na verdade, sem muito para acrescentar ao que já foi dito por aí, mas só para registrar trechos [...]
15 de setembro de 2009 às 19h26
o link para baixar o cd não está funcionando. você poderia repostar?
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15 de setembro de 2009 às 22h53
Tem algum outro link pra baixar as gravações?
Grato.
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15 de setembro de 2009 às 22h59
Achei 1 torrent: http://sombarato.org/sites/default/files/Joao_Gilberto_-_Na_Casa_de_Chico_Pereira-BR-1958__www_sombarato_org_0.torrent
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9 de janeiro de 2010 às 21h43
Aos amantes de João Gilberto e também interessados em bootegs, não deixem de conferir o Toque Musical. A então famosa gravação do ‘Joãozinho’ está lá em duas versões e mais que completa.
http://toque-musicall.blogspot.com/2009/12/joao-gilberto-live-in-tokyo-2004.html
http://toque-musicall.blogspot.com/2009/03/joao-gilberto-aos-vivos.html
http://toque-musicall.blogspot.com/2009/02/joao-gilberto-registros-na-casa-de.html
Ah, ia me esquecendo… tem também uma outra raridade bacana: Gilberto Gil ao vivo na USP em 1973 (completo!) http://toque-musicall.blogspot.com/2009/12/gilberto-gil-ao-vivo-na-escola.html
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30 de maio de 2010 às 18h39
Como posso conseguir esta gravação?
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