6 de março de 2009 às 12h45
Quem assiste Watchmen?
Afinal de contas, é só um filme
Quem são esses caras? Não estou falando dos Watchmen, embora a pergunta seja cabível – e a resposta é não. Não existe um grupo de super-heróis chamado Watchmen. O termo só une os protagonistas quando somos mostrados às cenas do final dos anos 70, quando a população americana, revoltada com a polícia paramilitar que os super-heróis haviam se tornado, passa a questionar, na marra, os mascarados. E é em uma pergunta pichada nas paredes (“Quem vigia os vigilantes?”) que o nome da HQ aparece, nunca em primeiro plano, sempre com alguém passando em sua frente.
O título Watchmen, como a própria série original – guarda uma série de sentidos paralelos. Além dos “vigilantes” da pichação, o nome também faz referência ao grupo de heróis surgido nos anos 30 e 40, os Minutemen, ao mesmo tempo em que alude à infância do jovem Jon Osterman e seu posterior entendimento da realidade. Osterman, devido a um acidente nuclear, foi transformado em energia pura para, mais tarde, se recompor e renascer como o Dr. Manhattan, o único ser (humano?) com superpoderes de fato. Filho de um relojoeiro, ele aprendeu o ofício com o pai para, depois que se transformasse num cara azul feito de luz sólida, usasse o aparelho relógio em sua metáfora sobre o tempo e o espaço – cada engrenagem posicionada exatamente no lugar onde deveria estar para que o todo funcionasse. Esse relógio metafórico é nos mostrado como a homenagem de Moore à Fortaleza da Solidão do Super-Homem – isolado, Dr. Manhattan usa a areia do deserto marciano para criar um enorme fractal tridimensional de vidro em movimento, seu próprio relógio ficcional. Assim, Moore conecta os dois sentidos do termo “Watch” – relógio e vigia – e entende os super-heróis (ou, se tirarmos a metáfora, as pessoas que mandam no resto do mundo) como engrenagens necessárias para fazer o relógio da humanidade continuar funcionando. Junte isso e temos um dos temas da série, espelhado nas engrenagens mostradas no trailer e no relógio do fim do mundo – que no filme ganha importância extra desnecessária.
Mas eu me referia aos atores – quem são esses caras que estão nos papéis principais de Watchmen? O mais conhecido deles é Billy Crudup (quem?) que faz o filho no Peixe Grande do Burton e o guitarrista do Quase Famosos. Todos os outros são literais anônimos, sem carreira relevante em Hollywood: o Comediante é ator regular em Supernatural e Grey’s Anatomy, o papel mais memorável de Laurie é a loirinha casada com of freak no primeiro filme da dupla maconheira Harold & Kumar, o ator que faz Adrian Veidt veio do teatro, Rorschach era ator-mirim que teve a carreira revalorizada em Little Children e o segundo Coruja é o sujeito torturado por Ellen “Juno” Page em Menina.Má.com. Percebem um padrão de cultura pop de nicho nas conexões com o elenco? Acha pouco? Pois o primeiro Coruja é um namorado psicólogo da Elaine de Seinfeld, o ator que faz Dollar Bill é velho conhecido da saga Stargate e o ator que faz Moloch é ninguém menos que o mesmo sujeito que personificava Max Headroom. E para os fãs de Seinfeld há ainda uma pequena surpresa…
Isso sem contar o excesso de referências e reencenações históricas, que ao mesmo tempo em que conta a História com H maiúsculo (o assassinato de Kennedy, Fidel e a União Soviética, o Vietnã, o homem na Lua) consagra a cultura pop como a verdadeira cultura desses tempos – Lennon, Yoko, Rockwell, a disco music e, claro, Andy Warhol. Num mundo em que super-heróis fantasiados e coloridos são alçados ao patamar de arquétipos mitológicos (e esse mundo é o nosso, não o de Watchmen), é inevitável constatar que o rock’n'roll, a música pop e o cinema dos anos 70 sejam mais importantes para o final do século 20 do que todas as seis artes tradicionais juntas. O filme peca ao não incluir quadrinhos nessa homenagem – uma das poucos referências à nona arte é quando um dos personagens explica que ele não é “um vilão de histórias em quadrinhos”.
As referências históricas – e pop – continuam filtrando o filme por outro aspecto: Watchmen é uma festa anos 80, sem medo de ser feliz e chegar tarde no trabalho no dia seguinte. E tome amarelo-limão, rosa-choque e neons espalhados e espelhados pelos becos e poças no asfalto, fumaça que parece gelo seco, glow natural saindo das cores dos personagens e das explosões e uma trilha sonora que ousa reposicionar Tears for Fears como muzak em uma cena pra lá de ambígua. A trilha sonora é outro pequeno achado. Embora guiada pelas citações de Alan Moore (em certo sentido, ele é o discotecário do filme, mostrando que a força do DJ também é narrativa), a escolha das músicas consegue casar cenas fortes e canções manjadas criando painéis audiovisuais que são os grandes trunfos cinematográficos de Watchmen. Dylan e Hendrix soam majestáticos, grandiosos, enquanto Nena, Nat King Cole e Simon & Garfunkel transcendem seus próprios clichês e se relêem de forma quase cínica, como o quadrinho original. O único ponto fraco é a música que encerra o filme, uma versão sem graça do My Chemical Romance pra “Desolation Row”, do Dylan. Deixa aparecerem as versões reeditadas pelos fãs que alguém coloca a música original no lugar – com a maior duração possível.
A ação, que é mínima no quadrinho, foi ampliada para dar dinâmica e fôlego ao filme, que se arrasta demais em sua primeira parte para correr demais na segunda – dá pra ver exatamente em que ponto o diretor abriu mão para desengordurar a meia hora de filme pro lançamento comercial. E as atuações – fora uma – não chegam a comprometer. Matthew Goode se esforça, se esforça, mas é um Veidt pífio, sem densidade, sem o drama necessário para o papel e sem a panca de Lex Luthor (ops) civilizado que o original tinha. O Ozymandias do filme é quase um ex-integrante de boy band que foi pro mundo dos negócios, o equivalente pop branco do Jay Z. Ele tira onda, mas não funciona.
Outros, passam: Malin Akerman é uma Laurie OK, Crudup não é o Manhattan perfeito mas segura o papel sem parecer ridículo (o que já é um pequeno trunfo, convenhamos), Carla Gugino está bem como ex-vedete e o mashup de Javier Barden com Robert Downey Jr. que faz o comediante parece uma caricatura do personagem original – o que não soa mal. Há um subtexto que indica até que ele seria o Elvis deste universo bizarro, ao recriar a famosa foto de Elvis com Nixon – outra caricatura em movimento, no filme.
Mas dois atores – que conduzem a história – salvam o filme. Jackie Earle Haley é um Rorschach de Método, o cara afundou no personagem e virou ele, com ou sem máscara. E Patrick Wilson faz o Bruce Wayne da vida real, cheio de rugas de preocupação e expressões de autopiedade, um cara fascinado pelo que lhe fez tornar-se um herói (pássaros, aviões, ciência) a ponto de frustrar o pai magnata. No fim, a opção por anônimos talvez tenha sido crucial para o filme, pro bem e pro mal.
E eu não terminei de falar do filme ainda…
7 Comentários




Profissão: autobiógrafo.


6 de março de 2009 às 15h10
E, ainda mais, “who watches the watchmen” é outra camada do rocambole de referências eruditas de Allan Moore, já que o original, “Quis custodiet ipsos custodes?” é de Juvenal, poeta romano, e uma das pilastras do argumento da República de Platão… a idéia “E quem toma conta de qm toma conta da gente?” Ou, mais foda ainda (especialmente falando em um lugar onde a polícia e governo não valem nada) “Quem nos proteje do nossos protetores?”… Loucura!
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6 de março de 2009 às 15h59
Salveí Matias
Tu já viu isso aqui?
Puta idéia bem executada pelo Kutiman.
abração de Floripa
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6 de março de 2009 às 21h39
Da Laurie eu não gostei também não. Sensualidade de Sexta Sexy, como disse um amigo meu. Biquinhos em momentos inapropriados. E aquela cena de sexo com o Coruja, na Archie, valha-me…
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8 de março de 2009 às 3h00
Olha… Não gostei não viu. Tanto referencial fica obscurecido. Garanto que muitos não se apercebem da assencia de tudo aquilo, depois de ser violentamente estuprado por imagens desnesseçarias.
Minha tendencia, é ralmente concordar com o velho Moore
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10 de março de 2009 às 17h48
[...] que importa? É o amálgama de referências audivisuais da cultura americana dos últimos 60 anos (leia mais sobre isso no Sujo). É também a excelente trama conspiratória que questiona o papel dos super heróis no [...]
10 de março de 2009 às 19h48
melhor que cavelheiro das trevas.
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14 de setembro de 2010 às 10h44
Gostei muito da forma como você trabalhou as amplas referências da história no texto.
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